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Carrie

20/12/2013

Saí de casa com a intenção de conferir o filme da lésbica gata de cabelo azul, mas o ônibus demorou demais, e tive que improvisar.

Carrie - cartaz

Acabei vendo Carrie: A Estranha (Carrie, EUA, 2013), e fiquei com vontade de comentar algumas coisas.

Primeiro já vou deixar claro que eu não gosto do filme de 1976 do Brian De Palma. Não entendo mesmo a babação de ovo em cima desse suposto “clássico” do terror, que de competente tem apenas as performances de Sissy Spacek e Piper Laurie.

Aviso também que li o livro, mas que não acho o livro grande coisa, e que, se eu comentar a “adaptação”, será apenas a título de curiosidade, pois acredito que um filme deva ser analisado como um filme que sabe caminhar sozinho, independente do material original (que seria o andador, dentro dessa metáfora – e vale lembrar que médicos não recomendam que a criança use um andador na hora de aprender a caminhar sozinha).

Por último, mas não menos importante, vou declarar de uma vez que eu gostei mais desse filme que do “original”. Esse Carrie versão Séc. XXI sofre de praticamente todos os mesmos problemas daquele primeiro, mas não é tão cafona, e tem uma cena clímax infinitamente melhor montada. Só por isso, já ganha minha simpatia.

Então, começando pelo começo, um começo que é bom para já evidenciar a demência da Mãe, Margaret White (Jennifer Moore), uma crente no pior e mais extremo sentido possível da palavra. E um começo que, porém, também já tenta escancarar os poderes telecinésicos da Filha, Carrie White (Chloë Grace Moretz), e força um pouco a barra nesse quesito, já denunciando um dos problemas que irão permanecer pelo filme todo: CGI de montão.

Depois, o meio. Assim como o roteirista Lawrence D. Cohen ratiou umas décadas atrás, ele rateia de novo (dessa vez junto com Roberto Aguirre-Sacasa): o segundo ato do filme passa muito rápido. O drama de Carrie é pouco desenvolvido. São poucas as situações do cotidiano sofrido da protagonista que são mostradas e, quando são, a diretora Kimberly Peirce pesa a mão na abordagem da coisa, deixando a sutileza a ver navios, com todo o elenco de apoio se encontrando obrigado a fazer caretas zombeteiras e risadinhas temperadas de bullying em quase toda cena, que a diretora faz questão de destacar nos enquadramentos, e tudo fica caricaturizado demais, perdendo força dramática – os corredores da escola acabam lembrando em vários momentos, sim, coisas como American Pie e outros besteiróis “high school” do gênero.

Essa é a grande falha de todas as adaptações do livro de estreia do Stephen King. Porque, no livro, recheando todas as peripécias e maldades adolescentes que Carrie precisa enfrentar, estão pedaços de livros dentro do livro comentando o derradeiro episódio do final da história. São vários pontos de vista diferentes, a maioria bem absurda e se contradizendo, e isso ajuda a passar uma impressão de incerteza e tensão sobre a narrativa que vamos acompanhando. Porém, se em literatura essa estratégia narrativa até que funciona em alguma medida, no cinema ela estaria fadada ao fracasso (exceto nas mãos de um cara muito criativo, quem sabe). Então, espertamente, o roteiro de Cohen e Aguirre-Sacasa deixou esse detalhe de lado. Mas falhou em não desenvolver melhor os acontecimentos que acontecem entre o primeiro e o segundo ato.

Carrie - mãe

Tanto que, embora Julianne Moore chegue a assustar o espectador apenas com o olhar, a dinâmica entre sua personagem e Carrie não consegue alcançar o drama necessário. Sim, a menina é trancada no closet e obrigada a rezar por perdão, mas é amparada pela mãe logo depois. No livro, a mãe de Carrie é muito pior. No filme de 1976, também. O terrorismo psicológico não aparece na medida certa, e isso é devido ao parco desenvolvimento que o roteiro faz do segundo ato. Ao invés de construir a relação de Carrie com a mãe de forma mais lenta e intensa, o que geraria um drama realmente forte em uma derradeira cena perto do final, os roteiristas preferem lançar uma que outra cena de Margaret White murmurando preces cristãs autodepreciativas enquanto briga verbalmente com a filha. E ao invés de construir uma relação mais intensa entre Carrie e os outros personagens, os roteiristas preferem focar em Carrie descobrindo seus poderes de telecinese (e mesmo assim o domínio dela sobre eles acontece rápido demais).

