Posts Tagged ‘terror’

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A Invasora

21/01/2013

A gravidade da gravidez já foi explorada no cinema de diversas formas, mas foi no gênero do terror que essa fase da vida humana ganhou seu enfoque mais doloroso e traumático. Clássicos como O Bebê de Rosemary certamente causaram muitos pesadelos (especialmente a gestantes) com o passar do tempo e por isso garantiram ao tema uma espécie de status de medo.

Mesmo sendo homem (ou talvez justamente por isso), sempre encarei a gravidez com olhos tensos. Nunca me pareceu agradável a ideia de ficar nove meses carregando dentro de si um novo ser que não para de crescer, inflando a barriga da mãe até o tamanho de uma bola de futebol. Com o mais assustador sendo, claro, a etapa seguinte. A dita bolsa estoura. Começa a escorrer sangue de dentro de ti. E a criança precisa sair. Já perdi a conta de quantas cenas de parto eu já vi no cinema ou mesmo na televisão, com a mãe berrando sem parar enquanto o bebê tenta encontrar finalmente o mundo exterior. É verdade que nunca assisti a um parto de verdade, mas pelo que me contam, a maioria das representações cênicas não está longe da experiência real. Se perder a virgindade é supostamente doloroso, parir deve ser absurdamente pior.

É nesse detalhe que o filme A Invasora (À L’interieur, França, 2007) aposta quase todas as suas forças, e se sobressai quase admiravelmente bem no processo.

Invasora, A - cartaz

Na trama bastante simples, Sarah (Alysson Paradis) é uma moça grávida quase em trabalho de parto que, certa noite, recebe a visita de uma mulher (Béatrice Dalle) que exige entrar em sua casa. Sarah não abre a porta e chama a polícia, mas não demora muito para que a desconhecida consiga entrar por conta própria, dando começo a um legítimo banho de sangue.

O começo do filme, embora já seja sangrento a sua maneira, tem pelo menos uma decupagem mais pausada e uma abordagem um tanto contemplativa, ganhando destaque a tensíssima cena em que enxergamos Sarah no primeiro plano e o vulto da mulher mais atrás, envolta em sombras, ganhando uma atmosfera quase sobrenatural. Aliás, o tom de terror sobrenatural é inclusive reforçado pelos diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury nessa primeira parte do filme, tanto na cena de pesadelo que precede o despertar de Sarah pela campainha, quanto quando a protagonista revela as fotos que tirou de tarde e encontra nelas algo que não tinha percebido antes. O gato preto e o cabalístico 666 enfocado como número da casa também ajudam nesse sentido.

No entanto, a transição do primeiro para o segundo ato causa um leve estranhamento no espectador, pois é aí que narrativa mostra a que veio de fato. Em um momento que tinha tudo para se mostrar mais um pesadelo, portanto um falso susto, acontece o inesperado. Uma personagem realmente desce a mão que segura uma tesoura na barriga da outra, que acorda gritando e então arremessa o abajur na cabeça da agressora e se tranca no banheiro. A partir de então, o longa se torna uma sequência tensa e sanguinolenta até seus segundos finais.

Como roteirista, Bustillo é esperto ao dar as dicas de que a casa de Sarah será visitada pelo menos mais duas vezes durante a noite, o que, considerando a crescente insanidade da antagonista, vai deixando o espectador com uma ansiedade (e temor) cada vez maior. Assim, ao mesmo tempo em que a chegada de determinados personagens à casa de Sarah se torna plausível (até previsível) e não forçada, o suspense aumenta exponencialmente nesse muito tempo. E a sangueira também.

A quantidade de sangue em A Invasora é absurda. Só não chega a ser cômico porque a direção de Bustillo e Maury é enfaticamente crua, e a atuação visceral de Alysson Paradis nunca deixa dúvidas de que nada daquilo é engraçado. A dor que Paradis expressa é sempre convincente. E ao mesmo tempo em que a atriz consegue mostrar a luta da personagem por sobreviver, também é competente em retratar a resignação da moça em certos instantes, quando a esperança desaparece da tela.

