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Lincoln

26/01/2013

Abraham Lincoln provavelmente é o presidente mais famoso da História dos Estados Unidos. A silhueta alongada, de um homem muito alto e magro, com o rosto bastante característico e coroado com aquela icônica cartola, já faz de Lincoln uma figura marcante por si. O que o levará a ser lembrado para sempre, porém, não é apenas sua aparência física singular, mas o fato de ter dado um fim na Guerra Civil norte-americana e abolido a escravidão, ao mesmo tempo. Concentrando-se exclusivamente nesse momento histórico da trajetória de Lincoln, o novo filme de Steven Spielberg apresenta os bastidores da batalha do presidente para que a 13ª Emenda, que proíbe a escravidão, fosse aprovada pelo Congresso.

O que o filme não conta é que Lincoln era um grande leitor e simpatizante de Karl Marx, inclusive entusiasta da ideia de que o mercado do trabalho era mais importante que o mercado do capital. A escravidão ia totalmente contra esse conceito. Entre outras questões, era justamente por isso que Lincoln defendia não só a emancipação da escravidão, como a emancipação de toda a classe trabalhadora, de forma que o trabalhador se tornasse dono de seu trabalho e também do produto do mesmo. Mas esse detalhe nem sequer é citado no filme de Spielberg, o que é apenas um dos problemas de Lincoln (Lincoln, EUA, 2012), que é menos um filme de época que uma tentativa desenfreada de transformar o personagem título em uma espécie de herói imaculado e despido de falhas.

Lincoln - cartaz

A abordagem da produção, em apresentar Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) como uma espécie de santo, até não seria um problema em si, caso o filme contasse com uma atmosfera urgente que necessitasse tal entidade. Depois dos letreiros cheios de lamúria embalados pela solene trilha sonora de John Williams, Spielberg abre a narrativa com uma cena de batalha, com soldados brancos e negros se matando, afogando uns aos outros na lama, em uma coreografia falha que lembra o início capenga do fraco Gangues de Nova York (Gangs Of New York, EUA, 2002) (também com Day-Lewis, e provavelmente o pior filme de Scorsese). Em nenhum outro momento encaramos a situação crua da Guerra Civil. São 2h30 de conversas e discussões, algumas mensagens telegrafadas, algumas frases de efeito, mas em nenhum momento sentimos que a história se passa durante uma guerra, com milhares morrendo nos campos de batalha. Claro que alguns diálogos brotam da boca de alguns personagens secundários especialmente para tentar lembrar o espectador de que há uma guerra lá fora, porém o efeito desejado jamais se concretiza – tanto é que no clímax do filme, na votação para aprovar a emenda, sentimos pouquíssima aflição. Sabemos da guerra, mas não a sentimos. Fico me perguntando onde foi parar o diretor de O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, EUA, 1998).

Da mesma forma, a crueldade bárbara da escravidão nunca é retratada propriamente. Ao contrário de Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) – melhor momento de Tarantino desde Kill Bill (EUA, 2003) –, que mostra sem receios os horrores da condição de um escravo, Lincoln se concentra demais em endeusar seu protagonista, e parece esquecer o quadro geral da situação.

No entanto, apesar de não tratar com a profundidade devida o assunto que a trama contempla, Lincoln ainda tem sua reserva de méritos, um dos quais, o modo como o roteirista Tony Kushner estrutura a narrativa, que conta com inúmeros personagens e jamais soa confusa. Voltando a trabalhar com Spielberg depois de sua colaboração no roteiro do excepcional Munique (Munich, EUA, 2005) – melhor filme do diretor da década passada –, Kushner tem a difícil tarefa de apresentar o espectador a uma questão moral enraizada em um viés econômico. A escravidão é um mal para a humanidade, isso é evidente hoje. Mas na época da História em que o filme se passa, 1865, ainda havia muita gente com pensamentos arcaicos, defendendo a condição escrava dos negros, uma vez que estes eram considerados seres inferiores. “Por que dar direitos iguais a aqueles que Deus criou desiguais?”, diz um personagem em certo momento, num claro exemplo da imbecilidade humana embasada em religião (cristã, no caso).

