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Ligações Perigosas

07/01/2011

Tentando lembrar o contexto pré-filme… Ah sim. Essa semana foi (está sendo) ofensivamente quente. E terça-feira (04/01) era o dia do dentista. Às 14h do outro lado da cidade. Naquele sol a pino, eu, gênio indomável, esqueci de levar os óculos escuros, e passei a tarde toda com a testa franzida, tentando evitar que os raios de luz destroçassem minha querida e míope retina. Como conclusão, chegou a Noite, e essa mina vazada trouxe junto uma amiga dela, a senhora Dor de Cabeça. Filha da puta. Foi nesse estado que encarei um filme de época que queria (precisava) ver há tempos.

Eu nunca tinha lido a sinopse de Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, EUA, 1988) durante todos esses anos. Aí, durante o curso de roteiro que fiz no final de 2010, o professor, Roger Bundt, que havia avisado ter o péssimo hábito de contar o final dos filmes, comentou bastante sobre Ligações Perigosas, devido à natureza de adaptação do projeto, mas, felizmente, ele não chegou a contar o final. Então, atacado pela Dor de Cabeça e consciente de boa parte do enredo, peguei o senhor copo de Pepsi gelada (na real, peguei a garrafa mesmo) e fui ver esse filme do Stephen Frears que, a julgar pelo título, elenco e cartaz (ou seja, tudo) parecia bem mais ‘perigoso’ do que de fato se mostrou.

Em uma época de alta sociedade aristocrática, com nobres metidos em vestimentas exageradas em sua beleza (ou não) e inutilidade, mergulhados em um incessante ar de hipocrisia, os personagens principais de Ligações Perigosas têm sua diversão resumida em um desafiar o outro a conquistar um terceiro. Assim, a Marquesa Isabelle de Merteuil (Glenn Close) desafia o Visconde Sébastien de Valmont (John Malkovich) a conquistar Cécile de Volanges (Uma Thurman). Premissa inicial é essa. Ponto. (Só que, depois de o Visconde julgar a tarefa muito fácil, além do fato de estar interessado em conquistar outra mulher, Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer), muito mais desafiadora, a Marquesa de Merteuil convence o Visconde a aceitar o desafio, oferecendo a si mesma como prêmio).

A partir disso, a história toma forma, e testemunhamos o Visconde tentando conquistar a frágil e moralista Madame de Tourvel, enquanto a Marquesa de Merteuil armas mais intrigas a sua volta, usando o Visconde também como intermédio entre Cécile e o amante da mesma, Raphael Danceny (Keanu Reeves). É mais simples do que parece, e menos complicado do que poderia ser. Tudo bem orquestrado pelo dramaturgo e roteirista inglês Christopher Hampton, que aqui adapta para o cinema a mesma história que adaptou em sua homônima peça de teatro: a contada no (clássico) livro ‘Les Liaisons Dangereuses’, do francês (Pierre Ambroise François) Choderlos de Laclos.

O interessante é constatar que o livro é todo composto somente com as cartas que os personagens teriam enviado uns aos outros, como acontece no maravilho romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe. Não li o livro de Choderlos de Laclos, tão pouco a peça de Christopher Hampton para saber como o inglês fez para contextualizar no teatro a história que o francês pensou estritamente para o romance, mas tenho bastante curiosidade em tentar descobrir. Assim, Hampton pelo menos tinha um conhecimento presumivelmente profundo de ‘Les Liaisons Dangereuses’ quando lhe ofereceram (ou ele insistiu) que escrevesse o roteiro do filme. No mínimo, são intrigantes, do ponto de vista narrativo, as transformações estruturais e estilísticas (de romance para peça de teatro e de peça de teatro para roteiro de cinema), que a história passou até chegar às mãos do diretor Stephen Frears.

Sei pouco sobre Stephen Frears, mas lendo sua filmografia é fácil ver que sua carreira se constitui basicamente de dúzias de projetos para a televisão inglesa durante os anos de 70 e 80. Porém, talvez mais importante que isso, sei que Stephen Frears foi um dos assistentes de direção do magnífico Se… (If…, Inglaterra, 1968), de Lindsay Anderson. E qualquer um envolvido em Se… tem necessariamente alguma carga de ousadia pura, com isso sendo o outro indicativo (além do título, cartaz, elenco…) de Ligações Perigosas ser mais ousado do que é de fato. No final, com exceção de um que outro par de seios à mostra, Ligações Perigosas não passa muito de ‘mais um’ filme de época.

