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Um Método Perigoso

27/04/2012

A cena de abertura de Um Método Perigoso serve como um curioso reflexo de toda a carreira de David Cronenberg. A diligência que leva a mulher histérica para o hospital psiquiátrico é uma metáfora perfeita para a tempestuosa e por vezes polêmica filmografia desse interessante cineasta canadense que, depois de anos lançando produções desafiadoras e tematicamente perturbadoras, na metade final dos anos 2000 (com Marcas da Violência) passa a construir um cinema menos ousado e mais realista.

Ao explorar o embate ideológico entre Carl Jung (Michael Fassbender) e Sigmund Freud (Viggo Mortensen), além da relação de ambos com a intrigante Sabina Spielrein (Keira Knightley), Cronenberg faz de Um Método Perigoso uma tentativa de discutir as origens da psicanálise da forma mais direta possível. Infelizmente, uma tentativa frustrada.

Com roteiro escrito por Christopher Hampton a partir de sua própria peça (The Talking Cure, que é inspirada no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr), Um Método Perigoso não tarda a evidenciar a natureza esquemática de sua narrativa, saltando bruscamente no tempo de uma cena para a outra e, logo mais, construindo uma enfadonha estrutura episódica ao descartar vários anos da história sempre que surge com um letreiro apontando “Dois anos depois” e outras variações.

Além disso, Hampton falha no desenvolvimento dos personagens, já que, mostrando-se incapaz de criar situações que enriquecessem a dinâmica entre aqueles indivíduos, o roteirista prefere lançar uma enxurrada de falas arbitrárias para explicar as características particulares daquelas pessoas – a espiritualidade de Jung é um exemplo, mencionada à exaustão, mas nunca devidamente retratada.

Já a direção de Cronenberg, embora morna na maior parte do tempo, ao menos tenta enriquecer o longa aqui e ali, principalmente ao compor alguns enquadramentos bem interessantes, por exemplo, posicionando um personagem bem à frente da câmera, ocupando metade do quadro, e outro ao fundo, diminuto no lado oposto, de forma a estabelecer um curioso jogo de autoridade entre aquelas figuras.

O ótimo elenco, por sua vez, pouco pode fazer em um filme tão comprometido devido à mediocridade de um roteiro que, apesar de contar com alguns bons diálogos (nisso Hampton sempre acerta), especialmente aqueles trocados entre Jung e Freud, acaba criando uma narrativa burocrática e pouco interessante. Preso às incertezas pessoais e profissionais de seu personagem, Fassbender se vê limitado a apresentar um Jung inseguro e idealista, ao passo que Mortensen, mesmo tendo seu Freud lapidado de forma reducionista pelo roteiro, transforma o fundador da psicanálise em uma figura que esbanja sabedoria e autoridade, roubando a cena sempre que aparece. E se Keira Knightley já teria de se confrontar com o desafio de dar vida à personagem que, naturalmente, seria a mais complexa da trama, ela ainda é obrigada a viver uma Sabina Spielrein que sofre mudanças bruscas de personalidade ao longo de todo o filme, o que acaba impossibilitando a atriz de soar sequer minimamente convincente (sem contar que nas cenas iniciais, então, Knightley aparece patética, lembrando mais uma Bella Swan possuída pelo Belzebu de O Exorcista do que uma mulher em crise de identidade).

No final, apesar de não consistir em um filme de fato ruim, Um Método Perigoso é facilmente esquecível, decepcionante, pouco se destacando em sua fórmula burocrática.

2 comentários

  1. Eu nunca vou entender, acho, quando dizem que um filme é “burocrático”. O filme está longe de ser perfeito, mas a tal burocracia não me incomoda, e sim o fato das relações e das personalidades de Jung e Freud serem tratadas superficialmente. MAs sim, será um filme menor na carreira de Cronenberg. Minha crítica está em http://umtigrenocinema.com/2012/04/25/um-metodo-perigoso-c66/


    • Tiago, o que eu quero dizer com o ‘burocrático’ é referente ao fato da narrativa seguir um esquema repetitivo, pouco envolvente, se ancorando basicamente só em diálogos para explicar situações que deveriam ser mostradas, e não faladas. É uma coisa que, particularmente, me incomoda muito, ainda mais quando em um filme de algum diretor talentoso e ousado como Cronenberg.



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