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A Mulher de Preto

06/03/2012

Acompanhei pela Internet algumas partes da produção do filme A Mulher de Preto, e estava um tanto curioso para conferir o resultado no cinema. Vi o trailer (ou apenas partes dele) algumas vezes nas últimas semanas, antes de o filme chegar a Porto Alegre, e só fiquei ainda mais interessado em descobrir como se desenrolava aquela história.

No fundo, eu não sabia quase nada sobre a sinopse. Só assisti o trailer até o momento em que eu achei saudável. Como já constatei que hoje os trailers acabam contando a história toda, quando noto que informações demais começam a serem reveladas, fecho os olhos e faço o possível para ignorar as falas. Assim, eu só sabia que o filme tinha o Daniel Radcliffe interpretando um sujeito chamado Arthur Kipps que ia para o interior da Inglaterra a fim de resolver algumas coisas em relação à venda de uma velha mansão que nenhum morador local iria comprar. Então, era isso. O ex-Harry Potter em um filme de terror cercado por algum mistério.

Poucos dias antes da estréia, li no Twitter que o diretor, James Watkins, já havia dirigido um bom filme de terror chamado O Lago Perfeito (Eden Lake, 2008). Confesso que minhas expectativas aumentaram um pouquinho e, mesmo sem ter visto O Lago Perfeito, fui encarar A Mulher de Preto com no mínimo a suspeita de que se tratava de um trabalho de alguém que sabia o que estava fazendo.

E… Olha, fazia tempo que eu não via um filme tão tenso no cinema! A Mulher de Preto não é um grande filme, mas é eficiente. A história, em minha opinião, pouco importa, e serve basicamente de veículo para Watkins realizar cenas de tensão absoluta.

O mistério que move a trama de A Mulher de Preto gira em torno da dita cuja e a relação da mesma com as mortes das crianças da pequena cidade interiorana onde a história se passa. Não há muito mais do que isso, e os detalhes eu obviamente não revelarei. Mas vale dizer que a roteirista Jane Goldman consegue criar uma narrativa suficientemente intrigante para o filme seguir adiante mesmo partindo de relativamente pouco material, uma vez que o romance de Susan Hill no qual o filme se baseia é bem curto, com pouco mais de 200 páginas. Não há reviravoltas surpreendentes, embora a trama mude de curso uma ou duas vezes e tenha um ar de intriga interessante, mas isso é o que menos importa.

O relevante em A Mulher de Preto é a direção de James Watkins. O diretor revela suas intenções logo na primeira cena em que o protagonista entra na mansão abandonada onde a maior parte da história se desenrola. Muitos sustos e quebras de expectativa são salientados de modo exagerado por altos acordes da irregular trilha sonora de Marco Beltrami, e por vezes causam aquela sensação dúbia de aflição e riso nervoso, quando você se assusta e ri do próprio susto que levou. O que só é legal quando a pessoa não tenta esconder que ficou com medo e passa a forçar a risada para sugerir que está rindo do filme – e não de si. Na minha sessão, por exemplo, muita gente começava a rir depois de levar um susto, e comentava brevemente com o companheiro sentado ao lado invés de voltar a prestar atenção na tela do cinema. É uma pena. Perdem a chance mergulharem na atmosfera sombria do filme. É aquela coisa, quanto mais você prestar atenção, mais será recompensado. E o fato é que há muita coisa rolando em A Mulher de Preto, apesar dos (dispensáveis) sustos esporádicos. É justamente entre esses momentos que Watkins consegue elevar a tensão do filme ao máximo possível.

Um dos motivos para essa tensão crescente funcionar é a sábia decisão de Watkins em não revelar a personagem título de uma vez só. Ela primeiro aparece ao longe, apenas uma silhueta. À medida que a história avança, vai se aproximando do protagonista e, por tabela, da câmera (e do público), de modo a surgir cada vez mais amedrontadora sempre que volta a aparecer em cena – e a última visão que temos dela é particularmente macabra. Nesse ponto o figurino da aparição merece menção, já que o ar assustador da personagem é evocado em grande parte devido ao vestido preto incrivelmente sinistro desenhado pelo figurinista Keith Maiden, que não deixou passar o esperto detalhe do véu sobre o rosto da mulher de preto, que ajuda bastante em deixá-la mais misteriosa e ameaçadora.