Ainda nessa etapa, a personagem Sue Snell (Gabriella Wilde), que tem um papel primordial no desenrolar da trama, é retratada com uma superficialidade tremenda, em nenhum momento demonstrando o pesado arrependimento da menina depois de participar da humilhação de Carrie no chuveiro. A atriz Gabriella Wilde também não ajuda, mais parecendo (visual e emocionalmente) uma Barbie que um ser humano (e até isso é injusto dizer, porque a Barbie de Toy Story 2 é muito expressiva) – péssima escolha de casting, por sinal, já que a Sue descrita por King não teria como ser mais diferente que a “loirosidade” nórdica de Wilde.

Por sorte, a detestável Chris Hargensen (Portia Doubleday) teve sua maldade e canalhice muito bem retratada no roteiro e na atuação de Portia Doubleday, que chega até a lembrar a diva Regina “Bitch” George vivida por Rachel McAdams em Meninas Malvadas. Doubleday consegue convencer muito bem como aquela menina popular que adoramos odiar. E se a Sue Snell de Gabriella Wilde surge expressiva como uma porta, pelo menos seu namorado Tommy Ross (Ansel Elgort) cativa pelo carisma do estreante Ansel Elgort, que consegue fazer de Tommy um personagem mais completo do que suas superficiais e breves falas no roteiro dariam a entender nas mãos de alguém menos esforçado.

Judy Greer está perfeita como a professora de educação física Srta. Desjardin, e mais uma vez reclamo da preguiça do roteiro em criar situações de interação entre ela e outros personagens. Pois, se em um momento a vemos consolando Carrie, que desaba em choro depois de acreditar ter sido motivo de mais uma piada, na cena seguinte já a vemos confrontando Tommy e Sue pela tentativa deles de levar Carrie ao baile (motivo que fazia Carrie chorar). Esse diálogo era essencial para estabelecer o tom do drama que estaria por vir, e o filme simplesmente passa atropelando por ele.

Carrie - banho

Chloë Grace Moretz mais uma vez prova que é uma das maiores descobertas recentes do cinema norte-americano, e esbanja seu talento precoce sem a menor dificuldade ao dar corpo e alma a uma personagem tão estigmatizada quanto Carrie White. Mesmo o fato de suas companheiras de elenco serem quase 10 anos mais velhas não tira a força de seu trabalho. Sim, o casting é uma merda por colocar uma guria de 16 anos envolta de um mar de piriguetes de 20 e poucos. A atuação da maioria delas está ok, bem de acordo com a mentalidade banal de adolescentes do último ano do colégio, mas é visualmente bizarro ver uma protagonista tão mais criança que suas colegas. Repito: o problema não é falta (ou excesso) de maturidade na atuação, e sim a disparidade visual entre as atrizes.

Nessa parte da equação entra outro problema, que a fofa Chloë Moretz se esforça ao máximo para superar: Chloë Grace Moretz é linda demais para ser Carrie White. Por mais bagunçado que seu cabelo fique, por mais caretas que sejam suas roupas, por mais reprimida que seja sua postura, por mais triste que seja seu olhar, Chloë Moretz é muito linda, querida, amável, e é complicadíssimo acreditar que ela sofreria bullying de suas colegas de aula apenas por ser “estranha” (notem como a tradução do título no Brasil reforça o preconceito que a história tenta denunciar, como se, só por Carrie ser supostamente estranha, estaria livre para ser tratada com crueldade).

 

Carrie - ensanguentada provocativamente

É ou não é uma gracinha?

Portanto, mesmo que as sequências entre Carrie e sua mãe sejam construídas às pressas (como quase tudo no roteiro, aliás), ali o drama funciona melhor, pois é possível de interpretar que pelo menos parte do ódio da mãe seja cativado pela inveja que sente da beleza da filha. Pena que essa interpretação seja apenas unilateral, pois não se aplica ao restante do filme (embora fosse muito interessante se o longa trabalhasse essa questão, invertendo as expectativas). Cabe destacar, apesar de tudo, que Chloë e Moore apresentam uma baita dinâmica de atuação, com a pequena jamais ficando intimidada com a experiência da grande.

