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Poder Paranormal

30/09/2012

Poder Paranormal (Red Lights, EUA/Espanha, 2012) é uma das maiores decepções do ano. Não é um filme ruim, não é um filme chato, não é um filme mal produzido. Mas é uma decepção descomunal, porque a única coisa mais frustrante que um filme genuinamente ruim é um filme bom que acaba mal. Como bem disse o personagem interpretado por Johnny Depp em Janela Secreta: o final é o mais importante. Só que, ao contrário do que acontecia naquele ótimo suspense dirigido por David Koepp, o final de Poder Paranormal é muito ruim.

Depois de ser levado às alturas pelas incontáveis críticas positivas que o excelente Enterrado Vivo (Buried, EUA/Espanha, 2010) recebeu, o diretor/roteirista espanhol Rodrigo Cortés recebeu o aconchegante abraço dos estúdios hollywoodianos que apareceram para bancar seu próximo projeto e, consciente de que a temática da história necessitaria de atores talentosos para torná-la verossímil, não relutou a chance de chamar nomes de peso como Sigourney Weaver e Robert De Niro para estrelarem seu novo trabalho.

Abrindo a narrativa com os pesquisadores Tom Buckley (Cillian Murphy) e Margaret Matheson (Weaver) investigando uma casa cujos moradores alegavam estar amaldiçoada, o roteiro escrito pelo próprio Cortés é esperto em enganar o espectador, dando ares de história sobrenatural à trama, apenas para, na cena seguinte, oferecer uma explicação racional completa sobre os eventos supostamente paranormais que acabamos de testemunhar. Assim, ao buscar uma linha de enredo mais racional e menos especulativa, Poder Paranormal já se diferencia de tantas produções do gênero “atividade paranormal” e, quando o famoso médium Simon Silver (De Niro) volta à ativa depois de quase 40 anos, seguimos os dois céticos protagonistas em sua tentativa de desmascarar o sujeito, que já havia sido confrontado por Margaret no passado.

O interessante do roteiro de Cortés é que o objetivo da trama não é declarado logo de cara. Porém, se esse detalhe poderia ser um problema, o mesmo acaba se revelando, na verdade, um acerto. Ao explicar em detalhes os complexos métodos utilizados por falsários para enganar as pessoas (e bagunçar suas crenças, e esvaziar seus bolsos), o filme estabelece com cuidado as bases do universo investigativo no qual os personagens estão inseridos, e assim fundamenta sua temática de modo palpável e sério. Além disso, o roteiro encontra tempo para ancorar os personagens em dramas convincentes, fugindo da superficialidade, e criando criaturas com sentimentos profundos que invariavelmente ganham nossa empatia.

Mantendo pleno controle sobre seu filme, Cortés, diretor inteligente, usa o lento desenvolvimento da narrativa a seu favor, construindo um clima de tensão que cresce à medida que a história avança. E, para isso, além de contar com a ajuda do diretor de fotografia Xavi Giménez para mergulhar as cenas em um opressor tom de cinza, o cineasta completa a equação ao arrancar de Robert De Niro uma de suas melhores atuações dos últimos anos.

Se em Enterrado Vivo Cortés extraiu uma performance visceral de Ryan Reynolds, que até então era tido como um Ben Affleck da vida, em Poder Paranormal não fica difícil para o espanhol calibrar seu elenco da forma que quiser, dando a De Niro a oportunidade de criar um antagonista amedrontador – e é ainda mais gratificante o fato de o ator fazer isso apenas com falas bem lançadas e alguns sorrisos cínicos. Para que a história tivesse efeito, pois é uma história com escopo relativamente pequeno, o intérprete de Simon Silver precisava se fazer crer como uma verdadeira ameaça envolta em mistério, e Cortés e De Niro trabalham juntos para garantir isso, com a cena do vidro quebrando em um camarote durante uma apresentação de Simon se destacando como um momento especialmente macabro que martela com efeito o perigo representado pelo sujeito.

Para equilibrar a situação, Sigourney Weaver e Cillian Murphy surgem como uma dupla curiosa e interessante, cuja química mentor/aprendiz chega a ganhar contornos tocantes graças à delicadeza com que a relação é mostrada pelo diretor. Evocando as personagens duronas que compõem boa parte de sua carreira, Weaver faz de Margaret Matheson uma mulher forte e decidida, mas evita pintar a personagem como o estereótipo da psicóloga ou da cientista cética, tão comuns em Hollywood. Pelo contrário, é possível ver nos olhos e na expressão fechada de Margaret uma amargura ressentida que a atriz solta de modo emocionante naquela que é uma das cenas mais fortes do longa.

É (a princípio) justamente essa tragédia pessoal do passado de Margaret que impulsiona o físico Tom Buckley a investigar Simon por conta própria, mesmo contra a orientação da tutora. É uma dedicação forte que Cillian Murphy não encontra problemas em retratar de modo satisfatório e pleno, ainda mais quando tem como amparo emocional a estudante Sally Owen, interpretada de forma contida (mas eficaz) por Elizabeth Olsen. Em um momento já para o final, quando Buckley e um estagiário estão apressados procurando alguma falcatrua captada nos vídeos dos testes que o pesquisador vivido por Toby Jones fez com Simon para tentar provar os “poderes” do sujeito, podemos ver Murphy totalmente imerso no papel, chegando a uma intensidade admirável.

Trabalhando também como montador, Cortés mantém o pulso firme na narrativa, transformando o terceiro ato de Poder Paranormal em algo deveras tenso e instigante, fato para o qual contribuem a sinistra trilha sonora de Víctor Reyes e o bom design de som do filme, que usa os barulhos da chuva e do vento de modo exemplar para incrementar a atmosfera de pesadelo na qual o filme é mergulhado em seus minutos finais.

Assim, depois de apresentar uma brilhante reviravolta a respeito dos artifícios de Simon Silver, Rodrigo Cortés escolhe simplesmente destruir tudo que vinha fazendo com tanta competência ao apresentar uma tola revelação final que, mesmo explicando algumas situações forçadas (como os equipamentos explodindo no laboratório ou os pássaros mortos) e justificando em parte a obstinação de Tom Buckley, vai contra absolutamente tudo que o longa vinha defendendo até então, e infelizmente mergulha Poder Paranormal em uma profunda aura de decepção.

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