Fazendo par com a aparência maligna (mas não monstruosa) da vilã, a excelente direção de arte desempenha um papel importantíssimo para a eficiência do longa. Confeccionada por Kave Quinn, a cenografia do filme é excepcional em vários aspectos. Competente desde a recriação de época do início do século XX (mérito compartilhado pelo já citado figurino), o trabalho de Quinn é admirável na medida em que concebe uma geografia para a pequena cidade de Crythin que interfere diretamente no terror psicológico trabalhado pelo diretor James Watkins. É principalmente através da localização da mansão Eel Marsh que o filme consegue submergir o espectador em um estado de terror intenso. O fato do interior da imensa e desolada casa, além de contar com corredores escuros e portas que rangem, ainda ser recheado com uma mobília austera e suja iluminada só por velas ajuda a passar uma forte (e importante) sensação de abandono, e acaba invariavelmente servido para infernizar a vida do visitante desavisado que protagoniza o filme. A decoração interna de Eel Marsh é bem sinistra, verdade, e tem efeito direto sobre a atmosfera de tensão que impera durante todas as cenas do filme que se passam ali. No entanto, o que mais contribui na hora de construir o terror de A Mulher de Preto é mesmo a localização geográfica da mansão. Estranho, eu sei, mas é sério.

“Mas como assim?”, alguém deve estar se perguntando. A explicação é bastante simples. A Eel Marsh House se encontra em uma espécie de ilha cujos arredores ficam submersos na maré cheia. A estrada de acesso à propriedade fica inutilizada durante algumas horas do dia devido à maré que sobe e inunda o local. A própria palavra inglesa “marsh” se refere a porções de terra constantemente inundadas por água, de modo a se constituírem como um intermédio entre o ambiente aquático e o terrestre. Diferente do pântano, que está sempre envolto em água e tem parte de sua biosfera constituída por árvores, a “marsh” possui apenas vegetações rasteiras, gramíneas, e pequenos arbustos quando muito. Em português, imagino que “banhado” seja um termo válido para servir de tradução, tecnicamente seria o mais correto, apesar de não haver planta nenhuma no local devido à maré que sobe trazendo água salgada. Todavia, esteticamente, a palavra “pântano” serve muito melhor na hora de descrever a paisagem da Eel Marsh House. Em todo caso, no filme, é essa característica geográfica que ajuda a construir a atmosfera de tensão da história. Um toque de gênio do diretor de arte Kave Quinn.

Esse brilhantismo da direção de arte, no entanto, não faria o mesmo efeito sem a importante companhia da fotografia de Tim Maurice-Jones. Cenário e fotografia se completam em A Mulher de Preto – como deveria acontecer sempre. Captando tudo em um tom opressivo de cinza, Maurice-Jones é mais do que competente em retratar a melancolia do local onde a história se passa. Buscando inspiração em clássicos do terror psicológico como Com a Maldade na Alma e Desafio do Além, Maurice-Jones realiza uma direção de fotografia rica em detalhes, utilizando muito bem a profundidade de campo, em uma decisão inteligentíssima que salienta com sucesso o perigo cada vez mais presente representado pela maldita mulher de preto. Além disso, Maurice-Jones trabalha as sombras de modo admirável, chegando a momentos sublimes dignos de Gordon Willis, como aquele em que Arthur mergulha no “pântano” iluminado apenas pelas luzes de um automóvel.

Mas, voltando à questão central: por que exatamente o filme é tão bem sucedido em suas doses de tensão? Pois bem, na primeira vez em que Arthur, o protagonista, vai até Eel Marsh House, o observamos através de uma tomada aérea do local, e logo constatamos o quão isolada de tudo fica a tal mansão. A qualidade física do terreno ainda não nos é óbvia, mas o personagem que leva Arthur até lá não demora a dizer que precisa retornar antes que a maré suba. Nesse momento, de súbito, já percebemos a situação amedrontadora na qual Arthur se encontra – e não demora muito até compreendermos que essa sensação de apreensão só aumentará com o desenrolar da trama.

Nessa primeira visita a mansão, ficamos conscientes dos acontecimentos sinistros que ali ocorrem. Depois, quando Arthur volta à cidadezinha de Crythin, nos acalmamos um pouco por um momento, mas aos poucos constatamos que uma tragédia aconteceu nesse meio tempo. Então, quando Arthur volta a Eel Marsh, ficamos ainda mais tensos pelo simples fato de que sabemos que algo ruim vai acontecer. Não só ele irá presenciar cenas assustadoras estando absolutamente isolado do resto do mundo, como, depois que voltar para a suposta segurança de Crythin, será apenas uma questão de tempo até que presencie outra tragédia. Quando calcada nessa lógica interna, a narrativa funciona perfeitamente, e a tensão aumenta exponencialmente.

Só é uma pena que a narrativa não siga essa lógica o tempo todo. Até segue, na verdade, mas se perde um pouco no terceiro ato, já que a trama, apesar de interessante no princípio, se mostra bastante rasa e sem muita criatividade, revelando-se óbvia do meio para o fim do filme. E a conclusão da história, então, é um misto de satisfação e decepção: se, por um lado, é legal ver que a última cena faz uma rima temática com um diálogo do começo do longa, por outro é decepcionante que essa mesma cena acabe por amolecer o choque presenciado imediatamente antes, além de se mostrar essencialmente clichê e remeter a outro detalhe problemático do roteiro: o protagonista.