Por fim, o fim. Vou retomar o que eu mencionei mais acima: CGI demais. Um dos grandes méritos do longa original (ainda que por falta de opção), era apostar em efeitos mecânicos, com estragos que pareciam mais reais, justamente por não serem computadorizados. Aqui, a diretora Kimberly Peirce abusa dos animadores gráficos, e lança jorros de sangue virtual para todos os lados, raramente acertando na intensidade: vale destacar positivamente o cara que é prensado na arquibancada e negativamente o balde de sangue que cai em cima de Carrie. Veja só, o momento mais importante do filme é zoado, e Peirce não se segura e repete o mesmo erro escroto de Palma, mostrando vários ângulos do estrago: a cena do sangue de porco se espalhando sobre Carrie é repetida umas quatro vezes. Essa insistência, no lugar de intensificar a tensão, a dilui, tirando a força dramática da peça maligna pregada pelo casal filho da puta Chris Hargensen e Billy Nolan (Alex Russell).

No entanto, felizmente, FELIZMENTE, Kimberly Peirce acerta em cheio na decupagem do massacre que Carrie inicia após sair do choque que sentiu ao se encontrar coberta em sangue de porco na frente de todo mundo. Kimberly Peirce, você ganha meus parabéns por isso! E não escute os haters viúvos do filme 1976! Tirando o CGI exagerado de alguns momentos (aquele para-brisa se espatifando, por quê?), você fez o certo, e mostrou a destruição com calma, atenção, evitando aquela bagaceríssima tela dividida que De Palma tinha usado, e passando longe dos efeitos sonoros vagabundos que embalavam de forma incrivelmente cafona o tenso olhar arregalado de Sissy Spacek.

 

Junto com o montador Lee Percy, Kimberly consegue compor uma cena formidável onde um bando de adolescentes entra em pânico e começa a correr apavorado, a maioria morrendo no processo (destaque para as gêmeas que são pisoteadas). E ainda que seja uma pena o salão bem decorado pela diretora de arte Carol Spier não ter sido melhor explorado pela fotografia de Steve Yedlin nos momentos do baile que precediam o clímax da história (como é que Chris e Billy conseguiram entrar e sair tão facilmente sem serem vistos?), é revigorante ver a pequena Carrie aplicando sua vingança, em um momento de êxtase do espectador que lembra o glorioso e emblemático final de Dogville. Sim, estou positivamente comparando o remake meia boca de Carrie a um filme do Lars Von Trier. E sim, eu sinceramente acredito que aquele bando de gente merecia morrer (nos dois filmes).

Toda a destruição que acontece nessa cena é sensacional, principalmente porque dá ver o que raios está acontecendo! Ao contrário do que ocorria no filme do De Palma, aqui acompanhamos a ação de modo compreensível, e saboreamos da vingança de Carrie junto com ela. E Chloë Moretz manda a ver. Coberta de sangue, ela se mostra devidamente puta com o mundo, e gesticula e mostra os dentes com toda a raiva acumulada por anos de maus tratos. E o mais legal é ver a pequena demonstrando o prazer sádico da personagem naquilo tudo (um prazer merecido), sem, no entanto, fazer Carrie soar uma psicopata que recém descobriu sua psicopatia. A satisfação ali vem acompanhada da libertação da raiva, da descoberta da liberdade tardia. Não dá pra julgar a Carrie.

Carrie evil

Após esse momento bala, que é o melhor momento do filme e que não deveria ser o melhor momento do filme, infelizmente, o filme encerra de forma insatisfatória – e não haveria de ser diferente. Já que todo o drama da narrativa até ali foi feito nas coxas, é óbvio que o final, que é para ser o momento mais intenso de tudo, o pico dramático, não funciona como deveria. Não vou revelar nenhuma informação relevante, não há necessidade de spoilers para criticar esse final. Ele não funciona porque o resto do filme não foi feito direito, e eras isso. Só pergunto uma coisa sobre a penúltima cena: de onde saiu tanta pedra?? É muita pedra e, de novo, muito CGI escorrendo pela tela.

