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Maio 2012

01/06/2012

Maio me presenteou com uma boa volta ao hábito de assistir vários filmes em sequência. Meu PC ter estragado justamente na semana em que eu não teria aula foi o evento necessário para me fazer voltar a ver filmes com maior frequência. Foram 27 filmes no mês (12 no cinema), um número animador para retomar o ritmo. A nota média ficou em 3,4. Só lamento ter visto apenas 5 filmes no Fantaspoa, e nenhum deles bom. Por outro lado, consegui ver alguns clássicos que estavam há horas na fila. Segue a lista de maio:

 

05 – A Casa das Coelhinhas (The House Bunny, EUA, 2008) – Apesar dos esforços carismáticos de Anna Faris, o roteiro pouco inspirado e a direção preguiçosa destroem qualquer chance que o filme pudesse ter de se destacar de alguma forma. 2/5

07 – Anjos da Lei (21 Jump Street, EUA, 2012) – Além de Channing Tatum e Jonah Hill aparecem perfeitamente à vontade como jovens adultos aprendendo a amadurecer justamente por precisarem voltar a agir como adolescentes, o filme ainda se beneficia do bom roteiro que, embora sofra com momentos bem clichê, ganha pontos ao brincar com o politicamente correto, além de apresentar um curioso choque cultural entre a juventude oitentista e a vista hoje, e incluir uma divertida e surpreendente ponta no terceiro ato. 3/5

07 – Nervo Craniano Zero (Brasil, 2012) – A ideia central da trama é, em si, bem criativa, mas o roteiro não sabe desenvolvê-la, e o elenco surge incrivelmente amador, sabotando qualquer chance de o filme dar certo. 2/5

08 – O Invencível: Largo Winch (Largo Winch, França, 2008) – Inspirado no homônimo (e clássico) personagem das HQs francesas, Largo Winch não é “invencível” como sugere nosso título brasileiro, mas com certeza se sustenta como um dos melhores thrillers produzidos recentemente, graças ao roteiro intricado, repleto de reviravoltas e traições, e ao carisma do protagonista, interpretado com competência por Tomer Sisley. 4/5

09 – Beleza Adormecida (Sleeping Beauty, Austrália, 2011) – Essa suposta adaptação criativa de A Bela Adormecida, apesar de pontuais momentos de inspiração, não passa de uma promessa que acaba nunca sendo plenamente cumprida, já que todo o subtexto psicológico da história jamais é explorado devidamente. 2/5

09 – Conspiração Americana (The Conspirator, EUA, 2010) – Recuperando um evento histórico que acaba servindo de reflexo do que ocorre hoje na sociedade norte-americana, Robert Redford faz de Conspiração Americana um filme extremamente revelador sobre os aspectos políticos que regem os Estados Unidos. 4/5

10 – Piratas do Espaço (Space Truckers, EUA, 1996) – A primeira cena é interessante. A partir disso, a trama se mostra incrivelmente rasa e pouco desenvolvida, a direção oscila de modo tolo entre o drama e a comédia, e ainda não me decidi se o visual do filme é propositalmente estranho ou simplesmente muito ruim. 2/5

10 – Bonecas Macabras (Dolls, EUA, 1987) – Os bonequinhos são um pouco divertidinhos, mas… Nada, é isso mesmo. 2/5

15 – Pele Reconfortante (Comforting Skin, Canadá, 2011) – Além de mais longo do que o ideal, o fraco roteiro tira pouquíssimo proveito da excelente premissa, o que, somado à protagonista antipática e às suas mudanças bruscas de personalidade, faz de Pele Reconfortante um Cisne Negro wanna be que definitivamente… não be. 2/5

16 – A Centopeia Humana 2 (The Human Centipede II: Full Sequence, Holanda, 2011) – Assim como o primeiro, decepciona por prometer demais e cumprir de menos. Qualquer Jogos Mortais é mais angustiante e mais sangrento que A Centopeia Humana 2 (que, além de se conter na violência, ainda é rodado em preto-e-branco). Como a maior justificativa para assistir a um filme como esse é a curiosidade que a violência gráfica contida nele cativa, estamos diante de mais uma grande decepção. E por mais que o diretor/roteirista Tom Six tente extrair algum estudo de personagem do meio de toda a insanidade vista em cena, não se sai muito bem no final. 2/5

19 – O Corvo (The Raven, EUA, 2012) – Não é ruim. Mas é muito decepcionante, uma vez que a ideia do filme se mostra muito mais interessante que sua execução. No final, O Corvo acaba parecendo uma versão levemente mais sombria e menos inspirada do Sherlock Holmes de Guy Ritchie. 3/5

