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Incontrolável

14/01/2011

Depois de um pequeno intervalo de 1h30 após Além da Vida, foi a vez de encarar logo a segunda sessão do ano.

Quando Incontrolável (Unstoppable, EUA, 2010) foi anunciado e, logo depois, com os mais 80% de crítica positiva no Rotten Tomatoes, meu pensamento foi basicamente o seguinte: “Tenho quase certeza que Tony Scott fez O Sequêstro do Metrô 123 (The Taking of Pelham 123, EUA, 2009) apenas como treinamento para fazer Incontrolável um ano depois”. Depois de conferir seu novo trabalho, posso tirar o ‘quase’ da frase.

A premissa do filme é possivelmente uma das mais básicas da História: um trem com quase um quilômetro de comprimento carregado de químicos inflamáveis está desgovernado por acaso e dois maquinistas, em outro trem, tentam alcançá-lo para acionar os freios. Deu. É só um trem gigante incontrolável indo de encontro a uma cidade e dois caras fazendo de tudo para pará-lo.

Sem frescuras, Tony Scott já vai desenrolando os acontecimentos cruciais que antecederam, ou melhor, impulsionaram o desastre. Acaso. Isso que é o mais incrível. O trem está alouka por acaso mesmo. Não tem um vilão, não tem um gênio do mal russo querendo destruir os Estados Unidos. Aconteceu. “Merdas acontecem”, já diria Forrest Gump. E a direção contagiante de Tony Scott consegue dar conta do recado, fazendo o espectador ficar tão vidrado na tensão em cena que o fato absurdo de o vilão do filme ser um trem seja irrelevante.

Claro, o roteiro de Mark Bomback ajuda nesse aspecto, ao retratar como arrogantes e bundões os políticos e patrões (nada mais justo) envolvidos na trama, que acabam servindo como uma gama mínima de antagonistas secundários. Porém, ao contrário do que poderia ser, com isso sendo apenas um artifício de roteiro para fins dramáticos, a decisão de Bomback acaba servindo até como crítica social. Por mais clichê que seja, a velha desculpa dos ‘danos econômicos’ é sempre utilizada pela politicagem, e Bomback acerta ao usá-la como “argumento” dos donos da empresa ferroviária ao questionarem os métodos pensados para parar o trem.

Por outro lado, o pequeno drama caseiro do personagem de Chris Pine, Will, surge completamente irrelevante para o desenrolar da história. E os acidentes de carros super aleatórios surgem forçados e risíveis. Dispensável. Mas eles são onipresentes em todos os filmes de Tony Scott. Já é marca registrada dele, fazer o quê.

Pelo menos sua outra marca registrada, a presença de Denzel Washington em cena, é muito bem vinda. Carismático como sempre, e deixando um pouco mais evidentes seus inacreditáveis 56 anos (sim, 56), Washington dessa vez (primeira?) faz um personagem cuja característica principal é justamente a idade (avançada). Frank não é velho, mas está há 28 anos fazendo a mesma coisa, e isso é bastante relevante para a história. Afinal, vem dele a ideia de engatar no trem desgovernado por trás (ui), e forçá-lo na direção contrária.

Ao mesmo tempo que os superiores da empresa do trem falam uma coisa, Frank e Will (ótima dinâmica entre Washington e Pine, por sinal) ignoram e fazem outra, e nesse ínterim a chefe da estão de onde o trem enlouquecido saiu, Connie (melhor atuação de Rosario Dawson), tenta convencer seu superior, Galvin (Kevin Dunn), disso, mas ele diz aquilo, e ela discorda, e daí concorda com Frank… É tudo muito rápido, mas bem montado.

Nessa troca de informações constante, é invariável que alguns diálogos surjam repetitivos, mas é algo longe de ser um problema. Até ajuda a situar o espectador no que está acontecendo e – agora é o comunicólogo dentro de mim que fala – serve de ilustração de como a comunicação é importante. Com tantas pessoas em tantos locais e com tantas funções diferentes, cada uma em um ponto da hierarquia, cada uma com suas ideias, é inevitável que uma comunicação decente seja absolutamente necessária para controlar a situação. Maus entendidos não podem ocorrer. Nesse sentido, a repetição nos diálogos é bem vinda.

Porém, de pouco importariam diálogos precisos caso não fossem bem sincronizados na sala de edição. A montagem de Chris Lebenzon e Robert Duffy se mostra impecável ao tornar tudo fluído tanto nas cenas de conversa, quanto nas cenas de ação, e inclusive nas cenas de ação permeadas por conversa. A edição de som também é merecedora de elogios. E a eficiente trilha de Harry Gregson-Williams impulsiona urgência ao que se vê na tela.

E no final das contas, o maior mérito do filme vai mesmo para Tony Scott. Mostrando uma segurança absoluta do projeto, o diretor deixa evidente sua competência para filmes que requerem tensão e agilidade na narrativa. São quase 2h só com pessoas discutindo o que fazer para parar um trem de 1km de comprimento e vagões correndo em alta velocidade como se não houvesse amanhã. Mesmo assim, Scott prende nossa atenção do início ao fim, nunca perdendo o ritmo alucinado. Muito acertadamente ele usa alguns de seus maneirismos com a câmera, como zooms rápidos e repentinos, mas mantendo a calma dessa vez – coisa que não acontecia em Chamas da Vingança, por exemplo – e empregando maior realismo ás filmagens, dando tons documentais às cenas (o que faz sentido, já que o filme é baseado em acontecimentos reais).

Além de ser apenas ‘mais um filme sobre trens’ na filmografia de Tony Scott, ao fazer uma dobradinha temática com O Sequestro do Metro 123, Incontrolável também faz uma curiosa rima estética com o filme anterior de seu diretor. Se em O Sequestro do Metrô 123 tudo acontecia totalmente dentro da estação, com o trem parado em um lugar fechado, em Incontrolável os trens estão a toda velocidade, correndo loucamente pelos trilhos de Ohio em ação constante e ao ‘ar livre’.

Entretenimento de alto nível, Incontrolável aumentou meu conceito de Tony Scott. E sua pequena homenagem ao Encurralado (Duel, EUA, 1971) de Spielberg precedendo os créditos iniciais, então, é absolutamente bem-vinda e dá ainda mais dignidade ao filme. 5/5

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