Filme de terror não pode ter tanto CGI assim, caramba! Ainda mais um cuja trama tenha sua força central calcada no terror psicológico, e não no gore, e esse é outro motivo que faz esse novo Carrie não funcionar tão bem: dar mais atenção ao gore que aos elementos psicológicos. Além de apostar no gore, é um gore digital. Tudo errado. E aquela lápide… porra!

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Sombras da Noite

09/07/2012

Provavelmente todas as críticas de Sombras da Noite abrem o texto comentando sobre como Tim Burton tem sido desleixado com a parte dramática de seus últimos filmes, prestando mais atenção no visual pop-gótico que o fez famoso do que na história que está contando. Acontece que é impossível não bater de cara com esse fato. Desde A Noiva Cadáver, com a possível exceção de Sweeney Todd, aparentemente emperrado no piloto automático e comandando seus projetos sempre com a mesma falta de emoção, Tim Burton parece ter se esquecido do bom diretor que é (ou já foi), e Sombras na Noite, infelizmente, não foge a essa tendência – aliás, a reforça –, e se apresenta como mais uma pequena decepção, ainda que longe de ser um filme exatamente ruim.

O problema central desta adaptação de uma série televisiva dos anos 1960 se concentra na gratuidade do drama que move a trama. O roteiro de Seth Grahame-Smith, cara que ficou famoso por escrever Orgulho e Preconceito e Zumbis, abre a história com o protagonista narrando sobre seu passado. A atmosfera desse prólogo é sombria e de fato serve como um resumo eficiente sobre o que levou nosso protagonista a ficar trancado num caixão por quase 200 anos: ele, Barnabas Collins (Johnny Depp), não correspondeu ao amor de uma bruxa, Angelique Bouchard (Eva Green), que, enfurecida, amaldiçoou a ele e a sua família. Ok, foi isso que aconteceu. No entanto, como a relação entre Barnabas e Angelique nunca é desenvolvida nessa sequência inicial, apenas relatada, todo o drama que discorre pelo restante da narrativa nunca se mostra plenamente palpável. Sabemos da birra entre o vampiro e a bruxa, mas jamais sentimos alguma coisa em relação a isso.

Como a essência da história que está nos sendo contada pouco se sustenta, assistir aos desdobramentos da mesma acaba se revelando um exercício de mera curiosidade, já que temos pouco ou nenhum sentimento investido ali. De forma semelhante, dentre os problemas do roteiro, nunca fica claro como a família Collins volta a se reerguer simplesmente em função da volta de Barnabas. Com a exceção da cena que conta com a bem-vinda ponta de Christopher Lee, o roteiro pouco explora o que Barnabas faz para ajudar a reestruturar os negócios da família. Desde que acorda de seu sono de dois séculos, Barnabas insiste em dizer que fará os Collins imponentes como eram antes, e para o roteirista apenas isso parece o suficiente para convencer o público de que o personagem possui algum talento comercial.

Na mesma linha, o envolvimento de Barnabas com Victoria (Bella Heathcote) surge tão gratuitamente quanto a vingança de Angelique para cima dele. A personagem Victoria, aliás, é pouquíssimo explorada pelo filme. Depois de investidos bons minutos na sua introdução, o roteiro parece esquecê-la completamente depois da volta de Barnabas. E toda a questão de ela aparecer na família Collins para atender à vaga de tutora do jovem David (Gulliver McGrath) é aparentemente lançada para o espaço depois que ela de fato chega lá, uma vez que jamais vemos sequer uma cena da moça ensinando qualquer coisa ao menino, da mesma forma que a psiquiatra vivida por Helena Bonham-Carter nada faz para cumprir sua função de tratar a pobre criança.