20 – Adeus às Armas (A Farewell to Arms, EUA, 1932) – Sei que é um clássico, mas nem sempre isso significa se tratar de um bom filme. É o caso aqui, pelo menos no meu ponto de vista. Adeus às Armas simplesmente não sobreviveu ao tempo. Narrativa burocrática e pouco inspirada, sem contar o moralismo ultrapassado da história. E antes de me acusarem de não pensar o filme em seu contexto, os anos 1930, lembro que mesmo naquela época (e antes) foram produzidos filmes muito melhores e mais ousados que esse: O Mágico de Oz, No Tempo das Diligências, O Triunfo da Vontade e O Vampiro me vem à mente. 2/5

20 – Aliens: O Resgate (Aliens, EUA, 1986) – Às vezes escuto tanto sobre alguns filmes que, depois de tê-los visto, mesmo consciente da excelência técnica dos mesmos, não me sinto tão deslumbrado quanto deveria. Não é o caso. Aliens conseguiu me surpreender ainda mais do que sua fama vinha prometendo. Baita filme, baita ficção-científica, baita suspense. Arrisco dizer, um dos melhores filmes da década de 80 que eu já vi. 5/5

21 – A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, EUA, 1967) – Imagino a provocação que o roteiro deve ter causado na época. A trama não é das mais sofisticadas, mas o desenrolar ideológico se mantém forte por quase o filme todo, culminando num desfecho lindo que é ao mesmo tempo empolgante e melancólico. E se em alguns momentos a narrativa perde o ritmo, o mesmo é rapidamente resgatado pela belíssima trilha de Paul Simon, que estabelece com talento a atmosfera necessária ao filme, entre a serenidade e a tristeza. 3/5

22 – Adivinhe Quem Vem Para Jantar (Guess Who’s Coming to Dinner, EUA, 1967) – Que roteiro lindo, e que elenco fantástico. Um filme que consegue tratar de um assunto que ainda é injustificavelmente polêmico, e que faz isso com cautela, respeito, num drama intimista (e universal) que disseca uma das maiores falhas da humanidade, ao mesmo tempo em que eleva e saúda uma de suas maiores virtudes. 5/5

22 – Além do Azul (The Wild Blue Yonder, Alemanha, 2005) – Espécie de falso-documentário que, mesmo sendo falso, apresenta algumas curiosidades referentes à exploração espacial ao mesmo tempo em que nos brinda com belas imagens que ganham um toque de mistério contemplativo graças à onírica trilha sonora. Trata-se de um curioso estudo de ‘formato’, por assim dizer, mas que falha ao não delimitar seu objetivo. 3/5

22 – Cine Majestic (The Majestic, EUA, 2001) – Sempre me falaram muito mal de Cine Majestic, e agora eu definitivamente não sei por quê. Que filme lindo! Cheio de poesia e permeado por críticas sociais bem ponderadas, tudo emoldurado por um roteiro delicado e uma direção detalhista, pincelando emoção ajuda de uma fotografia e uma trilha sonora evocativas, sem contar a central e magistral performance de Jim Carrey. 5/5

23 – Quem Tem Medo de Virginia Woolf (Who’s Afraid of Virginia Woolf, EUA, 1966) – Assisti A Primeira Noite de um Homem pensando que era o primeiro filme de Mike Nichols. Logo depois me dei conta que Quem Tem Medo de Virginia Woolf tinha vindo antes. É incrível isso, essa atmosfera densa e essa mise en scène complexa em um filme de estreia. Sem falar na afinação irrepreensível do elenco. 5/5

24 – Ladrões de Bicicletas (Ladri di Biciclette, Itália, 1948) – Por um lado, o roteiro bem articulado lança severas críticas sociais em uma Itália abalada pela II Guerra Mundial, e, por outro, a direção humanista carrega o filme de sincero drama, retratando uma triste realidade na vida de personagens com os quais aprendemos a nos preocupar graças ao carismático elenco. 5/5

24 – A Vida é Bela (La Vita è Bella, Itália, 1997) – Enquanto, como ator, Roberto Benigni chega a cansar o público, se esforçando ao máximo para arrancar risadas do espectador mesmo quando estas não parecem necessárias, pelo menos como realizador ele se mantém competente, defendendo com sinceridade a importância de se proteger a inocência de uma criança até o fim, mesmo quando confrontada com o maior dos horrores. 4/5

25 – Blade Runner: O Caçador de Androides (Blade Runner, EUA, 1982) – Uma vez tentei assistir Blade Runner de madrugada, e acabei dormindo. Agora, mais de um ano depois, consigo ver tudo sem problemas. Mas, assim como 2001: Uma Odisseia no Espaço, taí uma ficção científica adorada por todos que simplesmente não me conquistou tanto assim. A atmosfera noir é interessante, e a direção de arte maravilhosa, mas o roteiro deixa de elaborar as questões que sucinta. 4/5

25 – Busca Frenética (Frantic, França, 1988) – Um dos filmes menos comentados de Roman Polanski é também um de seus melhores trabalhos. Busca Frenética tem Harrison Ford em atuação sensacional, roteiro inteligente e minimalista, e direção atenta aos menos detalhes. 5/5

