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Jack Reacher

09/01/2013

Lee Child é um escritor norte-americano com 17 livros publicados: todos thrillers cujos mistérios são resolvidos pelo protagonista Jack Reacher, um ex-militar durão e ótimo detetive. Child basicamente escreve um livro por ano desde que estreou na função em 1997, com Dinheiro Sujo. Ao contrário de seu criador, Jack Reacher não é nem um pouco previsível e não mantém qualquer rotina. Ele não tem moradia fixa, está sempre rodando o país e, querendo ou não, se envolvendo em situações de alto risco, quando acaba buscando justiça com as próprias mãos. Jack Reacher segue a própria lei, e foda-se.

Jack Reacher

Um Tiro, lançado em 2005, é a 9ª aventura de Jack Reacher. A primeira a ser lançada no Brasil e, coincidentemente, a primeira a ser levada para as telas dos cinemas. Por que decidiram adaptar primeiro logo o nono livro da série protagonizada pelo personagem que dá título à adaptação cinematográfica, eu não sei dizer. O que eu posso dizer, no entanto, é que Jack Reacher: O Último Tiro (Jack Reacher, EUA, 2012) consegue ser uma excelente adaptação, e um ótimo filme policial.

Na trama do livro transcrito para filme, em uma pequena cidade no interior dos EUA um franco-atirador solitário dispara 6 tiros e abate 5 pessoas. A polícia logo se movimenta, faz a perícia completa da cena do crime (que está lotada de provas), e prende um suspeito: James Barr (Joseph Siroka). Os indícios são tão óbvios, que não há duvidas da culpa do sujeito. Quando o promotor (Richard Jenkins) e o delegado (David Oyelowo) lhe oferecem a chance de confessar e escapar da pena de morte, o homem anota no papel apenas uma frase: encontre Jack Reacher.

Mas Jack Reacher não precisa ser encontrado – nem há tal possibilidade. Assim que vê um noticiário sobre o incidente envolvendo James Barr, Reacher vai imediatamente até lá. A princípio, parece que os dois são amigos, mas Reacher não perde tempo em dizer que só apareceu para ter certeza de que Barr será condenado. Reacher sabe do passado obscuro de Barr, de quando ele se safou de um crime pelo qual deveria ter sido punido. Mas, ao ser convencido pela advogada da defesa, Helen Rodin (Rosamund Pike), a dar uma olhada nas evidências do caso, o lado investigativo de Reacher é acionado, e ele passa a desconfiar daquela cena do crime, que começa a parecer perfeita demais e a soar como a ponta de uma grande conspiração.

Embalado por acordes firmes da boa trilha de Joe Kraemer, o começo do filme contrasta a preparação do matador com cenas aéreas da cidade, numa sequência tensa que, embora seja uma abertura muito boa, em que somos obrigados a observar as vítimas através do ponto de vista da mira de um rifle, já consta como um dos principais problemas do filme (enquanto adaptação, pelo menos). Vemos o rosto do atirador logo nos minutos iniciais. Assim, quando prendem Barr, já sabemos que ele não é culpado. Logo, o suspense que havia no livro quanto à inocência de Barr é totalmente descartado pelo filme, o que é uma pena.

Por outro lado, o diretor/roteirista Christopher McQuarrie acerta muito mais do que erra em sua tarefa de transformar em cinema a escrita leve e direta de Lee Child. A começar, por economizar um bom tempo ao apresentar as características do atentado ainda nessa sequência de abertura, sem nenhum personagem precisar abrir a boca – e aqui merece menção a montagem de Kevin Stitt, que consegue apontar todos os aspectos da cena que merecem destaque sem perder o ritmo acelerado desse começo de narrativa. Ainda na linha de economia narrativa, a apresentação de Jack Reacher é realizada de modo formidável, seguida de perto pelo bom resumo a respeito das condições médicas de James Barr.

Enquanto roteirista, McQuarrie revela ainda outras decisões corretas à medida que a trama começa a andar. Em um dos melhores momentos do filme, há a inclusão de flashbacks que precedem o tiroteio: vemos as vítimas em seus últimos momentos, com a voz de Helen narrando sobre suas vidas, enquanto lê o relatório da polícia. Em seguida, numa quebra de expectativa, é a voz de Reacher que se sobrepõe às imagens, com sua fala desconstruindo a idealização sobre aquelas pessoas, e justamente por isso as tornando ainda mais humanas, transformando seu fim em uma situação muito mais trágica e real.

Continuando a lista de acertos, além de cortar fora alguns personagens e descartar pelo menos uma subtrama que de fato não influenciam grande coisa no foco da história, talvez o maior acerto do roteiro de McQuarrie seja a pequena modificação no terço final da história, que torna o terceiro ato do filme muito mais plausível do que seria caso seguisse radicalmente o material original, que forçava a barra em alguns aspectos.

Porém, nem tudo são flores, infelizmente. E o ótimo roteiro do filme possui sua parcela de erros. Sem contar o já mencionado fato de que sabemos desde o início que Barr não é culpado, outros detalhes negativos são a motivação de um dos vilões principais, que nunca é bem esclarecida (por mais óbvia que seja, merecia um tratamento mais consistente), e a justificativa para toda a mobilização do crime que move a história. Esse último, o maior dos problemas, pois é uma grande falha que poderia ter sido facilmente evitada*.