De qualquer forma, embora Stephen Frears não ouse tanto quanto poderia, maneirando bastante na sordidez presente em cena, é inquestionável o controle que ele tem na direção (demonstrando uma competência ímpar principalmente nos últimos minutos do filme).  Hábil em manter constante o ar de intriga, essencial para a história, Frears, para isso, trabalha em dupla com o cinegrafista Philippe Rousselot, enquadrando a maior parte das cenas de forma a insinuar o ‘proibido’ da situação; afinal, os personagens estão sempre falando mal uns dos outros pelas costas, e os enquadramentos fechados ajudam a salientar essa necessidade de abafar a conversa que, em verdade, nada mais é do que fofoca rococó – e falando em rococó, é preciso dizer que a ambientação de época é perfeita, tanto nos figurinos de James Acheson quanto na direção de arte de Stuart Craig, ambos merecidamente vencedores do Oscar.

Contando também com um elenco homogeneamente ótimo, que inclui a até então desconhecida Uma Thurman no papel de mocinha inocente que acaba perdendo essa característica ao longo da história; Keanu Reeves como o ingênuo Danceny (um papel perfeito para Andrew Garfield), que mostra uma simpatia que perderia depois de ficar famoso; Michelle Pfeiffer interpretando a católica e disciplinada Madame de Tourvel, mais sofrível que convincente, não justificando a indicação ao Oscar de atriz coadjuvante; Glenn Close maravilhosamente venenosa e mais contida que o normal infelizmente não tem tanto espaço em cena quanto merecia; e finalmente, o excelente e subestimado John Malkovich cria aquele que é o real protagonista da história, um galanteador nato que acaba cedendo ao ‘amor’, apesar de seus esforços para isso não acontecer. Aí se resume a grande falha de Ligações Perigosas.

Nunca ficamos convencidos do amor do Visconde pela Madame de Tourvel, bem como o amor dela por ele. Tudo bem que ‘amor’ acontece do nada na vida, geralmente, mas no cinema isso tem que ser melhor desenvolvido (não só no cinema). A sorte é que a força do elenco e da direção consegue segurar a trama bem o suficiente para continuar a história sem grandes problemas (sendo o adoecimento súbito da Madame o maior deles). Da mesma forma que o personagem de Malkovich perde o foco da sua missão, o roteiro de Hampton parece esquecer qual linha pretende seguir, e aceleram alguns acontecimentos que poderiam ter sido muito melhor aproveitados caso explorados mais a fundo. Não só o envolvimento (o amor) entre o Visconde e a Madame é mal explicado, é em função dessa falta de clareza que o motivo da briga entre o Visconde e Marquesa de Merteuil não soa tão crítico como deveria, – embora seja preciso confessar que é o momento dramaticamente mais belo do filme (graças às atuações impecáveis de Glenn Close e John Malkovich – esse último incompreensivelmente não indicado ao Oscar), e a cena do duelo entre o Visconde e Danceny surge deslocada demais (falha do montador Mick Audsley).

No entanto, o grande trunfo de Ligações Perigosas reside nos seus últimos minutos, quando a morte de determinado personagem, somado à realização de seu último desejo, desencadeia uma ação que desmascara a real face de outro personagem, o que simbolicamente representa uma fascinante parábola sobre o papel do feminismo na sociedade. 4/5

