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Decepção!

04/02/2010

Eu estava tentando me decidir sobre como iria começar a escrever o próximo post do blog. Eu queria escreve sobre os filmes na ordem em que eu vi, mas me dei conta de que isso não seria possível. Eu precisava muito dizer ao mundo que para mim Coco Antes de Chanel (Coco Avant Chanel, 2009) é UMA BOSTA!

Sinto-me melhor agora.

Muito ruim, péssimo, um desastre, Coco Antes de Chanel é um filme que misteriosamente chamou uma considerável atenção da mídia. Não, misteriosamente não. O motivo? Coco Chanel. É um filme francês sobre a estilista francesa Gabriele Chanel, que o mundo inteiro conhece direta ou indiretamente em função da linha de roupas Coco Chanel. Uma ampla divulgação comercial sobre uma grande produção da França, ainda mais sobre uma grande personalidade da França, no mínimo chamou minha atenção. Parecia interessante. Mas eu hesitei muito em ir ver o filme. Sei lá, tinha alguma coisa que não ‘andava’. Só fui ver hoje, sem grande expectativa, mas no mínimo esperando um bom filme.

Eu estava errado.

Havia um grande falatório em cima de Audrey Tautou no papel principal. Atuando bem, sei lá. E não sei quem foi o imbecil que a comparou à outra Audrey, a Hepburn! Quem foi? Hein? Confiram vocês a ‘semelhança’:

Audrey Tautou, como Coco

Audrey Hepburn

Francamente, elas não são parecidas. Tautou pode até ser parecida com a real Gabriele Chanel, como sugere a maquiagem em cima dela (também porque Tautou não é feia, e no filme ela está feia – e aquele beiço, aquele biquinho com a boca é irritante até o fim!).

Gabriele Chanel e Audrey Tautou

Há uma semelhança sim, mas o maquiador Christophe Giraud ‘enfeiou’ Tautou para isso. Olhem como ela é fora desse filme:

Pode não ser a mulher mais bonita do mundo, mas certamente é bem mais bonita que sua versão ‘Coco’ (ou eu deveria dizer ‘Cocô’?).

Voltando para o filme… é UMA BOSTA! Coco Antes de Chanel é uma bosta. Depois de um começo promissor, nos mostrando sutilmente o talento de Gabriele para a moda, o filme desanda para um mar de chatice sem nexo que prima pela mediocridade. As roteiristas (irmãs) Anne e Camille Fontaine conseguem adaptar o livro de Edmonde Claude-Roux com uma incompetência incrível. Não li o livro, mas duvido com todas as forças que o escritor pudesse ter concebido uma obra tão ruim a esse ponto. Anne, por sinal, também fica a cargo da direção, que só ajuda a estampar a péssima qualidade do roteiro, o que é reforçado ainda mais pela problemática montagem (não sei quem é o/a responsável).

O que poderia ter sido ‘O Filme’ se tornou ‘A Bosta’ – como ‘bosta’ soa bem, não? O filme se concentra em apenas um periodozinho da vida de Gabriele Chanel. O filme é o tempo em que ela passou da mansão de Étienne Balsan, um magnata que a encontrou em um cabaret, só isso. Balsan até parecia ser um personagem interessante, graças à interpretação de Benoît Poelvoorde, mas depois de certo tempo fica impossível acreditar nele. Mas não é problema do caráter do personagem, e sim de construção de personagem. Problema no roteiro. Balsan não é crível aos nossos olhos. E logo todos os outros personagens também se mostram completamente sem sentido. Mudam de humor de uma cena para a outra sem a menor explicação.

As passagens dessas cenas uma para a outra também não fazem o menor sentido, pulando intervalos de tempo desconexos, quebrando a narrativa, evitando a possibilidade de construir qualquer arco dramático – e isso fica evidente depois de 1h de filme, pois até aí dava para agüentar, mas desde então não conseguimos nos importar com o destino de qualquer personagem.

