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Intocáveis

26/08/2012

Filme francês de grande sucesso de público e crítica em seu país de origem, Intocáveis (Intouchables, França, 2011) tem seu roteiro inspirado em uma tocante (e divertida) história real que merece ser vista.

Em seus segundos iniciais, Intocáveis ameaça se tratar de um drama existencialista. Os closes intimistas, a fotografia desfocada e a trilha sonora evocativa que marcam aqueles dois homens dirigindo à noite sugerem uma história calcada em questões profundas sobre a vida humana. Logo depois, o motorista troca um sorriso com seu companheiro e acelera o carro, quebrando a expectativa de algo transcendental estar para ocorrer. A fotografia não perde a classe, mas ganha em dinamismo e, junto com a montagem, oferece uma bela sequência do carro acelerando nas ruas bem iluminadas da capital francesa. Quando a polícia aparece, pensamos que talvez um thriller esteja para começar. Mas tão logo os dois amigos ganham a simpatia dos homens da lei, os créditos iniciais começam a aparecer na tela, e uma música bem embalada começa a tocar, começamos a nos perguntar o que ocorre.

Caso o espectador não saiba da sinopse do filme, essa cena inicial passa uma sensação de estranhamento. Parece forçado. Apesar de tecnicamente bem feita, a situação não parece plausível. É então que somos jogados a um longo flashback que irá contar como se estabeleceu a relação entre aqueles dois homens. Quando a história volta ao ponto onde tinha parado, aquele estranhamento inicial já está há muito sublimado, e percebemos que a cena que abre o filme faz todo o sentido possível para aqueles dois amigos.

Visando apenas conseguir um comprovante de que fez a entrevista e foi dispensado, e assim se ver no direito de ganhar auxílio-desemprego do Governo, Driss (Omar Sy) se candidata a uma vaga para ser não exatamente o enfermeiro, mas o “cuidador” (caretaker) do milionário Philippe (François Cluzet). O que ele não espera é que o milionário em questão venha a contratá-lo justamente em função de sua não aptidão para o serviço.

A premissa, que aparenta possuir os ingredientes perfeitos para um drama sério (Encontrando Forrester e Perfume de Mulher apresentam situações similares), acaba se revelando uma excelente comédia, mas que, estando milhas distante das piadas esdrúxulas que o filme provavelmente esbanjaria caso fosse feito em Hollywood, e sendo agraciada pela direção sensível de Oliver Nakache e Eric Toledano, oferece um senso de humor maravilhoso. Na mesma medida em que Nakache e Toledano conseguem tirar uma graça genuína até das situações mais ordinárias, como os flertes de Driss em cima de Magalie (Audrey Fleurot), a dupla de diretores também transforma em cenas hilárias os momentos mais absurdos na narrativa, onde as “experiências” de Driss com o chá quente merecem menção especial.

Estabelecendo com delicadeza o crescimento da dinâmica da dupla protagonista, o roteiro assinado pelos próprios diretores acerta também ao mediar as relações de Driss com os outros empregados de Philippe que, se no começo viam a contratação do sujeito como um erro de julgamento do patrão, não demoram a reconhecer suas qualidades. Além disso, Nakache e Toledano se divertem ao lançarem leves críticas ao modelo de vida da alta elite de Paris, detonando, por exemplo, a tendência atual em relação à supervalorização de obras de arte contemporânea, naquele que é um dos melhores momentos do longa, quando o choque cultural entre Driss e Philippe se mostra evidente.

No entanto, se ao investir no humor, mas não se reduzindo a esse, o roteiro é mais do que eficiente em evoluir a amizade entre Driss e Philippe, infelizmente não exibe a mesma competência na hora de desenvolver a relação de Philippe e sua filha, Elisa, cuja participação no filme é diminuída a pouco mais do que a de um figurante. No começo, a quase ausência da menina até pode ser justificada em função da distância afetiva entre ela e o pai, mas, mesmo depois desse detalhe ser supostamente resolvido, Elisa continua esquecida pelo roteiro, o que é uma pena.

De forma similar, (possível spoiler) não compreendemos muito bem o que leva Driss a deixar de trabalhar para Philippe. Apenas a fala do segundo dá alguma dica, “Você não iria querer empurrar uma cadeira de rodas para o resto da sua vida”, mas o espectador não tem plena certeza do motivo que separa os dois amigos. É um momento chave do longa que os diretores deveriam ter retratado com um pouco mais de firmeza, mas que ao menos não é transformado em dramalhão gratuito, o que já é um alívio.

Apesar disso, hiato em que os dois estão separados é bem construído pelo roteiro, que rapidamente mostra como a ausência de Driss desmancha a alegria que havia tomado conta da mansão de Philippe. E mesmo essa passagem da história durando tecnicamente poucos minutos, a montagem de Dorian Rigal-Asous é eficiente em fazer esse período te tempo soar bem maior na história, ilustrando perfeitamente a solidão enfrentada por Philippe.

Contando ainda com uma trilha sonora belíssima composta por Ludovico Einaudi e um final emocionante, Intocáveis deve mesmo seu sucesso ao carisma conquistador de seus dois personagens principais que, encarnados com admirável competência por Omar Sy e François Cluzet, protagonizam uma das mais belas histórias de amizade vistas recentemente no cinema.

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