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A Chave de Sarah

07/12/2011

Um dia depois de ter conferido o mediano Se Não Nós, Quem? (Wir Wenn Night Wir, Alemanha, 2011), que não me deu o menor ânimo de escrever, pude encontrar tempo, graças ao buraco que tenho entre as aulas de terça-feira, para ver A Chave de Sarah (Elle s’appelait Sara, França, 2010), filme que emociona e elucida ao mesmo tempo.

A partir de um livro (ficcional) escrito por Tatiana de Rosnay, o diretor Gilles Paquet-Brenner, ao lado de Serge Joncour, cria um roteiro que, a princípio, se divide em duas histórias paralelas. Uma delas, no tempo presente, acompanha a busca da jornalista Julia Tezac (Kristin Scott Thomas) pelo que aconteceu com os antigos moradores do apartamento onde a família de seu marido residiu desde a década de 1940. A outra trama se desenvolve, então, em plena II Guerra Mundial, com a jovem Sarah (Mélusine Mayance) tentando voltar para casa para salvar o irmão, que ficou escondido (e trancado) no armário do quarto pouco antes de seus pais e sua irmã terem sido arrastados para fora de sua casa pelo Governo francês. Naquela época, a França manteve seus próprios campos de concentração para onde deslocavam a população judia, e o retrato desse fato, sem nenhuma condescendência por parte do diretor para com seus compatriotas, é um dos grandes méritos históricos do filme.

A parte histórica da narrativa, aliás, certamente conta com os melhores momentos do filme. Já estamos cansados de saber como operavam os campos de concentração nazistas (vide A Lista de Schindler, O Pianista ou A Vida é Bela), mas é novidade conhecer a participação francesa nessa mórbida empreitada. Sem tentar estilizar nem um pouco a brutalidade da situação, mas também fugindo do choque gratuito, o diretor Gilles Paquet-Brenner consegue retratar o sufoco pelo que passam os personagens de forma competente e econômica, seja ao apostar em imagens gerais do que acontece, como fica visível no travelling sobre as arquibancadas do estádio, seja ao contrapor planos próximos, evidenciando o terror nos olhos dos atores, com planos abertos, mostrando o cenário completo do caos que abruptamente irrompeu na vida daquelas pessoas.

Simultâneo a isso, a parte do filme que acompanha a jornalista Julia, embora não tão interessante, consegue equilibrar o ritmo da narrativa principalmente em função das relevantes informações históricas que concede, e conquista a atenção do espectador de modo a nos deixar mais curiosos para saber como tudo se resolveu.

Infelizmente, se no começo as transições entre as duas narrativas, apesar de aleatórias e súbitas, continham suficiente dinamismo para manter a história correndo de forma fluida, o roteiro comete o equívoco de encerrar a jornada da pequena Sarah cedo demais, quebrando o ritmo alternado que a montagem (de Hervé Scheneid) já havia estabelecido, e desperdiçando a chance de criar um arco dramático mais profundo – pois é decepcionante que a cena mais impactante do filme se encontre logo na metade da narrativa, provocando um forte clímax que acaba sendo diluído aos poucos em função da demora da história em se concluir.

As atuações, por outro lado, permanecem ótimas em toda sua escala. Desde a garotinha Mélusine Mayance, que, incrivelmente intensa, surge como uma tremenda promessa, até o veterano Niels Arestrup, que mesmo com pouco tempo em cena emociona o espectador com seu semblante triste, todo elenco cumpre bem seu papel. Kristin Scott Thomas não encontra problemas em evidenciar a obsessão de sua personagem, fazendo isso de modo disciplinado, sem cair, portanto, no exagero, e oferecendo uma performance incrivelmente convincente que acaba servindo como o trilho condutor da história. Scott Thomas, na verdade, apesar de todos os outros méritos do filme, é a grande responsável pelo sucesso de A Chave de Sarah. Devido aos equívocos na estrutura do roteiro, somente uma atriz do quilate de Scott Thomas seria capaz de segurar a segunda parte narrativa nas costas com tranquilidade. Além dela, outro que merece destaque é Aidan Quinn, responsável por um dos momentos mais belos do longa, quando seu personagem recebe do pai a revelação sobre o real passado da mãe.