(O restante do texto pode conter spoilers, então se você ainda não viu o filme, pare de ler aqui). Em apenas dois planos (os finais), o cineasta Stephen Frears cria uma carga dramática densa recheada de crítica social belíssima justamente por sua sutileza. O filme todo conta como uma crítica social geral dos costumes da aristocracia do século XVIII, verdade, porém a cena final sozinha ao mostrar Glenn Close tirando a maquiagem do rosto de frente para o espelho reflete o valor maior de Ligações Perigosas: a discussão sobre não o papel da mulher, mas o papel reservado (obrigado, imposto) à mulher pela sociedade. Isabelle de Merteuil não era uma mulher essencialmente má, como a maior parte do público pode pensar com término do filme (embora eu ache que você não é humano se você não ter pena da personagem na última cena). Isabelle apenas era uma mulher que, vivendo em tempos excessivamente machistas, buscava um modo de se sobrepor, garantindo sua sobrevivência (simbólica) a qualquer preço, mesmo que para isso precisasse trair quem quer que fosse. Que ela usou o Visconde de modo cruel ninguém duvida, mas fica implícito que alguma coisa ele fez para ela anos atrás (além do simples fato de ele ser do sexo oposto). E apesar de afirmar que queria que o Visconde seduzisse Cécile a fins a desvirtuar a moça para frustrar o futuro marido da mesma, Isabelle, na verdade, estava justamente ajudando a personagem de Uma Thurman a sobreviver, usando os homens. A ficha cai quando a aprendiz pergunta: “Mas aí eu teria que transar com três homens diferentes!”; no que a mentora responde com um leve sorriso: “E com quantos mais você quiser” – aliás, os diálogos são outro forte do filme.

Outro filme que, na minha interpretação, trata do mesmo assunto, porém tem uma abordagem completamente diferente, é o recente Anticristo. Quando escrevi sobre a obra de Lars Von Trier, tentei mostrar que o filme propunha uma discussão sobre justamente o papel visto com sendo da mulher, quando na verdade ele era imposto para ela, e não sendo dela (prestem atenção nas preposições!). Ali, a personagem de Charlotte Gainsbourg agia de modos aparentemente sem nexo sempre indo contra a opinião do marido (vivido por Willem Dafoe), mas com modos que se analisados em relação ao contexto geral do filme, podiam muito bem ser vistos como ações de indignação à imposição de um papel para a mulher na sociedade. Em Ligações Perigosas, Isabelle faz de tudo para proteger sua integridade como indivíduo, criando uma falsa versão de si para apresentar à sociedade que ameaçava constantemente sua saúde simbólica, enquanto seu eu de verdade, a pessoa, a mulher, dentro de si permanecia escondida. Então, quando as cartas que escrevera para o Visconde falando “mal” de todo mundo, ou apenas comentando suas intrigas mais íntimas, são divulgadas, Isabelle se sente totalmente exposta, com o espírito aos pedaços. Quando ela tira a maquiagem de frente para o espelho, estamos vendo metaforicamente sua resignação à imposição da sociedade. Tirando a maquiagem de frente para o espelho (que cena!), Glenn Close está representado a Mulher que remove a falsidade pessoal que lhe foi imposta como único modo de conseguir algum respeito, ao mesmo tempo que se submete ao culturalmente construído papel de mulher (falso por definição) que lhe está sendo… imposto. É uma cena absolutamente riquíssima em simbolismo, e difícil de descrever (está desculpado/a se não entendeu minhas últimas frases, embora esteja deixando de constatar uma epifania invejosa).

No final das contas, Ligações Perigosas é mais ousado do que parece, ainda que tenha sua ousadia disfarçada de sutileza.

O livro ‘Les Liaisons Dangereuses’ data do século XVIII, Ligações Perigosas é do final da década de 80, e Segundas Intenções (Cruel Intensions, EUA, 1999) é uma curiosa e competente tentativa de contextualizar a mesma história no universo jovial dos anos 90. Além disso, a obra de Choderlos de Laclos já foi adaptada para cinema ou televisão em outras 11 ocasiões (sendo a primeira em 1959, e a mais recente em 2005; havendo até uma versão sul-coreana de 2003). Isso só demonstra a atualidade do conteúdo da história.

É triste constatar que o gênero feminino continua sendo tratado com descaso por tanta gente em pleno século 21.

3 comentários

  1. Maravilha de filme. Vou além, dou 5 estrelas. Estava 4 até aquele desfecho brilhante.


  2. esse filme foi o mais ruim do ano


    • Que loucura. Eu nem sabia que as pessoas ainda liam esse blog empoeirado. Fico ainda mais surpreso com o comentário. Acho que eu não recebia um faz mais de um ano. Tu achou o filme ruim, mas espero que tenha achado o texto sobre o mesmo interessante. Abraço.



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