No outro lado, Béatrice Dalle compõe com talento uma vilã completamente alucinada, mas que enfraquece perto do final, quando nos é apresentada uma tola reviravolta que tira boa parte da força da narrativa e que tenta justificar as ações da antagonista, mas falha no processo. E acompanhado pela terrível trilha sonora, o filme parece se contaminar com a insanidade da personagem de Dalle a partir desse momento, e faz um terceiro personagem agir de forma além do incompreensível nesses minutos finais, apenas para jorrar mais alguns litros de sangue em cena.

Contando com a presença de um policial abobado (detalhe que parece obrigatório em filmes de terror) que não consegue nem botar as algemas sem fazer cagada e outro um pouco mais lúcido, mas que insiste na dispensável ideia de ligar o disjuntor da casa ou invés de simplesmente ir embora, A Invasora é um terror com suas falhas e absurdos eventuais, mas que consegue criar uma atmosfera de tensão forte o suficiente para desconsiderar esses erros no quadro geral do filme.

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Fantaspoa 2012 #1 – Nervo Craniano Zero

08/05/2012

Nervo Craniano Zero (Brasil, 2012) se esforça, às vezes, e, às vezes, oferece momentos bem divertidos.

Mas, como quase todo filme de terror (ainda que voltado para a comédia), sofre com o fraco desenvolvimento dos personagens, que ainda é atenuado pelo elenco desequilibrado. Com uma trama que se desenrola basicamente em torno de três personagens, esse é um problema que compromete praticamente o filme todo.

Entre os três, não deixa de ser curioso, porém, que a melhor atuação do longa seja justamente a de Uyara Torrente, que interpreta a personagem mais tola, enquanto que, de um lado Leandro Daniel Colombo pouco convence com os dramas morais de seu médico não-ortodoxo, e de outro Guenia Lemos se alterna entre momentos inspirados e patéticos – aqui Colombo e Lemos cometem o erro clássico de todo ator amador: pronunciar as falas do roteiro no lugar de expressá-las.

Agora, se a narrativa é mal estruturada e a história não tem um foco bem estabelecido, a trilha sonora, no entanto, é excelente e, sempre mantendo o ritmo da ação em cena, certamente merecia figurar em um filme melhor, assim como a impressionante maquiagem vista na última cena.

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Fantaspoa 2012

11/04/2012

O Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, nosso querido Fantaspoa, era estranho para mim até 2010. Acabei motivado a ir a algumas sessões daquela VI edição porque, depois de sair da minha aula de Filosofia da Arte, peguei um filme no Guion (foi A Jovem Rainha Vitória) e por ali eu encontrei a programação com todos os filmes do festival.

Eram muitos títulos estranhos, uns mais curiosos que os outros, e todos ilustrados com uma foto em preto-e-branco, papel jornal. As férias estavam recém começando, e eu toquei duas semanas seguidas no cinema, geralmente mais de um filme por dia. Apesar de eu ter visto muita coisa ruim, aquela empreitada valeu a pena.

Além do recorde massivo de muitas idas consecutivas ao cinema, aconteceu de eu pela primeira (e até agora única) vez assistir a um filme em pé. Eu e meu amigo e grande cinéfilo Gustavo encaramos os 90 minutos de A Centopeia Humana sem a opção de nos sentarmos – porque conforto é para fracos! A sessão estava estupidamente lotada. Até a escada lateral da sala estava abarrotada de gente no chão. Eu, o Gustavo e outro sujeito vimos o filme todo de pé, lá no fundo.

Mais importante que isso, porém, foi a chance de conhecer vários filmes diferentes, daquele tipo que jamais chegaria aos cinemas comerciais ou mesmo à televisão. A maioria desses filmes não me agradou muito, é verdade, mas valeu pela experiência, sem contar que foi somente ali que eu descobri Ink, uma produção independente dos EUA que imediatamente se tornou um dos meus filmes preferidos.