Indo mais além, a ideia da personagem de Michelle Pfeiffer, Elizabeth, de esconder da família o fato de Barnabas ser um vampiro mostra-se tola e totalmente dispensável. Ao invés de tentar fazer gracinha tentando disfarçar Barnabas de um parente distante vindo da Inglaterra, imagino que seria muito mais interessante se sua real identidade fosse de imediato apresentada para toda a família. Além de poupar algumas cenas de humor fracassado, se poderia investir mais nas relações entre os personagens, tornando-os mais tridimensionais, e nos fazendo se importar mais com eles no terceiro ato, quando certa rebelião ocorre.

De todo modo, se Sombras da Noite não fracassa, é graças ao carisma do elenco. Mais do que em função do visual criativo composto pela combinação dos figurinos confeccionados por Colleen Atwood com os cenários criados por Rick Heinrichs e decorados por John Bush e que, captados pela fotografia sombria de Bruno Delbonnel, conseguem instaurar no filme uma bela aura de fantasia retro, o longa só se sustenta mesmo porque seus personagens são encarnados por atores que, com apoio da ótima maquiagem de Joel Harlow, não só se encaixam bem naquela atmosfera irreal e cartunesca, como, justamente por isso, a tornam mais plausível aos olhos do espectador.

Assim como no recente The Rum Diary, aqui Johnny Depp aparece mais contido do que o normal, mas, se na pele de jornalista bêbado essa introspecção se dava como consequência de uma busca por adequação, de estar procurando seu propósito, como vampiro recém-desperto o sentimento ocorre mais em função de uma dor reprimida, fruto da perda de um amor do passado e do testemunho da decadência de sua família. Bastante acostumado a personagens atípicos (Edward Mãos-de-Tesoura), fantasiosos (Willy Wonka), inadequados socialmente (Jack Sparrow), e sedentos por vingança (Sweeney Todd), Depp não tem a menor dificuldade em dar vida a um vampiro que é um pouco de tudo isso.

No extremo oposto, temos uma sádica Eva Green se divertindo absurdamente na pele da bruxa Angelique, uma personagem tão interessante que, em outro contexto, certamente mereceria um filme próprio. Com os cabelos tingidos de loiro, um olhar penetrante e o sorriso quase macabro, Eva Green surge perfeita como a antagonista da história, e mesmo que o roteiro, como já comentado, falhe em justificar o que move sua vingança, a atriz cativa nosso temor com facilidade, de forma que, com auxílio de eficientes (e discretos) efeitos visuais, sua gesticulação exagerada no terceiro ato acaba resultando em um dos melhores momentos do filme.

Entre esses dois pilares da trama, temos ainda uma Michelle Pfeiffer ótima como a entediada matriarca remanescente dos Collins, tentando colocar alguma ordem na família, mas já sem grandes expectativas; uma Chloë Moretz já grandinha e adoravelmente rabugenta como a adolescente revoltada da família; o pequeno e emotivo Gulliver McGrath, responsável pelo momento mais tocante da trama; e Jackie Earle Haley perfeitamente adequado como o mordomo bêbado. Todos representando muito bem os arquétipos que povoam a história e a tocam para frente – infelizmente o mesmo não pode ser dito de Bella Heathcote, que não só conta com o papel menos bem trabalhado pelo roteiro, como ainda o interpreta com grande falta de interesse.

Por fim, considerando que os personagens são pouco mais do que traços de caricaturas com a possível desculpa de que o próprio universo da trama de certa forma justifique essa tipificação superficial, o que por outro lado não explica o roteiro sem graça e a direção preguiçosa, mostra-se fácil de constatar que é somente por causa do dinamismo do elenco que Sombras da Noite sobrevive como um filme levemente agradável de se assistir numa noite chuvosa de sábado sem mais nada para fazer.

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A Invenção de Hugo Cabret

07/05/2012

Nas mãos de Martin Scorsese, a singela adaptação de um livro infanto-juvenil se transformou em uma fantástica declaração de amor ao Cinema.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um garoto que mora dentro dos corredores da estação de trem de Paris. Independente e sonhador, quando não está fazendo a discreta manutenção dos grandes relógios espalhados pelo local, ele foge do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen) enquanto tenta reunir as peças necessárias para desvendar o mistério envolvendo a última aquisição de seu pai: um autômato, uma marionete mecânica do tamanho de uma criança. Durante uma de suas investidas para consertar a engenhoca, Hugo é flagrado pelo dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley) que, irritado com os frequentes furtos por parte do menino, toma posse de seu caderno de anotações e o obriga a trabalhar para pagar pelos itens que roubou. Com o passar do tempo, Hugo se aproxima da afilhada do sujeito, Isabelle (Chloë Moretz), que, na expectativa de viver uma aventura, decide ajudar o rapaz a reaver seu caderno.

