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Millennium: Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

27/01/2012

Em 2008, David Fincher se desviou do estilo de filmagem sombrio que o definiu como um dos melhores diretores a surgirem em Hollywood nos últimos tempos, e investiu no romance com o melodramático e fantasioso O Curioso Caso de Benjamin Button. Foram 13 indicações ao Oscar, e a primeira menção a Fincher dentro da Academia. Já em 2010, o diretor preferiu voltar a sua estética realista levando para as telonas a história por trás da criação do Facebook, recebendo assim mais uma indicação da Academia. A Rede Social arrecadou todos os prêmios da crítica, mas perdeu o Oscar para O Discurso do Rei em uma das reviravoltas mais inesperadas e injustas da história da premiação. Só agora em 2011, no entanto, é que Fincher volta com tudo para o gênero que o tornou conhecido e no qual é mestre absoluto: o thriller.

Quando afirmaram que Hollywood faria uma refilmagem do excelente Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, o ar de revolta entre os admiradores do longa sueco foi grande devido principalmente ao medo de uma possível catástrofe. Ainda mais inquietos ficaram aqueles que leram o livro homônimo que deu origem ao filme. Porém, para alívio de todos (ou quase), logo confirmaram a mão de David Fincher na direção do projeto. Quem sabe poderia surgir um novo clássico, a exemplo do que fez Martin Scorsese com Os Infiltrados, um filme à altura daquele que o inspirou?

Ninguém sabia exatamente o que iria acontecer, mas o fato é que Millennium, a nova versão de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, consegue não só superar a original, mas empalidecer a mesma em comparação.

Embora os primeiros minutos do filme sigam quase plano a plano o antecessor sueco, não demora muito para essa revisitada na trama concebida por Stieg Larsson apresentar uma identidade própria, comprovando o que seu diretor dissera ainda na pré-produção: Millennium não pretende ser uma refilmagem. Assim como os Irmãos Coen fizeram com Bravura Indômita, Fincher procurou fazer uma nova adaptação do livro. Ou seja, tecnicamente falando,Millennium é uma “readaptação”, e não uma refilmagem.

O complexo roteiro que Steven Zaillian escreveu para essa dita readaptação, no entanto, deve muito ao complicado trabalho realizado em 2009 por Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, os roteiristas do filme sueco. Por mais brilhante que seja a carpintaria narrativa do novo filme em sua própria essência, e por mais competente que Zaillian tenha sido, é inegável que seu sucesso só foi plenamente possível em função do que Arcel e Heisterberg já haviam feito. Analisando o que já havia sido testado na primeira passagem do livro para o cinema, Zaillian pôde separar o que funcionou melhor ou pior, obtendo uma visão mais ampla de como a trama poderia ser trabalhada. Consequentemente, o vencedor do Oscar pelo roteiro de A Lista de Schindler foi capaz de criar inteligentes alternativas para problemas estruturais que até então não se faziam perceber no longa sueco. A revelação sobre o significado das anotações de Harriet e a procura de Mikael por determinadas fotografias são bons exemplos dessas soluções elegantes criadas pelo roteirista que, contando também com o aumento na participação de alguns personagens periféricos como Erika Berger (Robin Wright Penn), Dragan Armansky (Goran Visnjic) e Harald Vanger (Per Myrberg), enriquecem a trama de forma admirável. Mas, no final, não há como negar que o grande mérito de Steven Zaillian fica mesmo no desenvolvimento cuidadoso da intrigante Lisbeth Salander.

Se houve uma, a grande falha de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres foi exagerar no mistério em volta de Lisbeth Salander. Millennium tratou de consertar esse erro. Fincher tinha em mãos a ferramenta perfeita para essa operação. E sabia disso.

Em 2010, Rooney Mara protagonizou de forma vergonhosa o péssimo remake de A Hora do Pesadelo, mas participou de forma apenas correta em A Rede Social e isso parece ter bastado para Fincher, que não pensou duas vezes antes de escalar a jovem atriz para seu próximo filme. O resultado é surpreendente. Encarnando com admirável introspecção a icônica hacker que já havia rendido uma fantástica atuação de Noomi Rapace no longa sueco, Mara nos apresenta a uma Lisbeth mais sensível e vulnerável, mas nem por isso menos severa e perigosa, de modo que, justamente por oferecer um retrato mais profundo das mágoas da protagonista, não deve nada à interprete original da personagem. Seu desespero ao se confrontar com o declinante estado de saúde de seu tutor, bem como o olhar de agradecimento (e tristeza) que lança para o mesmo em um jogo de xadrez são reflexos de uma face de Lisbeth que não aparecia na atuação de Rapace (mas não por culpa da atriz). Em certos momentos é até possível perceber uma adolescente meiga escondida embaixo de todos aqueles piercings e tatuagens. Assim, a aparente vulnerabilidade da Lisbeth de Mara acaba servindo para contrastar de modo ainda mais assustador a essência sombria da personagem, como fica claro naquela que é uma das melhores cenas de vingança que o cinema já produziu – revigorante e repleta de justiça exatamente em função de sua crueldade.

