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Headhunters

30/08/2012

Ex-corretor de ações, analista de contas e jornalista, e músico amador por gosto (era vocalista da desconhecida banda Di Derre), o norueguês careca com cara de psicopata Jo Nesbø, após se dedicar integralmente ao ofício da escrita criativa, optando por histórias policiais e contando com alguma considerável dose de criatividade, em pouco tempo viria a se tornar um dos autores do gênero mais lidos e respeitados do país.

Dada a dimensão do sucesso de Nesbø, é surpreendente que Headhunters (Hodejegerne, Noruega, 2011), dirigido por Morten Tyldum, seja a primeira adaptação para cinema de um livro do escritor. Com roteiro de Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, o filme conta a história de um ladrão de quadros valiosos cujo trabalho oficial consiste em atuar como um ‘caçador de talentos’, em referência ao título do longa. Roger Brown, em ótima e intensa interpretação de Askel Hennie, é quem vai atrás de candidatos ideais para os cargos com vagas em aberto na empresa onde trabalha. No entanto, essa rotina tranquila é subitamente quebrada quando um desses candidatos surge totalmente decidido a matar Roger. Nesse momento em que se encontra correndo pela vida, nosso (anti)herói precisará se valer das habilidades que adquiriu com o passar dos anos em sua rotina metódica de roubos de obras de arte para sobreviver.

Para contar essa história que é mais complicada do que parece a princípio, a dupla de roteiristas toma algumas decisões admiráveis, como a inclusão da cena em que é demonstrado como funciona o esquema montado por Roger e seu parceiro Ove Kjikerud (Eivind Sanger, caricatural demais), em um exemplo brilhante de economia narrativa, e principalmente pela apresentação discreta de uma personagem que depois se mostrará importantíssima para o desenvolvimento da trama, naquela que é a grande reviravolta da narrativa. Ainda na linha dos acertos, o roteiro faz bonito ao introduzir o conceito de ‘reputação’ logo no começo da história, apenas para reapresentá-lo no final, criando um eficaz arco conceitual para o enredo.

Por outro lado, o roteiro também apresenta sua parcela de problemas, que só não comprometem todo o filme graças à direção atenta de Morten Tyldum, que mantém o ritmo da narrativa acelerado e envolvente. Entre os erros do roteiro, o mais marcante é a ausência de um desenvolvimento consistente do casamento de Roger e Diana Brown, pouco sendo mostrado da relação dos dois além do parco enfoque que ganha na narração do protagonista. Por consequência, Diana, papel de Synnøve Macody Lund, surge completamente superficial, o que é um grande problema considerando a atenção (e a importância) que cai sobre a personagem em determinada cena no terceiro ato do filme. O que era para ser talvez o momento mais emocionante do longa acaba por servir apenas aos fins narrativos do projeto, deixando a dramaticidade de lado (inalcançada).

Do mesmo modo, é decepcionante que o roteiro basicamente se esqueça da vida de ladrão de Roger a partir de determinando momento da narrativa, pouco detalhando sobre como as negociações do mercado negro de arte operavam. Aliás, é ao mesmo tempo curioso e frustrante que no fundo não haja qualquer relação direta entre o “hobbie” de Roger e o motivo que o leva a ser perseguido por Clas Greve.

Antagonista interessante que talvez merecesse uma história própria em outra situação, Clas Greve é vivido por Nikolaj Coster-Waldau (o Jayme Lannister deGame of Thrones) como um sujeito calmo e consciente de suas competências, assustando justamente por causa de sua autoconfiança marcante. Assim como Roger, Clas é um homem inteligente e culto, e é sua dedicação em cumprir seu objetivo que deixa o espectador inquieto. No entanto, quando analisado em retrocesso, o personagem de Clas Greve acaba soando um tanto absurdo. A dúvida é suspensa durante a projeção do filme em função do já citado bom ritmo do longa, que desencadeia ações freneticamente, sempre agarrando a atenção do espectador e aliviando a tensão com pontuais momentos de humor negro bem no estilo dos Irmãos Coen. Mas, depois de pensar um pouco, fica um pouco forçado acreditar em um alto executivo como Clas agindo de forma tão “militar”, por assim dizer. É inclusive possível de se suspeitar que o Clas Greve do filme seja a junção de dois personagens do livro, mas sem ter lido a obra isso é apenas especulação. E é verdade que o diálogo inicial entre Clas e Roger seja excelente em estabelecer alguns parâmetros do que virá a ser descoberto com o desenrolar da trama (e isso inclui a real motivação de Clas), porém, ao final de tudo, fica um pouquinho difícil de aceitar a situação.

Em todo caso, contando ainda com a divertida trilha sonora de Jeppe Kaas e Trond Bjerknes e com a boa montagem de Vidar Flataukan que, juntas, alternam tensão e energia de forma bastante eficiente, Headhunters consegue se manter como um thriller intrigante e descompromissado que merece ser visto.

2 comentários

  1. Com a boa premissa, o cenário de Headhunters é estabelecido com agilidade e eficiência pelo diretor Morten Tyldum nos minutos iniciais de projeção, contando também com um ótimo roteiro assinado por Lars Gudmestad e Ulf Ryberg, que adapta fielmente o bom livro de Jo Nesbø (batizado de “Stieg Larsson Norueguês” pela mídia) e fornece um cuidado especial com seus personagens. E com um mundinho perfeito estabelecido, é impressionante ver Tyldum e sua equipe destruindo-o.


    • Cara, comenta aí como exatamente o filme é ‘destruído’.. A partir de que momento você acha que a narrativa começa a degringolar?



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