Em 2011, quando eu inocentemente pensava já estar familiarizado com o Fantaspoa, o festival aparece com um apoio financeiro muito maior, e enriquece sua organização de modo admirável. Não só criaram várias mostras paralelas com temáticas interessantes (destaque para os documentários fantásticos), como apareceram com uma seleção de filmes muito melhor que a da edição anterior.

Mais uma vez eu tentava cobrir o máximo de sessões possível, e só não me superei em relação a 2010 porque o frio e a gripe estavam contra mim.

Então, perto do encerramento do festival, recebo um e-mail dos organizadores me convidando para a cabine de imprensa do filme que seria exibido na última sessão do último dia do Fantaspoa 2011. Infelizmente, eu estava em Gramado, e respondi o e-mail avisando que não poderia comparecer.

Poucos dias atrás, no entanto, recebo o convite para o lançamento exclusivo para imprensa da VIII edição do Fantaspoa, que ocorreu hoje (10/04) pela manhã no CineBancários. Apesar de eu ter aula nas terças de manhã (e à tarde, e à noite), resolvi abrir mão da conversa sobre surrealismo e Luís Buñuel, e fui à première do Fantaspoa 2012.

Nós, críticos convidados, só descobrimos na hora qual filme assistiríamos: Kid-Thing, um drama com pitadas indie que se passa no interior dos EUA. A lógica por trás da exibição desse filme foi explicada antes da sessão e confirmada durante a mesma. Dessa vez, o Fantaspoa tem a intenção de, ao deixar um pouco de lado o foco no terror, alcançar um público ainda mais diferenciado. As edições anteriores já ofereciam ficções científicas, fantasias e mesmo alguns suspenses que nada tinham de sobrenatural, mas a verdade é que todos esses longas, em algum nível, não escapavam da categoria “cinema fantástico”. Contudo, agora, a VIII edição do maior festival do gênero da América latina pretende oferecer uma variedade de películas bem mais abrangente. Essa nova parcela da ampla gama de filmes celebrada pelo Fantaspoa se constitui principalmente de produções com enfoque às vezes puramente dramático, mas que, como Kid-Thing, se destacam por explorar temáticas pouco recorrentes no cinema contemporâneo.

Esse ano o Fantaspoa se antecipa em dois meses, e acontece de 4 a 20 de maio, e não mais em julho como em anos anteriores. Não fecha mais com as minhas férias, infelizmente, mas eu espero profundamente que essa mudança na data reflita de modo positivo no número de público do festival. Espero muitas sessões lotadas!

Particularmente, o Fantaspoa representa muito mais do que um competente festival de cinema: representa minha evolução e meu amadurecimento como cinéfilo e crítico.

Agradeço profundamente a João Pedro Fleck e a Nicolas Tonsho, criadores e organizadores do Fantaspoa, pelo reconhecimento do meu trabalho como crítico de cinema independente. Buscando apenas incentivar mais pessoas a irem ao cinema, passei os últimos dois anos divulgando o comentando o Fantaspoa por iniciativa própria. Hoje, sou convidado para as sessões exclusivas para imprensa. Obrigado.

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A Hora do Espanto (2011)

10/10/2011

Os anos 1980, aqueles que tive a infelicidade de não testemunhar por nascer no começo a década exatamente posterior, foram marcados no cinema hollywoodiano por duas coisas: dramas melodramáticos vencendo o Oscar de Melhor Filme (novidade?), e uma extensa leva de filmes de terror.

O A Hora do Espanto original (Fright Night, EUA, 1985) surgiu bem no meio dessa mania de Hollywood em semear franquias de terror tão badaladas como Halloween (era 79, mas, hei, quase 80), Sexta-Feira 13 (1980), Evil Dead (1981), A Hora do Pesadelo (1984), Hellraiser (1987), Chucky (1988)… Era 1985, e o roteirista Tom Holland (o mesmo que depois viria a ser o criador de Chucky) decidiu estrear na direção com um filme sobre vampiros, fazendo surgir A Hora do Espanto, que então virou cult entre os fãs do gênero, e que hoje é considerado um pequeno clássico do gênero. E no mesmo hoje, 26 anos depois, Holland contemplou sua criação sendo refilmada.

