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Os Incompreendidos

04/07/2011

Agora, em julho, está em andamento a mostra A Infância no Cinema na Sala Redenção da UFRGS, com filmes que tratam do assunto. Nessa última sexta-feira (1/7), ao invés de ir direto para a última aula de Projeto Gráfico (melhor cadeira do semestre), saí de casa mais cedo para encarar a primeira sessão e preencher uma das minhas muitas lacunas cinéfilas. Já passava da hora de eu ver um filme de François Truffaut.

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, França, 1959) é um marco duplo na História do Cinema: não só foi o longa-metragem de estréia do cineasta francês, como, em função disso, um dos primeiros filmes a darem forma a aquele movimento artístico que, futuramente aclamado por todo o mundo, tremeria as bases do cinema francês de então, e ficaria conhecido como Nouvelle Vague.

Na segunda metade de 2009 eu participei de um grupo de estudos da faculdade que consistia em ver um filme representativo de cada um dos grandes movimentos da História do Cinema por semana, com debate posterior à sessão. O primeiro encontro foi sobre Nouvelle Vague, e acabamos por assistir ao longa Cléo de 5 à 7 (Cléo de 5 à 7, França, 1962). Até então eu nunca tinha visto um filme da Nouvelle Vague, e após esse eu só retornaria a encarar um filme do movimento francês com Os Incompreendidos. Não por repulsa, desgosto, ou qualquer coisa do tipo. Apenas acabei não vendo nenhum outro filme da Nouvelle Vague nesse período da metade final de 2009 até agora. Mas o fato é que, mesmo nesse intervalo de quase dois anos, consegui enxergar similaridades entre aquele filme de Agnès Varda e esse de Truffaut que vi poucos dias atrás.

Uma das características mais marcantes da Nouvelle Vague foi levar o cinema às ruas (de Paris). Isso é notável tanto em Cléo de 5 à 7 quanto em Os Incompreendidos. Se no primeiro Varda foca a protagonista Cléo experimentando chapéus em uma loja especializada com a câmera passeando pelo ambiente, no segundo Truffaut não se cansa de acompanhar em elegantes travellings pela cidade as aventuras dois amigos que dão razão do título brasileiro.

Antes, praticamente todos os filmes franceses eram produções de época, rodadas em estúdio. Isso nas palavras dos próprios integrantes da Nouvelle Vague. Truffaut, Godard, Chabrol, Varda e tantos outros nomes do cinema francês hoje consolidados, na década de 50 eram em sua maioria apenas críticos da sétima arte inconformados com a produção de cinema vigente em sua terra natal. Escrevendo para a revista de cinema Cahiers Du Cinema (ainda em circulação), os jovens críticos, liderados pelo eterno André Bazin, queriam provar que era possível uma produção industrial de cinema que ainda assim contivesse marcas de cinema autoral.

E se, enquanto críticos, Truffaut e seus amigos resolveram chamar a atenção para o cinema autoral realizado em Hollywood, evocando nomes como Alfred Hitchcock, Howard Hawks e John Ford para reforçar sua teoria – a de que cineastas mesmo trabalhando dentro de um esquema puramente comercial conseguiam esculpir seus filmes de modo diferencial, criando assim um estilo próprio, facilmente identificável – enquanto cineastas, Truffaut e seus amigos se colocaram a reconstruir o modo de fazer cinema na França, botando em prática o que antes só podiam idealizar nos textos da Cahiers Du Cinema.

Tirar o cinema de estúdios fechados, e rodá-lo nas ruas. Tirar o cinema do meio de narrativas de época, com ponderações clássicas, e usá-lo para contar histórias modernas, com problemáticas contemporâneas. Em suma, tirar o cinema do ontem, e colocá-lo no hoje.

Os Incompreendidos foi um dos primeiros filmes a serem realizados dentro desse ideal. Com história do menino Antoine que, incompreendido pelos pais e pela escola, se vê quebrando as regras para se adaptar e sobreviver, Truffaut viu a oportunidade perfeita para realizar o que pretendia.