25 – Homens de Preto 3 (Men in Black III, EUA, 2012) – Mesmo que a trama fosse fraca e que a direção de Barry Sonnenfeld estivesse pouco inspirada, ou que o filme não contasse com a melhor trilha sonora de Danny Elfman em anos, Homens de Preto 3 mesmo assim valeria a pena ver visto somente pela impecável atuação de Josh Brolin como a versão jovem de Tommy Lee Jones. 4/5

27 – Plano de Fuga (Get the Gringo, EUA, 2012) – Não só é mais um bom filme de ação com Mel Gibson, como é um filme com um roteiro criativo que, mesmo reciclando uma trama já vista incontáveis vezes, faz isso com competência, oferecendo um panorama curioso sobre o crime organizado mexicano, além de contar com um divertido anti-herói como protagonista. 4/5

29 – Zwart Water (Zwart Water, Holanda, 2010) – Incluído na programação do Fantaspoa do ano passado, esta tentativa de terror holandês fracassa em função do roteiro completamente desestruturado, que despeja todas as informações relevantes da trama em menos de 1h de filme, obrigando a subsequente narrativa a se fazer burocrática e cansativa, guardando uma última (e dispensável [e incoerente]) reviravolta para os minutos finais. 2/5

29 – Tudo Por Ela (Pour Elle, França, 2008) – Longa francês que originou a correta refilmagem hollywoodiana 72 Horas, Tudo Por Ela apresenta um protagonista desesperado em busca da liberdade da mulher presa injustamente – premissa que poderia soar forçada, mas que se mantém plausível graças à ótima e intensa atuação central de Vincent Lindon (mérito compartilhado por Russell Crowe no remake). 3/5

31 – Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder, EUA, 1959) – Com um elenco afinadíssimo e um roteiro repleto de batalhas verbais memoráveis, Anatomia de um Crime de fato disseca todas as nuances de um crime hipotético, apresenta todos os detalhes, e deixa ao espectador o trabalho de fazer o veredicto final. E eu ainda não tenho certeza se é culpado ou inocente. 5/5

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Fantaspoa 2012 #1 – Nervo Craniano Zero

08/05/2012

Nervo Craniano Zero (Brasil, 2012) se esforça, às vezes, e, às vezes, oferece momentos bem divertidos.

Mas, como quase todo filme de terror (ainda que voltado para a comédia), sofre com o fraco desenvolvimento dos personagens, que ainda é atenuado pelo elenco desequilibrado. Com uma trama que se desenrola basicamente em torno de três personagens, esse é um problema que compromete praticamente o filme todo.

Entre os três, não deixa de ser curioso, porém, que a melhor atuação do longa seja justamente a de Uyara Torrente, que interpreta a personagem mais tola, enquanto que, de um lado Leandro Daniel Colombo pouco convence com os dramas morais de seu médico não-ortodoxo, e de outro Guenia Lemos se alterna entre momentos inspirados e patéticos – aqui Colombo e Lemos cometem o erro clássico de todo ator amador: pronunciar as falas do roteiro no lugar de expressá-las.

Agora, se a narrativa é mal estruturada e a história não tem um foco bem estabelecido, a trilha sonora, no entanto, é excelente e, sempre mantendo o ritmo da ação em cena, certamente merecia figurar em um filme melhor, assim como a impressionante maquiagem vista na última cena.

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A Invenção de Hugo Cabret

07/05/2012

Nas mãos de Martin Scorsese, a singela adaptação de um livro infanto-juvenil se transformou em uma fantástica declaração de amor ao Cinema.

Hugo Cabret (Asa Butterfield) é um garoto que mora dentro dos corredores da estação de trem de Paris. Independente e sonhador, quando não está fazendo a discreta manutenção dos grandes relógios espalhados pelo local, ele foge do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen) enquanto tenta reunir as peças necessárias para desvendar o mistério envolvendo a última aquisição de seu pai: um autômato, uma marionete mecânica do tamanho de uma criança. Durante uma de suas investidas para consertar a engenhoca, Hugo é flagrado pelo dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley) que, irritado com os frequentes furtos por parte do menino, toma posse de seu caderno de anotações e o obriga a trabalhar para pagar pelos itens que roubou. Com o passar do tempo, Hugo se aproxima da afilhada do sujeito, Isabelle (Chloë Moretz), que, na expectativa de viver uma aventura, decide ajudar o rapaz a reaver seu caderno.

Filmado em um 3D absolutamente sensacional, A Invenção de Hugo Cabret é um espetáculo visual do início do fim, e a consolidação definitiva dessa técnica cinematográfica. Desde a primeira tomada, que consiste em um plano-sequência deliciosamente elegante que começa com uma panorâmica aérea da Paris de 1930 e termina em um close no rosto do protagonista, até o último frame do filme, Scorsese e o diretor de fotografia Robert Richardson criam passagens de uma beleza ímpar dentro de tudo o que já foi realizado em 3D no cinema.