“Refilmada por quê?!”, perguntariam alguns revoltados. É simples. Os anos 2000, no geral, marcaram a refilmagem de quase todos os filmes de terror do mundo, além de outros sucessos específicos dos nos anos 1980 (como Conan, Footloose e Hairspray). Some a isso o fato de a figura do Vampiro tão erroneamente em voga hoje graças ao sucesso estrondoso daquele conto de fadas chamado Crepúsculo, e A Hora do Espanto aparece como um prato cheio para ser recolocado no forno.

Filmado em um 3D dispensável (só as faíscas dos vampiros queimando se fazem notar ultrapassando a quarta parede), esse novo A Hora do Espanto cumpre exatamente o que promete, oferecendo uma aventura despretensiosa e divertida, ainda que pouco criativa. Não sei em comparação com o filme de 85, mas o roteiro desse aqui, escrito por Marti Noxon, não explora muito a premissa do adolescente desacreditado que descobre ser vizinho de um vampiro que vem se alimentando de pessoas da região.

Primeiro confrontado pelas suspeitas do amigo nerd Ed (Christopher Mintz-Plasse), o protagonista Charley (Anton Yelchin) só passa a realmente acreditar na ameaça representada pelo seu novo vizinho, Jerry (Colin Farrell), depois que Ed desaparece. Preocupado com sua namorada Amy (Imogen Poots) e com sua mãe (Toni Collette), Charley busca ajuda com o astro de Las Vegas Peter Vincent (David Tennant), suposto entendido no assunto. Não tarda muito para Jerry perceber as descobertas de Charley e passar então a caçar ele e sua família.

A partir dessa trama, o principalmente problema do filme se dá na estrutura do roteiro que, incluindo vários encontros determinantes entre Charley e Jerry, faz o filme perder o ritmo na medida em que temos a sensação de que nada está se resolvendo. Ao mesmo tempo, o diretor Craig Gillespie falha ao não conseguir impor uma atmosfera de suspense que se mantenha presente. As cenas de embate são bem dirigidas e, sim, tensas – principalmente aquela de Charley invadindo a casa de Jerry e, depois, a da fuga de carro -, mas, no geral, no intervalo dessas cenas, o filme se torna monótono, perdendo, portanto, o ritmo.

E se não descremos na ameaça representada por Jerry durante esses períodos de tédio, é graças à performance excelente de Colin Farrell, que, parecendo se divertir como nunca, encarna o vampiro com uma arrogante e sedutora auto-confiança que nos faz ter certeza que ele conseguirá o que quer. O desejo que emana da expressão de Farrell quando está prestes a morder uma vítima é hipnotizante – e Gillespie é esperto ao captar esse breve momento de glamour apenas para quebrá-lo no segundo seguinte com o retrato cru da mordida.

Eis o grande acerto do diretor (e do filme como um todo): um retrato digno dos vampiros. O falatório incompreensível entre crepusculetes fez os grandes estúdios pensarem que eram os vampiros que estavam fazendo sucesso no lugar do romantismo meloso e machista da autora Stephenie Meyer. Então, por mero acaso, sim, os vampiros entraram na mídia de novo. Apareceram mais séries literárias com vampiros (ou simplesmente historias sobrenaturais diversas com o mesmo tom novelesco de Crepúsculo) por aí, como Fallen, House of Night, Hush hush, Wake: Despertar; criaram duas séries de TV sobre vampiros (True Blood e The Vampire Diaries – a primeira sendo adaptada de uma dessas séries de livros); e claro que o cinema logo seria repovoado pelo sugadores de sangue. Até agora, podemos contar, entre outros, os mais famosos Eu Sou a Lenda (vampiros que na real são zumbis, mas mesmo assim, 2007) e 30 Dias de Noite (2007), o despercebido Cirque Du Freak: O Aprendiz de Vampiro (2009), o já esquecido Matadores de Vampiras Lésbicas (2009), e os inéditos Amanhecer Violento (2010) e o excelente O Filho da Meia-Noite (2011). E entrando para o time desses últimos que retratam os vampiros como de fato são, assassinos sanguinários, A Hora do Espanto tem nesse ponto seu maior mérito.