Da mesma forma, é impossível não se encantar com a performance de Daniel Craig como o jornalista Mikael Blomqvist. Acostumado a viver homens confiantes e fortes desde que se tornou o novo 007 em 2006 com Cassino Royale, Craig consegue compor Blomqvist sem o menor sinal da auto-confiança excessiva do espião inglês, fazendo transparecer com competência a insegurança do jornalista sueco frente a certas adversidades como aquela quando se encontra surpreendido pelo dono da casa a qual invadiu minutos antes. No entanto, o ator também é competente ao retratar a inteligência do personagem nos momentos em que essa se faz necessária, como, por exemplo, ao perceber a relevância de certas fotografias na hora de desvendar o mistério, em uma composição intrigante por parte de Craig que acaba lembrando aquela de David Hemmings vista no sensacional Blow Up: Depois Daquele Beijo – e é curioso o bastante que o próprio uso da fotografia seja igualmente relevante nos dois filmes.

Falando em fotografia, é preciso dizer que o diretor de fotografia Jeff Cronenweth repete aqui o mesmo trabalho habilidoso que fez em A RedeSocial, e recheia Millennium com um cinza tétrico acompanhado por outras cores frias que têm a função de evidenciar a atmosfera sombria da narrativa, bem como captar a alma de um país tão gélido quanto a Suécia. Ao mesmo tempo, Cronenweth tem a inteligência de evitar exagerar no calor dos flashbacks, os pintado com o mínimo de cores quentes possível, e acertando ao embaçar levemente a imagem para, assim, reforçar o caráter de memória desgastada que aquelas cenas têm, uma característica que também ganha força através do design de som de Ren Klyce, que faz as vozes do passado soarem como ruídos pouco reconhecíveis.

Parceiro de David Fincher desde Se7en, portanto há 17 anos, Ren Klyce faz em Millennium um de seus melhores trabalhos como designer de som. Seja ao realizar a mixagem dos diálogos ou ao editar os sutis efeitos sonoros, Klyce sempre procura usar de modo inteligente os elementos sonoros orgânicos à narrativa, como rajadas de vento ou portas sendo abertas, visando criar uma atmosfera de tensão mais intensa e realista. Porém, talvez seja na manipulação da trilha sonora que Klyce tenha seu maior mérito.

Composta por Trent Reznor e Atticus Ross, a trilha sonora de Millennium é uma sucessão ininterrupta de experimentação musical que, justamente por seu extremismo (que lembra as composições de John Cage), resulta em momentos de pura genialidade artística. A excelência da trilha se mostra evidente já nos sinistros créditos iniciais do filme, que ganham o acompanhamento de uma fantástica e mais sombria versão da clássica canção Immigrant Song, do Led Zeppelin – que não poderia ser mais adequada à história (“We come from the land of ice and snow…”) –, e assim conseguem resumir com facilidade a essência perturbadora da história. Além disso, Reznor e Ross são capazes de levar até o mais calmo dos espectadores à tensão absoluta em determinados momentos da narrativa ao fazer uso de sintetizadores para compor cadências crescentes e dissonantes.

Ao final de tudo, porém, toda a tensão imposta pela trilha passaria despercebida não fosse a direção de David Fincher. Voltando a trabalhar em um gênero que domina como nenhum outro diretor, Fincher comanda Millennium com uma segurança invejável, deixando evidente sua maestria em contar histórias complexas e cheias de reviravoltas, e criando mais um thriller formidável, para ser posto ao lado de suas outras obras-primas do gênero, como Se7en e Zodíaco. E como se estivesse reencontrando um velho amigo depois de anos, Fincher claramente se diverte ao mais uma vez conceber um clímax excepcional e surpreendente que funciona perfeitamente bem justamente por subverter alguns dos maiores clichês dos filmes policiais.

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