Ao mesmo tempo em que o elenco segura as pontas da trama, o diretor Gilles Paquet-Brenner demonstra domínio da linguagem cinematográfica ao representar o estado psicológico de seus personagens com imagens evocativas como a aquela das meninas correndo pelo trigal ao som da bela e melancólica trilha de Max Richter, ou aquela que mostra Sarah já adulta sozinha em um estacionamento, isolada pelo vazio. Do mesmo modo, a fotografia de Pascal Ridao aposta acertadamente em um tom de cores suaves que, além de pincelar a inegavelmente triste aura da história, também ajudam a caracterizar a ânsia da protagonista em preencher as lacunas na história de Sarah.

Uma pena que essa dedicação em descobrir sobre Sarah seja corrompida pelo infeliz e dispensável drama conjugal que atravessa praticamente toda a narrativa. (possível spoiler): Depois de várias tentativas de engravidar novamente após a primeira filha, a personagem de Scott Thomas finalmente consegue tal feito apenas para a infelicidade de seu marido. A cena do restaurante em que Julia informa a Bertrand sobre bebê, no entanto, é direta e econômica, retratando bem o início do rompimento dos laços do casal, já que, depois dessa primeira briga, Julia deixa a família de lado para se dedicar exclusivamente na sua jornada atrás de Sarah Starzynski.

Mesmo com esse detalhe (que de certa forma é até relevante para a história, de forma torta, mas é), o filme se mantém firme para passar sua relevante mensagem ao final da narrativa. A grande questão por trás da chave do título diz respeito a muito mais do apenas a chave a que a pequena Sarah se agarrava enquanto lutava para voltar para casa. (spoilers!): Na primeira parte do filme, a chave representa a esperança de Sarah em encontrar e salvar o irmão. Por isso, o primeiro plano do filme, que revela uma Sarah feliz e risonha, serve de forte contraponto para aquele na metade da narrativa que capta o olhar aterrorizado da menina ao retornar para casa e se confrontar com o cadáver do irmão: nos dois momentos, a vemos através do olhar do irmão. Sarah então perde totalmente sua motivação de viver – e aí a jovem Mélusine Mayance oferece uma atuação capaz de arrancar lágrimas de pedras. A descoberta dessa triste reviravolta faz Julia temporariamente também perder sua vitalidade, finalmente concordando em fazer o aborto que o marido tanto queria. Mas apenas temporariamente, pois ela então encontra mais uma dica sobre o paradeiro de Sarah e cancela o aborto. Isso a coloca de volta nos trilhos – Julia lembra como Sarah, criança e indefesa, fez de tudo para reencontrar o irmãozinho, e percebe que estaria sendo injusta se desistisse naquele momento. Ela vai até o fim em busca de Sarah, chegando a conhecer seu filho William (Aidan Quinn). E nesse momento intermediário, a chave, sumida, representa a busca pela verdade – no caso, ela é a verdade esperando para ser encontrada. Relutante em acreditar nas palavras da jornalista norte-americana sobre sua mãe, William só aceita a verdade quando seu pai praticamente lhe entrega um dossiê com toda a vida de sua mãe – onde ele encontra a chave do armário. Ou seja, as verdades são reveladas quando a chave novamente aparece. Como bem diz a tagline do filme: “Às vezes o passado pode desvendar o futuro”. A chave de Sarah não é senão uma forte metáfora para explicar a imortalidade da esperança que, mesmo às vezes não levando a mais nada que o desapontamento completo, jamais deve ser deixada de lado – e o fato de Julia ter nomeado sua filha de Sarah só reforça esse belíssimo simbolismo.

Portanto, por mais que tenha seus problemas pontuais, A Chave de Sarah é um honesto retrato da condição humana, e um elogio àquela força intrínseca às pessoas, aquele estranho e revigorante sentimento que nos motiva de forma inexplicavelmente forte a continuar a lutar pelos nossos sonhos mais profundos: a esperança.

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