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Ruby Sparks

12/10/2012

Ruby Sparks (Zoe Kazan, neta de Elia Kazan) é uma garota doce, querida, divertida, sexy, companheira. Tipo a minha namorada. Só que Ruby Sparks não existe. Ela brotou da imaginação do escritor Calvin (Paul Dano) – pois é, Ruby pode ser vista como uma versão feminina do Haroldo. Um dia Calvin teve um estalo criativo e, depois de tempos sem saber o que escrever após ter lançado seu primeiro livro (sucesso indiscutível), se pôs a escrever páginas e mais páginas a respeito da moça dos seus sonhos. Calvin está literalmente apaixonado por sua criação. Só que, certo dia, essa moça, Ruby, se materializa na casa de Calvin, e passa a interagir com o sujeito como se estivessem juntos desde que o mundo é mundo. Depois de comprovar para si e para o irmão que ela é realmente movida pela escrita de Calvin, o apaixonado começa a de fato namorar Ruby, e promete nunca mais escrever sobre ela.

Assim, propondo uma interação extrema entre artista e obra, a premissa de Ruby Sparks se mostra bastante interessante, principalmente por permitir interpretações diversas a respeito do estado psicológico no qual o protagonista se encontra e o que o motiva a criar Ruby. No entanto, esse novo filme dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris (de A Pequena Miss Sunshine), apesar do início promissor e de eventuais momentos inspirados, não consegue sustentar a ousadia por muito tempo, preferindo apostar em um drama artificial e forçado no lugar de investigar mais profundamente as questões de moralidade propostas pela situação fantástica que move a trama, tarefa que, por exemplo, é realizada com excelência pelo ótimo Mais Estranho Que a Ficção (Stranger Than Fiction, EUA, 2006), que explora basicamente a mesma premissa, porém de modo muito mais competente.

E se você escreve sobre um personagem com o qual sonhou, de repente esse personagem ganha vida e sempre que você voltasse a escrever sobre o dito personagem, alterasse imperativamente as ações do mesmo? Ou seja, e se você pudesse mandar em uma pessoa simplesmente ao escrever no papel o que deseja que ela faça? É uma discussão complicada. Por um lado, o personagem é fruto da sua imaginação, e não existiria se não fosse por você. Mas isso te dá o direito de decidir indefinidamente a vida dele (ou dela, como é o caso)? Se fosse assim, os pais não poderiam mandar na vida dos filhos o tempo todo? Excluindo as razões morais, não podem porque de fato não têm o poder para tal. Mas Calvin tem poder sobre Ruby. Poder total e absoluto. Isso lhe dá o direito de fazer o que bem entender com ela? Emblemática semelhante se encontra na questão da clonagem ou da robótica, tema que a ficção científica já debateu em histórias como A Ilha ou Eu, Robô. O clone/robô foi criado especificamente para o fim de obedecer a seu criador. Mas, e se a criação, no caso aqui, a personagem, forma uma consciência própria? O direito do criador sobre a criação não entraria em um confronto ético com o direito inerente a própria criação?

São perguntas que o roteiro aborda apenas perifericamente, pouco desenvolvendo em pontos de vistas que incitem o espectador a refletir sobre o assunto. Ruby surge na vida de Calvin e a trama se concentra em explorar um tipo de situação cômica que, mesmo gerando alguns dos momentos mais engraçados do filme, não é o bastante para salvar o mesmo da mediocridade, principalmente porque o elemento narrativo do qual essas empreitadas cômicas nascem é incrivelmente vazio. Depois de relutar bastante em levar Ruby para passar um fim de semana no interior com sua mãe (Annette Bening) e seu excêntrico padrasto Mort (Antonio Bandeiras), Calvin finalmente concorda e… passa o fim de semana todo isolado de todos, lendo um livro, alegando que teria prometido a um amigo que leria tudo até a semana seguinte para então enviar suas impressões, mas, sendo esse detalhe solenemente ignorado pelo roteiro tanto antes quanto depois do evento, somos levados a crer que Calvin simplesmente não tinha a menor vontade de conviver com seus familiares. Mesmo com uma namorada exemplar, e que claramente se mostrava adorando sua família (numa interação recíproca), Calvin preferia se calar e baixar a cabeça para um livro, sem a menor justificativa. Sim, apresentar para seus pais a namorada que você literalmente inventou não deve ser uma tarefa das mais fáceis, mas, considerando que Calvin e Ruby estavam juntos há meses (como os personagens insistem em afirmar, já que a montagem do longa pouco sugere a respeito da passagem do tempo), com Calvin já plenamente à vontade com o fato de estar namorando uma mulher que ele mentalizou, é ridícula a decisão da roteirista Zoe Kazan de colocar Calvin emburrado em um canto escuro enquanto toda família se diverte com Ruby.

