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Os Homens Que Não Amavam as Mulheres

28/05/2010

Tentei e tentei, e agora estou tentado a seguir a filosofia de vida de um dos personagens de Robôs (Robots, 2005): “Nunca tente, nunca fracasse”. Por que é o que sempre acontece quando eu tento combinar alguma coisa, mais especificamente um cinema. Nunca dá certo. A culpa não é das pessoas envolvidas no projeto, mas é inegável que nunca dá certo. Talvez seja por que eu aviso em cima da hora… Enfim, minha última ida ao cinema foi mais uma dessas tentativas fracassadas de socialização. Fui ver um filme que já tinha visto.

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor) estava demorando demais para chegar ao Brasil. Aliás, nem tinha previsão de estréia até o pessoal do Cinemark do BarraShoppingSul colocar um pôster (sim, estrangeiros, existe um Barra em Porto Alegre). Então tomei a liberdade de adquirir a superprodução sueca através de outros meios.

Desde que a trilogia Millennium foi anunciada no Brasil, eu fiquei muito curioso para saber a história. Não, fiquei curioso para apreciar a história. Comprei o primeiro livro na Feira do Livro em 2008, mas acabei não lendo. Descobri que a Suécia estava adaptando os livros para o Cinema. Primeiro eu pensei em ler o livro rápido, para conferir a adaptação nas telonas. No entanto o fogo cinéfilo estava queimando forte demais, e decidi ver o filme primeiro. A trama do infelizmente falecido Stieg Larsson prometia muito. E eu sinceramente tenho mais prazer vendo um filme excelente, do que lendo um livro excelente. Então pensei, “se a história é tão boa, e se fizerem um filme tão bom”… Meu raciocínio foi o seguinte: a história tem potencial de ser muito boa, bem construída, intrigante, e com reviravoltas; 1) se eu ler o livro primeiro, posso adorar o livro, e quando chegar o filme, me decepcionar pelo trabalho mal feito de adaptação, correndo o risco de ter meu imaginário da história destruído; 2) se eu ver o filme primeiro e for um filme ruim, eu terei apenas visto um filme ruim, podendo muito bem tempos depois então ler o livro, supostamente bom; 3) posso primeiro ver um filme que é excelente, e então ler o bom livro e fazer as comparações de diferenças de narrativa; 4) posso ler um livro excelente, e então ver um filme excelente, mas já sabendo tudo que irá acontecer. Não sei se ficou claro, mas a questão é que para mim valia mais a pena ver o filme primeiro. Eu me saciaria muito mais com um filme excelente.

Foi o que eu fiz. Não li o livro, mesmo depois de muita gente me dizendo que era muito bom. E vi o filme. Dia 12 de março sentei em frente ao monitor do computador por duas horas e meia enquanto assistia Os Homens Que Não Amavam as Mulheres em BluRay, após este ter ficado um período bastante longo “downloadeando”.

E hoje, 27 de maio, volto a sentar por mais duas horas e meia com o mesmo propósito, mas desta vez no cinema.

Se eu fui ver o filme de novo, é por que o filme não é ruim. Se eu fui ver o filme de novo e sozinho, é por que o filme não é ruim mesmo

Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é uma maravilha! Tem tudo que se poderia esperar de um thriller investigativo, mais o bônus de ser falado em sueco, o que só deixa a experiência de assistir o filme ainda mais revigorante!

Desde a introdução dos personagens principais, até a revelação final e o gancho para a continuação, o roteiro de Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg é competente e envolvente de modo invejável. A construção da narrativa é praticamente perfeita. O elemento neste ponto que me parece minimamente problemático é a intercalação das ações de Mikael e Lisbeth – isto é, somente até os dois se encontrarem. Pouco perceptível para o público em geral, mas a montagem pode incomodar um cara mais chato (tipo eu) nesse quesito.

Porém, é só nesse quesito mesmo, pois o restante do longa é muito bem montado. Um bom filme, ainda mais um thriller, não existe sem uma boa montagem, e a montadora Anne Østerud cumpre bem esse papel.

Outra faceta da produção fílmica que ajuda a compor um bom thriller é a trilha sonora. A trilha sonora pode elevar a emoção de um filme em muito, se bem utilizada. Tenho notado que muitos filmes ignoram isso, pois suas trilhas surgem meramente como ferramentas esquemáticas para ajudar na cena. Mas a música não deve ser usada como alavanca para o emocional. Ela deve ajudar complementando, ‘dando uma mão’, e não entregando a bandeja servida. Em Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, o compositor Jacob Groth faz um trabalho muito interessante. Composições por vezes sutis, por vezes bastante notáveis, mas invariavelmente sempre presentes conseguem nos mergulhar completamente na atmosfera do filme. É o que percebi de mais efetivo na música do dinamarquês. A idéia de manter a trilha tocando durante praticamente todo o tempo possivelmente tenha sido do diretor, mas o compositor merece muitos créditos por ter conseguido compor arranjos que se encaixassem nessa proposta. Não é fácil criar uma linha melódica variável o suficiente para ser bastante repetida, e ainda por cima ficar de acordo com a intensidade de cada cena. Jacob Groth foi excelente – feito similar ao de Howard Shore em Silêncio dos Inocentes (Silence of the Lambs, 1991).

