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Tinker Bell: O Segredo das Fadas

15/10/2012

No imaginário popular, a Tinker Bell, ou Sininho, como foi originalmente conhecida pelo público brasileiro através da já clássica animação da Disney sobre Peter Pan, se antes talvez pudesse ser resumida à fadinha ciumenta* que acompanhava o menino que não queria crescer em suas aventuras pela Terra do Nunca concebida pelo genial J. M. Barrie, nos últimos anos, de forma um tanto inesperada, acabou por tornar-se protagonista de uma franquia da Disney voltada especificamente para o público infantil feminino, alcançando considerável sucesso, visto que este Tinker Bell: O Segredo das Fadas (Secret Of The Wings, EUA, 2012) se apresenta como nada menos que o quarto exemplar da série, sendo o primeiro a ganhar lançamento nos cinemas brasileiros.

Só por esse detalhe de lançamento fora de contexto, infelizmente, o longa já começa problemático. Apresentado pela publicidade como uma fábula integral, O Segredo das Fadas acaba falhando em introduzir o espectador ao universo das fadas que protagonizam a história, visto que essa tarefa tinha ficado a cargo dos filmes anteriores. Assim, por mais simplória que seja a narrativa (e, de fato, é esse o ponto mais fraco do projeto), qualquer um que não tenha assistido a pelo menos o primeiro filme da franquia estará no mínimo deslocado quanto ao envolvimento emocional com os personagens, detalhe que, ainda mais em uma historinha tão rasa, se mostra um grande problema.

Tecnicamente mediano, com uma animação que alterna entre o satisfatório e o medíocre, O Segredo das Fadas falha em desenvolver a irmã de Sininho de forma mais convincente, já que a mesma surge sem grande personalidade, basicamente uma versão menos impulsiva da protagonista. E não deixa de ser decepcionante que o roteiro de Tom Rogers e Ryan Rowe prefira jogar diálogos incrivelmente expositivos para exaltar a similaridade entre as irmãs, ao invés de conceber cenas que retratassem esses detalhes.

No entanto, se o roteiro não se esforça para ao menos diferenciar as fadinhas decentemente, o designer de produção Chris Oatley realiza um belo trabalho na direção de arte, de modo que, se tropeça na concepção das paisagens em grandes tomadas aéreas (algo que é mais culpa dos animadores que do desenhista), pelo menos demonstra a mesma viva criatividade vista nos longas anteriores quanto à criação dos cenários do cotidiano das fadas do verão, em um estilo delicado que jamais deixa de evocar de forma minimalista a cenografia do clássico As Aventuras de Peter Pan (Peter Pan, EUA, 1953), não esquecendo de retratar as fadas do gelo de modo singelo e particular, onde se destaca o salão gelado do Guardião.

Contando ainda com uma trilha sonora maravilhosa de Joel McNeely, na mesma linha do que acontecia nos outros episódios da série, O Segredo das Fadas tem sua aventura recheada com composições alegres e contagiantes, sempre pontuadas por melodias que remetem de forma graciosa à música celta, em decisão brilhante do compositor, uma vez que grande parte do universo criativo do filme é inspirado diretamente na mitologia celta.

Só é uma pena, portanto, que a maior parte do roteiro de Rogers e Rowe se mostre tola e frágil, a ponto inclusive de, para criar a atmosfera de tensão que envolve o terceiro ato, precisarem incluir na narrativa um evento cuja consequência não se justifica de modo algum, se agarrando a uma desculpa furada que é forçada demais até para um filme cujo público-alvo engloba crianças com, digamos, não mais que 10 anos de idade. Ainda assim, bem intencionados, os roteiristas ao menos conseguem criar um arco narrativo que é bem sucedido em defender valores humanos importantes para a formação infantil, como solidariedade e sustentabilidade, além de incitar corajosamente a curiosidade dos pequenos – característica ideológica que, devido à natureza exploradora e teimosa da protagonista, se apresenta invariavelmente como uma espécie de marca registrada da série.

*O Giordano, companheiro de Fila K, sendo entusiasta e bastante fã da obra de J. M. Barrie, me comentou que, na realidade, classificar a Sininho como a companheira ciumenta de Peter Pan seria um tremendo reducionismo, visto que, ao menos dentro do contexto da história original, as fadas foram concebidas por Barrie como seres cuja demasiada pequenez os impossibilitava de demonstrar mais de um sentimento por vez, o que explicaria o ciúme marcante da personagem em determinadas passagens da narrativa. Tal peculiaridade dessa classe de criatura fantástica, inclusive, enriqueceria a obra original, no sentido de ser uma eficiente metáfora para o impulsivo comportamento infantil. Logo, preciso concordar que o conceito de Barrie é totalmente ignorado pela franquia protagonizada por Sininho, onde a personagem fala, confabula e tem conflitos psicológicos mais complexos do que permitiria a ideia inicial do criador da mesma. Ainda assim, em toda sua criatividade temática, considero a série como um esforço válido, ao menos no que se refere aos dois primeiros longas.

One comment

  1. “Peter Pan” é um dos clássicos preferidos de minha infância, mas hoje não vejo com bons olhos essas continuações que fazem com os clássicos Disney e nem esses filmes dados para um outro personagem.



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