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The Rum Diary

08/06/2012

Não faço a menor ideia do que seja “jornalismo gonzo”. E o nome Hunter S. Thompson só me remetia ao filme Medo e Delírio (Fear and Loathing in Las Vegas, 1998), inspirado em um de seus livros, e protagonizado por Johnny Depp, que volta a viver o alter ego do sujeito no recente Diário de um Jornalista Bêbado, adaptação de outro livro do cara.

Não vi Medo e Delírio, embora pretenda vê-lo eventualmente, não só por se tratar de um filme de Terry Gillian, diretor sempre interessante, ou ser estrelado por Depp, um de meus atores preferidos, mas principalmente para tentar descobrir um pouco mais sobre essa figura interessante que é Hunter S. Thompson, um personagem potencialmente fascinante que ganha, porém, apenas uma breve pincelada em The Rum Diary (“Diário de um Jornalista Bêbado” é um título tão boçal, que me recuso a repeti-lo mais vezes ao longo do texto que segue).

Dirigido e roteirizado por Bruce Robinson, cujo último trabalho como cineasta foi Jennifer 8: A Próxima Vítima, lançado há distantes 20 anos, The Rum Diary busca apresentar a aventura, por assim dizer, que deu início à carreira de Hunter S. Thompson como jornalista. Vejam bem, o filme “busca apresentar”, mas não apresenta de fato. Pelo menos não propriamente.

Ao abrir a narrativa com um Johnny Depp despertando de uma ressaca em meio a um quarto de hotel bagunçado às ganhas, Robinson é competente em já apontar as principais características do nosso protagonista. O jornalista Paul Kemp foi o único a se candidatar para o emprego sobrando no único jornal de Porto Rico mantido por um pessoal dos EUA, e logo notamos que ele está ali apenas por estar. Algo do tipo “Ué, por que não?”. Ao mesmo tempo, não demoramos a descobrir que Paul, ao estar ali apenas por estar, está também tentando encontrar sua veia criativa, coisa nem um pouco clichê quando estamos falando de um romancista frustrado que teve dois livros não publicados pela editora. Mas, o roteiro sabe tocar nesse assunto sem o drama pretensioso tão comum a personagens arquétipos como esse, embora acabe se rendendo a um moralismo no final.

Esse moralismo, geralmente algo tão chato, melodramático e ideologicamente retrógrado, não é, em si, o problema. Ao longo da narrativa, Robinson espertamente inclui momentos pontuais em que Kemp expressa sua indignação com a situação sociopolítica de Porto Rico, por exemplo, mas sempre de forma ocasional, nada pretendendo lições de moral. Em quase todas essas circunstâncias, algum personagem confronta Kemp com falas retóricas carregadas de cinismo, explicando que “fazer o bem” é não só infrutífero, como impraticável naquele lugar.

Parte do legal de The Rum Diary é perceber que seus personagens têm plena consciência da situação patética na qual se encontram, e simplesmente não ligam. O constantemente chapado e alucinado Moberg (Giovanni Ribisi) e o fotógrafo malandro Sala (Michael Rispoli), por exemplo, são criaturas que se adaptaram à mediocridade de seu local de vivência tentando, de alguma forma, se desligar da mesma, pois, no fundo, têm noção da grande merda que é aquele lugar. São seres cínicos, mas contidos em si, tentando se virar. Contrastam, por sua vez, com o grupo de magnatas liderado por Sanderson (Aaron Eckhart), que também tem noção da merda que é aquele lugar, mas que fazem de tudo para estragar a coisa ainda mais, desde que tenham como sair de lá ganhando alguns milhares de dólares.

Kemp é logo abordado por Sanderson, que tenta convencê-lo a participar de seu esquema, só na pilantragem. Essa é, de certa forma, a linha motriz da história. Todo o envolvimento dos dois é trabalhado com cautela pelo roteiro durante quase o filme todo, sendo permeado pelas andanças isoladas de Kemp por Porto Rico, onde aos poucos vai compreendendo a dimensão dos problemas do lugar. O bacana do roteiro de Robinson é desenvolver essa relação de Kemp com aquela realidade de modo comedido, com calma. A narrativa poderia, talvez, ser considerada lenta, uma vez que várias das cenas estão ali não para tocar a trama para frente, mas apenas para retratar o cotidiano daqueles personagens. E, de fato, o desenrolar da história talvez fosse mesmo lento. A sorte é que, mesmo tendo dirigido apenas quatro longas-metragens em sua carreira, Bruce Robinson deixa clara sua competência para o cargo, explorando com inteligência o fato de o roteiro aparentemente não possuir um foco. Através de uma paleta em tons mornos, decisão que também ajuda a evidenciar o calor e a umidade de um país tropical, Robinson e o diretor de fotografia Dariusz Wolski constroem uma atmosfera visual densa, deixando as cores pouco aparentes, mais misturadas, coisa que também reflete a dubiedade moral daqueles personagens – detalhe que é reforçado em conjunto com o bom figurino da sempre competente Colleen Atwood; além da excelente direção de arte de Rosemary Brandenburg, que reconstrói a Porto Rico dos anos 1950 com uma decadência triste e plenamente convincente. Dessa forma, apesar do roteiro não parecer ir a lugar algum, o espectador se sente ali, junto com o Johnny Depp, tentando se adaptar às nuances bizarras daquele universo.

