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Sombras da Noite

09/07/2012

Provavelmente todas as críticas de Sombras da Noite abrem o texto comentando sobre como Tim Burton tem sido desleixado com a parte dramática de seus últimos filmes, prestando mais atenção no visual pop-gótico que o fez famoso do que na história que está contando. Acontece que é impossível não bater de cara com esse fato. Desde A Noiva Cadáver, com a possível exceção de Sweeney Todd, aparentemente emperrado no piloto automático e comandando seus projetos sempre com a mesma falta de emoção, Tim Burton parece ter se esquecido do bom diretor que é (ou já foi), e Sombras na Noite, infelizmente, não foge a essa tendência – aliás, a reforça –, e se apresenta como mais uma pequena decepção, ainda que longe de ser um filme exatamente ruim.

O problema central desta adaptação de uma série televisiva dos anos 1960 se concentra na gratuidade do drama que move a trama. O roteiro de Seth Grahame-Smith, cara que ficou famoso por escrever Orgulho e Preconceito e Zumbis, abre a história com o protagonista narrando sobre seu passado. A atmosfera desse prólogo é sombria e de fato serve como um resumo eficiente sobre o que levou nosso protagonista a ficar trancado num caixão por quase 200 anos: ele, Barnabas Collins (Johnny Depp), não correspondeu ao amor de uma bruxa, Angelique Bouchard (Eva Green), que, enfurecida, amaldiçoou a ele e a sua família. Ok, foi isso que aconteceu. No entanto, como a relação entre Barnabas e Angelique nunca é desenvolvida nessa sequência inicial, apenas relatada, todo o drama que discorre pelo restante da narrativa nunca se mostra plenamente palpável. Sabemos da birra entre o vampiro e a bruxa, mas jamais sentimos alguma coisa em relação a isso.

Como a essência da história que está nos sendo contada pouco se sustenta, assistir aos desdobramentos da mesma acaba se revelando um exercício de mera curiosidade, já que temos pouco ou nenhum sentimento investido ali. De forma semelhante, dentre os problemas do roteiro, nunca fica claro como a família Collins volta a se reerguer simplesmente em função da volta de Barnabas. Com a exceção da cena que conta com a bem-vinda ponta de Christopher Lee, o roteiro pouco explora o que Barnabas faz para ajudar a reestruturar os negócios da família. Desde que acorda de seu sono de dois séculos, Barnabas insiste em dizer que fará os Collins imponentes como eram antes, e para o roteirista apenas isso parece o suficiente para convencer o público de que o personagem possui algum talento comercial.

Na mesma linha, o envolvimento de Barnabas com Victoria (Bella Heathcote) surge tão gratuitamente quanto a vingança de Angelique para cima dele. A personagem Victoria, aliás, é pouquíssimo explorada pelo filme. Depois de investidos bons minutos na sua introdução, o roteiro parece esquecê-la completamente depois da volta de Barnabas. E toda a questão de ela aparecer na família Collins para atender à vaga de tutora do jovem David (Gulliver McGrath) é aparentemente lançada para o espaço depois que ela de fato chega lá, uma vez que jamais vemos sequer uma cena da moça ensinando qualquer coisa ao menino, da mesma forma que a psiquiatra vivida por Helena Bonham-Carter nada faz para cumprir sua função de tratar a pobre criança.

Indo mais além, a ideia da personagem de Michelle Pfeiffer, Elizabeth, de esconder da família o fato de Barnabas ser um vampiro mostra-se tola e totalmente dispensável. Ao invés de tentar fazer gracinha tentando disfarçar Barnabas de um parente distante vindo da Inglaterra, imagino que seria muito mais interessante se sua real identidade fosse de imediato apresentada para toda a família. Além de poupar algumas cenas de humor fracassado, se poderia investir mais nas relações entre os personagens, tornando-os mais tridimensionais, e nos fazendo se importar mais com eles no terceiro ato, quando certa rebelião ocorre.

De todo modo, se Sombras da Noite não fracassa, é graças ao carisma do elenco. Mais do que em função do visual criativo composto pela combinação dos figurinos confeccionados por Colleen Atwood com os cenários criados por Rick Heinrichs e decorados por John Bush e que, captados pela fotografia sombria de Bruno Delbonnel, conseguem instaurar no filme uma bela aura de fantasia retro, o longa só se sustenta mesmo porque seus personagens são encarnados por atores que, com apoio da ótima maquiagem de Joel Harlow, não só se encaixam bem naquela atmosfera irreal e cartunesca, como, justamente por isso, a tornam mais plausível aos olhos do espectador.

Assim como no recente The Rum Diary, aqui Johnny Depp aparece mais contido do que o normal, mas, se na pele de jornalista bêbado essa introspecção se dava como consequência de uma busca por adequação, de estar procurando seu propósito, como vampiro recém-desperto o sentimento ocorre mais em função de uma dor reprimida, fruto da perda de um amor do passado e do testemunho da decadência de sua família. Bastante acostumado a personagens atípicos (Edward Mãos-de-Tesoura), fantasiosos (Willy Wonka), inadequados socialmente (Jack Sparrow), e sedentos por vingança (Sweeney Todd), Depp não tem a menor dificuldade em dar vida a um vampiro que é um pouco de tudo isso.

No extremo oposto, temos uma sádica Eva Green se divertindo absurdamente na pele da bruxa Angelique, uma personagem tão interessante que, em outro contexto, certamente mereceria um filme próprio. Com os cabelos tingidos de loiro, um olhar penetrante e o sorriso quase macabro, Eva Green surge perfeita como a antagonista da história, e mesmo que o roteiro, como já comentado, falhe em justificar o que move sua vingança, a atriz cativa nosso temor com facilidade, de forma que, com auxílio de eficientes (e discretos) efeitos visuais, sua gesticulação exagerada no terceiro ato acaba resultando em um dos melhores momentos do filme.

Entre esses dois pilares da trama, temos ainda uma Michelle Pfeiffer ótima como a entediada matriarca remanescente dos Collins, tentando colocar alguma ordem na família, mas já sem grandes expectativas; uma Chloë Moretz já grandinha e adoravelmente rabugenta como a adolescente revoltada da família; o pequeno e emotivo Gulliver McGrath, responsável pelo momento mais tocante da trama; e Jackie Earle Haley perfeitamente adequado como o mordomo bêbado. Todos representando muito bem os arquétipos que povoam a história e a tocam para frente – infelizmente o mesmo não pode ser dito de Bella Heathcote, que não só conta com o papel menos bem trabalhado pelo roteiro, como ainda o interpreta com grande falta de interesse.

Por fim, considerando que os personagens são pouco mais do que traços de caricaturas com a possível desculpa de que o próprio universo da trama de certa forma justifique essa tipificação superficial, o que por outro lado não explica o roteiro sem graça e a direção preguiçosa, mostra-se fácil de constatar que é somente por causa do dinamismo do elenco que Sombras da Noite sobrevive como um filme levemente agradável de se assistir numa noite chuvosa de sábado sem mais nada para fazer.

One comment

  1. Ainda criando vontade de ver esse filme… Também pudera, depois de “Alice” tenho enorme preguiça com Tim Burton.



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