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TCC

21/09/2014

O que me distancia daqui é tão somente o maldito TCC, que preciso reformular de novo.

Tento focar e só encontro desfoco.

O emprego anda numa boa, estou quase bom no que faço.

Mas o TCC ainda é matéria pra dores de cabeça e stress.

Abro esse post aqui porque quem sabe falando sobre o assunto (que é cinema), eu consiga focalizar o que me falta.

Pois então, eu pergunto: o que é subjetividade no cinema?

A primeira impressão, suponho, seja a seguinte: o modo como cada espectador interpreta o filme. Nossas opiniões e interpretações são subjetivas, portanto subjetividade no cinema seguiria nessa direção. É verdade.

Mas não é a subjetividade que eu procuro. Estou atrás de outra.

Indago o seguinte: como utilizar a linguagem cinematográfica par ilustrar a subjetividade DO PERSONAGEM? Como representar audiovisualmente a condição psicológica do personagem?

O querido estudioso David Bordwell e sua parceira Kristin Thompson apresentam duas instâncias de como a subjetividade de um personagem pode aparecer no cinema.

A primeira delas, eles chamam de “subjetividade perceptiva“. Esta diz respeito, sem mais delongas, ao ponto de vista FÍSICO do personagem. A chamada câmera subjetiva, que mostra literalmente o que os olhos do personagem estão vendo naquele momento, é o melhor exemplo de subjetividade perceptiva. Vemos aquilo que o personagem vê. E o mesmo processo ocorre com o som, quando ouvimos barulhos próximos aos ouvidos do personagem. Na subjetividade perceptiva, estamos, através da câmera e do microfone, percebendo dentro do filme aquilo que o personagem também percebe FISICAMENTE.

Já o segundo tipo de subjetividade, referido como “subjetividade mental“, se refere a tudo que o personagem pensa, fantasia, sonha, imagina, e que não existe de fato no mundo em que a história contada no filme acontece. Quando ouvimos um personagem narrando seus pensamentos, estamos em um momento de subjetividade mental. Na subjetividade mental estamos testemunhando algo que APENAS aquele personagem poderia sentir/expressar. Um ponto de vista físico na subjetividade perceptiva poderia ser percebido por qualquer personagem que estivesse naquele local naquele momento. Agora, os pensamentos que um personagem tem ao visualizar aquele ponto de vista específico são somente dele e de mais ninguém.

As duas categorias não são excludentes, e frequentemente filmes criam cenas híbridas das duas. Como em um plano ponto de vista em primeira pessoa acompanhada de uma voz interna reportando os pensamentos do personagem enquanto ele vê aquilo que aparece em cena. Tri comum esse tipo de mistura.

 

Agora, minha grande dúvida e motor para o projeto do TCC é o seguinte: como trabalhar a subjetividade de um personagem ao ordenar fora de ordem cronológica os eventos da trama? Quero dizer, considerando que a subjetividade perceptiva e mental é ativada principalmente através do que o filme está nos mostrando (seja visual ou acusticamente) cena a cena, como explorar essas instâncias de modo macro, em uma estratégia que percorra todo o arco da narrativa?

Não estou tirando essa ideia do vento. No livro que o Bordwell escreveu sobre Christopher Nolan, ele sugere algo nessa linha. Ao analisar os filmes do diretor, Bordwell chega a conclusão de que Nolan procura trabalhar a subjetividade de seus protagonistas através de estratégias narrativas rebuscadas que, em função de sua não linearidade, colocam os eventos da história em uma ordem que, em determinado momento, acaba ilustrando o ponto de vista limitado ou iludido do protagonista.

Pegando o exemplo de Amnésia (spoilers pela frente): estranhamos o começo do filme por não entendermos a lógica da sequenciação das cenas. E, de fato, mesmo depois de identificarmos essa lógica, continuamos invariavelmente perdidos em relação a vários detalhes da trama. Tal confusão é proposital, pois, ao organizar o filme em ordem anticronológica (indo do fim ao começo), Nolan faz o espectador experimentar na pele aquilo que assola o protagonista, vítima de perda de memória recente. Ao começar cada cena pelo final da cena seguinte e não da anterior, Nolan impõe no espectador a mesma angústia de que sofre Leonard no filme, incapaz de gravar novas memórias por mais de 15 minutos.

É uma estratégia narrativa brilhante que brinca com a percepção do personagem e do espectador, fazendo isso por todo o arco narrativo do longa-metragem.

O caso de Amnésia é bastante conhecido, e o filme já foi analisado o bastante por muita gente mais importante e mais esperta que eu.

Minha ideia é pegar o primeiro filme de Nolan, Following, em que já é possível perceber a predileção por esse jogo narrativo não linear que confunde e surpreende o espectador na mesma medida em que desenvolve a subjetividade de seu protagonista. Em Following, o protagonista narra boa parte da história (spoiler dos brabos a seguir, selecione o texto para ler) convicto de estar falando a mais pura verdade apenas para no final descobrir que fora enganado e que seu relatório, frente às evidências forjadas que o incriminam, soa apenas como uma desculpa furada e que o afunda ainda mais na merda em que foi jogado.

 

Para analisar direitinho como se dá o processo de “ilustração” da subjetividade do protagonista de Following, se meus orientadores estão corretos, preciso primeiro discorrer sobre o modelo da narrativa não linear – e suas características dramáticas. Depois, devo discutir os três tipos de discurso presentes em narrativas: direto, indireto, e indireto livre. Então, uma avaliação dos efeitos possíveis através da combinação da narrativa não linear com os tipos de discurso – como essa imbricação leva à subjetividade do protagonista. E por fim uma análise de Following, pondo em questão como tudo isso se apresenta no filme.

Faz sentido?

Preciso realmente discutir essas questões.

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