Já que citei brevemente o diretor, então falemos um pouco dele. Niels Arden Oplev é um cara desconhecido completo para todo o planeta de fora da Suécia. Pelo que pude descobrir, ele dirigiu seu primeiro longa metragem, Portland, em 1996; ficou fazendo trabalhos para a TV sueca até 2001, quando dirigiu Fukssvansen; voltou para a TV, e em 2006 dirigiu mais um longa para cinema chamado Drømmen; TV; 2008 faz To verdener; e finalmente em 2009 ele é chamado para dar vida ao primeiro capítulo da ambiciosa trilogia literária mais falada em sua terra natal: Män Som Hatar Kvinnor (corretamente traduzido como Os Homens Que Não Amavam as Mulheres). Só posso dizer que estou muito curioso para conferir o trabalho desse diretor sueco que é meu mais novo ídolo precoce. Arden Oplev realmente merece parabéns pela adaptação do livro. Sim, óbvio, os roteiristas também! Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg são os responsáveis pelo roteiro conciso e inteligente, mas em mãos erradas, o roteiro de Arcel e Heisterberg poderia ter sido destruído na transposição para a telona.

Da mesma forma, caso fossem designados atores ruins para o elenco, o resultado seria muito menos satisfatório. Não consigo pensar em um que não tenha feito seu trabalho direito. Sven-Bertil Taube lembra muito um ator sueco já lendário não só em aparência, como em presença de cena. Como o empresário Henrik Vanger, Taube remete muito a Max Von Sydow, o que só prova o talento do sujeito.

A dupla de protagonistas pode não me lembrar de ninguém, mas duvido muito que futuros protagonistas não me lembrarão de Lisbeth Salander e Mikael Blomkvist – respectivamente interpretados por Noomi Rapace e Michael Nykvist. A publicidade pelo menos no Brasil colocou Lisbeth como centro de atenção nos cartazes do filme. Isso não é por acaso. Sim, publicitários adoram usar figura feminina como ferramenta para atrair público, e há um pouco disso aqui. Mas há mais dois detalhes: 1) Lisbeth é de fato a personagem mais interessante, mesmo que não seja a central; 2) a atuação de Noomi Rapace tem sido amplamente elogiada mundo afora. Não há como negar o talento da menina (ela tem 13 anos a mais que eu, e eu chamo ela de menina). Na primeira vista ao filme eu pensei que a crítica em geral tinha exagerado no elogio. No entanto, vendo pela segunda vez eu percebo o motivo da exaltação cinéfila. Primeiro, ajudada pela maquiagem, ela se passa muito bem por um mulher de 24 anos, quando na realidade tem 31. Depois, vem o fato de ela ser completamente convincente como a hacker perturbada. Não consigo ser claro. Quando digo completamente, é por que é completamente. Noomi certamente pertence ao grupo dos method actors. Os method actors são aqueles seres com talento inesgotável que se adaptam a qualquer papel do modo mais completo possível. Para terem uma idéia, como preparação para o papel ela não só tirou habilitação para dirigir moto, como fez aulas de kick boxing e botou piercing na sobrancelha e no nariz. Admirável, não? Seu colega Michael Nykvist não chega a tanto, mas isso se deve ao seu personagem não exigir tal dedicação. Mesmo assim o que Nykvist tem de fazer, ele faz bem. No mais, o vilão é bem vivido pelo ator que vive ele, e as atrizes que fazem as versões jovens de Harriet e Anita Vanger são belíssimas.

Pena que essas duas não tenham tanto tempo de cena, pois seria ótimo vê-las sobre todas as variações de luz do filme. Tanto as cenas internas, quantos as externas, de dia ou à noite, os diretores de fotografia Eric Kress e Jens Fischer captaram tudo com uma elegância formidável. Os jogos de luz, discretos, são plasticamente lindos, e tematicamente adequados.

Direção, roteiro, montagem, trilha sonora, elenco, fotografia…

Considerando todos os aspectos, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres são duas horas e meia de entretenimento de alto nível, sem deixar de lado a seriedade e delicadeza do tema abordado. Difícil ter aparecido filme melhor para comemorar o post 100 do Fakeline. Nota: 5/5.

Obs: o leitor Fernando Coelho informou que o diretor Niels Arden Oplev é na verdade dinamarquês, e não sueco. De fato. Foi desleixo meu não ter investigado isso melhor antes de escrever.

3 comentários

  1. Fantástico teu texto! Eu adorei o filme, e acredite, apesar de algumas poucas (e bem realizadas) mudanças, o livro foi muito, mas muito bem adaptado. Acho que tu vai gostar muito do livro e não vai te decepcionar com a leitura. E agora que li tua crítica, deu vontade de assistir de novo.


  2. O diretor não é sueco: é dinamarquês. Quase todos os seus trabalhos foram em seu país natal e não na Suécia, a não ser por este filme.


    • Valiosa informação! Obrigado.
      De fato, ignorei isso. Fiquei tão preocupado em falar bem do filme, que deixei passar o histórico do diretor.



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