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Eu não quero voltar sozinho

13/04/2013

O belíssimo curta-metragem que foi censurado no Acre:

Por iniciar os créditos com o som da máquina de escrever em braile, que em seguida aparece sendo utilizada pelo protagonista, o filme já nos coloca sob o ponto de vista deste. A cena de abertura dentro da sala de aula serve para apresentar o espectador ao personagens principais da trama e ao contexto em que estão inseridos. É sintomático que a professora ali seja retratada como alguém que não possui a atitude moral necessária a sua posição. Quando alguém toca uma bola de papel no aluno novo enquanto ele se apresenta para a turma, a professora começa a repreender o ato, mas logo desiste assim que o sinal do colégio soa. Uma cena tristemente verossímil, que reforça o drama da história que irá se desenrolar. A amizade entre Leonardo, Gabriel e Giovana é desenvolvida de forma rápida e eficiente, graças à boa montagem, que intercala cenas variadas de convívio entre os três, e principalmente ao maravilhoso elenco, que cativa o espectador sem a menor dificuldade. Nisso entra também o mérito do diretor (e roteirista) Daniel Ribeiro, que conduz os jovens (e promissores) atores muito bem, trazendo descontração à encenação. A performance de Ghilherme Lobo, como Leonardo, então, é a cereja do bolo. Se ele não é cego, compôs um cego perfeitamente; e se é cego, soube usar sua expressão facial de modo admirável, abrindo um leve e lúdico sorriso em momentos chave da narrativa. É graças a ele que o filme funciona. E funciona muito bem! Com um drama humano, recorrente e relevante, “Eu não quero voltar sozinho” representa o que há de melhor na cinematografia de curtas no Brasil, construindo uma narrativa coerente, fluida e bela, e esculpindo felicidade no estado de espírito de quem assiste a obra.

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De Deborah Kerr à Kate Winslet, por que as mulheres continuam sendo inferiorizadas no cinema?

11/03/2013

Nessa madrugada eu vi Tarde Demais Para Esquecer. Um romance incrivelmente divertido e protagonizado por Cary Grant e Deborah Kerr, os dois esbanjando uma química de dar gosto e inveja.

Os dois se apaixonam mesmo já estando comprometidos, mas prometem se reencontrarem em seis meses. Só que (SPOILER a partir daqui), quando chega o momento, ELA sofre um acidente grave, e não consegue ir ao encontro DELE, que fica a espera da moça.

Tudo bem que no final eles ficam juntos e felizes, mas o que me chamou atenção foi o fato de que é a mulher que se ferra no processo. Por mais que o roteiro construa uma personagem forte, que encontra eco na performance consistente de Deborah Kerr, a narrativa não consegue fugir à decisão de fazer a mulher sofrer por desistir do casamento pré-agendado em favor de outro amor, genuíno.

E esse filme é de 1957. Ok, são umas seis décadas atrás. O machismo era muito mais comum na época. É compreensível que uma obra de arte dos anos 50 esteja impregnada por uma dose de machismo, ainda inconsciente.

Mas então eu lembro do recente Foi Apenas Um Sonho, de 2009, (SPOILER) em que tanto marido quanto esposa traem um ao outro, mas é a mulher, interpretada por Kate Winslet, que sofre um aborto espontâneo e acaba morrendo no final. UPDATE: o aborto é intencional e não espontâneo, mas ela sofre igual; mantenho meu argumento.

Aí eu me pergunto: até quando as mulheres (mesmo as ficcionais) vão ter que sofrer ou morrer por questões banais para que todos os homens percebam que elas não devem nada a nós e que não devem ser tratadas como inferiores?

O que me assusta e me deixa triste é que eu não sei a resposta. Mas acho que infelizmente ainda vai demorar.

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Vencedores do Oscar 2013

25/02/2013

YES! Argo venceu e esse foi o ano em que mais acertei vencedores desde que comecei a brincar de adivinho do Oscar. Foram 18 acertos entre 24 categorias, algumas cheias de incertezas.

MELHOR FILME

Argo (Ben Affleck, George Clooney, Grant Heslov)

Previsto corretamente. Haters gonna hate. Grant Heslov parece que não dorme há séculos, considerando suas olheiras. Muito legal ele ter citado Affleck como diretor do filme várias vezes. E Affleck estava visivelmente emocionado e sem saber o que falar ao agradecer o prêmio. George Clooney, simpático e sábio, dispensou o microfone, sabendo que a noite era de Affleck e não dele.

MELHOR DIREÇÃO

Ang Lee, por As Aventuras de Pi

Errei. Não deveria ser tão surpreendente. Imaginei que se Spielberg não levasse, Haneke ficaria com a graça, mas parece que a teoria de que ambos dividiriam votos abrindo caminho para Ang Lee de fato procedeu.

MELHOR ATOR

Daniel Day-Lewis, por Lincoln

Acertei. Ver Day-Lewis recebendo sua terceira estatueta pelas mãos de ninguém menos que Meryl Streep foi certamente o maior momento da noite.

MELHOR ATRIZ

Jennifer Lawrence, por O Lado Bom da Vida

Errei. Era a favorita e de fato entrega uma performance forte e imponente em O Lado Bom da Vida, mas eu preferia mil vezes o trabalho da veterana Emmanuelle Riva no devastador Amor. E como comentado no post anterior, me parecia que ela venceria. Lawrence tropeçando no próprio vestido ao subir as escadas do palco para receber o prêmio foi algo bastante desconcertante. Coitadinha. Ela realmente não esperava vencer.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christoph Waltz, por Django Livre

Acertei. Primeiro prêmio da noite. Começar acertando logo uma categoria tão imprevisível quanto essa me deixou bem empolgado, e a maioria das vitórias seguintes justificou minha empolgação. Resta saber se Waltz estava realmente super emocionado ou simplesmente tentando ser engraçado sem ter sido bem sucedido.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Anne Hathaway, por Os Miseráveis

Acertei. Anne Hathaway conseguiu fazer o pior discurso da noite, num momento mais vergonha alheia que o subsequente tropeço de Jennifer Lawrence. Aquele “It came true” foi cafonésimo. É incrível como a atriz que imitou Hathaway nesse vídeo paródia conseguiu captar a exata essência do que a dita cuja acabou de fato fazendo no seu discurso.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Chris Terrio, por Argo

Acertei. Quando anunciaram o vencedor, a subsequente vitória de Argo como melhor filme ficou ainda mais evidente.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Quentin Tarantino, por Django Livre

Errei. Não deveria, mas fiquei surpreso. Eu realmente tinha um feeling muito forte por Michael Haneke aqui. Tarantino ganhando foi legal, o discurso dele foi bacana.

MELHOR MONTAGEM

William Goldenberg…

Quem apresentou essa categoria demorou consideráveis segundos para citar o nome de Goldenberg e depois o filme pelo qual concorria. Fiquei tenso até escutar “Por Argo!” Acertei.

