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Robin Hood

16/05/2010

Incrível como uma pequena inversão de palavras pode ser significativa. Vi o comentário “Sólido, mas um pouco estúpido”, e logo pensei: “Não. Estúpido, mas um pouco sólido”. É o que é Robin Hood (Robin Hood, 2010).

Percebam. Se eu falar que o filme é sólido, porém um pouco estúpido, estou falando que o filme é bonzinho, mas não grande coisa. Agora, se eu falo que o filme é estúpido, porém um pouco sólido, já estou falando que o filme é ruim, mas não catastrófico.

No entanto, posso estar errado. Robin Hood pode ser ainda pior do que me pareceu. Recentemente vi Joana D’Arc de Luc Besson (Joan of Arc, 1999) e achei simplesmente terrível. Então, qualquer filme épico levemente melhor que eu visse depois já seria um alívio. É onde entra Robin Hood.

Marcando a quinta parceria entre Ridley Scott e Russell Crowe, Robin Hood é um projeto que passou por grandes mudanças antes de finalmente sair do papel. Primeiro o filme se chamaria “Nottingham” e teria Robin Hood como vilão, e o xerife de Nottingam como herói – Crowe seria o xerife. A premissa era no mínimo interessante. Aí entram as clássicas entradas e saídas de atores, atraso para o início das filmagens, mil rumores sobre o futuro do projeto (entre eles o de que Crowe interpretaria tanto o herói quanto o vilão). O filme muda de nome, e é rebatizado como Robin Hood. Até então o roteirista Brian Helgeland (de Zona Verde) deve ter mudado o rumo da história quinhentas vezes, pois o resultado final parece de alguém que não sabia mais o que estava escrevendo.

Isso já fica explícito no título do filme. Embora realmente se trate do Robin Hood, o filme é em realidade um enorme (e demorado) prelúdio para uma continuação que, essa sim, deveria se chamar Robin Hood. Helgeland e Scott caminham a história para uma quase guerra civil entre a corte inglesa e sua população enquanto se vêem sob ameaça de um ataque francês. Ok, legal, guerra. Mas a trama não é só terrivelmente mal desenvolvida, como simplória demais, logo fraca. Tudo que poderia ser usado como intriga não dá certo por que o espectador sabe de tudo, então nunca nos surpreendemos como a atitude dos personagens ou a direção do filme, uma vez que é tudo muito óbvio (aborrecido). Talvez a única surpresa, para alguns, seja o decreto final do unidimensional rei John.

Aliás, nenhum personagem é bem desenvolvido, o que limita o elenco a interpretar estereótipos. Russell Crowe no piloto automático e Cate Blanchet de cabelos pretos (???) fazem o par romântico protagonista totalmente gratuito (falso). William Hurt pelo menos dá certa dignidade a William Marshall. Oscar Isaac faz o já dito raso rei John. Danny Houston encarna Ricardo Coração de Leão mais parecendo um viking saído de Como Treinar Seu Dragão (How to Train Your Dragon, 2010) do que qualquer coisa. Mark Strong careca surge surpreendemente malvado. E finalmente Max Von Sydow é quem consegue dar mais profundidade ao seu personagem. No final, mesmo com o ótimo elenco, a maioria dos personagens é esquematicamente sem graça.

A trilha sonora e a fotografia são outros dois elementos sem graça. Embora levemente eficiente, os arranjos de Mark Streitenfeld não fazem jus ao contexto épico do filme – não sei o que deu em Ridley Scott para começar a trabalhar com esse compositor. O melhor momento musical do longa é justamente quando ouvimos uma melodia tradicional inglesa (a bela So Many Things, aqui só instrumental), ou seja, quando a música não é original. Já as cores utilizadas por John Mathieson surgem muito “secas”. Combinando com os bons figurinos (Janty Yates) e a razoável direção de arte (Arthur Max), a fotografia não usa cores fortes, e se foca em um meio termo cinza. Ok que é Inglaterra e tudo é cinza na Inglaterra, mas um competente diretor de fotografia como Mathieson poderia ter feito melhor.

Mas no final, infelizmente, apesar de todos problemas de roteiro & cia, o maior problema de Robin Hood é Ridley Scott. Épicos são a especialidade de Scott, e isso só torna ainda mais lastimável essa nova produção, pois o elemento “epicidade” está em falta. Todas as cenas de batalha são… não são. O primeiro ataque ao forte francês, até vá lá, é bem legal. Mas a cena imediatamente seguinte (a emboscada) peca pela montagem-Michael-Bay, que nos deixa confusos para o que acontece na tela. A partir daí, todas as outras, com pouquíssimas exceções, são tudo menos imaginativas. E a batalha final no último ato do filme é com certeza a maior frustração que o filme apresenta.

Sinceramente, eu não esperava nada de Robin Hood. Apenas uma boa produção e uma trilha sonora empolgante. Nem isso o filme conseguiu me dar por inteiro.

De momentos em momentos há uma esperança de que aconteça a reviravolta que botará o longa nos eixos. E ela acontece! Uma pena que seja a última cena. No final Robin Hood é um filme que te faz desejar ter visto sua continuação no lugar dele. Nota: 2/5.

Update: ao ouvir a trilha de Marc Streitenheld novamente, sem a interferência do filme, retiro o que disse sobre seus arranjos não fazerem jus ao contexto épico da história. É o próprio filme que que foge a esse tom, e não a música (linda, por sinal).

3 comentários

  1. Concordo totally com a tua crítica, só falta acrescenta dDuas coisas me deixaram com o maior VERGONHA ALHEIA FEELINGS no Robin Hood:

    1) aqueles zooms bizarros que o negócio dava às vezes e que parecia coisa de iflme policial de baixo orçamento dos anos 70.
    2) aqueles flashbacks softglow TOSCOS do robin hood bebê e loirinho e clichêêê.

    Pra mim, foi um desperdício de Cate Blanchet…


    • Opiniões similares! Realmente, um desperdício de Cate Blanchett. Eu não sou muito chegado na atriz, mas sei que tem muito talento, e esperava algo mais aqui. Aliás, todo o bom elenco do filme merecia personagens melhores (e trama para os mesmos).


  2. Eu vi que o filme seria fraquinho pelos trailers lançados. Não sei se outras pessoas perceberam, mas enquanto eu via o trailer eu só pensava “ok. guerra, pessoas gritando, uma mulher seminua… mas qual é a trama do filme?”. Eles colocaram só cenas de gente gritando e uns closes da Blanchet e depois do Crowe falando coisas super genéricas. E só vi que era Robin Hood porque estava escrito no título do video e porque apareceu no final do trailer. Lastimável perder a vontade de ver um filme depois de assistir a propaganda dele…



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