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Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas

20/05/2011

Quando os roteiristas Ted Elliot e Terry Rossio apareceram com a ideia de um filme inspirado em um parque temático da Disney, ainda nos anos 1990, a proposta foi recusada. O projeto ficou na gaveta por anos. E quando Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra foi finalmente lançado em 2003, a expectativa não era das maiores, apesar do grande orçamento. Tão logo estreiou nos cinemas, a bilheteria começou a engordar, e sucesso do filme deu um tapa da cara dos produtores pessimistas. Até os críticos gostaram. Foi o suficiente para que a produção de duas continuações rodadas simultaneamente fosse confirmada. A maior parte da crítica e alguns espectadores não se contentaram, mas a verdade é que o sucesso de Piratas do Caribe: O Baú da Morte (“ Dead Man’s Chest, EUA, 2006) e No Fim do Mundo (“ At World’s End, 2007) superou o de A Maldição do Pérola Negra. Todos os três longas foram dirigidos por Gore Verbinski, que, após a conclusão do terceiro, não renovou contrato para comandar o quarto. Mas é claro que isso não impediu a Disney lançar Piratas no Caribe: Navegando em Águas Misteriosas (Pirates Of The Caribbean: On Stranger Tides, EUA, 2011).

Para a infelicidade generalizada daqueles que continuavam fãs da franquia até o momento (como eu), a direção desse quarto exemplar acabou por cair nas mãos de alguém que, sem nunca ter dirigido um filme de ação, ou de aventura, ou de comédia, certamente se encontrava em terreno desconhecido. E antes que alguém venha debater, musicais não são filmes de ação. Eles são musicais. Sendo assim, é realmente um alívio descobrir que o diretor Rob Marshall teve a decência de cortar do filme a cena que envolvia nado sincronizado.

Com uma carreira cujo ponto mais alto é o musical que roubou o Oscar de O Pianista (The Pianist, EUA/Polônia, 2002), Rob Marshall realmente não foi a escolha certa para um filme de ação com piratas, sereias, zumbis e espanhóis, fato que fica claro já na primeira cena, que surge deslocada do resto da narrativa e sem conseguir passar a ideia de “preparem-se, pois esse filme é foda!” – com a maior causa para esse segundo problema sendo os personagens espanhóis falarem dramaticamente em inglês com sotaque entre si… na Espanha.

Depois do começo trôpego, porém, o filme se endireita, e somos então apresentados às diretrizes que a trama tomará. No final de Piratas 3, Barbossa toma posse do Pérola Negra, e Jack foge com o mapa que indicava o caminho para a desejada Fonte de Juventude. Agora, em Londres, depois de re-encontrar a ex-amante Angélica (Penélope Cruz), Jack passa integrar a tripulação do pirata Barba Negra (Ian McShane), que busca a Fonte da Juventude em função de uma profecia que prediz sua morte dentro de poucos dias. Enquanto isso, uma vez que os espanhóis também procuram a Fonte, a Coroa Britânica, desesperada, corre atrás, com Barbossa liderando seus oficiais.

Apesar de a trama ser suficientemente criativa (inspirada em um livro de Tim Powers), os roteiristas Ted Elliot e Terry Rossio cometem uma série de deslizes na composição geral da história. Algumas questões não são explicadas adequadamente, ou não são explicadas mesmo. Quem era o sujeito que aparece na primeira cena? Qual a origem da profecia sobre a morte do Barba Negra? Quem era Ponce de León e por que seus cálices fazem parte do ritual necessário para rejuvenescer com as águas da Fonte da Juventude? Qual a origem desse ritual? Ou como os personagens tomaram conhecimento dele? São perguntas sem resposta.