Aliás, se nos sentimos presos em cena, isso se deve muito à performance cativante de Depp, muito mais contido que o habitual. Voltando a interpretar aquele que já interpretara uma vez 14 atrás, o camaleão de Hollywood aparece tranquilo, sereno, pintando Paul Kemp como um cara despreocupado, mas ao mesmo tempo contaminado por uma necessidade de ser justo. Mesclando olhares sinceramente confusos, distantes daquelas olhadelas alucinadas de Jack Sparrow, que aos poucos vão ganhando mais intensidade, Depp demonstra com delicadeza a transformação psicológica de Kemp, de artista inseguro e impotente à ativista confiante e determinado, algo que é notável também através do tom de voz do personagem, hesitante no começo, e inspirando autoridade no final.

No entanto, se o filme vinha construindo uma narrativa curiosa, dentro de uma atmosfera “latino-noir” envolvente, o mesmo quase capota no final, quando o roteiro faz uma curva que não deveria existir.

Evitando spoilers ao máximo, apenas gostaria de comentar que ocorre uma reviravolta no terceiro ato, durante um carnaval, que não faz o menor sentido. É um furo colossal no roteiro, e algo que estraga o filme. Fulano diz “A culpa é sua” para cicrano, mas cicrano não tem culpa nenhuma, e, para se vingar, fulano usa todo seu poder e influência para ferrar cicrano.

Agora, os spoilers: durante o carnaval, a noiva de Sanderson, Chenault (Amber Heard), se empolga, começa a dançar com um cara enorme que vai fazendo um strip-tease homoerótico nonsense, Sanderson fica puto, tenta arrancar a mulher de lá, e é expulso do local, junto com Kemp e Sala. Depois, Sanderson confronta Kemp e diz “A culpa é sua”, e passa a perseguir o sujeito de todos os meios possíveis. Sim, Kemp estava flertando com Chenault, mas em cenas anteriores, e Sanderson não fazia ideia disso, nem isso teve relevância para Chenault exibir sua feminilidade naquele momento, ou, se teve, mais uma vez, Sanderson não tinha motivos para pensar nessa hipótese. Mas é o que acontece, e o que degringola o filme de vez.

A partir daí, o roteiro parece determinado a tentar terminar de contar a história num estalar de dedos, deixando de lado o mesmo cuidado que vinha demonstrando até então, e concluindo a narrativa de modo apressado e repleto daquela sensação de buffer incompleto.

Assim, antes dos créditos, aparecem os letreiros explicando que “Hunter S. Thompson voltou aos EUA e se tornou um dos jornalistas mais respeitados” – desse jeito mesmo; só eu senti uma falta absurda de um “do país” no final dessa frase? Primeiro, devemos supor que Paul Kemp é Hunter S. Thompson, porque nada é afirmado nesse sentido. Mas isso é apenas um pequeno delito. A preguiça de Robinson para encerrar a história é tamanha que ele inclui um “Esse é o fim de uma história e o começo de outra” logo que o filme acaba. Com os eventos que acabamos de testemunhar, até entendemos que a experiência de Thompson em Porto Rico foi importante na hora de moldar seu caráter e seus ideais de jornalista, mas faltou ao filme concluir essa questão. E o que aconteceu com Sanderson? Suas tramoias foram levadas a público? Como Thompson conseguiu chegar aos EUA sozinho naquele barco? Como ele se tornou “um dos jornalistas mais respeitados”, e por quê? O que diabos é jornalismo gonzo? São perguntas que o filme não responde.

E como narrativa cinematográfica apenas, sem relações com eventos verídicos, The Rum Diary poderia até não responder. O que não poderia, de jeito nenhum, era ter aquela indesculpável reviravolta do carnaval.

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