(spoiler) Aparece um inglês, chamado de Boy, na mansão de Balsan. Ele se mostra evidentemente apaixonado por Coco, e ela fica caidinha por ele. O filme faz de tudo para mostrar que os dois estão apaixonados e vão ficar o resto da vida juntos, e então acontece que Boy vai se casar com uma inglesa podre de rica, e Coco fica abalada. Clichê? Sim, mas piora mais, olha só. Pouco antes disso Balsan disse que queria se casar com Coco, mas Coco disse que iria embora com ‘alguém’, que Balsan sabia ser Boy, então conta que o sujeito vai se casar. O detalhe é que Balsan se mostra ‘verdadeiramente’ preocupado com Coco, o que soa artificial demais considerando tudo o que ele já tinha feito (ou deixado de fazer) com ela. Nesse momento não conseguimos acreditar que Balsan esteja sendo sincero, apensar de todo esforço que Benoît Poelvoorde faz, pois ele realmente se sacrifica para dar alguma coisa de crível a Balsan. Coisa que partilha com Audrey Tautou. Ela tenta, e tenta, e tenta mais um pouco, e quase sempre soa convincente, mas tem uma hora que o roteiro já fez de tudo para sabotar o próprio filme. O que acontece depois de Boy ir embora brigado com Coco, e Coco ter saído da casa de Balsan para Paris, o filme pula no tempo abruptamente para Coco trabalhando em um atelier de costura, toda séria e pomposa, já obviamente um pouco famosa. Boy aparece ali, e sobe as escadas. Coco diz para a irmã (que logo comentarei mal) terminar a costura, e segue Boy. Ela sobe as escadas e quando encontra Boy, os dois sorriem começam a se beijarem, como se isso fosse rotina! Como assim?! De onde isso? Quando eles voltaram a se ver? Como voltaram a se falar? O filme não nos conta isso, o que é uma falha grotesca. Também não ficamos sabendo como Coco conseguiu chegar onde está. Como ela conseguiu um atelier? Como conseguiu o dinheiro, quem a ajudou? Essas perguntas permanecem sem resposta.

A irmã dela, claro. As duas começam o filme juntas no já citado cabaret, no qual descobrem Balsan. As duas conseguem uma grana cantando, mas então são despejadas. No que a irmã de Coco toda triste diz que não vai mais cantar por que vai se casar com ‘O Barão’. Ok, imaginamos que esse barão alguma hora nos será apresentado, mas… Não, isso não acontece. Nunca ficamos sabendo quem era o tal ‘Barão’. Mais alguém que nunca vemos é a mulher de Boy, pois ele se casou mesmo com a inglesa, e voltou a aparecer na história depois de casado (como eu falei, no atelier). E então… ele morre em um acidente de carro! Que original. O pensamento de Coco imediatamente deve ter sido: “Oh não! Nem tive tempo de fazer um vestido de luto. Vou fazê-lo imediatamente!”, e é isso que ela faz! O filme termina com cenas de ela costurando um modelito preto, e, de novo de repente, corta para uma cena no futuro de ela assistindo a um de seus desfiles de moda! Fantástico! Como raios ela chegou lá é algo que nunca saberemos. (spoiler)

As Fontaines Anne e Camille conseguiram transformar uma das maiores personalidades da história do mundo da moda em uma mera caricatura do estereótipo de mulher que a própria Gabriele Chanel passou a vida inteira insistindo que não era ela. Triste. As Fontaines tinham um potencial absurdo em mãos, e não só fizeram um filme ruim, como desperdiçaram o filme focando em só uma fase da vida de Chanel, uma fase absolutamente chata e, ao menos pelo que mostrou o filme, em nada significante para o amadurecimento de seu gênio criativo.

Não sei por que as Fontaines decidiram focar apenas nessa época de Chanel. Digamos que o filme fosse bom. Hipoteticamente, vamos imaginar Coco Antes de Chanel contando exatamente a mesma história, mas de modo competente. Poderia ser um bom filme? Sim, claro que poderia. Mas ainda sim, na minha opinião, muito do potencial do filme estaria perdido ao não apresentar a vida inteira de Gabriele, ou pelo menos toda a parte depois de ela ter descoberto seu talento para a costura – será que a produção do filme não aprendeu nada com Piaf: Um Hino ao Amor (La Môme, 2007)?