No entanto, o roteiro comete o maior de seus pecados na concepção de Barba Negra. Embora referido em diálogos como o “mais cruel dos piratas”, o personagem vivido por Ian McShane surge em cena mais como um sexagenário cansado, do que como um sujeito realmente do mal. O que não deve ser visto como culpa exclusiva do ator, uma vez que McShane provavelmente seria a escolha perfeita para o papel caso este fosse malvado de fato. Fazendo o possível dentro daquilo que o roteiro lhe limita, a triste verdade é que seu Barba Negra não soa como a ameaça que deveria soar, empalidecendo totalmente diante dos outros vilões da franquia, principalmente se comparado ao Davy Jones de Bill Nighy.

Apesar dos erros, a dupla de roteiristas acerta na dose de reviravoltas, evitando exagerar em sub-tramas como acontecia em Piratas 3, e constrói várias situações divertidas recheadas de diálogos inspirados que sobrevivem facilmente mesmo com ausência dos personagens de Keira Knightley e de Orlando Bloom, que mal é sentida. Um dos motivos para isso é a decisão arriscada, porém acertada, de não se referir a eles em momento algum. E, portanto, devemos agradecer o bom senso de descartar a ideia de substituir Knightley e Bloom por outros atores e usar os mesmos personagens, o que seria bem pior do que uma possível saudade de Elizabeth Swann e Will Turner.

Sábia também foi a escolha por escalar Penélope Cruz como Angélica. Surgindo bela e encantadora como a uma antiga paixão de Jack Sparrow, Cruz supre sem problemas a falta do elemento feminino principal dos outros filmes. Sua dicção falha do inglês, aliás, só aumenta seu charme, que se torna irresistível nos momentos de irritação da personagem em que a atriz surge soltando xingamentos em espanhol. Para completar, a química entre ela e Johnny Depp é mais do que satisfatória. E como era de se esperar depois de três longas vivendo o sujeito, Depp encarna Jack Sparrow com uma naturalidade admirável, tornando mais uma vez o carisma e os trejeitos típicos do personagem em os atrativos principais do filme.

Mas se essa característica da franquia continua impecável, o mesmo não pode ser dito das sequências de ação que, fotografadas e montadas de maneira burocrática, diluem a empolgação invés de incitá-la, falhando em seu objetivo. Tanto nos duelos de esgrima em locais fechados, cujas coreografias sem muita inspiração abusam de movimentos retos e curtos, jogando fora qualquer dinamismo, quanto nas cenas de maior mise-en-scène em locações abertas, como aquela de ataque às sereias que, embora comece bem (tensa), logo passa para um amontoado de cortes bruscos que só confunde o espectador, a ação do filme nunca é satisfatória.

Além disso, com a maior parte de suas cenas rodadas à noite, contribui para a confusão geral o fato de Piratas 4 ter sido realizado em 3D, cuja captação e projeção invariavelmente mergulham as cenas em demasiada escuridão, prejudicando, assim, a boa fotografia de Dariusz Wolski. O que só comprova a incompetência de Rob Marshall em relação ao formato. Por desconhecer os problemas técnicos de se filmar em 3D, Marshall acaba o usando de modo equivocado e fornecendo uma experiência cinematográfica desinteressante.

Por outro lado, os efeitos visuais continuam a impressionar em sua qualidade, da mesma forma que a edição de som equilibra bem os efeitos sonoros e a trilha musical de Hans Zimmer. Porém, embora funcione perfeitamente bem, é decepcionante constatar que a trilha de Zimmer apareça pouco inspirada, reutilizando demais os temas dos filmes anteriores, surgindo original apenas ocasionalmente, quando faz uso dos solos de violão da ótima dupla mexicana Rodrigo y Gabriela.

Completando a produção do filme, a maquiagem continua eficiente como sempre (apesar da saída da sensacional designer Ve Neil), assim como os figurinos de Penny Rose e a direção de arte, que dessa vez ficou a cargo de John Myhre, colaborador habitual de Rob Marshall.

Logo, contando com a mesma competência técnica e criatividade dos longas anteriores, é graças à direção preguiçosa de Rob Marshall e ao roteiro furado de Ted Elliot e Terry Rossio que Piratas 4 se mostre de longe o mais fraco da franquia, ainda que suficientemente divertido.

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