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O Espião Que Sabia Demais

15/01/2012

Depois de uma carreira de mais de uma década fazendo quase exclusivamente tele-filmes de pouca repercussão, o cineasta sueco Tomas Alfredson causou sensação mundial em 2008 quando lançou o belo Deixa Ela Entrar, um atípico e excelente filme sobre vampiros adaptado do livro homônimo de John Ajvide Lindqvist. Chamando a atenção da crítica internacional da noite para o dia, Alfredson teve os direitos de seu filme vendidos para uma Hollywood sem originalidade que logo tratou de fazer uma dispensável refilmagem, ao mesmo tempo em que foi disputado pelos estúdios norte-americanos e acabou sendo convidado para dirigir a adaptação do livro O Espião Que Sabia Demais, de John Le Carré.

Lançado em 1974, e transformado em mini-série pela BBC em 1979, o livro com título original de Tinker Taylor Soldier Spy ambienta sua trama em plena Guerra Fria, com os dois lados vencedores da II Guerra Mundial ameaçando iniciar uma terceira a qualquer momento. No entanto, ao invés de focar na clássica batalha silenciosa entre EUA e URSS, a história é calcada exatamente no meio desse embate, com o serviço de inteligência britânico, o MI6, tentando identificar e se livrar do traidor que anda passando informações para os soviéticos.

Dentro dessa premissa, o roteiro de Bridget O’Connor e Peter Straughan apresenta uma narrativa complexa, cheia de sutilezas e permeada por reviravoltas. Elaborando os desdobramentos da trama com cuidado, os roteiristas criam uma cadência de eventos que proporcionam informações aparentemente irrelevantes à primeira vista, mas que mais tarde se mostrarão importantíssimas para a compreensão da grande intriga que corrói o MI6. Assim, os flashbacks que ocorrem a Smiley (Gary Oldman) servem tanto para apresentar detalhes do passado para o espectador, quanto para evidenciar sutilmente a força do vilão do filme – um feito admirável do roteiro.

Com esse material em mãos, Tomas Alfredson, por sua vez, deixando claro que a inteligência que demonstrou como realizador em Deixa Ela Entrar não foi ocasional, mantém a mão firme na direção do longa e cria um thriller de espionagem exemplar.

Consciente do caráter denso da história que vai contar, Alfredson estabelece logo na primeira cena a atmosfera de tensão que percorrerá o filme todo, e, ao lado do diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema, acerta ao investir em um tom sombrio que é adequado à narrativa devido tanto às cores dessaturadas, por ilustrarem perfeitamente a frieza dos personagens, quanto à aplicação de uma imagem granulada que evita embelezar uma realidade que nada tem de bonito. Dessa forma, Alfredson deixa o espectador totalmente imerso dentro do universo da espionagem. Uma vez tendo feito isso, o diretor pode se concentrar em conduzir a intrincada trama do longa, tarefa que realiza com maestria principalmente ao retratar como o menor dos detalhes às vezes pode refletir na maior das consequências – a disposição das peças de xadrez no aparamento de Control (John Hurt) e os travellings que a câmera faz acompanhando determinadas pastas de documentos são bons exemplos disso.

Através de sutis enquadramentos e movimentos de câmera, o diretor faz valer essa estratégia minimalista também ao focar nos gestos mais discretos de cada personagem, e é aí que entra a responsabilidade do estupendo elenco em fazer o filme funcionar.

Escolhidos a dedo, todos os atores realizam seus trabalhos com competência, cada um superando a seu modo os desafios específicos de seus respectivos papeis, embora seja possível apontar alguns nomes que se destacam. Benedict Cumberbatch, que faz um ótimo trabalho vivendo Sherlock Holmes na série Sherlock da BBC, interpreta o dedicado oficial do MI6 que ajuda na investigação secreta que move o filme, Peter Guillam, como alguém consciente da seriedade da situação na qual se meteu – e sua expressão ao telefone, em dois momentos distintos, é particularmente eficaz em transmitir a sensação de tensão que ocorre naquelas cenas – e a julgar pela disparidade entre esses personagens e aquele que viveu em Cavalo de Guerra, Cumberbatch prova ter talento de sobra para se dar bem no cinema. Do mesmo modo, Tom Hardy surpreende ao surgir aqui como o assustado Ricki Tarr, espião foragido que basicamente deu o ponta pé inicial na espiral de eventos que buscará trazer à tona a identidade do agente duplo que tanto preocupa o parlamento inglês. Servindo de contraste com o restante do elenco, performance de Hardy é fantástica ao conceder verossimilhança às aspirações e aos sentimentos de Ricki, um sujeito que, em função de sua pouca experiência, parece ser o único ali que ainda possui algum calor humano, como o próprio personagem sugere em determinado momento. Isso tudo ao passo que John Hurt abandona o tipo bondoso e simpático que faz tão bem, assumindo uma aura de severidade e necessária desconfiança na hora de viver o cansado Control, enquanto que Colin Firth, recente vencedor do Oscar por O Discurso do Rei, se diverte ao interpretar um personagem que foge de basicamente tudo que o ator já viveu antes.