MELHOR FOTOGRAFIA

Claudio Miranda, por As Aventuras de Pi

Acertei. Até um dia antes de lançar minhas apostas, senti uma tendência de vitória para Roger Deakins, mas voltei atrás e voltei minha atenção para As Aventuras de Pi, que de fato tem uma fotografia linda – e muitas vezes esse adjetivo pesa mais na cabeça dos votantes. E Claudio Miranda é uma figura.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

Rick Carter, por Lincoln

Errei. Maior surpresa da noite. Ainda mais surpreendente do que aquilo que aconteceu na categoria de edição de som (e que explicarei quando chegarmos lá). Elogiei a direção de arte de Lincoln na minha crítica sobre o filme, mas justamente por ela ser discreta e não chamar atenção para si. É estranho que tenha ganhado, ainda mais concorrendo com filmes mais visualmente atraentes como Anna Karenina e O Hobbit.

MELHOR FIGURINO

Jacqueline Durran, por Anna Karenina

Acertei. Segue a lei universal de filmes de época ganhando aqui.

MELHOR MAQUIAGEM

Julie Dartnell e Lisa Westcott, por Os Miseráveis

Acertei. Fiquei feliz por amarelar na aposta em O Hobbit e trocar meu voto.

MELHOR TRILHA SONORA

Mychael Danna, por As Aventuras de Pi

Acertei. Vitória merecida para um dos melhores compositores menos conhecidos (até agora). Chamaram o elenco principal de Chicago para apresentar a categoria. Quando Richard Gere abriu o envelope e mostrou o conteúdo para Renée Zellweger, foi patético vê-la não conseguir ler o vencedor, de tanto botox que meteu na cara. Percebendo a gafe, Queen Latifa espiou o que estava escrito e deu aquele berro anunciando “Life of Pi, Mychael Danna!”

MELHOR CANÇÃO

“Skyfall”, de Adele e Pau Epworth para 007: Operação Skyfall

Acertei. Já estava na hora de um filme do 007 ganhar nessa categoria. Todo o brilho (e baita voz) de Adele ajudou isso a acontecer. A canção ser excelente também. E Adele fez o melhor discurso da noite.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Empate!

Quando Mark Wahlberg, acompanhado do urso TED, anunciou que havia acontecido um empate, todo o planeta jurou que era uma piada. Wahlberg contribuiu para isso ao não sair do personagem quando leu “It’s a tie”. Um dos melhores momentos da noite.

Venceram Paul N. J. Ottosson por A Hora Mais Escura, e a dupla Karen M. Baker e Per Hallberg responsável por 007: Operação Skyfall. Acertei por ter apostado em Skyfall, e fiquei ainda mais feliz por A Hora Mais Escura ter vencido também. Obs: Per Hallberg parece o Rick Wakeman.

MELHOR MIXAGEM

Andy Nelson, Mark Paterson e Simon Hayes por Os Miseráveis

Acertei. Nenhuma surpresa aqui. A mixagem de Os Miseráveis é realmente sensacional.

MELHOR EFEITOS VISUAIS

Bill Westenhofer, Donald Elliott, Erik De Boer e Guillaume Rocheron por As Aventuras de Pi

Acertei. Não sei qual deles foi, mas o cara monopolizou o microfone, não deixou nenhum colega falar, e a orquestra teve que abafar seu interminável discurso com acordes da trilha de Tubarão. A câmera depois focou o rosto de Nicole Kidman, que se mostrou #xatiada com a atitude do sujeito. UPDATE: Revi totalmente minha opinião sobre o discurso depois de ler esse texto aqui.

MELHOR ANIMAÇÃO

Valente, de Mark Andrews e Brenda Chapman

Errei. Às vezes a Pixar ganha porque é a Pixar. Tanto Frankenweenie, quanto ParaNorman e principalmente Detona Ralph eram superiores a Valente.

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

Amor

Acertei. Ver Michael Haneke vencendo e agradecendo com aquele carregado sotaque alemão foi uma das coisas mais lindas da noite. Não sei como um velhinho tão fofo pode fazer filmes tão destruidores.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Searching For Sugar Man

Acertei.

MELHOR CURTAMETRAGEM

Curfew

Acertei.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

Paperman

Troquei minha aposta no último minuto por Head Over Heels e me arrependo. Errei.

MELHOR CURTA DOCUMENTÁRIO

Inocente

Todo mundo dizia Open Heart, mas Inocente levou. Errei.

Relação dos vencedores:

4 – As Aventuras de Pi (direção, fotografia, trilha sonora, efeitos visuais)

3 – Argo (filme, roteiro adaptado, montagem) | Os Miseráveis (atriz coadjuvante, maquiagem, mixagem de som)

2 – 007: Operação Skyfall (canção, edição de som) | Django Livre (ator coadjuvante, roteiro original) | Lincoln (ator, direção de arte)

1 – Amor (filme estrangeiro) | Anna Karenina (figurino) | Curfew (curta) | A Hora Mais Escura (edição de som) | Inocente (curta documentário) | O Lado Bom da Vida (atriz) | Paperman (curta de animação) | Searching For Sugar Man (documentário) | Valente (animação)

Como eu havia previsto, o maior vencedor da noite ficou com não mais do que quatro vitórias, e o melhor filme ficou com três. É, em 2013 eu fui um bom oscarologista. Que venha 2014!

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Apostas para o Oscar 2013

22/02/2013

Depois de uma das campanhas pré-Oscar mais inconsistentes em muitos anos, com frequentes trocas de favoritos, finalmente chegamos aos últimos momentos que precedem a cerimônia mais badalada do cinema mundial. Não a mais importante ou artisticamente respeitável, mas com certeza a que recebe maior atenção da mídia e do mundo. E dessa vez, a alta imprevisibilidade quanto aos vencedores deixa a coisa muito mais interessante.

Vamos tentar deixar de lado a decisão tosca da Academia de continuar nessa de indicar entre 5 e 10 filmes. Vamos focar apenas nos indicados. Assim como no ano passado, dessa vez são 9 filmes.

MELHOR FILME

  • Amor
  • Argo
  • As Aventuras de Pi
  • Django Livre
  • A Hora Mais Escura
  • Indomável Sonhadora
  • O Lado Bom da Vida
  • Lincoln
  • Os Miseráveis

Vai vencer: Argo

Desde o começo das especulações sobre o futuro vencedor do Oscar, Argo estava no topo das apostas. Então Lincoln ganhou força. Depois As Aventuras de Pi. O Lado Bom da Vida e Indomável Sonhadora acompanhando todos o tempo todo, mas sempre como candidatos a indicação, nunca como prováveis vencedores. E em dezembro A Hora Mais Escura começou a ganhar os prêmios da crítica. Parecia que Kathryn Bigelow seria não apenas a primeira mulher a ganhar um Oscar de direção, mas também a segunda. (foi ela que ganhou com Guerra ao Terror). Mas aí começou toda aquela polêmica babaca de o filme supostamente defender o uso da tortura (uma ideia ridícula para qualquer pessoa que tenha visto o filme), e o favoritismo diminuiu. Então, os holofotes pareciam que estavam se voltando para Lincoln, a julgar pelas singelas 12 indicações do filme. Só que de repende Argo papou TODOS os prêmios relevantes pré-Oscar (PGA, DGA, WGA, SAG, BAFTA), com Ben Affleck inclusive sendo condecorado pelo sindicato dos diretores, mesmo nem tendo sido indicado a melhor diretor no Oscar. É esse detalhe que deixou tão interessante os metros finais da corrida do Oscar 2013. A última vez que um filme ganhou o Oscar sem ter sido sequer indicado a melhor direção foi em 1990, com Conduzindo Miss Daisy. Creio que Argo quebrará esse hiato de 23 anos.