Baseando-se em sua própria infância, Truffaut criou um retrato perfeito da juventude parisiense da década de 1950. Ao se colocar dentro da história, tendo Antoine como seu alter-ego, Truffaut consegue transmitir para o espectador exatamente aquilo que as crianças sentiam naquela época. Professores autoritários, métodos de ensino ultrapassados, punições exageradas, e uma relação pouco afetuosa com os pais são características infames da infância das gerações da primeira metade do século passado, e de até mais recentemente. A pouca liberdade concedida às crianças era o que mais as atormentava, junto com os conceitos de certo e errado absurdamente arbitrários, que as faziam criar um senso de justiça debilitado. Não havia uma unidade de regras a seguir. O que havia eram regras soltas, sem relação aparente. Isso era o que complicava tanto a aprendizagem (e ainda complica, ainda que em menor grau) tanto nos colégios quanto em casa. A resposta da “autoridade” (professores ou pais), no entendimento da própria, deveria ser suficiente para “disciplinar” a criança. No entanto, a criança, em sua ânsia por conhecimento, é uma criatura curiosa por natureza, e sempre questionará o porquê das coisas. A resposta “Porque não!” nunca irá satisfazer a mente de uma criança, e a repressão a esse sentimento só poderá gerar ressentimento – uma coisa que a humanidade demorou para perceber.

Antoine não era uma criança mal educada ou problemática, mas uma criança. Seu problema era a situação na qual se encontrava. Fazia algo “errado” na escola, era punido, e chegava em casa para ser tratado com dureza pela mãe por ter se comportado mal, o que o motivava a quebrar mais uma “regra” na escola a fim de procurar diversão, reforçando o ciclo vicioso no qual sua vida havia se transformado. Truffaut é especialmente habilidoso ao retratar essa relação em uma das vezes que Antoine e seu melhor amigo matam aula. Depois de irem ao cinema, os dois vão até uma espécie de parque de diversões, e Antoine entra um brinquedo giratório que brinca com a gravidade ao girar tanto rápido a ponto de as pessoas ali dentro ficarem ligadas por inércia à parede à medida que o chão desce. Enquanto todos dentro do brinquedo ficam parados, estáticos, Antoine é o único que se virá até ficar de cabeça para baixo, no que Truffaut inverte o ponto de vista da câmera, acompanhando a visão de Antoine, e retrata perfeitamente o modo como o menino enxerga seu dia a dia: de cabeça para baixo, sem o menor sentido.

Em Os Incompreendidos as crianças são encaradas como “pequenos adultos”, e não aquilo que de fato são: crianças. Os adultos, supostamente mais esclarecidos, não conseguem entender seus filhos, não entendem como e porque eles não seguem restritamente todas as regras. Deixam a tarefa da educação só para os professores, e os professores, depois de punirem os alunos e esperarem que os mesmos sejam punidos novamente em casa, quando vêem as crianças se comportando “mal” de novo, parte do pressuposto que não foram (suficientemente) punidas em casa, e não hesitam em pensar que os pais não têm a menor responsabilidade – e estão certos, mas não pelo motivo que pensam.

Em uma conversa entre a mãe e o pai de Antoine, quanto ao fato de ele ter sido suspenso na escola, ela (Claire Maurier) diz algo como “Isso não me surpreende mais, eu não sei do que ele é capaz”, com o maior desdém possível, um pensamento do tipo “Dane-se, eu queria ter abortado mesmo”. A mãe de Antoine, por sinal, só muda de atitude em relação ao filho quando este testemunha algo que não deveria ter visto. Ou seja, ela só faz alguma coisa quando é conveniente para ela. Já o pai (Albert Rémy), se no começo aparece descontraído e relaxado, logo passa a ser tão duro quanto a mãe, se não mais.

Mas, ainda que por um motivo egoísta, é graças ao comprometimento da mãe de Antoine em agradá-lo que os três, mãe, pai e filho, conseguem se divertir, mesmo que brevemente. A cena em que eles vão ao cinema juntos é um dos momentos mais belos do filme, o único de felicidade mútua em família. Não deixa de ser curioso que Truffaut foque o sorriso dos três somente dentro do carro (lugar fechado, apertado, pequeno).

O temperamento dos pais de Antoine variava de acordo com suas obrigações, e toda raiva e frustração eram descontadas no filho. A atitude do professor de francês (Guy Decomble), não era muito diferente. Não tendo domínio da turma ao se mostrar incompetente para ensinar, tratava de impor táticas autoritárias em sala de aula, a fim de ganhar o respeito dos alunos, falhando miseravelmente no processo. A primeira cena do filme é perfeita para exemplificar isso. Depois de expor os créditos de produção enquanto a câmera passeia pelas ruas de Paris, Truffaut abre Os Incompreendidos com as crianças na sala de aula passando de mão em mão a foto de uma mulher semi-nua. Antoine é pego pelo professor enquanto desenhava na foto, e colocado de castigo. E essa cena também serve para mostrar que a “culpa” pela atitude de Antoine não era estritamente sua, como ele mesmo comenta, desenhando na parede da sala enquanto de castigo, “uma pin-up caiu do céu” – afinal, não foi ele que trouxe aquela foto para a aula.