A partir deste evento, o roteiro encontra a desculpa furada para jogar uma arbitrária atmosfera de desentendimento sobre o casal, e o filme lentamente desaba. Do nada, Ruby alega que está se sentindo solitária e que precisa conviver com mais pessoas. Como assim, se nos últimos, sei lá, sete meses, estava tudo bem? Em momento algum fica claro o porquê da atitude de Calvin durante o fim de semana e o porquê do decorrente incômodo de Ruby.

Evitando maiores spoilers, apenas comento que Calvin acaba vitima da mesma síndrome que abateu o personagem de Adam Sandler em Click. A solução que o personagem encontra para tentar resolver o problema leva a outro problema, cuja solução leva a outro problema, e depois a mais outro, até que se chega ao mesmo ponto onde o primeiro problema começou. É verdade, como já dito, que este ciclo de eventos conta com as cenas mais engraçadas da história, graças quase que exclusivamente a performance enérgica e viva de Zoe Kazan, que, além de escrever o roteiro, interpreta Ruby com imenso carisma, merecendo aplausos por utilizar o clichê a seu favor. E aí também entra o mérito de Dayton e Faris na direção, que fazem uso criativo de situações óbvias de modo exemplar (como na cena em que Calvin solta a mão de Ruby para falar ao celular), embora se mantenham no piloto automático durante o restante do filme, pouco explorando o caráter metalinguístico do projeto.

Responsável por fazer de Ruby uma criatura adorável, mesmo em momentos irritáveis, Zoe Kazan surge como uma bela promessa de atriz, soando cada vez menos artificial à medida que  a narrativa passa, roubando toda a atenção do filme, consequentemente ofuscando por completo a performance morna de Paul Dano (que se esforça, mas pouco pode fazer com um personagem tão chato, um sub-hipster sem personalidade com aqueles wayfarer irritantes). A decisão acertada da figurinista Nancy Steiner em preencher o guarda-roupa de Ruby com cores vivas e fortes ao passo que Calvin fica restrito a tons neutros, como o bege e o cinza claro, apenas torna essa dicotomia ainda mais marcante. Embora de “mentira”, Ruby é muito mais viva que Calvin, que, em sua rotina tediosa, colocou em sua criação tudo que estava faltando em sua própria vida: alegria e cores. Só é mesmo uma pena que o longa não consiga equilibrar a dinâmica entre Ruby e Calvin, uma vez que a primeira surge muito mais divertida e interessante que o segundo.

Bem pontuado emotivamente graças à ótima trilha sonora incidental, que utiliza canções num acertado misto de alegria e melancolia, Ruby Sparks falha terrivelmente logo naquele que deveria ser seu momento de maior apelo dramático. (spoiler até o final do texto) Ao finalmente revelar para Ruby que é dono dela, sentado em frente a sua máquina de escrever, Calvin prossegue em uma ridícula sequência de comandos para cima da namorada, tão aleatórios e egocêntricos quanto, pasmem, mandá-la andar de quatro pela sala imitando um cachorro. O patético é ver o coitado do Paul Dano precisando datilografar raivosamente enquanto exibe um olhar triste no rosto, que aos poucos vai se enchendo de lágrimas, mas que jamais o faz parar de humilhar Ruby de todas as maneiras possíveis. E o mais triste da cena, no entanto, é se dar conta de que foi a própria Zoe Kazan que se auto impôs tal degradação, uma vez que interpreta uma personagem do próprio roteiro.

Para completar, devido aos eventos felizes e conciliatórios vistos nos minutos finais do filme, Ruby Sparks ainda propaga e defende a perigosa ideia de que, não importa o quanto você erre ou machuque uma pessoa, por mais repulsivos que sejam seus atos, um simples pedido de desculpas sempre irá consertar a situação.

Embora todos devessem ter em mente que para certas ações não há perdão.

3 comentários

  1. um recado : ruby sparks não é ruim.


    • Discordo. Tenho 1434 palavras defendendo meu ponto de vista. E você?


  2. Poxa, tudo bem que era demais pedir um novo “Pequena Miss Sunshine”… mas eu nem sabia que esse filme estava em cartaz! haha



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