Se Argo não levar, minha segundo aposta é Lincoln. Amor é a terceira.

Meu preferido é A Hora Mais Escura. Depois Argo. Depois Amor. Depois Django. Depois Pi. Depois O Lado Bom da Vida. Não vi Indomável Sonhadora, e realmente não quero que Lincoln ou Os Miseráveis ganhe.

MELHOR DIREÇÃO

  • Ang Lee, por As Aventuras de Pi
  • Benh Zeitlin, por Indomável Sonhadora
  • David O. Russell, por O Lado Bom da Vida
  • Michael Haneke, por Amor
  • Steven Spielberg, por Lincoln

Vai vencer: Steven Spielberg

Se Ben Affleck tivesse sido indicado, a vitória era dele. Como não foi, things are a mess, e acho que Spielberg leva a vantagem por seu filme contar com o maior número de indicações, e por ser Spielberg. Eu realmente gosto da ideia de Spielberg ganhar um terceiro Oscar. Mas não por Lincoln. Michael Haneke é um diretor brilhante que nunca havia sido indicado antes, e as 5 indicações de Amor mostrando que a Academia realmente gostou de seu filme. Considerando que o grande favorito da noite não compete nessa categoria, Haneke pode acabar levando o prêmio, o que seria uma das coisas mais lindas da história do universo conhecido pelo homem. E Ang Lee é um diretor cuja versatilidade impressiona sempre, e que certamente também mereceria vencer. Se os votos tomarem dois extremos, com Spielberg e Haneke, Lee é capaz de ganhar.

Meu preferido é Michael Haneke. Seguido de Ang Lee. Não sei quanto a Benh Zeitlin, e por mais que eu adore David O. Russell, acho que ainda não chegou a vez dele.

MELHOR ATOR

  • Bradley Cooper, por O Lado Bom da Vida
  • Daniel Day Lewis, por Lincoln
  • Denzel Washington, por O Voo
  • Hugh Jackman, por Os Miseráveis
  • Joaquin Phoenix, por O Mestre

Vai vencer: Daniel Day-Lewis

O cara não é um ator. O cara é uma força da natureza. Vai ganhar e se tornar o primeiro ator na História da Academia a ganhar um terceiro Oscar como protagonista. E por mais que eu considere a atuação de Joaquin Phoenix melhor, vou ficar mais do que feliz em ver Day-Lewis receber sua terceira estatueta.

MELHOR ATRIZ

  • Emmanuelle Riva, por Amor
  • Jennifer Lawrence, por O Lado Bom da Vida
  • Jessica Chastain, por A Hora Mais Escura
  • Naomi Watts, por O Impossível
  • Quvenzhané Wallis, por Indomável Sonhadora

Vai vencer: Emmanuelle Riva

Todos os ventos suspirados pelo Oscar Whisperer Harvey Weinstein parecem apontar para uma vitória de Jennifer Lawrence, MAS leiam os comentários do Pablo Villaça sobre essa categoria, pois concordo exatamente com o que ele diz. E mesmo não tendo visto Indomável Sonhadora, acho ridícula a indicação de Quvenzhané Wallis. Uma criança de 9 anos sendo indicada ao Oscar. Na boa, é uma ofensa ao trabalho de atrizes profissionais. Helen Mirren, Marion Cotillard ficando de fora pra dar vaga para uma “Hushpuppy”. De fato, um dia as crianças vão ler nos livros de História que uma Hushpuppy foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz.

Minha preferida é Emmanuelle Riva. Meu eu não ficaria chateado com a vitória de nenhuma das outras três indicadas.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

  • Alan Arkin, por Argo
  • Christoph Waltz, por Django Livre
  • Philip Seymour Hoffman, por O Mestre
  • Robert De Niro, por O Lado Bom da Vida
  • Tommy Lee Jones, por Lincoln

Vai vencer: Christoph Waltz

Se em 2010 a vitória de Waltz por Bastardos Inglórios era uma das únicas certezas do Oscar daquele ano, agora é uma das maiores dúvidas. Junto com Melhor Direção, essa é provavelmente a categoria mais incerta de todas. Tommy Lee Jones me parece ser o outro candidato com mais chances. Mas talvez De Niro leve por essa ser sua primeira indicação em décadas e sua primeira interpretação digna de nota em muito tempo. Ou talvez Hoffman, por ser o melhor deles. E ninguém sabe o que Alan Arkin está fazendo aí.

Meu preferido é Hoffman, mas ficarei feliz com a vitória de qualquer um (menos Arkin).

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

  • Amy Adams, por O Mestre
  • Anne Hathaway, por Os Miseráveis
  • Helen Hunt, por As Sessões
  • Jacki Weaver, por O Lado Bom da Vida
  • Sally Field, por Lincoln

Vai vencer: Anne Hathaway

Uma das únicas certezas da noite. Jacki Weaver parece ter sido indicada apenas para O Lado Bom da Vida emplacar competidores em todas as categorias de atuação (algo que não acontecia há uma caçambada de tempo – não sei qual foi o último filme a conseguir tal feito). Helen Hunt tem uma ótima atuação em As Sessões, mas não ganhou nenhum prêmio importante, o que diminui em muito suas chances de vitória. Sally Field foi indicada porque Lincoln. Sua atuação é chatíssima e é de longe a pior entre as concorrentes. E minha amada Amy Adams se torna a segunda atriz com o maior número de indicações como coadjuvante na História da Academia, crédito compartilhado com outras três atrizes cujos nomes não me vem à mente no momento.

Minha preferida é Amy Adams. Mas acho a atuação de Hathaway em Os Miseráveis a melhor coisa do filme, e certamente será uma vitória merecida.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

  • Amor (Michael Haneke)
  • Django Livre (Quentin Tarantino)
  • A Hora Mais Escura (Mark Boal)
  • Moonrise Kingdom (Wes Anderson e Roman Coppola)
  • O Voo (John Gatins)

Vai vencer: Amor

A Hora Mais Escura venceu praticamente todos os prêmios da categoria até o momento e sua vitória aqui, além de merecida, seria o bem-vindo prêmio de consolação para o filme. Mas Mark Boal venceu recentemente por Guerra ao Terror, e, como disse antes, a Academia parece realmente ter gostado de Amor – certamente mais do que de A Hora Mais Escura. Apostar em Haneke aqui é meu no guts no glory. Mas eu não me surpreenderia e tão pouco ficaria chateado se Tarantino levasse seu segundo tiozinho de ouro pra casa.

Meu preferido é A Hora Mais Escura. E Amor e Django. Moonrise Kingdom e O Voo não.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

  • Argo (Chris Terrio)
  • As Aventuras de Pi (David Magee)
  • Indomável Sonhadora (Benh Zeitlin e Lucy Alibar)
  • O Lado Bom da Vida (David O. Russell)
  • Lincoln (Tony Kushner)

Vai vencer: Argo

É o favorito para ganhar Melhor Filme. Apenas natural que leve roteiro junto, ainda mais que o diretor não foi indicado. E é meu preferido.