E os figurinos indicados ao Oscar… Bom, digamos que a indicação foi mais como uma homenagem à própria Coco do que à figurinista Catherine Leterrier, que faz um trabalho que não chega a ser dos 10 Mais; é apenas correto. A fotografia de Christophe Beaucarne consegue ser pelo menos bonitinha, chegando ao mínimo de exigência que se tem com filme de época, em que a fotografia tem que ser bonita: obrigatório. Obrigatório também é ter uma recriação de época competente, e a direção de arte de Coco Antes de Chanel até que faz isso direito (também não sei quem é).

No fim a única que merece destaque no filme é a elegante trilha sonora de Alexandre Desplat, que se era para ser discreta, acaba roubando todas as cenas, pois é a melhor coisa do filme. Nota: 1/5.

Update: Excelente comentário do crítico Mike Scott, da Times-Picayune: “A better title: ‘Coco Before She Was Interesting.‘” >

“Um título melhor: ‘Coco Antes de Ela Ser Interessante'”.

Perfeito.

Update 2: Outro ótimo comentário de outro crítico, John Beifuss, da Commercial Appeal: “‘Coco Before Chanel’? Whose bright idea was that? Isn’t that like ‘Amelia Before Airplanes’? Or ‘Frankenstein Before Med School’?” >

“‘Coco Antes de Chanel’? De quem foi essa ideia brilhante? Isso não seria como ‘Amelia Antes de Aviões’? Ou ‘Frankenstein Antes da Escola de Medicina’?

*Para quem não sabe, a referida Amelie é Amelia Earhart, a primeira mulher na História a pilotar um avião, cujo filme biográfio é para chegar ao Brasil nesse ano, estrelado por Hilary Swank.

3 comentários

  1. olá! li o que vc escreveu sobre o filme, eu o vi ainda esses dias, mas discordo em partes com vc, e em outras concordo.
    sim, eu esperava mto mais no filme, mas nao acho que tenha sido um completo fracasso, mesmo sendo ligeiramente entediante (nao veria 2 vezes, no caso).
    uma coisa que eu achei nada a ver, e concordo contigo foi o fato do filme avançar anos do nada, e ela estar em paris já sendo famosa, costurando em seu atelier sem nenhuma passagem pra isso. mas achei que ficou bem claro que foi o boy que a ajudou, tanto que ele falou pra ela, q ia se casar e ia dar o dinheiro pra ela montar o negocio dela.


  2. Li o que escrevei e não achei o filme uma bosta, em relação quem deu o dinheiro para ela investir foi o Boy, tanto que no próprio filme ele relata isso….acredito q talvez não tenha prestado tanto atenção devido estar achando o filme uma bosta…..


    • Carla, em primeiro lugar, digo que de certa forma me arrependo do tom exagerado com o qual escrevi essa crítica de Coco Antes de Chanel. Hoje, duvido que eu estamparia a palavra “bosta” tantas vezes ao longo do texto. Dois anos se passaram, eu amadureci nesse tempo. Porém, mantenho minhas opiniões sobre as falhas do filme. Quem deu dinheiro para Coco investir na carreira foi Boy, obviamente, mas minha reclamação consiste principalmente em o filme não abordar todos esse tempo entre Coco e Boy começaram a se relacionar seriamente até ela adquirir o statos que demonstra no final do filme. Esse é que era, no meu ponto de vista, o corte temporal na vida de Gabriele Coco que deveria (e merecia) ter sido abordado pelo roteiro. Eis o porquê da minha reclamação. Se perguntei como ela tinha conseguido o dinheiro, apesar da resposta ser deduzível, foi para enfatizar o fato do filme ignorar toda a jornada dela até aquele momento. Pois, se a memória não me falha e de acordo com o que escrevi naquele mesmo parágrafo onde critico essa omissão por parte das roteiristas, na última cena antes do reencontro de Coco e Boy cada um está indo para um lado, seguindo a vida independente do outro. O filme não mostra como eles voltaram a se ver. Preferiram pular muitos anos na narrativa e reunir os dois de novo, sem se dar ao trabalho de contar o que aconteceu nesse meio tempo. Para mim, a grande falha do filme.



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