Depois de ter sido convencido por James Cameron a filmar A Invenção de Hugo Cabret em 3D, Scorsese tratou então de fazer um filme integralmente idealizado para ser exibido em três dimensões. Ao contrário do que a vasta maioria dos cineastas tem feito, Scorsese parou e pensou em todos os aspectos do projeto de modo a explorar da melhor maneira possível as peculiaridades da nova tecnologia. O perfeccionismo do diretor responsável por obras-primas como Cassino e Os Infiltrados fica evidente a cada segundo de projeção, não sendo difícil imaginar que cada quadro de A Invenção de Hugo Cabret tenha sido cuidadosamente confeccionado visando o proveito máximo da captação (e posterior exibição) em 3D.

O fato curioso é que a filmagem em 3D do filme vai, a princípio, diretamente contra o caráter nostálgico da história. A Invenção de Hugo Cabret tem em sua essência uma celebração dos primeiros anos da História do Cinema e, dessa forma, acaba apresentando uma declaração de amor ao Cinema bastante similar àquela vista em O Artista, ainda que diametralmente oposta. Enquanto o francês Michel Hazanavicius tratou de homenagear a sétima arte voltando a seus primórdios ao fazer um filme mudo e em preto-e-branco, Scorsese seguiu outro caminho, e se viu utilizando a mais alta tecnologia disponível atualmente para retratar a eterna Magia do Cinema de modo inédito.

O Artista resgata o que o cinema foi um dia e deixa claro que esse mesmo cinema continua funcionando. Apesar das melhorias técnicas que hoje permitem novas linguagens cinematográficas, o cinema ainda é aquela mesma forma mágica e incomparável de se contar histórias. O Artista volta ao passado para evidenciar essa verdade. A Invenção de Hugo Cabret, pelo contrário, oferece uma janela para o futuro, saudando as novas formas de fazer cinema.

Adaptação do livro homônimo escrito por Brian Selznick, A Invenção de Hugo Cabret representa mais de 500 páginas que o roteirista John Logan teve de resumir em pouco mais de 2h de filme. A narrativa, no entanto, em momento algum parece prejudicada em função dessa inevitável compressão de informações. Logan não só é habilidoso em apresentar o cotidiano dos personagens logo nas primeiras cenas, como constrói um diálogo inicial que explica fatos já ocorridos sem soar expositivo demais, além de incluir os flashbacks que ocorrem ao protagonista no momento certo, evitando que se alonguem mais do que deveriam. E ainda que a narração do personagem de Ben Kingsley no terceiro ato do filme possa soar mais longa que o ideal, a mesma se mostra apaixonada o suficiente para justificar sua extensão.

Embora John Logan já tenha se deparado com material destinado a crianças antes (entre outros projetos, ele também é o roteirista do recente Rango), é interessante constatar que A Invenção de Hugo Cabret se trata da primeira incursão de Martin Scorsese em um universo claramente voltado para o público infantil. Mesmo estando acostumado com narrativas pesadas em meio a filmes geralmente violentos, Scorsese afirmou que faria da jornada do pequeno Hugo uma aventura que sua filha de 13 anos gostaria de assistir. O resultado fala por si. Arrisco a dizer inclusive que o filme é acessível até mesmo para crianças mais novas. E o mais incrível é que a trama de A Invenção de Hugo Cabret é simples o suficiente para prender a atenção do público mais novo, ao mesmo tempo em que é interessante o bastante para entreter o público adulto.

Essa força do filme em cativar o espectador, no entanto, não seria a mesma sem o carisma do ótimo elenco. A começar pela tocante performance central de Asa Butterfield, que demonstra uma incrível confiança já em seu primeiro grande papel, pouco se importando em dividir a cena com veteranos do porte de Ben Kingsley e Christopher Lee. Com um olhar ingênuo e obstinado, Butterfield não demora a conquistar o público, e logo todos nós estamos curiosos para saber até onde vai a jornada do nosso pequeno herói. Da mesma forma, sua companheira Chloë Moretz, já acostumada a interpretar personagens tão diferentes quanto uma heroína sanguinária (em Kick-Ass) e uma vampirinha depressiva (em Deixe-me Entrar), não encontra dificuldades em viver Isabelle com uma vivacidade contagiante.