MELHOR MONTAGEM

  • Argo (William Goldenberg)
  • A Hora Mais Escura (William Goldenberg e Dylan Tichenor)
  • As Aventuras de Pi (Tim Squyres)
  • O Lado Bom da Vida (Crispin Struthers e Jay Cassidy)
  • Lincoln (Michael Kahn)

Vai vencer: Argo

Vai na carona do Melhor Filme, além de ser uma vitória merecida, já que o longa conta com um dos clímax mais tensos de 2012. Adoro O Lado Bom da Vida, mas o trabalho dos montadores Crispin Struthers e Jay Cassidy realmente não é um dos chamativos do filme. Lincoln também não apresenta um trabalho de montagem muito desafiador. Vários filmes mereciam mais essas duas vagas. 007: Operação Skyfall e A Viagem, por exemplo.

Meu preferido é A Hora da Escuridão, mas ficarei feliz com a vitória de Argo. Não só porque o filme merece o prêmio, como o vencedor, em qualquer um dos casos, será o mesmo – William Goldenberg, que montou ambos.

MELHOR FOTOGRAFIA

  • 007: Operação Skyfall (Roger Deakins)
  • Anna Karenina (Seamus McGarvey)
  • As Aventuras de Pi (Claudio Miranda)
  • Django Livre (Robert Richardson)
  • Lincoln (Janusz Kaminski)

Vai vencer: As Aventuras de Pi

Ainda que o 3D não seja aplicado corretamente na maior parte do filme, a fotografia de Claudio Miranda é uma das coisas mais lindas que o cinema viu em 2012, e certamente guiará os votantes da Academia a marcar o nome do cinegrafista na cartela de votação. Robert Richardson não pode ganhar, pois venceu seu terceiro Oscar no ano passado. Sendo o filme de época da vez, Anna Karenina teria tudo para ganhar caso não houvesse As Aventuras de Pi com quem competir. E se Lincoln vencer aqui, será uma lavada (apesar de também se passar no passado, considero Lincoln um filme político e não um filme de época).

Meu preferido é 007: Operação Skyfall, não só porque é uma baita fotografia, mas porque já passou do tempo de Roger Deakins ganhar seu primeiro Oscar.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE

  • Anna Karenina (Sarah Greenwood)
  • As Aventuras de Pi (David Gropman)
  • O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (Dan Hennah)
  • Lincoln (Rick Carter)
  • Os Miseráveis (Eve Stewart)

Vai vencer: Anna Karenina

Ganhou o prêmio do sindicato dos diretores de arte e vai compensar tanto Orgulho e Preconceito quanto Desejo e Reparação terem perdido essa categoria. O Hobbit, apesar de ter uma ótima cenografia, pode ser encarado pelos velhinhos da Academia como “mais do mesmo”. As Aventuras de Pi nem deveria ter sido indicado – tem conceitos visuais interessantes, mas a esmagadora maior parte do filme se passe no mesmo cenário. A direção de Tom Hooper não permite ao espectador enxergar a direção de arte de Os Miseráveis. E Lincoln tem uma recriação de época competente, mas nada que justifique um Oscar.

Ainda não vi Anna Karenina, mas já é meu preferido pelo motivo explicado no parágrafo anterior.

MELHOR FIGURINO

  • Anna Karenina (Jacqueline Durran)
  • Branca de Neve e o Caçador (Colleen Atwood)
  • Espelho, Espelho Meu (Eiko Ishioka)
  • Lincoln (Joanna Johnston)
  • Os Miseráveis (Paco Delgado)

Vai vencer: Anna Karenina

Pelos mesmos motivos descritos acima.

MELHOR MAQUIAGEM

  • Hitchcock (Howard Berger, Martin Samuel e Peter Montagna)
  • O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (Peter King, Rick Findlater e Tami Lane)
  • Os Miseráveis (Julie Dartnell e Lisa Westcott)

Vai vencer: Os Miseráveis

Eu queria apostar em O Hobbit, mas lembrei que Harry Potter perdeu para A Dama de Ferro e fiquei com medo.

MELHOR TRILHA SONORA

  • 007: Operação Skyfall (Thomas Newman)
  • Anna Karenina (Dario Marianelli)
  • Argo (Alexandre Desplat)
  • As Aventuras de Pi (Mychael Danna)
  • Lincoln (John Williams)

Vai vencer: As Aventuras de Pi

Já estava na hora de Mychael Danna ganhar o devido reconhecimento. Seu trabalho em As Aventuras de Pi é maravilhoso e certamente merece vencer. Por outro lado, também já passou da hora de Thomas Newman ganhar um Oscar, e em Operação Skyfall ele fez cair o queixo de todos que não acreditam na sua capacidade de compor uma trilha para um filme de ação. Argo foi indicado porque aparentemente Desplat tem sempre vaga garantida no Oscar faz cinco anos – e ele de fato merecia ser indicado, mas por A Hora Mais Escura.

Meu preferido é As Aventuras de Pi, mas ainda não ouvi o trabalho de Dario Marianelli para Anna Karenina.

MELHOR CANÇÃO

  • “Before My Time”, de Chasing Ice (J. Ralph)
  • “Everybody Needs a Best Friend”, de TED (Seth MacFarlane e Walter Murphy)
  • “Pi’s Lullaby”, de As Aventuras de Pi (Bombay Jayashri e Mychael Danna)
  • “Skyfall”, de 007: Operação Skyfall (Adele e Paul Epworth)
  • “Suddenly”, de Os Miseráveis (Alain Boublil, Claude-Michel Schönberg e Herbert Kretzmer)

Vai vencer: 007: Operação Skyfall

É a melhor canção e Adele está no auge da popularidade. Skyfall é o filme mais lucrativo da franquia do espião mais famoso do planeta, que já deveria ter vencido nessa categoria.

Mas Canção é a categoria mais bizarra do Oscar, então nunca se sabe.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

  • 007: Operação Skyfall (Karen M. Baker  e Per Hallberg)
  • Argo (Ethan Van der Ryn e Erik Aadahl)
  • As Aventuras de Pi (Eugene Gearty e Philip Stockton)
  • Django Livre (Wylie Stateman)
  • A Hora Mais Escura (Paul N.J. Ottosson)

Vai vencer: 007: Operação Skyfall

Ou As Aventuras de Pi. Tipo fotografia. Ou um, ou outro.

MELHOR MIXAGEM DE SOM

  • 007: Operação Skyfall (Greg P. Russell, Scott Millan e Stuart Wilson)
  • Argo (Gregg Rudloff, John T. Reitz e José Antonio García)
  • As Aventuras de Pi (Doug Hemphill, Drew Kunin e Ron Bartlett)
  • Lincoln (Andy Nelson, Gary Rydstrom e Ron Judkins)
  • Os Miseráveis (Andy Nelson, Mark Paterson, Simon Hayes)

Vai vencer: Os Miseráveis

Musicais tem uma tendência a vencer nessa categoria, e a mixagem de Os Miseráveis é brilhante. É meu preferido. Mas talvez Operação Skyfall leve a dobradinha de som, e eu não veria problema nisso.

