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Bullitt

21/01/2011

Uns dias atrás morreu o Peter Yeats (alguém me ajuda: se pronuncia “Its” ou “Iêits”?). Foi o embalo necessário para eu finalmente ver um filme está em minhas mãos há anos.

Bullitt (Bullitt, EUA, 1968) é um dos filmes que marcam presença fácil na lista dos ‘mais importantes de todos os tempos’. Exagero? Não creio. Mas ao menos dentro do panteão dos filmes de ação e dos filmes policiais, Bullitt é sempre lembrado.

Não por acaso. A cena de perseguição de carros com incríveis 14 minutos de duração certamente merece o posto de antológica. Infelizmente, o resto do filme não chega perto desse adjetivo.

A ilusão começa com os créditos de abertura geniais que dão a entender que o filme todo será nessa linha. Mas não. O roteiro pouco imaginativo não faz nenhuma questão de apresentar, ou melhor, sustentar uma premissa intrigante. É um filme policial. O roteiro tem que ser intrigante. Mas não. Os roteiristas Alan Trustman e Harry Kleine adaptam o romance Mute Witness de Robert L. Fish sem o menor dinamismo.

O grande lance da trama é uma reviravolta no terceiro ato do filme. O problema é que o porquê da tal reviravolta nunca é explicado, e o filme termina não em aberto, mas inconclusivo.

Um político quer que Steve McQueen mantenha viva uma importante testemunha para um julgamento importante que acontecerá no importante dia seguinte. Então Steve McQueen junta sua equipe de policiais, vai até o hotel onde a testemunha está, organiza os horários de quem fará a guarda em qual horário, e vai para casa. Daí, conhecemos a mulher dele e tal, e aprendemos a gostar e nos importar com ele. Afinal, ele é Bullitt, o policial protagonista que tem o nome do filme.

Até aí, tranquilo. Só que algo acontece no hotel. Acontece merda. (agora vem um leve spoiler). Não só na história, mas no roteiro também. Uns bandidos malvados invadem o lugar e zuam a proteção à testemunha. Aí eu pergunto: se os caras tinham que cuidar da testemunha por uma mísera noite, então por que não ficaram todos eles mantendo guarda na porra do hotel? Por que montaram uma tabela de horários e blablabla? Standard procedure? De qualquer forma, sendo ou não o costume fazer isso, não me convenceu.

Outra falha nessa mesma cena se resume ao comportamento absolutamente imbecil por parte da testemunha, com ela própria a destrancar a maldita fechadura e deixar os bandidos entrarem lá para baixar o cacete em quem estivesse por perto. Ouvimos a testemunha – que não vou dizer o nome, pois sua participação em cena é tão superficial que nunca nos importamos de fato se vai morrer ou não, servindo ao roteiro apenas como a ‘testemunha’ – dizer algo do tipo “Não! Ele prometeu!” antes de levar chumbo. Qualquer um com cérebro pode deduzir que ‘ele’ é um chefão do crime e que ‘ele prometeu’ não matar o cara. Por quê? Nunca é explicado.

(a partir de agora não serão mais ‘leves’ spoilers, e sim spoilers de verdade)

Um dos policiais de plantão morre na hora e o outro fica seriamente ferido, junto com a Testemunha. Ambos são levados ao hospital, e lá o Político (outro arquétipo sem qualquer aprofundamento) vem cobrar de Steve McQueen por que ele deixou que sua testemunha fosse quase morta. “Eu queria tirar uma soneca, assim eu dividi os horários de soslaio em cima da sua testemunha. Os vilões do filme entraram lá quando eu não estava, por isso sua testemunha está morrendo. Afinal, eu sou o protagonista, e se eu estivesse lá, não ia ter pra ninguém”.

O cara que entrou no hotel enquanto Steve McQueen não estava lá resolveu ir até o hospital para terminar o serviço e matar a Testemunha. E ele faria isso caso o porteiro não fosse o personagem mais esperto do filme e avisasse Steve McQueen que o homem com a descrição do assassino tinha acabado de perguntar onde estava o cara que até agora foi sempre referido como a Testemunha nesse texto. Mas, ei, o foi o próprio porteiro que indicou o local onde estava a Testemunha para o Assassino, então ele não é tão esperto assim.