Os dois atores-mirins sem dúvida são o centro da narrativa, mas é fato que o elenco adulto se encontra igualmente competente, principalmente considerando o trabalho do já citado Ben Kingsley, que, para criar um retrato eficiente do velho inventor atormentado com os fantasmas do passado, encontra em breves nuances a oportunidade de aprofundar a tristeza de seu personagem – e se nos irritamos com seu Papa Georges durante a maior parte do filme, é inegável a enorme admiração que sentimos por ele ao final da projeção. Sacha Baron Cohen, por sua vez, é responsável pelos pontuais momentos de comédia da produção, e sua natural veia cômica lhe permite arrancar risadas do público sem grandes dificuldades – e a insegurança que apresenta sempre que contracenando com a florista Lisette (Emily Mortimer, querida como sempre) é o suficiente para evitar transformar seu atrapalhado Inspetor da Estação em algum vilão unidimensional. E ao mesmo tempo em que o eterno Christopher Lee faz o livreiro Labisse soar ameaçador no primeiro momento apenas para ganhar nossa afeição com o passar do tempo, é admirável que o fato do personagem de Jude Law ser visto em apenas um flashback não impeça o ator de cercar o pai de Hugo com carinho e dedicação cativantes.

Além de rechear a trama com recriações de cenas de obras clássicas das primeiras três décadas do cinema, da mesma forma que ilustra como funcionavam algumas pioneiras técnicas de filmagem da época, Scorsese ainda encontra tempo para discutir as questões relacionadas à preservação de películas antigas, martelando na importância dessa prática. Ao mesmo tempo em que constrói o mistério e o drama do filme com paciência e atenção aos detalhes, o roteiro de John Logan também encontra espaço para tornar orgânicas à narrativa todas essas obstinadas investidas de Scorsese na História do Cinema.

Contando ainda por cima com uma maravilhosa trilha sonora de Howard Shore, A Invenção de Hugo Cabret salienta que, por trás daquele Scorsese rígido e sisudo responsável por filmes com alto grau de cinismo como Os Bons Companheiros, existe um sujeito de alma doce pronto para nos agraciar com uma leve e deliciosa aventura fabulesca a qualquer momento.

Obs: uma questão crucial referente ao mistério do filme diz respeito à revelação da identidade do personagem interpretado por Ben Kingsley. O potencial dramático da história seria amplamente intensificado caso a cobertura publicitária em cima da produção tivesse o bom senso de não fazer essa revelação. (spoiler): ter consciência desde o início da projeção de que aquele mágico decadente se trata de Georges Méliès não é algo que necessariamente dilui a força do filme. Eu, por exemplo, fui ver A Invenção de Hugo Cabret sabendo que Méliès era um dos personagens da história. Não me parecia relevante saber disso. O que eu não sabia, no entanto, é que boa parte do mistério que move a narrativa se ancorava justamente na identidade desse personagem que, no começo, não se apresenta como tal. Então só posso imaginar o quão surpreso eu poderia ter ficado no meio do filme caso a participação de Méliès na trama me fosse revelada somente no momento certo.

A sorte é que nenhuma criança sequer já ouviu falar em Georges Méliès.

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Os Vingadores e as “imparcialidades” da Crítica

02/05/2012

Tem umas críticas negativas sobre Os Vingadores que basicamente só estão aí para afirmar o óbvio: quem nunca gostou de Os Vingadores não gostou do filme sobre Os Vingadores. Oh! Não me diga!

Isso me lembra da resenha do Rubens Ewald Filho sobre O Grande Truque, em que ele justifica não ter gostado do filme pura e simplesmente porque nunca foi um fã de mágica! Muito bacana, seu Rubens. É referente a isso que, acredito, algumas pessoas reclamam da falta de uma suposta “imparcialidade” em determinadas críticas de cinema. Existe a clássica “imparcialidade” utópica e babaca de se exigir que o cara escreva um texto como se fosse um robô, apontando todos detalhes positivos e negativos de uma obra de arte e suprimindo qualquer emoção em relação ao que se está discutindo. Isso não só é impossível, como seria, na verdade, pouco interessante se fosse real, uma vez que a graça do mundo está nas diferentes interpretações que cada um constrói a partir de seus respectivos e parciais pontos de vista. Mas existe outra imparcialidade: aquela que deveria existir, mas falta a certos críticos que, às vezes, como nesse caso do Rubens, tentam justificar a incompetência de um filme apenas levando em conta um gosto particular. Não gosto de X, e filme Y possui X, portanto não gosto de filme Y. Não, não. Assim não! O Rubens foi parcial no sentido em que ele não gostou do filme porque o filme tratou de um tema que ele não gosta. Nesse aspecto, ele deveria, sim, ter sido imparcial. Com essa imparcialidade eu concordo, e considero não só justo como necessário acusar sua ausência. E não é complicado empregá-la. Eu, por exemplo, nunca curti baseball – aliás, acho um esporte muito tolo – mas não deixei que isso me impedisse de gostar de O Homem Que Mudou o Jogo, e não encontrei a menor dificuldade no caminho.

Então aparece uma pessoa que diz não gostar de Os Vingadores porque… não gosta de Os Vingadores. Porra! É a mesma coisa que alguém que não gosta de peixe estar na condição de crítico gastronômico de um prato de sushi:

YOUR ARGUMENT IS INVALID.

