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Há tempos que eu queria ler alguma coisa de John Grisham

04/01/2013

Há tempos que eu queria ler alguma coisa de John Grisham. É um dos escritores que eu mais ouvi falar desde que parei para prestar atenção em livros. Na casa e no escritório do meu avô, sempre encontrei livros de John Grisham espalhados pelos cantos. Jack Higgins e Jeffrey Archer também eram nomes constantes, mas meus avós só comentavam sobre o Grisham. Minha curiosidade aumentava. Mas eu já tinha muitos livros não lidos no meu quarto (ainda tenho), e não me sentia confortável lendo qualquer livro que não fosse um desses empilhados nas minhas estantes, clamando por olhos que o devorassem. Teimosia.

Depois, quando fui me tornando mais cinéfilo, descobri que alguns livros do Grisham já haviam sido adaptados para o cinema. E, teimosia de novo, eu decidi que queria ler os livros antes de ver os filmes. E queria fazer na ordem cronológica. Ignorei o que eu pensava sobre primeiro ler todos os livros que eu tinha, e fui procurar um exemplar de A Firma nas livrarias. Encontrei um, mas achei que estava caro demais. Quase R$60,00 por um livro de edição preguiçosa com menos de 400 páginas. Não comprei.

O tempo passou e eu deixei de frescura. Bom, abri mão de algumas delas. Vi dois filmes adaptados de livros do John Grisham. A Firma (The Firm, EUA, 1993) e O Júri (Runaway Jury, EUA, 2003). Gostei muito de ambos. Mais recentemente vi Tempo de Matar (A Time to Kill, EUA, 1996) e gostei ainda mais. Claro que fiquei ainda mais curioso em ler alguma dessas tramas, e não apenas assistir. Mas era vestibular, depois eram leituras na faculdade, e depois o hábito de ler se perdeu, voltou brevemente, se perdeu de novo, fico nessa gangorra, e agora parece ter voltado com saúde.

Depois de assistir a O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, EUA, 2012), tomei vergonha na cara, aproveitei o embalo do filme e o início das férias, e li o livro, que eu tinha há anos. Uma leitura bem mais leve do que o esperado, considerando todos os comentários negativos sobre a escrita de Tolkien que já ouvi.

Ainda antes de começar O Hobbit, eu estava lendo (e gostando) de Fios de Prata, do Raphael Draccon. Mas o livro apresentou uma reviravolta ridícula no terço final da história e que me trancou a leitura. Então, voltei minhas atenções para Uma Princesa de Marte, do Edgar Rice Burroughs, do qual eu tinha apenas lido o comecinho, para ver como era.

Não sei se foi o espírito das férias ou se o livro era realmente bom (é bom, sim), mas devorei o curto livro em pouco tempo. Fui com meus pais para a casa do meu avô no dia 31, onde comemoraríamos a virada do ano, e me faltavam apenas umas 60 páginas para terminar essa ficção científica que a Disney adaptou para o cinema e transformou no fracassado John Carter: Entre Dois Mundos (John Carter, EUA, 2012) – me refiro apenas aos números da bilheteria; não sei se o filme é bom ou ruim, pois ainda não vi, mas, desde que terminei o livro, fiquei com vontade de tirar essa conclusão.

Chegamos lá perto do meio-dia, e antes das 14h eu já tinha terminado o livro. Não sei como é o ritmo de leitura de vocês. O meu é, no geral, extremamente lento, independente da qualidade do material. Leio devagar pra caramba. Logo, ler 60 páginas em menos de 2h me deixou um pouco orgulhoso. Surpreso e orgulhoso. E empolgado. Eu não tinha levado mais nenhum livro, pois tinha certeza que a leitura do final de Uma Princesa de Marte demandaria a tarde toda (eu estava determinado a terminar livro ainda em 2012).

Então, para não perder o ritmo de leitura, eu comecei a vasculhar a casa por algum livro para ler. E, logo no começo dessa busca, me deparei com O Recurso, o livro do John Grisham mais recente que havia na casa dos meus avós. Abri para ler a primeira página, e tive que virar a mesma para ler a segunda, e a terceira, e antes que eu percebesse, tinha lido 20 páginas. Faltou luz de noite e eu estava no meio do parágrafo. Fiquei clicando nas teclas do celular para ter alguma luz e conseguir terminar pelo menos aquele parágrafo (eu não consigo parar a leitura no meio de um parágrafo, nunca). E fui até o fim do capítulo.

