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A Hora do Espanto (2011)

10/10/2011

Os anos 1980, aqueles que tive a infelicidade de não testemunhar por nascer no começo a década exatamente posterior, foram marcados no cinema hollywoodiano por duas coisas: dramas melodramáticos vencendo o Oscar de Melhor Filme (novidade?), e uma extensa leva de filmes de terror.

O A Hora do Espanto original (Fright Night, EUA, 1985) surgiu bem no meio dessa mania de Hollywood em semear franquias de terror tão badaladas como Halloween (era 79, mas, hei, quase 80), Sexta-Feira 13 (1980), Evil Dead (1981), A Hora do Pesadelo (1984), Hellraiser (1987), Chucky (1988)… Era 1985, e o roteirista Tom Holland (o mesmo que depois viria a ser o criador de Chucky) decidiu estrear na direção com um filme sobre vampiros, fazendo surgir A Hora do Espanto, que então virou cult entre os fãs do gênero, e que hoje é considerado um pequeno clássico do gênero. E no mesmo hoje, 26 anos depois, Holland contemplou sua criação sendo refilmada.

“Refilmada por quê?!”, perguntariam alguns revoltados. É simples. Os anos 2000, no geral, marcaram a refilmagem de quase todos os filmes de terror do mundo, além de outros sucessos específicos dos nos anos 1980 (como Conan, Footloose e Hairspray). Some a isso o fato de a figura do Vampiro tão erroneamente em voga hoje graças ao sucesso estrondoso daquele conto de fadas chamado Crepúsculo, e A Hora do Espanto aparece como um prato cheio para ser recolocado no forno.

Filmado em um 3D dispensável (só as faíscas dos vampiros queimando se fazem notar ultrapassando a quarta parede), esse novo A Hora do Espanto cumpre exatamente o que promete, oferecendo uma aventura despretensiosa e divertida, ainda que pouco criativa. Não sei em comparação com o filme de 85, mas o roteiro desse aqui, escrito por Marti Noxon, não explora muito a premissa do adolescente desacreditado que descobre ser vizinho de um vampiro que vem se alimentando de pessoas da região.

Primeiro confrontado pelas suspeitas do amigo nerd Ed (Christopher Mintz-Plasse), o protagonista Charley (Anton Yelchin) só passa a realmente acreditar na ameaça representada pelo seu novo vizinho, Jerry (Colin Farrell), depois que Ed desaparece. Preocupado com sua namorada Amy (Imogen Poots) e com sua mãe (Toni Collette), Charley busca ajuda com o astro de Las Vegas Peter Vincent (David Tennant), suposto entendido no assunto. Não tarda muito para Jerry perceber as descobertas de Charley e passar então a caçar ele e sua família.

A partir dessa trama, o principalmente problema do filme se dá na estrutura do roteiro que, incluindo vários encontros determinantes entre Charley e Jerry, faz o filme perder o ritmo na medida em que temos a sensação de que nada está se resolvendo. Ao mesmo tempo, o diretor Craig Gillespie falha ao não conseguir impor uma atmosfera de suspense que se mantenha presente. As cenas de embate são bem dirigidas e, sim, tensas – principalmente aquela de Charley invadindo a casa de Jerry e, depois, a da fuga de carro -, mas, no geral, no intervalo dessas cenas, o filme se torna monótono, perdendo, portanto, o ritmo.

E se não descremos na ameaça representada por Jerry durante esses períodos de tédio, é graças à performance excelente de Colin Farrell, que, parecendo se divertir como nunca, encarna o vampiro com uma arrogante e sedutora auto-confiança que nos faz ter certeza que ele conseguirá o que quer. O desejo que emana da expressão de Farrell quando está prestes a morder uma vítima é hipnotizante – e Gillespie é esperto ao captar esse breve momento de glamour apenas para quebrá-lo no segundo seguinte com o retrato cru da mordida.

Eis o grande acerto do diretor (e do filme como um todo): um retrato digno dos vampiros. O falatório incompreensível entre crepusculetes fez os grandes estúdios pensarem que eram os vampiros que estavam fazendo sucesso no lugar do romantismo meloso e machista da autora Stephenie Meyer. Então, por mero acaso, sim, os vampiros entraram na mídia de novo. Apareceram mais séries literárias com vampiros (ou simplesmente historias sobrenaturais diversas com o mesmo tom novelesco de Crepúsculo) por aí, como Fallen, House of Night, Hush hush, Wake: Despertar; criaram duas séries de TV sobre vampiros (True Blood e The Vampire Diaries – a primeira sendo adaptada de uma dessas séries de livros); e claro que o cinema logo seria repovoado pelo sugadores de sangue. Até agora, podemos contar, entre outros, os mais famosos Eu Sou a Lenda (vampiros que na real são zumbis, mas mesmo assim, 2007) e 30 Dias de Noite (2007), o despercebido Cirque Du Freak: O Aprendiz de Vampiro (2009), o já esquecido Matadores de Vampiras Lésbicas (2009), e os inéditos Amanhecer Violento (2010) e o excelente O Filho da Meia-Noite (2011). E entrando para o time desses últimos que retratam os vampiros como de fato são, assassinos sanguinários, A Hora do Espanto tem nesse ponto seu maior mérito.

Para isso contribui também a boa fotografia de Javier Aguirresarobe, que mergulha tudo em tons sombrios, sem contar a ótima trilha sonora de Ramin Djawadi que mescla melodias soturnas e descontraídas, criando aquele clima ideal para terror adolescente, e, claro, a maquiagem (digital e/ou tradicional) que cria a verdadeira face dos vampiros.

Uma pena que, como dito antes, o roteiro de Marti Noxon seja tão sem graça. Roteirista incansável de Angel e Buffy, ela deveria saber fazer um uso melhor da mitologia vampiresca. E é notável o furo do roteiro no momento em que Charley vai buscar ajuda com Peter Vincent. Spoiler: depois da tentativa frustrada de salvar sua vizinha, quando Charley testemunha a mesma se carbonizando ao sol após sair da casa de Jerry, ele vai até Peter Vincent perguntar como matar um vampiro. Ora pois, ele próprio acabara de matar um, não é mesmo? E a justificativa para o personagem de Vincent é, aliás, fraquíssima, praticamente só servindo para dar nome ao filme (o show de Vincent se chama A Hora do Espanto) e para David Tennant nos provocar algumas risadas – inspirado em Russell Brand, Tennant de fato está divertidíssimo. (E outro detalhe incompreensível na referida cena de resgate fracassado se refere ao tempo que Charley passa dentro da casa de Jerry nessa ocasião. Ele entra lá quando ainda é noite, não fica muito, e quando sai já é de manhã.)

 

Contanto com um elenco equilibrado, o filme é o tempo uma sucessão de momentos interessantes e momentos chatos. No final, A Hora do Espanto não oferece muito mais do que uma diversão esquecível. Não que se propusesse a muito mais que isso. Mas vale por recolocar o Vampiro de verdade no mapa.

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