MELHORES EFEITOS VISUAIS

  • As Aventuras de Pi (Bill Westenhofer, Donald Elliott, Erik De Boer e Guillaume Rocheron)
  • Branca de Neve e o Caçador (Cedric Nicolas-Troyan, Michael Dawson, Neil Corbould e Phil Brennan)
  • O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (David Clayton, Eric Saindon, Joe Letteri e R. Christopher White)
  • Prometheus (Charley Henley, Martin Hill, Richard Stammers e Trevor Wood)
  • Os Vingadores (Daniel Sudick, Guy Williams, Janek Sirrs e Jeff White)

Vai vencer: As Aventuras de Pi

Por mais que as criaturas digitais de O Hobbit sejam sensacionais, e por mais que eu me arraste aos pés do que Joss Whedon fez em Os Vingadores, Richard Parker é imbatível. As Aventuras de Pi deve e merece vencer.

MELHOR ANIMAÇÃO

  • Detona Ralph (Rich Moore)
  • Frankenweenie (Tim Burton)
  • ParaNorman (Chris Butler e Sam Fell)
  • Piratas Pirados (Peter Lord)
  • Valente (Brand Chapman e Mark Andrews)

Vai vencer: Detona Ralph

Até antes do lançamento de Detona Ralph, pensei que finalmente havia chegado o dia de Tim Burton ganhar um Oscar (por Frankenweenie). E ficarei bem feliz se isso acontecer, mas não acho que venha ser em 2013. Detona Ralph tem de longe o melhor roteiro dentre os indicados, e a animação é um primor, mesmo não sendo da Pixar, que certamente não merece levar dessa vez por Valente, o filme mais fraco do estúdio.

Meu preferido é Detona Ralph. Mas seria legal ver ParaNorman ganhando. Ou Frankenweenie. Valente não. Piratas Pirados eu não vi, mas não conheço viv’alma que tenha gostado do filme.

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA

  • O Amante da Rainha (Dinamarca)
  • Amor (Áustria)
  • Kon-Tiki (Noruega)
  • No (Chile)
  • War Witch (Canadá)

Vai vencer: Amor

Foi indicado até a Melhor Filme. Se não vencer aqui, é falha da Matrix.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

  • 5 Broken Cameras (Emad Burnat e Guy Davidi)
  • The Gatekeepers (Dror Moreh, Estelle Fialon e Philippa Kowarsky)
  • How to Survive a Plague (David France e Howard Gertler)
  • The Invisible War (Amy Ziering e Kirby Dick)
  • Seaching For Sugar Man (Malik Bendjelloul e Simon Chinn)

Vai vencer: Searching For Sugar Man

Tem vencido a maioria dos prêmios da categoria. Mas me parece que, à exceção de 5 Broken Cameras, todos os indicados têm suas chances.

MELHOR CURTAMETRAGEM

  • Asad (Bryan Buckley, Mino Jarjoura)
  • Buzkashi Boys (Ariel Nasr e Sam French)
  • Curfew (Shawn Christensen)
  • Death of a Shadow (Ellen De Waele  e Tom Van Avermaet)
  • Henry (Yan England)

Vai vencer: Curfew

Feeling.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

  • Adam and Dog (Minkyu Lee)
  • Fresh Guacamole (PES)
  • Head Over Heels (Fodhla Cronin O’Reilly  e Timothy Reckart)
  • Paperman (John Kahrs)
  • The Simpsons: The Longest Daycare (David Silverman)

Vai vencer: Head Over Heels

Feeling.

MELHOR CURTA DOCUMENTÁRIO

  • Inocente (Andrea Nix e Sean Fine)
  • Kings Point (Jedd Wider e Sari Gilman)
  • Mondays at Racine (Cynthia Wade e Robin Honan)
  • Open Heart (Cori Shepherd Stern e Kief Davidson)
  • Redemption (Jon Alpert e Matthew O’Neill)

Vai vencer: Open Heart

Feeling.

Agora é esperar para ver. E ou Lincoln vai ganhar uma enxurrada de prêmios, ou o grande vencedor da noite não ganhará mais do que no máximo 4 estatuetas. Parece que a coisa vai ser como 2006, quando os grandes vencedores daquela edição do Oscar ganharam em apenas 3 categorias cada (Crash, O Segredo de Brockback Mountain, Memórias de uma Gueixa, King Kong)

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O Lado Bom da Vida

03/02/2013

Todo ano Hollywood nos bombardeia com inúmeras comédias românticas infantilóides que seguem sempre a mesmíssima fórmula pouco condizente com a realidade que nos cerca. Então, vez por outra, juntando a história ideal com o diretor e o elenco certos, aparece um filme maravilhoso como O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012).

Lado Bom da Vida, O - cartaz

Adaptando o livro homônimo escrito por Matthew Quick, o roteiro do diretor David O. Russell nos apresenta a Pat (Bradley Cooper), um homem que foi recentemente diagnosticado com síndrome bipolar depois do incidente que pôs um fim no seu casamento e o colocou em uma clínica de tratamento psiquiátrico. Após ser liberado da internação forçada, Pat volta para casa cheio de vibe positiva, determinado a reconquistar sua esposa Nikki (Brea Bee). Porém, quando é convidado para um jantar por seu amigo Ronnie (John Ortiz), Pat é apresentado a Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher tão socialmente deslocada quanto ele, por quem logo se apaixona, ainda que leve quase o filme todo para admitir isso para si mesmo.

A previsibilidade da trama é evidente, mas isso jamais se apresenta como um problema, uma vez que o filme não tenta ir contra a natureza da história. Ao contrário da infinita maioria das produções do gênero, O Lado Bom da Vida não tenta fazer grandes suspenses artificiais do que irá acontecer no final. Desde o momento em que Pat e Tiffany interagem pela primeira vez, já fica claro que ambos ficarão juntos. Esse detalhe, a pergunta do “será que eles vão ficar juntos?”, realmente não interessa. O grande diferencial do filme é a cuidadosa construção da relação entre esses dois personagens atípicos, cheios de falhas, mas inegavelmente carismáticos e cativantes. É nesse ponto que o roteiro de David O. Russell se sai vitorioso.

Embora os casamentos de Pat e Tiffany tenham terminado de formas bastante diferentes, a ferida que ambos carregam é pesada o suficiente para fazê-los enxergar e se simpatizar com o sofrimento que o outro enfrenta. Em uma troca de insultos, elogios, desculpas, abraços, desentendimentos, arrependimentos, superações, os dois protagonistas vão construindo uma amizade incomum, porém incrivelmente forte, que ajuda ambos a se reestruturarem emocionalmente. É justamente pela jornada do jovem casal em formação se encaminhar com dificuldade que se torna tão comovente. São dois personagens problemáticos que, conscientes disso, buscam apoio um no outro, inconscientes disso, nunca percorrendo uma estrada fácil por esse caminho, que se mostra cheio de pedras, buracos, desvios e sinais de “Pare”.

Coordenando com competência e delicadeza toda essa confusão de sentimentos que, mesmo contando com seus momentos negativos, apontam para um desfecho positivo, o cineasta David O. Russell demonstra mais uma vez seu peculiar talento para transformar um drama mundano em uma história tocante e divertida que, nas mãos de um diretor menos cuidadoso, certamente tenderia a um excesso de pieguice ou a um dramalhão exagerado. Atento aos menores detalhes, Russell pinça apenas o essencial e se mantém distante desses dois extremos, oferecendo um filme que é doce e amargo ao mesmo tempo, uma dicotomia que inclusive reflete a personalidade do bipolar protagonista.

