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O Lado Bom da Vida

03/02/2013

Todo ano Hollywood nos bombardeia com inúmeras comédias românticas infantilóides que seguem sempre a mesmíssima fórmula pouco condizente com a realidade que nos cerca. Então, vez por outra, juntando a história ideal com o diretor e o elenco certos, aparece um filme maravilhoso como O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012).

Lado Bom da Vida, O - cartaz

Adaptando o livro homônimo escrito por Matthew Quick, o roteiro do diretor David O. Russell nos apresenta a Pat (Bradley Cooper), um homem que foi recentemente diagnosticado com síndrome bipolar depois do incidente que pôs um fim no seu casamento e o colocou em uma clínica de tratamento psiquiátrico. Após ser liberado da internação forçada, Pat volta para casa cheio de vibe positiva, determinado a reconquistar sua esposa Nikki (Brea Bee). Porém, quando é convidado para um jantar por seu amigo Ronnie (John Ortiz), Pat é apresentado a Tiffany (Jennifer Lawrence), uma mulher tão socialmente deslocada quanto ele, por quem logo se apaixona, ainda que leve quase o filme todo para admitir isso para si mesmo.

A previsibilidade da trama é evidente, mas isso jamais se apresenta como um problema, uma vez que o filme não tenta ir contra a natureza da história. Ao contrário da infinita maioria das produções do gênero, O Lado Bom da Vida não tenta fazer grandes suspenses artificiais do que irá acontecer no final. Desde o momento em que Pat e Tiffany interagem pela primeira vez, já fica claro que ambos ficarão juntos. Esse detalhe, a pergunta do “será que eles vão ficar juntos?”, realmente não interessa. O grande diferencial do filme é a cuidadosa construção da relação entre esses dois personagens atípicos, cheios de falhas, mas inegavelmente carismáticos e cativantes. É nesse ponto que o roteiro de David O. Russell se sai vitorioso.

Embora os casamentos de Pat e Tiffany tenham terminado de formas bastante diferentes, a ferida que ambos carregam é pesada o suficiente para fazê-los enxergar e se simpatizar com o sofrimento que o outro enfrenta. Em uma troca de insultos, elogios, desculpas, abraços, desentendimentos, arrependimentos, superações, os dois protagonistas vão construindo uma amizade incomum, porém incrivelmente forte, que ajuda ambos a se reestruturarem emocionalmente. É justamente pela jornada do jovem casal em formação se encaminhar com dificuldade que se torna tão comovente. São dois personagens problemáticos que, conscientes disso, buscam apoio um no outro, inconscientes disso, nunca percorrendo uma estrada fácil por esse caminho, que se mostra cheio de pedras, buracos, desvios e sinais de “Pare”.

Coordenando com competência e delicadeza toda essa confusão de sentimentos que, mesmo contando com seus momentos negativos, apontam para um desfecho positivo, o cineasta David O. Russell demonstra mais uma vez seu peculiar talento para transformar um drama mundano em uma história tocante e divertida que, nas mãos de um diretor menos cuidadoso, certamente tenderia a um excesso de pieguice ou a um dramalhão exagerado. Atento aos menores detalhes, Russell pinça apenas o essencial e se mantém distante desses dois extremos, oferecendo um filme que é doce e amargo ao mesmo tempo, uma dicotomia que inclusive reflete a personalidade do bipolar protagonista.

Interpretando Pat com uma intensidade vibrante e enérgica, Bradley Cooper entrega aqui a melhor performance de sua carreira. Acertando ao empregar uma fala acelerada para ilustrar a ansiedade do protagonista, é incrível como Cooper ainda assim consegue estar em total controle de um personagem que é, em suma, plenamente descontrolado. Compreendendo bem a natureza de seu papel, o ator também incorpora pequenos tiques, como o constante menear da cabeça, em uma sábia escolha que dá mostras da instabilidade psicológica de Pat. Estando o tempo todo mexendo alguma parte do corpo (não à toa, passa boa parte do tempo correndo, para aliviar seus demônios), quando Pat para, percebemos que algo realmente mexeu com ele, e a expressão de cão abatido nos olhos azuis de Bradley Cooper apenas intensifica essa sensação.

Contrabalançando as emoções, entra Jennifer Lawrence vivendo Tiffany como uma mulher incrivelmente forte e decidida, ainda que por vezes frágil. Compondo a personagem quase sempre com um olhar penetrante, o rosto levemente inclinado para frente, num misto de intimidação e apreensão, Lawrence faz de Tiffany uma mulher que, ao mesmo tempo em que tenta assumir seus defeitos, procura se autoafirmar pensando que não precisa ser igual aos outros. Escondendo as feridas emocionais da personagem ao vestir roupas escuras e ao manter uma expressão fechada, Lawrence ainda dispara determinadas falas de Tiffany com tamanho descaso e determinação, que o que poderia ser visto como simples grosseria acaba por ser admirado como força de vontade – às vezes, alguém tem que ser brutalmente honesto. E se Cooper comenta com extrema ingenuidade obviedades que podem machucar, mostrando assim a inocente falta de tato de Pat, Lawrence por sua vez faz Tiffany falar a verdade tendo plena consciência da consequência negativa que esta proporcionará no outro.

Fechando o elenco principal, temos Jacki Weaver como a mãe de Pat, infelizmente dispondo de pouco para desenvolver sua personagem, mas mesmo assim compondo bem uma mulher sinceramente preocupada com a saúde do filho, e sem cair no melodrama; Chris Tucker como um colega de clínica e amigo de Pat, bem mais contido (e gordinho) que o normal; John Ortiz vivendo um amigo de Pat que não aguenta mais o casamento, e que faz o protagonista questionar ainda mais a busca pela restauração do seu próprio com Nikki; e finalmente, temos Robert De Niro voltando à sanidade e à boa forma depois de anos, aqui dando vida ao pai de Pat e transformando o sujeito em um ser quase tão complexo (problemático) como o filho ao apostar acertadamente numa composição em que até mesmo os habituais maneirismos do ator surgem adequados ao personagem.

Assim, repetindo o que fez no ótimo O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) – lembrem que o filme foi indicado a três Oscars de atuação, vencendo dois – David O. Russell mais uma vez demonstra uma competência especial na condução do elenco, elevando cenas de alta dramaticidade a um realismo poucas vezes alcançado no cinema norte-americano atual. Além disso, evitando ao máximo cair no comodismo, Russell ainda consegue subverter alguns desses momentos, quebrando a expectativa do público ao desviar o roteiro de escolhas dramáticas óbvias, assim mantendo a força e o ritmo da narrativa.

Portanto, além de nos apresentar um dos romances mais belos dos últimos anos – que se mostra universal justamente por ser protagonizado por pessoas cheias de falhas – ao seu fim, O Lado Bom da Vida também parece tentar nos dizer que às vezes é preciso encontrar alguém tão errado quanto nós para nos darmos conta de que ter problemas não é algo tão errado assim.

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