Para isso contribui também a boa fotografia de Javier Aguirresarobe, que mergulha tudo em tons sombrios, sem contar a ótima trilha sonora de Ramin Djawadi que mescla melodias soturnas e descontraídas, criando aquele clima ideal para terror adolescente, e, claro, a maquiagem (digital e/ou tradicional) que cria a verdadeira face dos vampiros.

Uma pena que, como dito antes, o roteiro de Marti Noxon seja tão sem graça. Roteirista incansável de Angel e Buffy, ela deveria saber fazer um uso melhor da mitologia vampiresca. E é notável o furo do roteiro no momento em que Charley vai buscar ajuda com Peter Vincent. Spoiler: depois da tentativa frustrada de salvar sua vizinha, quando Charley testemunha a mesma se carbonizando ao sol após sair da casa de Jerry, ele vai até Peter Vincent perguntar como matar um vampiro. Ora pois, ele próprio acabara de matar um, não é mesmo? E a justificativa para o personagem de Vincent é, aliás, fraquíssima, praticamente só servindo para dar nome ao filme (o show de Vincent se chama A Hora do Espanto) e para David Tennant nos provocar algumas risadas – inspirado em Russell Brand, Tennant de fato está divertidíssimo. (E outro detalhe incompreensível na referida cena de resgate fracassado se refere ao tempo que Charley passa dentro da casa de Jerry nessa ocasião. Ele entra lá quando ainda é noite, não fica muito, e quando sai já é de manhã.)

 

Contanto com um elenco equilibrado, o filme é o tempo uma sucessão de momentos interessantes e momentos chatos. No final, A Hora do Espanto não oferece muito mais do que uma diversão esquecível. Não que se propusesse a muito mais que isso. Mas vale por recolocar o Vampiro de verdade no mapa.

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Pânico 4

18/04/2011

Os anos 90 só não foram uma tragédia para o gênero do terror porque um cara esperto chamado Wes Craven, tendo em mãos um roteiro excelente de outro cara esperto chamado Kevin Williamson, resolveu fazer um filme de terror fora do comum. Ao invés de simplesmente fazer outro filme de terror, Craven usou roteiro de Williamson e quebrou todas as convenções do gênero, em um misto de homenagem e sátira. Pânico deu tão certo que resultou em uma continuação direta no ano seguinte, e mais uma três anos depois dessa. Agora, pouco mais de uma década após o lançamento de Pânico 3, Craven e Williamson se juntam novamente para realizar Pânico 4 (Scream 4, EUA, 2011).

Passados 11 anos desde os acontecimentos do último filme, agora Sidney Prescott (Neve Campbell) volta a Woodsboro, imaginando que a fila de psicopatas querendo matá-la tenha finalmente acabado. Para superar o incessante trauma de revidar a tentativas de assassinato, Sidney lança um livro autobiográfico sob o título de Out of Darkness (“Saindo da Escuridão” ou “Saindo das Trevas” em tradução livre), o que simboliza uma clara ironia, uma vez que ela não saiu da sua situação ainda e está estrelando o quarto filme de sua franquia. E outro fator relevante referente ao livro, se dá no fato de que, tratando de tudo o que aconteceu nos outros filmes, é a fonte de inspiração do assassino de agora (ainda que isso aconteça indiretamente, pois não sabemos se o livro foi realmente lido por ele).

Agora, considerando a franquia Pânico: o primeiro filme tratava de metalinguagem stricto senso; o segundo falava de sequências; e, o terceiro, de trilogias. Assim, o que o roteiro de Williamson poderia fazer nesse quarto filme? A solução, relativamente esperta, foi explorar os conceitos de uma refilmagem.