Interpretando Pat com uma intensidade vibrante e enérgica, Bradley Cooper entrega aqui a melhor performance de sua carreira. Acertando ao empregar uma fala acelerada para ilustrar a ansiedade do protagonista, é incrível como Cooper ainda assim consegue estar em total controle de um personagem que é, em suma, plenamente descontrolado. Compreendendo bem a natureza de seu papel, o ator também incorpora pequenos tiques, como o constante menear da cabeça, em uma sábia escolha que dá mostras da instabilidade psicológica de Pat. Estando o tempo todo mexendo alguma parte do corpo (não à toa, passa boa parte do tempo correndo, para aliviar seus demônios), quando Pat para, percebemos que algo realmente mexeu com ele, e a expressão de cão abatido nos olhos azuis de Bradley Cooper apenas intensifica essa sensação.

Contrabalançando as emoções, entra Jennifer Lawrence vivendo Tiffany como uma mulher incrivelmente forte e decidida, ainda que por vezes frágil. Compondo a personagem quase sempre com um olhar penetrante, o rosto levemente inclinado para frente, num misto de intimidação e apreensão, Lawrence faz de Tiffany uma mulher que, ao mesmo tempo em que tenta assumir seus defeitos, procura se autoafirmar pensando que não precisa ser igual aos outros. Escondendo as feridas emocionais da personagem ao vestir roupas escuras e ao manter uma expressão fechada, Lawrence ainda dispara determinadas falas de Tiffany com tamanho descaso e determinação, que o que poderia ser visto como simples grosseria acaba por ser admirado como força de vontade – às vezes, alguém tem que ser brutalmente honesto. E se Cooper comenta com extrema ingenuidade obviedades que podem machucar, mostrando assim a inocente falta de tato de Pat, Lawrence por sua vez faz Tiffany falar a verdade tendo plena consciência da consequência negativa que esta proporcionará no outro.

Fechando o elenco principal, temos Jacki Weaver como a mãe de Pat, infelizmente dispondo de pouco para desenvolver sua personagem, mas mesmo assim compondo bem uma mulher sinceramente preocupada com a saúde do filho, e sem cair no melodrama; Chris Tucker como um colega de clínica e amigo de Pat, bem mais contido (e gordinho) que o normal; John Ortiz vivendo um amigo de Pat que não aguenta mais o casamento, e que faz o protagonista questionar ainda mais a busca pela restauração do seu próprio com Nikki; e finalmente, temos Robert De Niro voltando à sanidade e à boa forma depois de anos, aqui dando vida ao pai de Pat e transformando o sujeito em um ser quase tão complexo (problemático) como o filho ao apostar acertadamente numa composição em que até mesmo os habituais maneirismos do ator surgem adequados ao personagem.

Assim, repetindo o que fez no ótimo O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) – lembrem que o filme foi indicado a três Oscars de atuação, vencendo dois – David O. Russell mais uma vez demonstra uma competência especial na condução do elenco, elevando cenas de alta dramaticidade a um realismo poucas vezes alcançado no cinema norte-americano atual. Além disso, evitando ao máximo cair no comodismo, Russell ainda consegue subverter alguns desses momentos, quebrando a expectativa do público ao desviar o roteiro de escolhas dramáticas óbvias, assim mantendo a força e o ritmo da narrativa.

Portanto, além de nos apresentar um dos romances mais belos dos últimos anos – que se mostra universal justamente por ser protagonizado por pessoas cheias de falhas – ao seu fim, O Lado Bom da Vida também parece tentar nos dizer que às vezes é preciso encontrar alguém tão errado quanto nós para nos darmos conta de que ter problemas não é algo tão errado assim.

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João e Maria: Caçadores de Bruxas

29/01/2013

Há séculos, contos de fada encantam mentes infantis em formação. De tempos em tempos, essas histórias são modificadas, passando de uma geração para outra, migrando entre culturas diferentes, trocando alguns detalhes e absorvendo novas nuances e significados. A Chapeuzinho Vermelho pré Irmãos Grimm é bem diferente daquela que conhecemos na nossa infância. Em uma das primeiras versões, a menina era estuprada e ficava grávida. Daí para ser engolida por um lobo e depois salva por um lenhador… é um longo caminho.

Hoje, ao invés de haverem novas versões literárias dessas histórias eternas, ao mando de executivos de Hollywood convencionou-se adaptar as mesmas para o cinema, porém com uma abordagem contemporânea supostamente mais moderna. (De certa forma, considero as recentes adaptações de Sherlock Holmes pelas mãos de Guy Richie parte do mesmo processo)

O exemplo mais mordaz dessa recente investida mercadológica é a “super” produção A Garota da Capa Vermelha (Red Riding Hood, EUA, 2011), comandada pela mesma Catherine Hardwicke que levou para as telas o primeiro livro da infame série do vampiro que brilha no sol. E o que Crepúsculo (e todas as suas continuações) fazem pela figura do vampiro, degradando-a ao máximo, A Garota da Capa Vermelha faz com Chapeuzinho Vermelho, tornando o conto uma tolice sem tamanho que ofende a inteligência do espectador – exatamente o oposto do que um conto de fadas deveria fazer.

Depois, ainda surgiram: A Fera (Beastly, EUA, 2011), uma visão contemporânea de A Bela e a Fera, que coloca os protagonistas nos dias de hoje; a nova série Beauty and the Beast (2013-) parece seguir a mesma receita, com um toque um pouco mais sombrio; as séries Grimm (2011-), Once Upon a Time (2011-), a primeira usando a fórmula do seriado policial inserida em universo habitado por personagens fantásticos, e a segunda utilizando uma estrutura clássica de fantasia, com uma bruxa malvada e uma princesa angelical – ambas nos dias atuais; e, agora, este João e Maria: Caçadores de Bruxas (Hansel & Gretel: Witch Hunters, EUA, 2013).

João e Maria

Acredito que cada pessoa tem o seu conto de fadas preferido, e que nenhuma escolha é menos válida que a outra. Ao mesmo tempo, acho inegável que alguns contos são simplesmente mais fortes que outros. Não necessariamente melhores, não. Acho que o juízo de qualidade não entra na questão. Uma mesma história pode ser maravilhosa se contada de um jeito, e sem a menor graça se contada de outro jeito. Porém, algumas dessas histórias têm uma força intrínseca maior que as outras. Uma mensagem, uma lição de moral. Alguns contos de fadas são imersos em um poderoso pathos não só estético, mas ético. João e Maria é um deles.

A historinha dos dois irmãos que, para acharem o caminho de volta e não se perderem na floresta, vão largando pedacinhos de pão por onde passam, só percebendo que trilha que fizeram sumiu (comida por pássaros) quando é tarde demais e já estão perdidos. Sem saberem para onde ir, encontram uma casa totalmente feita de doces. Encantados, começam a comer… Vocês sabem como acaba.

João e Maria: Caçadores de Bruxas se apropria dessa situação para desenvolver uma premissa maior. Portanto, o que dá certa liberdade à produção é que aqui o conto de fadas serve como ponto de partida para outra história, que vem depois. Não é uma releitura da história, uma adaptação para os dias atuais, ou qualquer variante disso. A grosso modo, é quase uma continuação do conto original. Esse detalhe é, por um lado, o ponto interessante do filme; por outro, o maior problema.