Filmado em um 3D absolutamente sensacional, A Invenção de Hugo Cabret é um espetáculo visual do início do fim, e a consolidação definitiva dessa técnica cinematográfica. Desde a primeira tomada, que consiste em um plano-sequência deliciosamente elegante que começa com uma panorâmica aérea da Paris de 1930 e termina em um close no rosto do protagonista, até o último frame do filme, Scorsese e o diretor de fotografia Robert Richardson criam passagens de uma beleza ímpar dentro de tudo o que já foi realizado em 3D no cinema.

Depois de ter sido convencido por James Cameron a filmar A Invenção de Hugo Cabret em 3D, Scorsese tratou então de fazer um filme integralmente idealizado para ser exibido em três dimensões. Ao contrário do que a vasta maioria dos cineastas tem feito, Scorsese parou e pensou em todos os aspectos do projeto de modo a explorar da melhor maneira possível as peculiaridades da nova tecnologia. O perfeccionismo do diretor responsável por obras-primas como Cassino e Os Infiltrados fica evidente a cada segundo de projeção, não sendo difícil imaginar que cada quadro de A Invenção de Hugo Cabret tenha sido cuidadosamente confeccionado visando o proveito máximo da captação (e posterior exibição) em 3D.

O fato curioso é que a filmagem em 3D do filme vai, a princípio, diretamente contra o caráter nostálgico da história. A Invenção de Hugo Cabret tem em sua essência uma celebração dos primeiros anos da História do Cinema e, dessa forma, acaba apresentando uma declaração de amor ao Cinema bastante similar àquela vista em O Artista, ainda que diametralmente oposta. Enquanto o francês Michel Hazanavicius tratou de homenagear a sétima arte voltando a seus primórdios ao fazer um filme mudo e em preto-e-branco, Scorsese seguiu outro caminho, e se viu utilizando a mais alta tecnologia disponível atualmente para retratar a eterna Magia do Cinema de modo inédito.

O Artista resgata o que o cinema foi um dia e deixa claro que esse mesmo cinema continua funcionando. Apesar das melhorias técnicas que hoje permitem novas linguagens cinematográficas, o cinema ainda é aquela mesma forma mágica e incomparável de se contar histórias. O Artista volta ao passado para evidenciar essa verdade. A Invenção de Hugo Cabret, pelo contrário, oferece uma janela para o futuro, saudando as novas formas de fazer cinema.

Adaptação do livro homônimo escrito por Brian Selznick, A Invenção de Hugo Cabret representa mais de 500 páginas que o roteirista John Logan teve de resumir em pouco mais de 2h de filme. A narrativa, no entanto, em momento algum parece prejudicada em função dessa inevitável compressão de informações. Logan não só é habilidoso em apresentar o cotidiano dos personagens logo nas primeiras cenas, como constrói um diálogo inicial que explica fatos já ocorridos sem soar expositivo demais, além de incluir os flashbacks que ocorrem ao protagonista no momento certo, evitando que se alonguem mais do que deveriam. E ainda que a narração do personagem de Ben Kingsley no terceiro ato do filme possa soar mais longa que o ideal, a mesma se mostra apaixonada o suficiente para justificar sua extensão.

Embora John Logan já tenha se deparado com material destinado a crianças antes (entre outros projetos, ele também é o roteirista do recente Rango), é interessante constatar que A Invenção de Hugo Cabret se trata da primeira incursão de Martin Scorsese em um universo claramente voltado para o público infantil. Mesmo estando acostumado com narrativas pesadas em meio a filmes geralmente violentos, Scorsese afirmou que faria da jornada do pequeno Hugo uma aventura que sua filha de 13 anos gostaria de assistir. O resultado fala por si. Arrisco a dizer inclusive que o filme é acessível até mesmo para crianças mais novas. E o mais incrível é que a trama de A Invenção de Hugo Cabret é simples o suficiente para prender a atenção do público mais novo, ao mesmo tempo em que é interessante o bastante para entreter o público adulto.