Depois de sei lá quanto tempo com nada acontecendo naquele hospital, Steve McQueen avista o Assassino, e começa uma perseguição a pé dentro do hospital mesmo. É uma das melhores coisas do filme, e o primeiro momento de Peter Yeats provar que é muito mais diretor do que Alan Trustman e Harry Kleine são roteiristas.

A Testemunha morre, e Steve McQueen deixa isso em segredo, conduzindo o cadáver para fora do hospital sem ninguém saber. Esse porquê é explicado, ao menos. Steve McQueen desconfia que o Político não dê importância para a captura do Assassino caso a Testemunha morra. O porquê desse porquê não ficou muito claro para mim. Até onde eu sei, a polícia continuaria a investigar o assassinato não só da Testemunha, mas principalmente os dos outros policiais envolvidos no incidente, mas deixemos passar.

Então eu não estou muito certo do que acontece agora por que vi o filme quase 10 dias atrás, tendo visto outros depois do mesmo (logo, qualquer erro factual meu considerando a trama de Bullitt, por favor indiquem). Acontece algo. Steve McQueen vai para seu carro e vê o Assassino em outro carro, brotando da sombra de um viaduto. E isso é extremamente conveniente por que 1) Steve McQueen pode seguir o Assassino; 2) Peter Yeats pode criar uma das cenas de perseguição em alta velocidade mais alucinantes do galáxia.

É óbvio que o segundo motivo é muito mais digno. De tão foda que é a cena, nós ignoramos a conseqüente morte do Assassino em uma bola de fogo após o mesmo bater o carro em um posto de gasolina. De que vale um bom uso de interrogatório quando se pode gastar parte do orçamento do filme em uma explosão?

Logo em seguida estamos na delegacia, na sala do Capitão, com o Político confrontando Steve McQueen depois de sua atuação impecável como herói de filme de ação. Então ele conta que a Testemunha está morta e escondida no porão da delegacia. Leva um tapinha na mão, mas diz que tem uma coisa provavelmente relacionada com o caso para investigar, e ganha carta branca do chefe para isso. É claro que o chefe daria carta branca. Afinal, ele é amigo de Steve McQueen, e Steve McQueen é Bullitt, protagonista e nome do filme. Agora, como ele descobriu essa coisa talvez relacionada com o caso, eu não saberia dizer (e aqui o problema tem que ser eu, por que se essa informação não está no filme, então…).

Steve McQueen vai investigar e TCHA-RAM, a grande reviravolta: a Testemunha não era a real Testemunha. Tan, tan, tan. Nesse ínterim o roteiro acerta em algumas convenções de thrillers policiais que funcionam (primeiro acerto da dupla nesse sentido), tudo graças ao taxista interpretado por Robert Duvall quando ele ainda era um ninguém.

Depois de conseguirem toda a atenção do espectador com a reviravolta interessante, o roteiro leva seus heróis até o aeroporto, onde a real Testemunha estaria tentando fugir de seu dever cívico de testemunhar contra o chefão do crime ao pegar um avião e sumir do mapa. Peter Yeats mais uma vez coloca uma tensão legal no ar enquanto Steve McQueen e seu colega sobrevivente procuram a Testemunha de verdade. Quando eles encontram ela, o roteiro volta à sua doze de estupidez e nos faz testemunha (hanhan) de uma perseguição a pé nas pistas do aeroporto de noite, por que a Testemunha pula para fora do avião onde estava (já que a porta da aeronave estava convenientemente aberta para que isso pudesse acontecer). Steve McQueen dispara atrás da Testemunha. Então a Testemunha tira um revólver da cueca e começa a atirar no nosso herói. Um momento: como raios o sujeito conseguiu passar pela segurança do aeroporto e entrar no avião com a porra de uma ARMA nas calças? Mais do que inexplicável, isso é inaceitável para qualquer padrão de verossimilhança.

Quando encurralada, a Testemunha demonstra sua má utilização pelo roteiro ao atirar sem o menor propósito em um segurança, em uma cena digna dos piores momentos de Tony Scott na direção. Desesperada, a Testemunha não sabe o que fazer e aponta sua arma para Steve McQueen, que, por ser quem é, mata o sujeito sem o menor dó e termina com o filme, não explicando para o espectador o porquê de tudo isso.

Bullitt, então, só é o que é em função do diretor que teve. 3/5

Assim, tenho um pedido a fazer a todo e qualquer roteirista que algum dia tenha vontade de se aventurar em filmes policiais: não exagerem no MacGuffin. Grato.

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