Dessa vez, somos apresentados a uma prima de Sidney, Jill (Emma Roberts, sobrinha de Julia), que não existia antes – ao menos nunca tinha sido mencionada (e consciente de estar forçando a barra, o roteirista é esperto em colocar o diálogo: “Você é prima da Sidney?”, “Sim, mas ela nem me conhece”, logo no começo do filme). Fazendo jus ao gênero (terror), Jill é bonita e meiga e tem amigas gostosas, Kirby (Hayden Panettiere) e Olivia (Marielle Jaffe); há também a presença dos nerds, Charlie (Rory Culkin) e Robbie (Erik Knudsen); o ex-namorado impertinente (Nico Tortorella); os policiais estereotipados (Adam Brody e Anthony Anderson), que justamente brincam com a figura do policial em filmes de terror, desapontados com seus papeis de curta duração; e voltam também Courtney Cox como Gale Weathers e David Arquette como Dewey, que agora é xerife e conta com uma assistente por ele apaixonada (Marley Shelton). Portanto, a possibilidade de mortes é enorme, e realmente fica difícil prever quem será o próximo a morrer.

No entanto, tal fato não importa muito já que basicamente todos morrem, como era de se esperar. Relacionado a isso está um dos problemas do filme. Em uma das cenas de abertura (sim, são várias – mistura de inspiração e desespero, creio), uma personagem comenta que Jogos Mortais 4 é uma porcaria, porque não há profundidade dramática e porque todos os personagens são esquemáticos, sem chances de identificação com o espectador. Então, é justamente isso que acontece em Pânico 4 (será de alguma relevância ambos os filmes serem os quartos de suas franquias?). São tantos personagens que, não importa quem os interprete, não há jeito de nos importarmos quando seu tempo em tela acaba – exceto, claro, por Sidney, Gale e Dewey, uma vez que já conhecemos esses personagens, e já nutrimos alguma simpatia por eles.

Para compensar a falta de identificação com os personagens, porém, Kevin Williamson consegue criar algumas mortes surpreendentes. A começar por aquela que acontece na cena que conta com as pontas de Anna Paquin e Kristen Bell. Se o filme todo fosse assim, seria perfeito, mas não é. Outro momento inspirado se dá na revelação do primeiro assassino. Mas, certamente, a grande surpresa é a identidade do segundo assassino.

Claro, a surpresa é surpresa porque não tínhamos a menor ideia de que fosse acontecer. Todavia, seria muito mais interessante se Williamson tivesse polido melhor seu trabalho, colocando indícios sutis aqui e ali. Pois, analisando em retrocesso, o assassino-mor do filme surge incontestavelmente forçado. Suas motivações, então, nadam em um mar de clichê.

Para finalizar, infelizmente é preciso dizer que a direção de Wes Craven aparece pouco inspirada, com os esperados momentos de tensão absoluta presentes dos outros filmes da série basicamente inexistindo aqui. Além disso, a transição de umas cenas para outros é problemática, pulando espaços de tempo irregulares. Seu mérito resiste, enfim, em realizar as mortes de modo mais cru que antes (resgatando seu sadismo esquecido em A Hora do Pesadelo), e em criar um desfecho suficientemente tenso. Pena que essa tensão não estava presente no resto do filme

Obs: (spoiler) apesar do absurdo que é sua personagem, Emma Roberts ainda assim consegue convencer o espectador da sinceridade doentia de Jill, e tem uma atuação excelente no que diz respeito ao terceiro ato do filme, se sobressaindo em relação ao restante do elenco.

Obs 2: (spoiler) apesar do desfecho tenso e satisfatório, seria ainda melhor caso Sidney tivesse realmente morrido. Como fã da série, ver que a personagem querida sobrevive é reconfortante. Mas como apreciador do bom cinema, é um pouco frustrante (na verdade, a situação é paradoxal). Pânico 4 seria muito melhor, mais chocante, caso ela tivesse morrido. Porém, Kevin Williamson, tendo amor a seus personagens, encontrou um modo genial de evitar isso. Ele colocou a seguinte frase na boca de Sidney, antes de fazê-la matar sua prima assassina: “Don’t fuck with the original”, remetendo à regra mais importante das refilmagens.