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Abril 2012

01/05/2012

Em abril consegui voltar a ir ao cinema com uma frequência menos vergonhosa, mas ainda assim a média de filmes continua baixa:

06 – Jogos Vorazes (The Hunger Games, EUA, 2012) – 3/5

07 – Ilha: Uma Prisão Sem Grades (Boot Camp, EUA, 2008) – Mesmo com o final apressado e pouco desenvolvido, o filme ainda representa um assustador quadro sobre a decadente relação entre pais e filhos nos Estados Unidos. 4/5

08 – Gatos, Fios Dentais e Amassos (Angus, Thongs and Perfect Snogging, Inglaterra, 2008) – Genérico filme sobre o universo feminino adolescente da Inglaterra. Elenco não cativa e trama não envolve. 2/5

10 – Kid-Thing (Kid-Thing, EUA, 2012) – Através de uma inteligente estratégia visual e contanto com uma protagonista impulsiva e com índole destrutiva, Kid-Thing pinta um retrato curioso sobre as questões que atravessam de vida das crianças com pais ausentes. 3/5

13 – A Profecia (The Omen, Inglaterra, 1976) – O conceito de “filho do diabo” já havia sido muito melhor explorado cerca de 10 anos antes por Roman Polanski em seu O Bebê de Rosemary. De interessante e original, A Profecia só tem a oferecer a assustadora trilha sonora de Jerry Goldsmith. 2/5

17 – No Tempo das Diligências (Stagecoach, EUA, 1939) – Mais de 70 anos depois, No Tempo das Diligências continua empolgante e divertido. Não só é um filme de ação exemplar, com tomadas de câmera bem avançadas para a época, como ainda consegue lançar algumas (nem tão) sutis críticas sociais. 5/5

21 – Adrenalina 2: Alta Voltagem (Crank 2: High Voltage, EUA, 2009) – Propositalmente idiota e repleto de ação descerebrada, Adrenalina 2 diverte tanto quanto o primeiro filme, apesar de se repetir demais em certos momentos. 3/5

23 – Gilda (Gilda, EUA, 1946) – Apesar do bom humor e de alguns diálogos afiados, a trama é fraca, e o que se destaca no filme é mesmo a ousada performance de Rita Hayworth. 3/5
24 – Gilda (Gilda, EUA, 1946) – 3/5

25 – Um Método Perigoso (A Dangerous Method, Canadá, 2011) – 3/5

25 – Shame (Shame, EUA, 2011) – Estudo de personagem melancólico e bem construído, conta com visceral atuação de Michael Fassbender. 4/5

26 – À Toda Prova (Haywire, EUA, 2011) - Intrigante e divertido. À Toda Prova consegue ser inteligente e ao mesmo tempo descompromissado. 4/5

27 – Contatos de 4º Grau (The Fourth Kind, EUA, 2009) – O pior de tudo é que o filme tenta soar absurdamente sério quando, em essência, é absolutamente patético. 1/5

30 – Os Vingadores (The Avengers, EUA, 2012) - Tem um plano sequência na batalha final de Os Vingadores que resume perfeitamente o nível de excelência que é o filme. Com a câmera viajando com elegância pelo cenário em plena destruição e saltando de herói em herói, Joss Whedon realiza uma belíssima homenagem a esses icônicos personagens. É o momento máximo de um filme feito de fã para fã. Fantástico. 5/5

Foram 14 filmes, e uma média de nota de 3,2.

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Um Método Perigoso

27/04/2012

A cena de abertura de Um Método Perigoso serve como um curioso reflexo de toda a carreira de David Cronenberg. A diligência que leva a mulher histérica para o hospital psiquiátrico é uma metáfora perfeita para a tempestuosa e por vezes polêmica filmografia desse interessante cineasta canadense que, depois de anos lançando produções desafiadoras e tematicamente perturbadoras, na metade final dos anos 2000 (com Marcas da Violência) passa a construir um cinema menos ousado e mais realista.

Ao explorar o embate ideológico entre Carl Jung (Michael Fassbender) e Sigmund Freud (Viggo Mortensen), além da relação de ambos com a intrigante Sabina Spielrein (Keira Knightley), Cronenberg faz de Um Método Perigoso uma tentativa de discutir as origens da psicanálise da forma mais direta possível. Infelizmente, uma tentativa frustrada.

Com roteiro escrito por Christopher Hampton a partir de sua própria peça (The Talking Cure, que é inspirada no livro A Most Dangerous Method, de John Kerr), Um Método Perigoso não tarda a evidenciar a natureza esquemática de sua narrativa, saltando bruscamente no tempo de uma cena para a outra e, logo mais, construindo uma enfadonha estrutura episódica ao descartar vários anos da história sempre que surge com um letreiro apontando “Dois anos depois” e outras variações.

Além disso, Hampton falha no desenvolvimento dos personagens, já que, mostrando-se incapaz de criar situações que enriquecessem a dinâmica entre aqueles indivíduos, o roteirista prefere lançar uma enxurrada de falas arbitrárias para explicar as características particulares daquelas pessoas – a espiritualidade de Jung é um exemplo, mencionada à exaustão, mas nunca devidamente retratada.

