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Cavalo de Guerra

08/01/2012

Há muito esperado, Cavalo de Guerra, o mais recente trabalho de Steven Spielberg, escancara logo em seus minutos iniciais a essência da tocante história que transcorrerá pelas próximas duas horas e meia e culminará em um dos finais mais emocionantes da carreira do diretor.

Além de anteceder o letreiro com letras garrafais que anuncia o título do longa, a primeira cena de Cavalo de Guerra acaba servindo de prólogo para este conto épico principalmente por retratar o nascimento do protagonista equino que dá nome ao filme. É nesse momento que também já fica evidente a paixão que o adolescente Albert Narracott (Jeremy Levine) sente pelo animal, relação mais do que fundamental para o funcionamento de toda a trama – e que Spielberg constrói com admirável simplicidade ao enquadrar o jovem atrás da cerca da fazenda observando o potro como se fosse o próprio cineasta admirando seu trabalho através de uma claquete.

Utilizando a primeira meia hora de filme para consolidar de forma definitiva o afeto recíproco entre Albert e Joey, como o cavalo foi batizado, o roteiro de Lee Hall e Richard Curtis (adaptado do livro homônimo de Michael Morpurgo) também é eficaz em apontar os sinais não só da iminente guerra que está chegando, mas também da infelicidade que cairá sobre os dois companheiros. A constante instabilidade econômica na vida dos Narracott serve de indicativo para a inevitável reviravolta que tanto magoará a vida daquela família. Atazanados pelo Sr. Lyons (David Thewlis), o inescrupuloso senhorio para o qual pagam o aluguel da pequena fazenda onde residem, os Narracott sofrem uma aparentemente incontornável crise financeira que os obrigará a tomar uma medida drástica a fim de manter sua moradia. Depois de ter comprado Joey por um preço muito além do indicado, o pai de Albert, Ted (Peter Mullan), devendo dinheiro a Lyons e com medo de perder a casa, não vê outra opção senão revender o animal. Com a guerra se aproximando, Joey é vendido a Nicholls (Tom Hiddleston), um capitão da cavalaria do exército britânico, e, após ser enviado para a França na frente de batalha, o cavalo começa sua jornada de sobrevivência e superação na busca pelo caminho de volta à companhia de Albert.

Ao tornar Joey o centro da narrativa, os roteiristas criam um arco dramático que se assemelha aquele visto em O Violino Vermelho, onde o instrumento do título passava de mão em mão, marcando a vida daquelas pessoas de um modo inesquecível. Em Cavalo de Guerra, é o animal que vai de um lar a outro, passando por bons e maus momentos, mas sempre criando algum elo sentimental com todos que encontra pelo caminho. Com isso em mente desde a primeira cena, o diretor de fotografia Janusz Kaminski procura a toda hora enquadrar Joey de modo a evidenciar a relevância e a imponência do animal frente às adversidades que o perseguem. Tendo consciência da delicadeza necessária para sucesso do filme e usando toda a sua experiência em dar importância e sentimento a seres que, de outra forma, nada mais seriam do que peças do roteiro, Spielberg sempre evoca Joey com sensibilidade, buscando transparecer o que o cavalo está sentindo para o espectador, e consequentemente tornando toda troca de rumo em sua jornada ao mesmo tempo uma dor e um alívio de testemunhar. Por um lado, torcemos para que Joey consiga voltar para casa e para Albert, mas, do outro, temos medo do que possa acontecer no processo.

No entanto, Cavalo de Guerra seria apenas parcialmente eficaz não fosse a cativante performance de Jeremy Levine como o adolescente que tem seu melhor amigo arrancado de seu lado. Em sua estréia no cinema, Levine é competente em viver Albert como um jovem simples, mas determinado e, mais importante, de bom coração – e basta observar o olhar apaixonado e ingênuo do rapaz para essa (relevante) característica do personagem ficar evidente. A expressividade dos olhos de Levine, por sinal, é impressionante, botando inveja no restante do elenco, e se mostrando indispensável ao tom triste da história que está sendo contada.

Triste não é bem a palavra. Um dos únicos erros de Spielberg talvez tenha sido exagerar na quantidade de alívios cômicos espalhados pelo filme. Mas esses não seriam necessariamente um problema, é preciso dizer, não fossem as figuras caricaturais que povoam toda a extensão da narrativa, e o fato de tanto os personagens alemães quanto os franceses falarem um inglês carregado de sotaque, o que torna suas ações artificiais e difíceis de serem levadas a sério. Com exceção do veterano Niels Arestrup, que encarna seu personagem com convicção e carinho em um papel bastante similar a aquele que interpretou em A Chave de Sarah, todo o elenco responsável pelos alemães e franceses da história é sabotado por personagens rasos que muitas vezes chegam ao caricatural devido à pronúncia equivocada da língua inglesa – e aqui eu lembro de como Quentin Tarantino merece parabéns pelo bom senso que demonstrou em Bastardos Inglórios, onde fez alemães falarem alemão e franceses falarem francês.

Tal equívoco, entretanto, não é suficiente a ponto de diluir por completo a grande carga emotiva que Spielberg desenvolve com cuidado do início ao fim do filme. Em vários momentos remetendo ao excelente Spirit: O Corcel Indomável em consequência da personalidade determinada e pujante do personagem-título, Cavalo de Guerra tem sua força dramática impulsionada também pela combinação da calorosa fotografia do já citado Janusz Kaminski com a melosa, mas nem por nisso menos eficiente trilha sonora de John Williams, que, desde 2005 (com Memórias de uma Gueixa) não realizava um trabalho tão belo.

Porém, apesar do foco essencialmente melodramático, o filme também tem sua parcela de bem-vindos momentos mais intensos, com destaque para a sequência que mostra Joey correndo pelas trincheiras apavorado, que surgem para deixar evidente o porquê da tristeza que percorre a narrativa. Assim, as tomadas aéreas que revelam campos de batalha repletos de soldados e, principalmente, cavalos mortos servem tanto para destacar os perigos que cercam Joey, quanto para Spielberg mais uma vez estampar a estupidez da guerra, como já fizera tão bem no decorrer de sua carreira em filmes como A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan.

Infelizmente, ao contrário do que ocorria com esses longas, Cavalo de Guerra, como já foi contado, sofre de modo latente em função da quantidade incompreensivelmente grande de personagens que nada mais são do que caricaturas e de situações tolamente desperdiçadas que, de outra maneira, poderiam render cenas memoráveis. Não é algo que estrague o filme de forma irremediável, mas, além de ser um erro bobo que poderia ter sido facilmente evitado, ainda mais nas mãos de Steven Spielberg, essa falta de cuidado com a seriedade da trama com certeza tira boa parte do potencial da mesma. E se mesmo assim o reencontro de Albert e Joey já compreende um dos momentos mais emocionantes do ano – e mesmo da carreira de Spielberg –, só podemos imaginar como seria o resultado caso o diretor tivesse tomado as rédeas da produção com mais esmero.

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