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Rio

06/05/2011

Depois de tomar as rédeas da franquia Era do Gelo (2003, 2006, 2009) e somar grandes bilheterias com ela, o brasileiro Carlos Saldanha ocupou um lugar de prestígio junto à indústria cinematográfica hollywoodiana. Não por acaso, a direção de um projeto de animação com história situada no Rio de Janeiro veio parar em suas mãos. Era a oportunidade de melhorar a imagem do Brasil para um grande público internacional. Infelizmente, isso não aconteceu.

Por pressão dos estúdios e/ou conformismo do diretor, Rio (Rio, EUA, 2011) conta com uma história fraca que abusa dos estereótipos a fim de tentar arrancar alguma risada do espectador, falhando miseravelmente na maioria das tentativas. Ancorando o arco narrativo da narrativa em uma questão delicada – o alto risco de extinção da arara azul – o filme ainda peca por não tratar do assunto com a devida seriedade.

A primeira cena do filme já declara o caráter que o filme vai a ter durante a maior parte de sua duração. Em uma floresta nas redondezas do Rio de Janeiro, um filhote de arara azul observa, impressionado, as outras aves voando e dançando samba enquanto a trilha sonora incidental se ocupa de tocar uma variante daquelas clássicas (e insossas) marchinhas de carnaval. Pouquíssimo inspirado (assim como todos os outros, por sorte poucos), o número musical serve apenas para comprovar a qualidade técnica da animação, que coloca fluidez aos movimentos das figuras animadas de Rio, certamente impressionando nesse aspecto, embora não faça o mesmo bom trabalho com o design de produção do filme, que permanece pouco inspirado na maior parte do tempo, pouco explorando as características da cidade do Rio de Janeiro.

Após um breve prelúdio envolvendo a infância do protagonista, a trama de Rio se concentra nos dois últimos espécimes de arara azul fugindo de seus captores. Enquanto ele, Blu, viveu em cativeiro a vida toda, é medroso e não sabe voar, ela, Jade, é selvagem, valente e voa. Tal disparidade de personalidades poderia gerar uma dinâmica interessante, mas é uma oportunidade mal aproveitada pelos quatro roteiristas (isso mesmo, quatro: Don Rhymer, Jeffrey Vertimilia & Joshua Sternin e Sam Harper) que, mais preocupados em fazer piadinhas, esquecem de desenvolver seus personagens. Aliás, se há algo particularmente incômodo no filme, são os personagens e principalmente o modo como através deles são retratados os brasileiros.

Partindo do raciocínio obtuso de que todo o brasileiro gasta seu tempo exclusivamente com samba e futebol, os realizadores de Rio contribuem para o fortalecimento de tal estereótipo ao redor do mundo. Em determinada cena, quando vê passar um grupo de pedestres dançando fantasiados na faixa de segurança, a personagem estadunidense, Linda, aponta uma mulher e pergunta a seu ‘guia’ brasileiro, Túlio, se ela é dançarina profissional, no que ele responde histericamente: “Não. Ei, espera, aquela ali é a minha dentista! Oii, oii, Dra. (inserir nome)”. A dentista, depois de cumprimentá-lo com acenos nada discretos, completa: “Não esqueça o fio dental”, antes de uma risadinha final (o que, considerando o fato de estar customizada em estado semi-nu, daria base para uma péssima piadinha de cunho sexual).

Se o estereótipo em si já é suficientemente ruim, antes fosse o filme fazer apenas isso. Mas, aparentemente não satisfeitos apenas com a redução do povo brasileiro a um único ‘tipo’, o realizadores ainda criam uma gama de personagens absolutamente caricatos e ridículos. Desde o ornitólogo Túlio – que me faria ficar ofendido caso eu fosse um, tamanha a patetice com que se comporta –, passando pelo segurança Sylvio (e pelo policial que o interroga), e chegando finalmente nos capangas do vilão que, embora gerem os momentos mais engraçados do filme, obviamente são caricaturas absurdas da figura do favelado carioca. Isso tudo, considerando a absurda bilheteria que o filme vem arrecadando, é preocupante.

Mesmo estando consciente de todo o planejamento de marketing em cima do lançamento do filme e de todo o atrativo visual e temático do mesmo, fico em parte surpreso com o número de brasileiros indo assistir Rio e dizendo que gostaram do que viram. Há quem diga que o Rio de Janeiro é essencialmente estereotipado, mas eu, conhecendo alguns cariocas, não consigo acreditar nisso. Assim como nem todo pelotense é homossexual e nem todo baiano é preguiçoso, não é todo carioca que é sambista.

Porém, mesmo que Rio não tivesse esse teor reducionista e preconceituoso, ainda assim não seria um grande filme – com certeza seria melhor, longe de uma maravilha, mas melhor. As falhas do longa se estendem para além de toda essa questão.

Para começar, nunca é explicado como Túlio tomou consciência da existência de Blu. Ele simplesmente aparece na livraria de Linda dizendo que estava procurando pelo pássaro. Sim, que o último espécime masculino de arara azul chamaria a atenção de alguém, isso é presumível. Só que o roteiro deveria dar alguma indicação de como isso aconteceu. E na outra ponta da história, uma referência sobre como e onde Jade foi encontrada também seria interessante. Do mesmo modo, a paixão que Blu passa a nutrir por Jade surge sem mais nem menos, apenas para cumprir seu papel na trama.

Depois, a segurança do local onde as aves ficam em cativeiro é inacreditavelmente mal idealizada. Uma crítica à precariedade das instituições brasileiras devido à falta de verba seria mais do que bem-vinda aqui. No entanto, mais uma vez preferindo investir no riso barato, o roteiro cria Sylvio, o segurança, como um sujeito bobão que, assim que se encontra sozinho no local de trabalho, tira o uniforme para ficar dançando de modo bestial apenas com uma fantasia rosa – naquele que é provavelmente o pior momento do longa.

Para completar, o terceiro ato do filme é tão ridículo, que faz o resto das mancadas do roteiro parecer erro de digitação. O vilão perde a posse das aves, e manda seus capangas e seu próprio pássaro, Nigel (em português, na voz do ótimo Guilherme Briggs, é o personagem mais divertido) atrás deles, pois precisa enviar os espécimes ao comprador por avião até o final do dia. Só que, como é dia de desfile do carnaval, e as ruas estão bloqueadas, para chegar ao aeroporto o vilão tem a brilhante ideia de montar um carro alegórico e passar pelo meio do desfile. Primeiro há a questão da “pequena” tecnicalidade envolvida. Não vou insistir, mas até eu sei que para desfilar no carnaval do Rio de Janeiro você não pode simplesmente montar um carro alegórico e se meter lá no meio. Depois, não há como não ignorar o absurdo da situação. Passar pelo meio do desfile, francamente. É óbvio que isso feito apenas para que o desfile pudesse ser usado, e cenas de ação alucinantes pudessem ser realizadas com o 3D. Uma pena que o argumento para a presença do desfile na trama seja tão ridículo, e que as tais cenas em 3D sejam tão medíocres.

Finalmente, no entanto, seria injusto não dizer que, por pior que seja o material com que está lidando, Carlos Saldanha, provando sua competência como diretor ao conseguir extrair alguma coisa do fraco roteiro, e realizar um número suficiente de cenas divertidas – com destaque para as cenas de vôo –, salva o filme da catástrofe completa.

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