A luz voltou, mas foi embora na madrugada, desligando o ar condicionado, e me acordando de calor às 5h30. Tentei dormir de novo, mas não teve jeito. Peguei o livro e continuei lendo na cama. Li até a página 50. Desci, comi alguma coisa, peguei o livro do quarto e fiquei lendo na sala. Terminou o dia, e eu tinha passado da página 100. Mais de 100 páginas em um dia é lindo, para mim. Conheço gente que lê livros inteiros em questão de horas, mas, dentro dos meus parâmetros, ler 100 páginas em um dia é uma média excelente.

Enfim, terminei de ler o livro agora. Poucos minutos atrás. E tenho algumas considerações.

Além dos elogios que vinham dos meus avós, a única outra opinião sobre John Grisham que eu tinha conhecimento eram os breves comentários do crítico de cinema Pablo Villaça, da época em que ele teve uma conta do Formspring. Ali, ele comentou que considerava Grisham um cara superestimado, que tinha um ótimo talento para criar situações, mas que não sabia como resolvê-las propriamente.

Agora, depois de ter lido O Recurso, entendo o que ele quis dizer. Não sei quanto ao resto das obras de Grisham, mas em O Recurso é exatamente isso que acontece. E não só.

É um livro muito bom. A trama tem uma estrutura irregular, mas que prende muito bem a atenção do leitor e consegue apresentar as várias frentes da história de modo competente, sem confusão. O primeiro terço do livro, com certeza, tem esse mérito.

O segundo terço do livro já apresenta um pequeno problema de ritmo, levando muito tempo para a narrativa voltar a determinados personagens, que ficam sem serem mencionados por várias páginas. Mas isso é um problema pouco perceptível e que não atrapalha a leitura, já que Grisham tem uma escrita leve e de fácil absorção. Mesmo demorando quase 50 páginas para alguns personagens voltarem à tona, a leitura chega até eles com rapidez. E grande parte desse mérito cabe à trama bem elaborada, em que Grisham expõe sem dó os mais sujos atos de campanha eleitoral.

No meio dessa estrutura narrativa intrigante, mas problemática, percebe-se outro problema, que é falta de um protagonista bem definido. Se no começo da história nos parece óbvio que a narrativa acompanhará o casal composto pelos advogados Wes e Mary Grace, o segundo ato foca mais atenção à juíza Shirley McCarthy, e a terceira parte do livro fala quase exclusivamente do candidato Ron Fisk.

Mas o que estraga o sabor mesmo está na resolução da trama. Um acontecimento absurdamente forçado e dispensável toma conta do terceiro ato do livro, que deixa de ser um drama jurídico por um momento para se tornar um dramalhão familiar bem construído, sim, mas totalmente fora de contexto.

Eu diria que O Recurso é uma leitura absolutamente válida e muito interessante, mas que tropeça em suas páginas finais. É uma reviravolta que não acrescenta nada à narrativa, e apenas dispersa a atenção do foco principal. Uma pena. Mesmo com os deslizes pontuais espalhados pelo livro, John Grisham tinha criado um rico panorama sobre um dos problemas mais graves do sistema jurídico dos EUA. Não precisava mesmo daquela dose de drama pingando nas últimas páginas.

O Recurso (The Appeal, 2008)
John Grisham
Editora Rocco, 384 páginas

4 comentários

  1. Obs: esse livro daria um ótimo filme se fosse adaptado por Michael Mann ou David Fincher. Bastava que um bom roterista, tipo o Tony Gilroy, alterasse o final da história.


  2. BBB é melhor que o ato de ler


    • Espero que o comentário seja irônico.


  3. Gostei! Sou um grande apreciador do John Grishan, tenho 25 livros dele. Estou lendo o vigésimo quarto. Realmente alguns finais não são dignos do restante do livro. Essa percepção, penso, é contundente no livro, O Sócio, que inclusive, tem passagens no Brasil!



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