Essa força do filme em cativar o espectador, no entanto, não seria a mesma sem o carisma do ótimo elenco. A começar pela tocante performance central de Asa Butterfield, que demonstra uma incrível confiança já em seu primeiro grande papel, pouco se importando em dividir a cena com veteranos do porte de Ben Kingsley e Christopher Lee. Com um olhar ingênuo e obstinado, Butterfield não demora a conquistar o público, e logo todos nós estamos curiosos para saber até onde vai a jornada do nosso pequeno herói. Da mesma forma, sua companheira Chloë Moretz, já acostumada a interpretar personagens tão diferentes quanto uma heroína sanguinária (em Kick-Ass) e uma vampirinha depressiva (em Deixe-me Entrar), não encontra dificuldades em viver Isabelle com uma vivacidade contagiante.

Os dois atores-mirins sem dúvida são o centro da narrativa, mas é fato que o elenco adulto se encontra igualmente competente, principalmente considerando o trabalho do já citado Ben Kingsley, que, para criar um retrato eficiente do velho inventor atormentado com os fantasmas do passado, encontra em breves nuances a oportunidade de aprofundar a tristeza de seu personagem – e se nos irritamos com seu Papa Georges durante a maior parte do filme, é inegável a enorme admiração que sentimos por ele ao final da projeção. Sacha Baron Cohen, por sua vez, é responsável pelos pontuais momentos de comédia da produção, e sua natural veia cômica lhe permite arrancar risadas do público sem grandes dificuldades – e a insegurança que apresenta sempre que contracenando com a florista Lisette (Emily Mortimer, querida como sempre) é o suficiente para evitar transformar seu atrapalhado Inspetor da Estação em algum vilão unidimensional. E ao mesmo tempo em que o eterno Christopher Lee faz o livreiro Labisse soar ameaçador no primeiro momento apenas para ganhar nossa afeição com o passar do tempo, é admirável que o fato do personagem de Jude Law ser visto em apenas um flashback não impeça o ator de cercar o pai de Hugo com carinho e dedicação cativantes.

Além de rechear a trama com recriações de cenas de obras clássicas das primeiras três décadas do cinema, da mesma forma que ilustra como funcionavam algumas pioneiras técnicas de filmagem da época, Scorsese ainda encontra tempo para discutir as questões relacionadas à preservação de películas antigas, martelando na importância dessa prática. Ao mesmo tempo em que constrói o mistério e o drama do filme com paciência e atenção aos detalhes, o roteiro de John Logan também encontra espaço para tornar orgânicas à narrativa todas essas obstinadas investidas de Scorsese na História do Cinema.

Contando ainda por cima com uma maravilhosa trilha sonora de Howard Shore, A Invenção de Hugo Cabret salienta que, por trás daquele Scorsese rígido e sisudo responsável por filmes com alto grau de cinismo como Os Bons Companheiros, existe um sujeito de alma doce pronto para nos agraciar com uma leve e deliciosa aventura fabulesca a qualquer momento.

Obs: uma questão crucial referente ao mistério do filme diz respeito à revelação da identidade do personagem interpretado por Ben Kingsley. O potencial dramático da história seria amplamente intensificado caso a cobertura publicitária em cima da produção tivesse o bom senso de não fazer essa revelação. (spoiler): ter consciência desde o início da projeção de que aquele mágico decadente se trata de Georges Méliès não é algo que necessariamente dilui a força do filme. Eu, por exemplo, fui ver A Invenção de Hugo Cabret sabendo que Méliès era um dos personagens da história. Não me parecia relevante saber disso. O que eu não sabia, no entanto, é que boa parte do mistério que move a narrativa se ancorava justamente na identidade desse personagem que, no começo, não se apresenta como tal. Então só posso imaginar o quão surpreso eu poderia ter ficado no meio do filme caso a participação de Méliès na trama me fosse revelada somente no momento certo.

A sorte é que nenhuma criança sequer já ouviu falar em Georges Méliès.