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Agentes do Destino

13/05/2011

Inspirado em um conto de Philip K. Dick (que não li), Agentes do Destino (The Adjustment Bureau, EUA, 2011) conta a história do congressista David Norris (Matt Damon) que, no auge de sua carreira política, se depara com Elise (Emily Blunt), por quem se apaixona, e passa então a ter sua vida alterada pela intervenção dos ditos “agentes do destino”, que fazem de tudo para evitar o romance dos dois, uma vez que este não está no plano.

Na trama, há uma “organização de ajustes”, como diz o título original, que intervém na vida humana quando esta se desvia do plano inicial. A partir dessa premissa, Agentes do Destino constrói um universo alternativo que explora de modo exemplar a tênue linha entre ficção científica e fantasia, permitindo uma interessante discussão sobre destino vs. livre arbítrio.

Retratando os encontros e desencontros de David e Elise, o roteiro de George Nolfi (que aqui estréia na direção) peca pela estrutura episódica, dando saltos no tempo (“3 anos depois”, “11 meses depois”), e quebrando o ritmo da narrativa que, quando linear, se mostra bastante competente, tanto em explicar os elementos do universo criado por Philip K. Dick, quanto em desenvolver a ação dos personagens.

Também ajudando a firmar os alicerces do universo retratado, os detalhes técnicos de Agentes do Destino surgem bem acabados e, importante, bem coordenados. A fotografia de John Toll mergulha as cenas em um tom azulado que não apenas reflete o estado psicológico do protagonista, como, junto à direção de arte de Kevin Thompson, ajuda a ambientar os elementos de ficção científica e fantasia da história de modo mais crível. Os figurinos de Kasia Walicka-Maimone são especificamente felizes na composição visual dos “agentes do destino” – a escolha do chapéu é excelente, e o motivo por trás desta, ainda mais. A montagem de Jay Rabinowitz, que apesar de ter de obedecer à estrutura episódica do roteiro, é bastante eficaz principalmente nas cenas de perseguição, quando foge da tendência hollywoodiana de cortes alucinados por segundo, e equilibra a velocidade dos planos de acordo com a urgência da situação, mas sem perder a classe, permitindo ao espectador acompanhar as cenas sem problemas. E finalmente, a ótima trilha sonora do sempre competente Thomas Newman acompanha bem o ritmo da narrativa, costurando composições adequadas às cenas mais intimistas e às mais movimentadas.

Por sua vez, a direção de George Nolfi faz uma abordagem curiosa ao tornar tudo o mais crível possível (como dito antes, fotografia, figurino e direção de arte contribuem para isso). E é particularmente interessante a escolha de Nolfi em humanizar os “agentes do destino”, que surgem mais como agentes do FBI – relação irresistível, principalmente depois da menção ao “Presidente” –, do que como membros de uma seita transcendental que põe ordem no mundo, opção que também intensifica o clima de thriller presente no filme.

Além disso, o diretor é inteligente ao contextualizar de forma gradativa aquilo que, desenvolvido com cuidado pelo roteiro, é o elemento mais importante do filme: os detalhes sobre a personalidade dos agentes e sobre a natureza do universo no qual estão inseridos. Evitando entregar todas as informações de uma vez, Nolfi acertadamente as espalha pelo roteiro, revelando ao espectador apenas o necessário e, com isso, incitando sua curiosidade.

Porém, essa curiosidade provavelmente não se sustentaria caso o elenco do filme não fosse capaz de transmitir a realidade (absurda?) que envolve seus personagens.  Se compramos a proposta do longa, isso se deve principalmente à performance central de Matt Damon que, mais uma vez no papel de um sujeito preso em uma conspiração (lembremos da Trilogia Bourne e Zona Verde), não encontra problema ao compor David Norris com o carisma habitual, conseguindo expor o ímpeto do protagonista (essencial para a trama) sem transformar essa característica em algo forçado. (Porém, é preciso ressaltar que, embora o roteiro insista em dizer que a impulsividade de David é relevante para a trama (e de fato o é), a maioria de suas ações realmente impulsivas entra em quadro somente em comentários e referências ao passado, o que é um desleixo do roteirista).

Fazendo par com Damon, Emily Blunt exibe seu charme inevitável ao compor Elise como uma mulher independente e forte, sendo uma pena que não apareça tanto em tela quanto o desejável. O pouco desenvolvimento de sua personagem também é um problema, principalmente quanto à sua participação no terceiro ato, quando recebe uma revelação marcante. Ali, se é satisfatório que o roteiro não se demore demais na recepção da informação pela personagem, dispensando aquelas cenas clichês e dramaticamente supérfluas de “eu acreditei em você!”, é decepcionante que Elise surja mais como um peso carregado por David do que como uma personagem independente.

Fechando o elenco principal, o destaque vai para Terence Stamp, que interpreta o agente Thompson de modo que fiquemos tanto temerosos, quanto intrigados pelo sujeito. O modo como discursa para convencer David a desistir de Elise é excelente, resultando em um dos melhores momentos do longa, que grita as falhas da humanidade sem piedade. Thompson aponta os períodos negativos da nossa existência e os associa à natureza emotiva e autodestrutiva do homem. O filme levanta essa discussão, o que é maravilhoso. Porém, não deixa de ser uma pena que em nenhum momento se comenta mais diretamente sobre religião. Considerando que em determinado instante o protagonista questiona um dos agentes, e tem como resposta que eles já foram chamados de vários nomes, inclusive de anjos, e que devem reportar a alguém em posição maior na hierarquia, com aquele mais acima de todos sendo referido como “Presidente” (chairman, em inglês), é inevitável a interpretação de os agentes do destino e seus planos para os humanos surgirem justamente como metáforas do conceito religioso (judaico-cristão) de que cada pessoa tem sua vida meticulosamente planejada por uma entidade superior (Deus/Presidente). No entanto, tal visão se mostra paradoxal, já que o discurso de Thompson, defendendo a necessidade de seu trabalho, aponta que as únicas vezes em que sua “organização” deixou os humanos por conta própria foram aquelas fases negativas da humanidade em que era justamente a religião que imperava. Ou seja, faltou ao filme trabalhar melhor essa questão.

Entretanto, antes fosse apenas esse pequeno equívoco. Se Agentes do Destino vinha construindo possibilidades de discussão sobre destino, livre-arbítrio, liberdade, autoridade, entre outros temas, de forma competente e criativa, infelizmente o filme se perde de forma inacreditável e abrupta nos últimos minutos, quando é aberta uma narração boba e absolutamente forçada – visto que não há narração em qualquer outro momento do filme – que desmonta praticamente tudo que o filme vinha criando até então.

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