Se, enquanto roteirista, McQuarrie apresenta uma parcela de erros e acertos de forma equilibrada, enquanto diretor ele demonstra ter evoluído bastante desde sua estreia na função, com A Sangue Frio (The Way Of The Gun, EUA, 2000), mais de dez anos atrás. Se naquele filme havia alguma falta de ritmo e de aprofundamento dramático, o mesmo não ocorre em Jack Reacher, que prende a atenção desde os minutos iniciais e não perde o interesse do espectador em momento algum. E da mesma forma que os problemas de A Sangue Frio foram deixados para trás, os méritos daquele trabalho recebem um novo polimento aqui. As cenas de ação são muito bem coreografadas e, fotografadas com elegância pelo cinegrafista Caleb Deschanel (pai de Zooey), entre elas ganha destaque a tensa perseguição noturna que, jamais confundindo o espectador, consegue construir uma sequência complexa em que nosso protagonista surge perseguindo um carro enquanto ele mesmo é perseguido por outros.

Indo além, McQuarrie também é esperto ao retratar gradualmente a cidade na qual a história se passa como um município em expansão urbana, cheio de obras em andamento, uma vez que esse detalhe desempenha papel importantíssimo na trama. E o cineasta comprova ter noção do potencial do material que tem em mãos ao não retrair a dose de humor presente na história original, assim preservando, no filme, todas as frases de efeito proferidas pelo protagonista no livro.

É claro, porém, que todos os acertos de McQuarrie e do restante da equipe que fez o filme não seriam de grande efeito caso o escolhido para interpretar Jack Reacher falhasse em sua função. E Tom Cruise não falha. Aliás, acerta em cheio, e com estilo.

Quando foi anunciado que seria Cruise o intérprete de Jack Reacher, muitos dos fãs do personagem entraram em mimimi coletivo, reclamando da escolha. A queixa geral era a de que, nos livros, Reacher tem 2 metros de altura, enquanto que Cruise tem 1,70m. Frescura. O próprio Lee Child comentou que adaptar um livro para o cinema sempre implicará nessas mudanças eventuais e que Tom Cruise na verdade até havia sido uma ótima escolha. E concordo.

Com uma fala decidida e um olhar penetrante, Cruise constrói Jack Reacher exatamente como descrito por Child. Evocando características de dois personagens marcantes de sua carreira, o mocinho Ethan Hunt (da série Missão Impossível) e vilão Vincent (de Colateral), o ator consegue expor a natureza moralmente independente de Reacher, um sujeito que não responde a ninguém e age por conta própria. E chuta bundas exponencialmente.

Para servir de contrapeso a um herói (ou anti-herói?) tão indestrutível, só mesmo alguém como Werner Herzog. Um repórter ousado questionou se Herzog “um dia dirigiria um filme grande como Jack Reacher”. O veterano diretor respondeu, modestamente: “Já dirigi filmes maiores que Jack Reacher. Jack Reacher é apenas mais caro”. Mas, deixando a teimosia alemã de lado, e demonstrando um soberbo senso de humor autocrítico, Herzog aceitou participar do projeto interpretando o vilão da história, um imigrante russo muito malvado e com um sotaque bastante carregado. O fato de o personagem ser russo e o cineasta ser alemão pouco importa, pois Herzog tem naturalmente aquela cara de malvado, um sotaque sinistro, e consegue soar ameaçador como poucos sem grande esforço. E é preciso reconhecer que a persona do mestre alemão caiu como uma luva para interpretar O Zec. Só é um pouco lamentável que as motivações do grande vilão do filme não sejam devidamente exploradas, sendo colocadas à mostra rapidamente em alguns diálogos um tanto expositivos, mas que o grande Werner Herzog dispara sem o menor rancor e com a maior frieza do mundo.

No final, mesmo com os deslizes na construção da trama, Jack Reacher é um thriller muito bom, com muito mais acertos do que erros, e que nos apresenta a um protagonista que merece com certeza voltar a aparecer na telona do cinema.

*(Spoiler: no livro, Ted, o marido de uma das vítimas, Oline Archer, havia sido assassinado pelos vilões da história porque, trabalhando no mesmo ramo que eles, a construção civil, tinha descoberto que a empresa deles estava envolvida em situações ilícitas. Para evitar que a notícia se espalhasse, os vilões dão um sumiço nele. Uma morte é fácil de encobrir. Mas então a esposa dele começa a suspeitar do desaparecimento do marido, e começa ela mesma a fazer uma investigação do assunto e a falar com pessoas sobre a tal empresa. Para encobrir a segunda morte, despistar as suspeitas e garantir os contratos milionários que conseguiram com seu jogo sujo, os vilões armam aquele esquema que dá o pontapé inicial na narrativa. No filme, Ted nem é mencionado, e Oline é morta apenas porque não quis vender a empresa do marido para a empresa dos vilões. Mas, pergunto, o que eles ganhariam matando a proprietária da empresa que desejam adquirir? É um furo que não precisava existir).

One comment

  1. Pô. Só eu que não estou lembrando da trilha sonora? Nem achei marcante. Na verdade, eu só lembro de tocar “Jump Around” numa cena e ter achado que era a versão do Cypress Hill.

    Legal a ideia de ter um suspense no livro sobre a inocência do cara. Realmente o filme ganharia mais usando isso…



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