Truffaut também faça questão de deixar claro que ser um aluno “exemplar” e obedecer às regras não necessariamente faz uma boa pessoa. Provavelmente em situação parecida com a de seus colegas, Mauricet (Daniel Couturier) encontra espaço não quebrando as regras, mas fazendo justamente o contrário, às seguindo cegamente, e denunciando seus colegas sempre que pode. Ninguém gosta de um delator. Particularmente, acho que uma criança que vê outra fazendo algo realmente errado tem toda a razão para ser “dedo duro”. O que não justifica, claro, a compulsão por fazer isso constantemente, e por qualquer motivo fútil. Mauricet é o riquinho bem comportado dedo duro, e sua atitude tem consequências.

A problemática juvenil é latente em seu primeiro trabalho e seria retomada mais de uma vez na filmografia de Truffaut. Apesar da temática invariavelmente séria, o francês consegue fazer de Os Incompreendidos um filme admiravelmente bem humorado na maior parte do tempo, não à toa levando uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original. E se na medida do humor o filme pode lembrar bastante o recente e divertidíssimo O Pequeno Nicolau (Le Petit Nicolas, Bélgica, 2009), os momentos de seriedade da obra remete diretamente ao também recente (e excelente) Entre os Muros da Escola (Entre Les Murs, França, 2008). É interessante a tríade formada por esses três filmes. O Pequeno Nicolau trata especificamente do ponto de vista do personagem título, uma criança, da mesma forma que Os Incompreendidos, mas com uma abordagem muito mais leve, e um discurso mais otimista. Já Entre os Muros da Escola se foca um pouco mais no drama do professor, o protagonista, mas não toma partido, deixando que o espectador faça sua interpretação do que viu, ao passo que Os Incompreendidos faz questão de mostrar o quão inadequado é o sistema de ensino (da época), ainda que permita ao espectador decidir o resultado. O plano final do filme é ambíguo, e também pode ser visto de duas formas (como em Entre os Muros da Escola).

(os próximos parágrafos contêm informações relevantes sobre a trama do filme)

Depois de um plano sequência que acompanha Antoine correndo por uma longa distância, fugindo do reformatório, finalmente chega ao mar, que nunca vira antes, e fica estarrecido, com um olhar que denota não compreender bem a sua situação.

Por um lado, os mais conservadores podem interpretar que, por ter fugido de suas responsabilidades, Antoine acabou se perdendo (metafórica e fisicamente), e não encontrará o caminha de volta. No entanto, considerando tudo o que foi visto no filme até então, não consigo acreditar nessa hipótese, que justamente trairia o que Truffaut vinha demonstrando. O que parece mais de acordo com o discurso interno de Os Incompreendidos é a ideia de que o mar representa a liberdade de Antoine. “Ele nunca viu o mar”, a mãe fala em determinado instante. Nunca tendo visto o “mar”, ou seja, nunca tendo liberdade antes, Antoine não sabe o que fazer quando finalmente a descobre. Mas o “não sabe o que fazer” não é de uma ignorância necessariamente negativa. É uma coisa boa. Agora ele está livre e poderá experimentar o mundo, viver de fato. Embora seu olhar também demonstre a tristeza da incompreensão: “por que nunca me mostraram isso antes?”.

Porém, talvez pouco do que Truffaut faz em Os Incompreendidos funcionasse direito não fosse a interpretação primorosa do pequeno Jean-Pierre Léaud. Contando com um carisma contagiante, Léaud logo conquista o espectador, e consegue mudar a expressão de Antoine de uma hora para a outra sem soar forçado, o que é admirável. O restante do elenco infantil também brilha frente às câmeras, de modo que os atores mais “experientes” (os adultos) cheguem a ficar desfocados, embora Albert Rémy e Claire Maurier consigam fugir do caricato ao darem vida aos complicados pais de Antoine.

Sem nem considerar os detalhes técnicos, como a bela trilha sonora de Jean Constantin ou a fotografia de Henri Decaë que faz uso de um preto-e-branco triste, Truffaut já comprovava seu talento em retratar a condição humana como poucos logo no primeiro filme. Fazendo jus à condição de obra-prima, ainda que a situação tenha melhorado bastante, o drama apresentado em Os Incompreendidos continua assustadoramente atual.

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