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Cópia Fiel

14/04/2011

Cheguei questão de 1 minuto atrasado, perdi aquele tempo referente aos créditos iniciais (considerando que o filme os tenha). Eu me amaldiçôo sempre que cometo essa irresponsabilidade cinéfila. No entanto, o motivo pelo qual eu poderia não ter compreendido o filme de Abbas Kiarostami em sua completude não é referente a esse 1 minuto de filme perdido.

Tratando da questão emblemática do ‘sentido da arte’, o longa coloca em contraponto dois personagens com pontos de vista diferentes: um escritor que questiona os conceitos de originalidade cópia, afirmando que o valor de uma peça de arte está na percepção do admirador; e uma mulher, dona de uma galeria de arte, que discorda, acreditando que o original é sempre mais digno. O homem, James Miller (William Shimell) é mais centrado, contido, e tem uma visão racional das coisas. A mulher, Elle (Juliette Binoche) é mais solta, emotiva, e tem uma visão romântica das coisas. Depois que os dois se conhecem, após a palestra do primeiro sobre seu livro, ela, notavelmente encantada pelo sujeito, o convida para ir a sua galeria, e de lá ambos partem para uma pequena viagem pela Toscana – ele é inglês, ela é francesa, e eles estão na Itália (o diretor é iraniano e tanto Binoche quanto Shimell oferecem performances fascinantes – e é impressionante que Shimell, sendo um cantor de ópera com pouquíssima experiência no cinema, tenha tanto controle em cena).

Até aí, o filme se desenrola normalmente, com os dois personagens centrais discutindo o assunto naturalmente (ênfase do abvérbio, uma vez que a abordagem do cineasta quanto a interação dos atores é bastante verossímil: não surge forçada, não parece atuação – o que é de suma importância para a proposta do longa, como se verá adiante). No entanto, em determinado ponto, em um café, a estrutura do filme muda drasticamente, e (spoiler) os protagonistas começam a interagir como se fossem casados a 15 anos. O ‘drasticamente’ não deve ser confundido com ‘repentinamente’, ressalto. A proprietária do café interpreta a relação dos personagens de Shimell e Binoche como um casal, e quando ele sai para atender o telefone, ela comenta isso com Binoche, que não desmente a “falsa verdade”. Quando ele volta, perguntando o que acontece (ele não entende italiano), Binoche explica: “Ela pensa que você é meu marido. Eu não a corrigi”. Então, quando saem do recinto, eles começam realmente a agir como se fossem casados, com o porém da mudança ocorrer gradativamente. Eles não passam a gritar um com o outro logo na cena seguinte – embora isso venha a ocorrer em breve, junto com os exageros (propositais) nas atuações, quebrando a naturalidade da interação de antes. Portanto, podemos interpretar que ambos estejam fingindo essa relação matrimonial, como que duelando para ver quem mantém melhor a “mentira” – como ocorre em Jogo de Vida ou Morte (Sleuth, EUA, 2007). Ou, forçando um pouco (muito), se pode supor que os dois realmente fossem casados, e a mentira se restringisse à interação deles no começo do filme – visão que desconsiderei imediatamente. E embora a primeira suposição seja mais palpável, a considero implausível.

Logo, a possibilidade de interpretação que encontro é a de as duas facetas de cada personagem como sendo intrínseca e simultaneamente verdadeiras e falsas. Porque, no final das contas, não há de fato uma história real sendo contada ali. É tudo um filme de ficção. A maioria dos espectadores pode sair do cinema exclamando: “Mas o que estava acontecendo? Qual era a história de verdade?”. Isso simplesmente não tem a menor importância. É o ponto do livro de James Miller, e é o ponto que Abbas Kiarostami tenta provar. Não há uma história “de verdade”. Tudo depende da percepção que cada um tem da obra – discussão similar encontramos em Desejo e Reparação (Atonement, Inglaterra, 2007). Por isso é irrelevante o fato de eu ter perdido o primeiro minuto do filme.

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