Já a direção de Cronenberg, embora morna na maior parte do tempo, ao menos tenta enriquecer o longa aqui e ali, principalmente ao compor alguns enquadramentos bem interessantes, por exemplo, posicionando um personagem bem à frente da câmera, ocupando metade do quadro, e outro ao fundo, diminuto no lado oposto, de forma a estabelecer um curioso jogo de autoridade entre aquelas figuras.

O ótimo elenco, por sua vez, pouco pode fazer em um filme tão comprometido devido à mediocridade de um roteiro que, apesar de contar com alguns bons diálogos (nisso Hampton sempre acerta), especialmente aqueles trocados entre Jung e Freud, acaba criando uma narrativa burocrática e pouco interessante. Preso às incertezas pessoais e profissionais de seu personagem, Fassbender se vê limitado a apresentar um Jung inseguro e idealista, ao passo que Mortensen, mesmo tendo seu Freud lapidado de forma reducionista pelo roteiro, transforma o fundador da psicanálise em uma figura que esbanja sabedoria e autoridade, roubando a cena sempre que aparece. E se Keira Knightley já teria de se confrontar com o desafio de dar vida à personagem que, naturalmente, seria a mais complexa da trama, ela ainda é obrigada a viver uma Sabina Spielrein que sofre mudanças bruscas de personalidade ao longo de todo o filme, o que acaba impossibilitando a atriz de soar sequer minimamente convincente (sem contar que nas cenas iniciais, então, Knightley aparece patética, lembrando mais uma Bella Swan possuída pelo Belzebu de O Exorcista do que uma mulher em crise de identidade).

No final, apesar de não consistir em um filme de fato ruim, Um Método Perigoso é facilmente esquecível, decepcionante, pouco se destacando em sua fórmula burocrática.

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Fantaspoa 2012

11/04/2012

O Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, nosso querido Fantaspoa, era estranho para mim até 2010. Acabei motivado a ir a algumas sessões daquela VI edição porque, depois de sair da minha aula de Filosofia da Arte, peguei um filme no Guion (foi A Jovem Rainha Vitória) e por ali eu encontrei a programação com todos os filmes do festival.

Eram muitos títulos estranhos, uns mais curiosos que os outros, e todos ilustrados com uma foto em preto-e-branco, papel jornal. As férias estavam recém começando, e eu toquei duas semanas seguidas no cinema, geralmente mais de um filme por dia. Apesar de eu ter visto muita coisa ruim, aquela empreitada valeu a pena.

Além do recorde massivo de muitas idas consecutivas ao cinema, aconteceu de eu pela primeira (e até agora única) vez assistir a um filme em pé. Eu e meu amigo e grande cinéfilo Gustavo encaramos os 90 minutos de A Centopeia Humana sem a opção de nos sentarmos – porque conforto é para fracos! A sessão estava estupidamente lotada. Até a escada lateral da sala estava abarrotada de gente no chão. Eu, o Gustavo e outro sujeito vimos o filme todo de pé, lá no fundo.

Mais importante que isso, porém, foi a chance de conhecer vários filmes diferentes, daquele tipo que jamais chegaria aos cinemas comerciais ou mesmo à televisão. A maioria desses filmes não me agradou muito, é verdade, mas valeu pela experiência, sem contar que foi somente ali que eu descobri Ink, uma produção independente dos EUA que imediatamente se tornou um dos meus filmes preferidos.

Em 2011, quando eu inocentemente pensava já estar familiarizado com o Fantaspoa, o festival aparece com um apoio financeiro muito maior, e enriquece sua organização de modo admirável. Não só criaram várias mostras paralelas com temáticas interessantes (destaque para os documentários fantásticos), como apareceram com uma seleção de filmes muito melhor que a da edição anterior.

Mais uma vez eu tentava cobrir o máximo de sessões possível, e só não me superei em relação a 2010 porque o frio e a gripe estavam contra mim.

Então, perto do encerramento do festival, recebo um e-mail dos organizadores me convidando para a cabine de imprensa do filme que seria exibido na última sessão do último dia do Fantaspoa 2011. Infelizmente, eu estava em Gramado, e respondi o e-mail avisando que não poderia comparecer.

Poucos dias atrás, no entanto, recebo o convite para o lançamento exclusivo para imprensa da VIII edição do Fantaspoa, que ocorreu hoje (10/04) pela manhã no CineBancários. Apesar de eu ter aula nas terças de manhã (e à tarde, e à noite), resolvi abrir mão da conversa sobre surrealismo e Luís Buñuel, e fui à première do Fantaspoa 2012.