O problema se dá no fato de o roteiro do filme ser quase ofensivamente raso e pouco criativo, assim jogando no lixo a possibilidade de aproveitar devidamente os icônicos protagonistas em uma boa aventura cinematográfica – o mencionado pathos não existe. O bom é que o longa joga João e Maria em um mar de cenas sanguinolentas divertidíssimas.

Dirigido pelo desconhecido e norueguês Tommy Wirkola, Caçadores de Bruxas começa com um prólogo intenso que conta com uma dispensável e breve narração de Jeremy Renner, mas que pelo menos já denota o tom que a narrativa manterá até o final. É um aviso que quer dizer: quem levar o filme a sério não vai se divertir nem um pouco. É verdade. Mas também é verdade que, apesar disso, o filme tem suas falhas, algumas bem graves.

A maior delas já foi citada. O roteiro, escrito pelo próprio Wirkola em parceria com Dante Harper, é de uma obviedade broxante. Além de incluir vários flashbacks que não servem para nada e apenas quebram o ritmo da narrativa, a dupla ainda parece seguir o maior número de clichês possível, como o garoto fã dos heróis que sabe tudo sobre eles, o monstro feioso mas de bom coração, a bruxa do bem, o xerife bundão, a verdade por trás dos pais de João e Maria, o vilão que conta seu plano maligno para os mocinhos… Enfim.

Aliás, é incrível a quantidade de coisa errada com a cena em que a vilanesca bruxa evil from hell vivida por Framke Janssen (primeiro papel de destaque da moça desde X-Men) conta para João (Jeremy Renner) e Maria (Gemma Aterton) o que realmente aconteceu com seus pais. Considerando que praticamente todo o restante do filme parece (acertadamente) não se levar a sério, é incoerente que Wirkola tente extrair algum apelo dramático com a longa (e intrusiva) narrativa da vilã do filme. De tão trágico, o destino dos pais de João e Maria poderia render até uma ópera grega, mas o fato é que fica deslocado demais do resto da narrativa. Justamente por ir contra o tom do resto do filme, a cena ainda perde toda a força que poderia ter.

Mas o decepcionante mesmo é que todo o mistério da trama já é resolvido nessa única passagem. Ficamos sabendo o que aconteceu com pais dos protagonistas, entendemos porque ambos são imunes a feitiços de bruxas, descobrimos porque as crianças estão desaparecendo, e tudo o mais. A sorte é que o filme é bem curto, então a tensão acabar logo aí não é algo tão terrível. O terrível é o clímax anticlimático logo em seguida, quando os heróis destroçam um covil lotado de bruxas com uma facilidade risível. É divertido, mas poderia ser bem melhor. E a necessidade do roteiro em martelar para o espectador que o final da história se passa no mesmo cenário em que ela se iniciou é patética, diminuído a força dessa circularidade narrativa, que seria interessante se abordada de outra forma.

Apostando na violência gráfica exagerada que flerta com o gore descerebrado, a direção de Tommy Wirkola consegue rechear Caçadores de Bruxas com cenas maravilhosamente sangrentas e engraçadas, o que no final das contas é o ponto alto do filme. O que mais poderíamos esperar de um diretor que tem nas costas um filme sobre zumbis nazistas (Dead Snow/Død snø, 2009) e uma paródia norueguesa de Kill Bill? Aliás, a influência de Tarantino aqui é gritante, e basta assistir ao recente Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) para perceber a equivalência em termos de litros de sangue utilizados nos dois filmes. Dentro desse quadro pintado de vermelho, o destaque, eu diria, vai para um momento de ataque raivoso do ogro vivido por Derek Mears (o Jason do remake de Sexta-Feira 13), já que se trata da única sequência cuja mise en scène funciona adequadamente. Pois, embora inspirado em Tarantino, Wirkola está a milhas de distância da competência daquele enquanto diretor (enquanto roteirista nem se fala), e transforma a maior parte das cenas de ação do filme em um emaranhado de confusão (culpa também do montador Jim Page), onde, entre outras coisas, personagens que estão bastantes distantes um do outro acabam por se encontrarem cara a cara em questão de segundos, ou, durante alguma perseguição, aquele que estava metros atrás acaba por surpreender o outro surgindo em sua frente.

Mesmo com Jeremy Renner e Gemma Aterton para liderarem a narrativa (o que fazem relativamente bem, mesmo sem a menor força de vontade), o elenco acaba se mostrando homogeneamente travado no piloto automático, onde o único destaque vai, de novo, para o ogro de Derek Mears que, mesmo sob quilos de maquiagem, ainda assim é responsável pelas feições mais cativantes do filme. Framke Janssen é uma que está interessante, mas apenas embaixo da cara feiosa de bruxa. Quando aparece com seu rosto ‘real’, a atriz não convence. E é uma pena que a belíssima e finlandesa Pihta Viitala mereça ter o adjetivo “inexpressivo” endereçado a sua atuação na pele da única personagem coadjuvante com algum potencial (além do ogro) e que é terrivelmente mal aproveitada pelo roteiro.

Embalado pela boa trilha de Atli Övarsson e também contando com um cenário medieval feito especialmente para ser destruído de forma exagerada nas cenas de batalha que são povoadas por anacrônicas metralhadoras e afins, João e Maria: Caçadores de Bruxas consegue ser um divertido, violento e irreverente passatempo, mas que perde várias oportunidades de ser um grande filme, o que é uma pena, mas não o fim do mundo.

Obs 1: o 3D do filme é fraco, escuro e excessivamente pontuado por coisas voando em direção ao espectador – um recurso que é bacana apenas quando usado com cautela;

Obs 2: os créditos iniciais do filme são belíssimos;

Obs 3: a paródia de Kill Bill que Wirkola dirigiu se chama Kill Bujio;

Obs 4: existem pelo menos mais três adaptações de João e Maria agendadas para estrearem no mercado internacional em 2013.

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Lincoln

26/01/2013

Abraham Lincoln provavelmente é o presidente mais famoso da História dos Estados Unidos. A silhueta alongada, de um homem muito alto e magro, com o rosto bastante característico e coroado com aquela icônica cartola, já faz de Lincoln uma figura marcante por si. O que o levará a ser lembrado para sempre, porém, não é apenas sua aparência física singular, mas o fato de ter dado um fim na Guerra Civil norte-americana e abolido a escravidão, ao mesmo tempo. Concentrando-se exclusivamente nesse momento histórico da trajetória de Lincoln, o novo filme de Steven Spielberg apresenta os bastidores da batalha do presidente para que a 13ª Emenda, que proíbe a escravidão, fosse aprovada pelo Congresso.

O que o filme não conta é que Lincoln era um grande leitor e simpatizante de Karl Marx, inclusive entusiasta da ideia de que o mercado do trabalho era mais importante que o mercado do capital. A escravidão ia totalmente contra esse conceito. Entre outras questões, era justamente por isso que Lincoln defendia não só a emancipação da escravidão, como a emancipação de toda a classe trabalhadora, de forma que o trabalhador se tornasse dono de seu trabalho e também do produto do mesmo. Mas esse detalhe nem sequer é citado no filme de Spielberg, o que é apenas um dos problemas de Lincoln (Lincoln, EUA, 2012), que é menos um filme de época que uma tentativa desenfreada de transformar o personagem título em uma espécie de herói imaculado e despido de falhas.