Como se sabe, a Guerra Civil norte-americana dividiu o país entre a União dos estados do Norte, que, sob a liderança de Lincoln, lutava pelo fim da escravidão, e os Confederados do Sul, que se recusavam a soltar os grilhões de seus escravos. Só que o Sul não se agarrava ao modelo escravocrata de vida por questões ideológicas, apenas. Como o personagem de Jackie Earle Haley faz questão de explicar perto do final do filme, toda a economia dos estados do sul era calcada na escravidão, e esse é o motivo principal que faz eles não quererem que a mesma chegue a um fim. Infelizmente, é apenas nessa fala que o roteiro de Kushner aborda a questão por esse ângulo, o que é uma pena. A Guerra Civil retratada no filme é muito menos complexa do que aquela que realmente aconteceu, quase 150 anos atrás. Simplificar um fato histórico é sempre compreensível em uma produção cinematográfica, mas ignorar boa parte da História que o rodeia não.

E é justamente por buscar enaltecer a figura de Abraham Lincoln que se torna incompreensível a escolha do roteirista em ignorar vários dos grandes feitos daquele presidente. Toda a narrativa do longa é direcionada para martelar no espectador que foi Lincoln quem aboliu a escravidão, praticamente sozinho. Mas o filme jamais tenta abordar todas as manobras políticas que o homem realizou enquanto presidente. A famosa Operação Anaconda, que ajudou a União a derrotar o Sul economicamente, não é sequer mencionada. Apenas vemos o protagonista repetindo várias vezes que a 13ª Emenda é a cura para os males do país. Infelizmente, jamais ficamos sabendo como foi o processo de idealização da 13ª Emenda. A narrativa já começa com esse projeto de Lincoln pronto. Porém, considerando o resultado da produção, é justo de se imaginar que a mesma seria enriquecida caso mostrasse os eventos anteriores a aqueles nos quais a trama tem inicio.

Apesar desses problemas, é fácil de constatar que pelo menos tecnicamente Lincoln é impecável. A montagem de Michael Kahn, colaborador habitual de Spielberg, faz a narrativa se encaminhar com tamanha fluidez, que os 150 minutos do filme passam sem que se perceba. A fotografia de Janusz Kaminski mergulha o filme numa luz cinzenta e triste, e apresenta o semblante de Daniel Day-Lewis em vários primeiros planos que ajudam a reforçar a imponência do personagem, sugerida ali pela formidável maquiagem e pela expressão marcante do ator. Além disso, toda a plasticidade que se via em Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011) desaparece em Lincoln, que também conta com uma direção muito mais sóbria de Spielberg, onde se destaca sua condução do magistral elenco, muito embora o cineasta não consiga conter os excessos de Sally Field, que está insuportável como a esposa de Lincoln – sua indicação ao Oscar é prova de que a Academia morre de amores por atrizes chorando em cena.

Lincoln - corpo do texto, LincolnLincoln - corpo do texto, DDL

O Lincoln em si, no entanto, é uma atração à parte. Daniel Day-Lewis mais uma vez nos brinda com uma atuação metódica e magistral. Auxiliado pela excelente maquiagem de Kay Georgiou e Lois Burwell, o ator britânico apresenta um Abraham Lincoln que parece retirado diretamente de relatos históricos. E em nenhum momento o ator denuncia sua origem britânica, apostando em um tom de voz mais ameno para compor seu icônico personagem norte-americano. De fato, pelo menos em meu imaginário, Lincoln teria uma voz grave e cheia de autoridade. Day-Lewis, entretanto, constrói o seu Lincoln com uma fala leve e macia, que envolve o personagem com uma atmosfera de simpatia e humildade, inclusive transformando essa característica em uma das qualidades do presidente enquanto político. Ao invés de usar argumentos estritamente racionais e abusar de falas autoritárias, o Lincoln do filme convence as pessoas através de anedotas simples, relatando pequenas histórias e causos e usando a força da lição de moral contida nelas a seu favor.

Contando ainda com uma ótima reconstituição de época, tanto nos desgastados e realistas figurinos de Joanna Johnston quanto na direção de arte de Rick Carter, que tem o mérito de não chamar demasiada atenção para si, Lincoln até se sustenta como um drama razoável, mas perde a oportunidade de ser a obra-prima que seria caso contasse com a direção de um Spielberg mais audacioso.

Obs: um amigo meu e também cinéfilo, o Homero B. S. Filho, me avisou que os letreiros iniciais não estão presentes na versão original do filme; foram incluídos apenas para o mercado estrangeiro.

2 comentários

  1. guilherme huyer,como você sabe se um filme é apenas ok e não uma obra-prima?


    • Como assim “como eu sei”? É a minha opinião, caramba. Fiz o texto todo defendendo ela.



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