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Coisas Belas e Sujas

09/01/2011

Na onda de Stephen Frears, depois de Ligações Perigosas, no dia seguinte, fui direto ao filme do inglês que eu havia comprado ainda nessa semana por meros R$12,90.

Não comprar Coisas Belas e Sujas por esse preço não parecia uma opção válida. E fazê-lo (o ato de comprar o filme sem tê-lo visto antes) se mostrou uma ação incontestavelmente sã e genial da minha parte, pois assim que assisti ao filme, pude constatar sua alta qualidade.

Ambientando sua trama em uma Londres menos chique, mais triste e real, porém igualmente cinza, o até então desconhecido roteirista Steven Knight cria um intrigante retrato do submundo londrino em relação aos imigrantes ilegais que lá (sobre)vivem. O mais impressionante do roteiro, além de sua assustadora atualidade e verossimilhança, reside no fato de haver uma constante quebra de expectativa no decorrer da história, contrastando o que acontece, e o que esperaríamos que acontecesse. E Knight já dá um soco no espectador logo nas primeiras cenas do filme para deixar claro o tom que percorrerá o restante da narrativa: o protagonista, Okwe (Chiwetel Ejiofor), porteiro de um hotel, encontra um coração entupindo a privada de um dos quartos; vai até o gerente (Sergi López), e esse coloca o órgão no lixo, afirmando que a função do hotel onde trabalham é justamente limpar o que os outros fazem (limpar as ‘dirty things’, do título original). Só isso já bastaria para evidenciar a quebra de expectativa da qual falo – não era um dente, ou uma unha quebrada, e sim um coração humano que o gerente, Juan, botou no lixo -, porém, isso não bastando, basta dizer que logo depois Okwe vai falar com seu amigo Guo Yi (Benedect Wong), que trabalha no necrotério: só eu, ou o filme dava demais a impressão de que lá apareceria um cadáver sem o coração?

Enfim, o fato é que Coisas Belas e Sujas não toma os rumos de um thriller convencional, e trata de um assunto que é definitivamente mais feio do que belo. Merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original, Steven Knight já mostrava aqui seu talento em criar narrativas bem estruturadas e ambiciosas em seu contexto – qualidades que voltaria a apresentar no excelente Senhores do Crime (Eastern Promises, Inglaterra, 2007).

Porém, se no filme de Cronenberg a trama trataria de imigrantes russos mafiosos ricaços morando (e mandando) em Londres, aqui no filme de Frears os personagens são imigrantes ilegais, saídos de lugares tão diferentes quanto Nigéria e China, que literalmente se fodem para conseguir alguma dignidade.

Tratando de algo tão mórbido e sério quanto contrabando de órgãos como se fosse um simples hobby de determinado personagem, e mesmo assim sem fazer o mesmo personagem soar caricatural e puramente malvado, o roteiro de Knight, aliado à direção sóbria de Stephen Frears, tem o mérito de criar uma atmosfera sem índices puros de malvadeza ou bondade, tornando a experiência cinematografia extremamente real – aliás, fazia tempo que eu não via um filme com personagens são plausíveis de se encontrar na rua como se fossem transeuntes comuns.

Obviamente, de nada adiantaria tudo isso sem um elenco minimamente competente para encarnar tais personagens. E o elenco de Coisas Belas e Sujas é homogeneamente belo. Aparecido do aparente nada (ele já tinha aparecido antes no cinema, mas escondido), o ainda subestimado Chiwetel Ejiofor compõe perfeitamente o nosso carismático protagonista que tem passado incerto que só é revelado totalmente nos últimos momentos do filme; Audrey Tautou muito bem se entrega à frágil Senay; Benedict Wong faz o divertido Guo Yi; Sergi López brilha como o detestável Seaky – e a maneira como ele faz para seu personagem fugir do estereótipo é digna de aplausos; e fechando o elenco principal temos Zlakto Buric se divertindo com o porteiro russo canastrão, ao passo que Sophie Okonedo pouco faz como a prostituta Juliette.

Complementando a qualidade do projeto, o diretor de fotografia Chris Menges faz um ótimo trabalho mergulhando tudo em uma paleta de cores frias, reforçando a dureza da vida dos personagens – e a frieza das próprias pessoas –, enquanto que o figurino de Odile Dicks-Mireaux acerta em cheio nas roupas maltratadas dos protagonistas. De forma sutil, porém igualmente competente, a trilha sonora de Nathan Larson é eficiente justamente por não se sobrepor ao som ambiente, focando em composições econômicas e intimistas (por vezes até dissonantes). Fechando o time, o montador Mick Audsley (o mesmo de Ligações Perigosas) faz um ótimo trabalho costurando as cenas de modo fluido e interessante de acompanhar.

No mais, só vou dizer que a resolução dos problemas do protagonista, embora seja revigorante, surpreendente e dê aquela sensação de ‘missão cumprida’, é o único elemento que foge da incrível verossimilhança que permeava o filme todo até então. “Pecadilho”, já diria um crítico de cinema que eu conheço. Assim, Coisas Belas e Sujas é um filme que vinha se mostrando perfeito até determinando momento. E embora o detalhe que impede o uso do adjetivo ‘perfeito’ para ilustrar o filme não seja algo que comprometa o conjunto da obra em demasia, é um detalhe suficientemente notável que tira um pouco da perfeição vista até então (e de qualquer forma, apesar dessa única e última quase-falha, ou melhor, esse último não-acerto, o roteiro de Steven Knight é magistral em sua completude). 4/5

3 comentários

  1. Ótimo texto. É notável o realismo que o roteiro dá à história e que Frears mantém na direção (seu melhor trabalho, na minha opinião), sendo certamente o aspecto de destaque do filme. E que título, lindo e perfeitamente adequado. 7/10 ou 4/5.


    • Valeu! Não comentei ali, mas também acho que o título é excelente (tanto em inglês quanto em português).


  2. Lembro quando vi o filme, fiquei fascinado! A história é mesmo excelente e funciona como denúncia. Ótimo filme!



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