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Triângulo Amoroso

17/12/2011

A quantidade de casamentos frustrados hoje é crescente. Não é difícil chegar a essa conclusão. Inclusive recentemente o Governo da China (se não me engano), estava planejando um modo de contornar essa situação. A ideia consistia em estimular os noivos a escreverem uma carta de amor um para o outro e as enviarem ao correio, que então as retornaria somente sete anos depois – já que aparentemente esse estigma negativo do sétimo ano de casamento, e a carta escrita anos atrás chegaria de súbito para lembrar os cônjuges do quanto se amam. Particularmente, considero tal atitude um tanto ingênua (para não dizer tola). Vejo o amor, por assim dizer, como algo que não deveria precisar de constantes voltas ao passado para se manter vivo. E de certa forma, o filme Triângulo Amoroso (3, Alemanha, 2010) defende esse mesmo ponto de vista que tenho sobre o assunto. É uma pena, portanto, que o faça de modo tão irregular.

Em seu mais recente trabalho, o diretor alemão Tom Tykwer explora as falhas da conjunção matrimonial no século XXI ao apresentar um casal que, unido há vinte anos e claramente fora de harmonia, começa a experimentar de modo sintomático as possibilidades reconfortantes do adultério. O detalhe (possível spoiler): ambos estão traindo o parceiro com a mesma pessoa, mas sem saberem disso. Hanna (Sophie Rois) trabalha como repórter em um programa de TV sobre cultura e, em sua condição de imprensa, tem acesso aos comitês de medicina onde as questões sobre aborto e pesquisas com células-tronco têm espaço, e onde acaba conhecendo Adam (Devid Striesow), um cientista que aponta o atraso do país nesse debate justamente em função da discussão burocrática realizada naqueles mesmos comitês. Já o marido de Hanna, Simon (Sebastian Schipper), por sua vez, trabalha em uma firma que financia aquelas grandes instalações de arte no estilo Bienal do Mercosul e, após passar por uma delicada cirurgia, conhece Adam no clube esportivo onde faz natação.

Partindo de uma premissa mais do que batida, o roteiro do próprio Tykwer se esforça em encontrar boas soluções a fim de tornar a história mais interessante, e consegue, ao menos, desenvolver seus personagens com dinamismo. Ao abrir a narrativa com divisões na tela mostrando vários quadros do cotidiano de Hanna e Simon ao som de uma dinâmica trilha sonora, Tykwer estabelece de modo econômico e eficiente o ritmo da vida daquelas pessoas que nos acompanharão nas próximas duas horas. Ainda nesse sentido, é bastante sábia a decisão de ir apresentando Adam com cada vez mais profundidade à medida que a história avança, como uma comprovação da participação crescentemente imprescindível que este conquistou nas vidas de Hanna e Simon.

Por outro lado, essa cautela exemplar não é encontrada, por exemplo, na hora de desenvolver o romance de Simon e Adam. Se já não seria simplesmente fácil demais que ambos frequentassem a mesma piscina, a cena do primeiro contato sexual entre eles é mais do que forçada – e só não surge patética graças à competência dos dois atores. Da mesma forma, a explicação de Simon a respeito da fascinação que sua mãe tinha por múltiplos do número 3 não concede nada de importante à narrativa, surgindo apenas como mera curiosidade descartável, além de uma desculpa para fazer uma rima temática com o título original do filme (justamente “3”). No geral, toda a narração presente no primeiro ato no filme é dispensável, embora venha por vezes acompanhada de imagens cheias de um interessante simbolismo, como aquela em preto e branco que mostra Simon caminhando atrás de uma carruagem.

Se falha por introduzir uma bem-vinda discussão sobre aborto, células-tronco, fertilização in vitro e afins, que é largada na metade do filme, Triângulo Amoroso ao menos ganha pontos ao não perder tempo discutindo a sexualidade de seus personagens. Eles simplesmente o são. É um grande acerto de Tom Tykwer passar longe da ladainha sobre homossexualidade e bissexualidade (e variações). Ao não se aprofundar no tema, invés de demonstrar medo em tocar no assunto, Tykwer está evidenciando o quão natural é a pluralidade sexual humana – algo que o diretor já fizera de forma (nem tão) discreta no excelente Perfume: A História de um Assassino. E essa faceta do longa é reforçada pela ótima performance de Devid Striesow, que compõe Adam como um sujeito tranquilo e bem resolvido, mas com um sutil vazio interior, em nenhum momento remetendo à caricatura na qual o papel poderia se tornar caso caísse nas mãos de um ator menos talentoso.

Em menor grau de excelência, mas ainda competente, Sebastian Schipper é feliz ao construir Simon como um homem que, depois de passar por uma torturante cirurgia que obviamente o abala psicologicamente, encontra um consolo de dupla semântica em outro homem que, ao contrário dele, aparentemente é seguro do que deseja. Em função da operação a que foi submetido, Simon raspa o cabelo e constantemente esconde a careca com uma touca preta – em um ato inconsciente de insegurança a respeito de sua personalidade (ou seria sexualidade?). E Schipper mostra compreender seu personagem de modo que, nesse momento, ao ajeitar a touca, desvia o olhar para os lados, indeciso, como se procurasse uma direção a seguir, mas logo encolhe os ombros e toma o caminho a sua frente, expondo as frustradas tentativas de Simon em impor uma inexistente objetividade em sua vida.

Infelizmente, para fechar o triângulo, Tom Tykwer escalou Sophia Rois no papel de Hanna. Ao apresentar semblantes que remetem a uma repulsiva e envelhecida versão alemã da Marquesa de Merteuil, Sophia Rois claramente surge imprópria para o papel de Hanna, e seus maneirismos na hora de compor a personagem não ajudam a resolver esse problema. Quase sempre com o cenho franzido e disparando dispensáveis olhares fulminantes aqui e ali, Rois estampa Hanna como uma mulher de fortes opiniões próprias, é verdade, mas também como uma pessoa egoísta e desagradável.

No entanto, tomando uma decisão bastante arriscada, o diretor acerta em cheio ao mudar o tom do filme no terceiro ato, passando do melodrama à comédia de modo equilibrado, assim representando a positiva mudança na vida de Adam, Hanna e Simon.

Através das interações desses três personagens centrais, Triângulo Amoroso apresenta um interessante retrato do atual (e crítico) estado da instituição do casamento, e aproveita inclusive para oferecer uma solução ao problema. Como fica bem evidenciado no belo plano que encerra o filme, Adam está entre Simon e Hanna justamente para unir o casal que antes desmoronava sem aviso, e não para separá-lo. E nesse sentido, ao rimar com a narrativa quebrada que se seguia até então, o travelling imediatamente anterior, que acompanha os três através das janelas do apartamento de Adam, serve como uma elegante síntese da jornada do trio até esse momento de feliz união.

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