Nós, críticos convidados, só descobrimos na hora qual filme assistiríamos: Kid-Thing, um drama com pitadas indie que se passa no interior dos EUA. A lógica por trás da exibição desse filme foi explicada antes da sessão e confirmada durante a mesma. Dessa vez, o Fantaspoa tem a intenção de, ao deixar um pouco de lado o foco no terror, alcançar um público ainda mais diferenciado. As edições anteriores já ofereciam ficções científicas, fantasias e mesmo alguns suspenses que nada tinham de sobrenatural, mas a verdade é que todos esses longas, em algum nível, não escapavam da categoria “cinema fantástico”. Contudo, agora, a VIII edição do maior festival do gênero da América latina pretende oferecer uma variedade de películas bem mais abrangente. Essa nova parcela da ampla gama de filmes celebrada pelo Fantaspoa se constitui principalmente de produções com enfoque às vezes puramente dramático, mas que, como Kid-Thing, se destacam por explorar temáticas pouco recorrentes no cinema contemporâneo.

Esse ano o Fantaspoa se antecipa em dois meses, e acontece de 4 a 20 de maio, e não mais em julho como em anos anteriores. Não fecha mais com as minhas férias, infelizmente, mas eu espero profundamente que essa mudança na data reflita de modo positivo no número de público do festival. Espero muitas sessões lotadas!

Particularmente, o Fantaspoa representa muito mais do que um competente festival de cinema: representa minha evolução e meu amadurecimento como cinéfilo e crítico.

Agradeço profundamente a João Pedro Fleck e a Nicolas Tonsho, criadores e organizadores do Fantaspoa, pelo reconhecimento do meu trabalho como crítico de cinema independente. Buscando apenas incentivar mais pessoas a irem ao cinema, passei os últimos dois anos divulgando o comentando o Fantaspoa por iniciativa própria. Hoje, sou convidado para as sessões exclusivas para imprensa. Obrigado.

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Jogos Vorazes

08/04/2012

O trailer de Jogos Vorazes e esse título besta em português não me motivaram nem um pouco para ver o filme, e muito menos para ler o livro. Daí minha surpresa em relação a duas coisas: primeiro, a estreia astronômica do filme nos EUA, a terceira maior arrecadação da História, ficando atrás apenas de Batman: O Cavaleiro das Trevas e Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2; depois, as opiniões bastante positivas de praticamente todas as pessoas que conheço que viram o filme. Aqueles que já eram fãs dos livros disseram se tratar de uma ótima adaptação, e os leigos na trama gostaram o bastante do filme em si para recomendar a qualquer pessoa. Era todo mundo falando bem, e eu resolvi conferir.

É verdade que Jogos Vorazes não é ruim como eu pensava, mas também é verdade que não é muito bom. O que mais me incomodava no trailer está presente em praticamente todos os quadros do filme. A estética visual adotada pelo diretor Gary Ross simplesmente não convence.

Provavelmente buscando imprimir realismo à história, o cineasta insiste em tomadas frenéticas de câmera na mão que pouco contribuem para o espectador visualizar o que se passa em cena. A temática dos reality shows, tão presente na trama, está corretamente representada nessa abordagem visual, é verdade. Mas, ao retratar toda a ação da história sob o mesmo olhar, sob a mesma estética tremida da câmera na mão, o filme peca por não fazer nenhum paralelo entre as diferentes realidades do universo concebido pela escritora Suzanne Collins. O fato é que a direção de Gary Ross falha em um ponto crucial, não sabendo conciliar fotografia e direção de arte.

O designer de produção Philip Messina cria cenários eficientes em retratarem tanto a miséria quase arcaica dos doze distritos renegados, como a extravagância da Capital de Panem, além de conseguir passar o bem-vindo estranhamento de um mundo altamente tecnológico que segue os mesmos padrões sociais da Roma antiga. Seguindo essa linha, os figurinos de Judianna Makosvky e a maquiagem da genial Ve Neill caracterizam os habitantes desolados do distrito 12 quase como camponeses de tempos feudais, ao passo que, em um uso criativo do estilo emo colorido, conseguem transformar os habitantes da Capital em seres caricaturais absolutamente patéticos, o que acaba servindo como um curioso (e amedrontador) retrato do visual que poderia muito bem vir a se tornar o padrão na nossa sociedade em um futuro talvez não tão distante – (no entanto, o uniforme branco dos guardas que patrulham por todos os cantos surge deslocado demais, e consequentemente impossível de ser levado a sério).

Contrapondo tudo isso e florescendo como a grande mancada do filme, a fotografia de Tom Stern aparece sempre com a mesma cara dessaturada e instável. Embora frequentemente tremida demais e pouco compreensível, essa abordagem ao menos serve bem às cenas já dentro da área dos ditos “jogos vorazes” por evocar a atmosfera de reality show. No entanto, Stern adota a técnica o tempo todo, o que em determinado momento cansa o espectador e diminui a força do projeto. Seria interessantíssimo se Stern optasse por fazer uso de uma fotografia mais tradicional durante as cenas externas à arena dos jogos e, uma vez dado o início destes, mudasse completamente de estratégia visual. