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Jogos Vorazes

08/04/2012

O trailer de Jogos Vorazes e esse título besta em português não me motivaram nem um pouco para ver o filme, e muito menos para ler o livro. Daí minha surpresa em relação a duas coisas: primeiro, a estreia astronômica do filme nos EUA, a terceira maior arrecadação da História, ficando atrás apenas de Batman: O Cavaleiro das Trevas e Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2; depois, as opiniões bastante positivas de praticamente todas as pessoas que conheço que viram o filme. Aqueles que já eram fãs dos livros disseram se tratar de uma ótima adaptação, e os leigos na trama gostaram o bastante do filme em si para recomendar a qualquer pessoa. Era todo mundo falando bem, e eu resolvi conferir.

É verdade que Jogos Vorazes não é ruim como eu pensava, mas também é verdade que não é muito bom. O que mais me incomodava no trailer está presente em praticamente todos os quadros do filme. A estética visual adotada pelo diretor Gary Ross simplesmente não convence.

Provavelmente buscando imprimir realismo à história, o cineasta insiste em tomadas frenéticas de câmera na mão que pouco contribuem para o espectador visualizar o que se passa em cena. A temática dos reality shows, tão presente na trama, está corretamente representada nessa abordagem visual, é verdade. Mas, ao retratar toda a ação da história sob o mesmo olhar, sob a mesma estética tremida da câmera na mão, o filme peca por não fazer nenhum paralelo entre as diferentes realidades do universo concebido pela escritora Suzanne Collins. O fato é que a direção de Gary Ross falha em um ponto crucial, não sabendo conciliar fotografia e direção de arte.

O designer de produção Philip Messina cria cenários eficientes em retratarem tanto a miséria quase arcaica dos doze distritos renegados, como a extravagância da Capital de Panem, além de conseguir passar o bem-vindo estranhamento de um mundo altamente tecnológico que segue os mesmos padrões sociais da Roma antiga. Seguindo essa linha, os figurinos de Judianna Makosvky e a maquiagem da genial Ve Neill caracterizam os habitantes desolados do distrito 12 quase como camponeses de tempos feudais, ao passo que, em um uso criativo do estilo emo colorido, conseguem transformar os habitantes da Capital em seres caricaturais absolutamente patéticos, o que acaba servindo como um curioso (e amedrontador) retrato do visual que poderia muito bem vir a se tornar o padrão na nossa sociedade em um futuro talvez não tão distante – (no entanto, o uniforme branco dos guardas que patrulham por todos os cantos surge deslocado demais, e consequentemente impossível de ser levado a sério).

Contrapondo tudo isso e florescendo como a grande mancada do filme, a fotografia de Tom Stern aparece sempre com a mesma cara dessaturada e instável. Embora frequentemente tremida demais e pouco compreensível, essa abordagem ao menos serve bem às cenas já dentro da área dos ditos “jogos vorazes” por evocar a atmosfera de reality show. No entanto, Stern adota a técnica o tempo todo, o que em determinado momento cansa o espectador e diminui a força do projeto. Seria interessantíssimo se Stern optasse por fazer uso de uma fotografia mais tradicional durante as cenas externas à arena dos jogos e, uma vez dado o início destes, mudasse completamente de estratégia visual. Infelizmente, isso não acontece, e o design de produção do filme, que segue essa lógica de contraponto estético, acaba invariavelmente comprometido.

Essa dicotomia de estilo é o maior problema de Jogos Vorazes.

E muito embora o roteiro falhe ao não explorar direito todas as circunstâncias morais e políticas que regem aquele universo distópico, pelo menos a maior parte dos componentes da história é bem desenvolvida. Desde os interessantes conselhos de Haymitch (Woody Harrelson) sobre as peculiaridades daquela disputa desumana até os detalhes do “salão moderador”, de onde o organizador Seneca Crane (Wes Bentley) intervém nos jogos, o roteiro assinado por Billy Ray, pelo diretor Gary Ross e pela própria autora Suzanne Collins traça um bom retrato do que acontece em Panem, plantando no espectador algumas dúvidas que deverão ser esclarecidas na inevitável continuação.

Por fim, se Jogos Vorazes não fracassa em suas longas duas horas e meia, é devido principalmente à performance central de Jennifer Lawrence. Ao aparecer em cena com longos cabelos negros quebrando a imagem com a qual nos acostumamos a vê-la em outros filmes, a talentosa atriz compõe a heroína Katniss Everdeen como uma jovem forte e determinada que definitivamente foge do estereótipo de princesa em perigo – em uma interpretação que, não por acaso, remete bastante àquela que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por Inverno da Alma. Dedicada, a atriz concede importante atenção na construção de sua personagem, de modo que, se em um primeiro momento podemos constatar a súbita incompreensão de Katniss frente à hipocrisia que move a elite de Panem, aos poucos acompanhamos o processo pelo qual a protagonista vai se dando conta e aceitando as circunstâncias que constituem nova realidade com a qual agora é obrigada a viver. Porém, Jennifer Lawrence jamais esquece a essência de Katniss e, não importa o momento, nunca esquecemos de que estamos na presença de uma guerreira que só não permite ser associada à afirmação “fará de tudo para voltar para casa” porque mantém sua moralidade até o fim.

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