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Muito Barulho Por Nada

03/09/2013

Digo-lhes, e resguardo não mais minhas palavras apenas a meus temores, que volto, ao menos ao que consta o momento presente, a escrever sobre a sétima arte, a mais bela e completa das artes para este humilde cinéfilo. Volto uma vez que inspirado pela chance que o filme Muito Barulho Por Nada (Much Ado About Nothing, EUA, 2013) oferece de me permitir fugir do padrão, ó o terrível e normativo padrão, que esteve presente na quase totalidade de meus rascunhos de crítica até hoje. Peço, então, vossa paciência para superar a estranheza inicial causada por essa atípica estruturação de frases.

Eis que lá, no grande ecrã, diante da nossa pequenez de espectadores, essa nova investida do Príncipe dos Nerds, o estimadíssimo Joss Whedon, vai se revelando aos poucos um belo estudo sobre a condição do verbo dramatúrgico nos dias de hoje, e sobre suas confluências com a linguagem audiovisual, que é essa enciclopédia cheia de significados ainda clamando para serem descobertos, testados, contestados. O filme, ainda, como não poderia deixar de ser, se conflui como uma grande ode ao eterno, ilustre, e very much britânico William Shakespeare.

Pois, visto que adaptando sua peça que inclusive dá nome ao novo longa-metragem, o roteiro vagamente intrometido de Whedon planta os acontecimentos da trama de alguns séculos atrás em tempos contemporâneos, embora mantenha com firmeza os diálogos rebuscados e cheios de floreios verbais do mestre Shakespeare, de forma que haja um pretensioso, mas precioso anacronismo em cena, que não demora a conquistar a plateia. Se uma peça de fato fosse, a vontade do público seria a de bater palmas e deixar as gargalhadas soarem livres pelo teatro até chegarem aos ouvidos dos talentosos atores.

Em parte, é sabido, a proposta surja zombeteira com o arcaísmo dos escritos originais do dramaturgo, se propondo justamente a escancará-lo, e com isso rendendo diversas e constantes passagens cômicas, em momento algum o cineasta apresenta descaso com o icônico autor. Percebe-se que apenas aquele que conhece bem e aprecia o material original seria capaz de subvertê-lo a ponto de fazer a comédia de Muito Barulho Por Nada-filme nascer da exposição descontextualizada do drama exagerado de Muito Barulho Por Nada-peça.

Muito além dos diálogos bem deslocados, no entanto, meus caros, está o poder estético do diretor frente a esse desafio pretensiosamente despretensioso. Um paradoxo, sim, pois é em cima de um paradoxo dramático que trabalha a grande reviravolta da narrativa. A narrativa, ela, tão impressionante, tem um começo estranho, sem dúvida, mas que logo no começo, verão, jamais soa como mero teatro filmado, erro comum a tantas tentativas de filmar teatro. Ali, em seus princípios, só pela estranheza, já capta nossa atenção. Em seguida, sem se demorar, nos toma pela mão e ganha nossa simpatia. Admirados pelos personagens e enganados pelo glamour exótico das falas, somos levados a crer na impossibilidade do esquema dos antagonistas chegar a algum lugar, no sentido, eu insisto, de duvidarmos que qualquer acontecimento leve a um alto nível de drama capaz de nos afetar emocionalmente. Ledo engano, ah, temerário engano, tão bem executado, é ele o responsável pelo desconforto a que somos submetidos a partir da metade da história, quando nossas expectativas são sendo passo a passo massacradas pelo real poder das palavras de Shakespeare. Quando, mesmo séculos longe de sua origem e milhas distante de sua ambientação ideal, as palavras de Shakespeare mostram a que vieram, e se arremessam em nossa direção como floretes que penetram os corações de jovens duques duelando pela honra de suas amadas.

Terrível dádiva, ó que terrível dádiva a do poeta que sabe o que fala, e terrível dádiva, também, em igual imensidão, a do cineasta que sabe o faz. E Whedon, garanto-lhes, sabe muito bem o que faz. Tem ele o controle absoluto da narrativa, invertendo o foco da mise-en-scène a seu bel prazer, para nosso desprazer, mas fazendo-o de modo tão sutil, que só percebemos a cruel jogada quando já é tarde demais, e sucumbidos à tragédia perecemos, felizmente voltando à felicidade quando somos reapresentados a ela, que, então descobrimos, jamais esteve por total perdida.

Nesse processo arriscado, têm uma presença ainda mais importante do que aparentam a princípio dois aspectos, meus senhores, que lhes revelarei nas próximas linhas. O primeiro a ser a trilha sonora, obra do próprio diretor, sempre se mostrando uma fonte de talentos multifacetada. Leve e raramente intrusiva, a melodia de Whedon, lúdica, é brilhante ao musicar os poemas de Shakespeare e gravá-los na belíssima voz de sua cunhada Maurissa Tancharoen, transformando-os em canções pop que caem como luvas nas várias mãos da inusitada ambientação do filme. E o segundo, mais delicado, é o tom misto nostálgico do filtro de cores da fotografia de autoria de Jay Hunter, que pega a escuridão das trevas, do tempo em que a peça nasceu, da tragédia, e a mescla com a luz das musas, do romance e do riso, e banha os personagens e a trama no mais bem-vindo e adequado preto-e-branco (que aqui merece o uso ultrapassado do hífen), cujas frestas são recheadas pela infinidade de tonalidades cinzentas que compõem os incontáveis mistérios existentes entre o Céu e a Terra, muitos deles por demais distantes de tudo que pode supor nossa vã filosofia.

Dessa forma, pode-se notar, o anacronismo dramático é complementado pelo anacronismo tecnológico, considerando o preto e branco, representante do passado, gerado a partir de uma câmera digital, uma da linha da inovadora RED, tão presente nas recentes quebras de paradigmas de produção do cinema mundial contemporâneo, fazendo-nos lembrar, de novo, o muito barulho por nada que é o drama do digital sobrepondo-se à película.

Assim, os paradoxos, ah sim, os paradoxos são vários, e se comportam em cooperação, em elegante mutualismo audiovisual comandado com tanto esmero pelo grande Joss Whedon, Príncipe dos Nerds, que faz uma das poucas obras que, remetendo ao significado de seu título em todas as facetas possíveis, podem e, da forma mais galanteadora, merecem ser chamadas de comédias dramáticas.

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