Entretanto, não fica difícil de constatar que é Gary Oldman o grande destaque de O Espião Que Sabia Demais. Um dos melhores atores de sua geração e provavelmente o mais versátil de todos, sendo Johnny Depp seu único concorrente e ainda assim muitos degraus abaixo no pedestal de competência nesse quesito, Gary Oldman oferece uma performance admirável como o protagonista George Smiley, o referido espião no título brasileiro do filme que, após ser afastado de seu cargo, é convocado de volta para comandar uma operação de espionagem extra-oficial com a intenção de investigar o próprio MI6. Estando oficialmente aposentado, ou seja, “fora do jogo”, e sendo um dos nomes mais experientes e respeitados do serviço secreto britânico, Smiley é o sujeito perfeito para ir atrás de um traidor tão bem infiltrado a ponto de basicamente ninguém ter sido capaz de sequer suspeitar de sua existência. Devido aos muitos anos de serviço, Smiley sabe que qualquer demonstração de fraqueza pode significar o fracasso completo, e Oldman ilustra muito bem essa característica do veterano espião ao compor o personagem com uma cautela exemplar, fazendo transparecer de forma sutil o controle que Smiley aprendeu a manter sobre suas emoções com o passar do tempo, de modo que qualquer manifestação de humor mais aparente denote a invariável força e relevância do elemento que a causou – e nesse sentido a performance de Oldman lembra o excelente trabalho de Ralph Fiennes em O Jardineiro Fiel, filme que, curiosamente, se trata de outra adaptação de John Le Carré. Competente ao expor a perspicaz observação que o protagonista faz a respeito de tudo acontece ao seu redor, Oldman deixa o espectador convencido da inteligência e da astúcia de Smiley em momentos como aquele em que tira os sapatos ao prever que os pés descalços serão importantíssimos em não denunciar sua presença, ou quando, logo ao passar por uma porta, já entra no local sabendo não só que o mesmo havia sido invadido como até o nome do invasor.

Ao demonstrar a calma e a disciplina necessárias ao sucesso do ofício de seu personagem, Oldman também tem sucesso ao transmitir para cima de Smiley a bem-vinda aura de suspeita que paira sobre basicamente todos os personagens do filme. Talvez com exceção do papel de Tom Hardy, não há personagem no filme que não cause certo incômodo ao espectador, uma vez que praticamente todos ali são suspeitos, realidade que o diretor Tomas Alfredson torna ainda mais evidente ao vez por outra focar no rosto dos atores em closes que retratam a dubiedade presente por trás daqueles olhares.

Povoado por essas figuras calculistas e imprevisíveis, O Espião Que Sabia Demais poderia muito bem ser apenas um emaranhado de intrigas internas incompreensíveis não fosse a bem elaborada montagem de Dino Jonsäter, que consegue impor tensão e densidade à narrativa à medida que a trama se desenrola, principalmente ao introduzir os importantes flashbacks de forma discreta, dispensando flares e fades in out, obrigando o espectador a prestar atenção ao que se passa na tela.

Beneficiado ainda por uma melancólica trilha sonora composta pelo espanhol Alberto Iglesias, que tem a sabedoria de criar temas sutis e introspectivos, os quais, eficientes em criar suspense e remetendo a melodias de jazz típicas dos anos 1970, são perfeitos à atmosfera da história que está sendo contada, o longa também conta com uma pragmática direção de arte de Maria Djurkovic que, confeccionada com a ajuda dos discretos e excelentes efeitos visuais criados pela The Chimney Pot, uma vez aliada aos sóbrios figurinos de Jacqueline Durran resulta em uma ótima recriação de época que retrata fielmente a tecnologia de espionagem de então, contribuindo assim para a verossimilhança da narrativa bem como ajudando a escancarar o quão exagerados e bobos são a maior parte dos filmes protagonizados por super espiões como 007 ou Ethan Hunt (o mocinho da franquia Missão Impossível). Não que James Bond e seus similares mereçam menos respeito ou reconhecimento pelo caráter pouco realista de seus filmes, mas o fato é que, como O Espião Que Sabia Demais deixa bem claro, perseguições em alta velocidade, explosões absurdas e um vilão caricato que não pensa duas vezes antes de contar seu plano maquiavélico para a primeira pessoa que aparecer não são elementos essenciais a um bom filme de espionagem.

O Espião Que Sabia Demais é, portanto, um filme de espiões para adultos. Um filme que confia em seu público e que apresenta uma narrativa densa e complexa, evitando explicar a história a cada cinco minutos e sem medo de permitir que o espectador relacione por conta própria as reviravoltas e detalhes da trama.

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