Lincoln - cartaz

A abordagem da produção, em apresentar Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) como uma espécie de santo, até não seria um problema em si, caso o filme contasse com uma atmosfera urgente que necessitasse tal entidade. Depois dos letreiros cheios de lamúria embalados pela solene trilha sonora de John Williams, Spielberg abre a narrativa com uma cena de batalha, com soldados brancos e negros se matando, afogando uns aos outros na lama, em uma coreografia falha que lembra o início capenga do fraco Gangues de Nova York (Gangs Of New York, EUA, 2002) (também com Day-Lewis, e provavelmente o pior filme de Scorsese). Em nenhum outro momento encaramos a situação crua da Guerra Civil. São 2h30 de conversas e discussões, algumas mensagens telegrafadas, algumas frases de efeito, mas em nenhum momento sentimos que a história se passa durante uma guerra, com milhares morrendo nos campos de batalha. Claro que alguns diálogos brotam da boca de alguns personagens secundários especialmente para tentar lembrar o espectador de que há uma guerra lá fora, porém o efeito desejado jamais se concretiza – tanto é que no clímax do filme, na votação para aprovar a emenda, sentimos pouquíssima aflição. Sabemos da guerra, mas não a sentimos. Fico me perguntando onde foi parar o diretor de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, EUA, 1998).

Da mesma forma, a crueldade bárbara da escravidão nunca é retratada propriamente. Ao contrário de Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) – melhor momento de Tarantino desde Kill Bill (EUA, 2003) –, que mostra sem receios os horrores da condição de um escravo, Lincoln se concentra demais em endeusar seu protagonista, e parece esquecer o quadro geral da situação.

No entanto, apesar de não tratar com a profundidade devida o assunto que a trama contempla, Lincoln ainda tem sua reserva de méritos, um dos quais, o modo como o roteirista Tony Kushner estrutura a narrativa, que conta com inúmeros personagens e jamais soa confusa. Voltando a trabalhar com Spielberg depois de sua colaboração no roteiro do excepcional Munique (Munich, EUA, 2005) – melhor filme do diretor da década passada –, Kushner tem a difícil tarefa de apresentar o espectador a uma questão moral enraizada em um viés econômico. A escravidão é um mal para a humanidade, isso é evidente hoje. Mas na época da História em que o filme se passa, 1865, ainda havia muita gente com pensamentos arcaicos, defendendo a condição escrava dos negros, uma vez que estes eram considerados seres inferiores. “Por que dar direitos iguais a aqueles que Deus criou desiguais?”, diz um personagem em certo momento, num claro exemplo da imbecilidade humana embasada em religião (cristã, no caso).

Como se sabe, a Guerra Civil norte-americana dividiu o país entre a União dos estados do Norte, que, sob a liderança de Lincoln, lutava pelo fim da escravidão, e os Confederados do Sul, que se recusavam a soltar os grilhões de seus escravos. Só que o Sul não se agarrava ao modelo escravocrata de vida por questões ideológicas, apenas. Como o personagem de Jackie Earle Haley faz questão de explicar perto do final do filme, toda a economia dos estados do sul era calcada na escravidão, e esse é o motivo principal que faz eles não quererem que a mesma chegue a um fim. Infelizmente, é apenas nessa fala que o roteiro de Kushner aborda a questão por esse ângulo, o que é uma pena. A Guerra Civil retratada no filme é muito menos complexa do que aquela que realmente aconteceu, quase 150 anos atrás. Simplificar um fato histórico é sempre compreensível em uma produção cinematográfica, mas ignorar boa parte da História que o rodeia não.

E é justamente por buscar enaltecer a figura de Abraham Lincoln que se torna incompreensível a escolha do roteirista em ignorar vários dos grandes feitos daquele presidente. Toda a narrativa do longa é direcionada para martelar no espectador que foi Lincoln quem aboliu a escravidão, praticamente sozinho. Mas o filme jamais tenta abordar todas as manobras políticas que o homem realizou enquanto presidente. A famosa Operação Anaconda, que ajudou a União a derrotar o Sul economicamente, não é sequer mencionada. Apenas vemos o protagonista repetindo várias vezes que a 13ª Emenda é a cura para os males do país. Infelizmente, jamais ficamos sabendo como foi o processo de idealização da 13ª Emenda. A narrativa já começa com esse projeto de Lincoln pronto. Porém, considerando o resultado da produção, é justo de se imaginar que a mesma seria enriquecida caso mostrasse os eventos anteriores a aqueles nos quais a trama tem inicio.

Apesar desses problemas, é fácil de constatar que pelo menos tecnicamente Lincoln é impecável. A montagem de Michael Kahn, colaborador habitual de Spielberg, faz a narrativa se encaminhar com tamanha fluidez, que os 150 minutos do filme passam sem que se perceba. A fotografia de Janusz Kaminski mergulha o filme numa luz cinzenta e triste, e apresenta o semblante de Daniel Day-Lewis em vários primeiros planos que ajudam a reforçar a imponência do personagem, sugerida ali pela formidável maquiagem e pela expressão marcante do ator. Além disso, toda a plasticidade que se via em Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011) desaparece em Lincoln, que também conta com uma direção muito mais sóbria de Spielberg, onde se destaca sua condução do magistral elenco, muito embora o cineasta não consiga conter os excessos de Sally Field, que está insuportável como a esposa de Lincoln – sua indicação ao Oscar é prova de que a Academia morre de amores por atrizes chorando em cena.

Lincoln - corpo do texto, LincolnLincoln - corpo do texto, DDL

O Lincoln em si, no entanto, é uma atração à parte. Daniel Day-Lewis mais uma vez nos brinda com uma atuação metódica e magistral. Auxiliado pela excelente maquiagem de Kay Georgiou e Lois Burwell, o ator britânico apresenta um Abraham Lincoln que parece retirado diretamente de relatos históricos. E em nenhum momento o ator denuncia sua origem britânica, apostando em um tom de voz mais ameno para compor seu icônico personagem norte-americano. De fato, pelo menos em meu imaginário, Lincoln teria uma voz grave e cheia de autoridade. Day-Lewis, entretanto, constrói o seu Lincoln com uma fala leve e macia, que envolve o personagem com uma atmosfera de simpatia e humildade, inclusive transformando essa característica em uma das qualidades do presidente enquanto político. Ao invés de usar argumentos estritamente racionais e abusar de falas autoritárias, o Lincoln do filme convence as pessoas através de anedotas simples, relatando pequenas histórias e causos e usando a força da lição de moral contida nelas a seu favor.

Contando ainda com uma ótima reconstituição de época, tanto nos desgastados e realistas figurinos de Joanna Johnston quanto na direção de arte de Rick Carter, que tem o mérito de não chamar demasiada atenção para si, Lincoln até se sustenta como um drama razoável, mas perde a oportunidade de ser a obra-prima que seria caso contasse com a direção de um Spielberg mais audacioso.

Obs: um amigo meu e também cinéfilo, o Homero B. S. Filho, me avisou que os letreiros iniciais não estão presentes na versão original do filme; foram incluídos apenas para o mercado estrangeiro.