Interpretado com segurança por Daniel Radcliffe, Arthur Kipps é um sujeito obstinado a realizar a tarefa a que foi designado a fazer pelo seu chefe e, mais do que isso, é um sujeito naturalmente curioso, que insiste em ir até o fim para desvendar o mistério que cerca a Eel Marsh House. É legal ver um personagem íntegro e disposto a ir até o fim, mas também é frustrante que o mesmo demonstre nenhum ou pouquíssimo medo frente a o que lhe acontece – uma falha do roteiro, e não do ator. Ao mesmo tempo, o que move Arthur, no final, não passa de egoísmo. Spoiler até o final do parágrafo: ele continuava confrontando a mulher de preto mesmo depois de saber (ou de pelo menos ter uma relativa e boa suspeita) que as aparições da mesma resultavam na morte (violenta) de alguma criança da região. É verdade que a companhia do cético Mr. Daily (Ciarán Hinds, ótimo) ajudava a duvidar do pensamento supersticioso do povoado de Crythin (e nesse sentido a interação entre os dois personagens é importantíssima para manter o mistério no ar), mas a partir do momento que Arthur se convence de que a mulher de preto é de fato perigosa e mortal, ele passa a se preocupar exclusivamente com o seu próprio filho, que chegará ao local em breve. Ou seja, as mortes de todas as outras crianças de Crythin pouco importavam? O fato da esposa de Arthur ter recentemente falecido poderia ser usado como desculpa para justificar a preocupação exclusiva do protagonista para com o próprio filho? Talvez, se o roteiro trabalhasse essa questão, o que não acontece. Ao final, a forma como as mortes das outras crianças têm sua relevância diluída pela iminente chegada do filho de Arthur acaba diluindo também a força do filme.

No entanto, como dito no início do texto, a história é o que menos importa em A Mulher de Preto, que consegue ser um filme eficiente independente dela. E só fico a imaginar o quão melhor o longa poderia ter ficado caso o roteiro fosse melhor desenvolvido… Quem sabe mais uma adaptação do livro de Susan Hill daqui a alguns anos possa finalmente consolidar a história da mulher de preto como um clássico cinematográfico.

5 comentários

  1. Eis uma das minhas grandes decepções de 2012 até agora. Acho que faltou história em “A Mulher de Preto”… O formato do suspense foi sempre o mesmo durante o filme, o que tornava tudo, de certa forma, cansativo. E aquele final meio cafona também não me empolgou. Mas foi bom ver que o Daniel Radcliffe não nos enganou em HP 7.2. Ele está sim bem melhor…


  2. Boa sua análise. Só por deixar o leitor com vontade de retornar ao filme já se vê que os argumentos são consistentes. E concordo com eles. Aliás, bastante: acho especialmente determinante a extraordinária direção artística e a fotografia; o diretor tem consciência de que, mais que o choque, a apreensão é que deixa o espectador preso à história; e o final, ah… é mesmo decepcionante que o filme não termine uns segundos antes, excluindo a sequência de “reencontro”. Não fui capturado tanto assim pela tensão do filme; acho, como o Matheus escreveu antes, que às vezes a mesma estratégia se repete e você já sabe o que esperar — em vários momentos me vi antecipando várias coisas; felizmente nem todas aconteciam como esperado (acertos do diretor em fugir dos clichês, portanto). Aliás, vi o filme sem saber que esse era o diretor de EDEN LAKE (conheço o filme como SEM SAÍDA; O LAGO PERFEITO é o título português, acredito), descobri isso quando fui ler sobre a produção. Nossa, esse primeiro filme dele é realmente assombroso (e pouco conhecido, infelizmente). É impecável; talvez o melhor filme de suspense/terror que eu já tenha visto. Enfim, perto desse A MULHER DE PRETO é só bonzinho.


  3. A PIOR PARTE É O FINAL,QUE DEIXA A DESEJAR,AFINAL A FAMILIA MORREU E ENCONTROU COM A MÃE JÁ MORTA OU ELA SALVOU A CRIANÇA????PRA MIM TODOS MORRERAM E FORAM FELIZES PARA SEMPRE,E POR QUE ESSE PRIVILÉGIO PARA O ADVOGADO?E O CASO FOI RESOLVIDO OU O FANTASMA AINDA ENCHERÁ OS VAGÕES DO TREM???


    • kkkkkkkkkkkkkkkkkk aff e ai eles morreram ou nao tendi mas nadaaaa


      • somos dois nao fez sentido ele morrer no final do filme



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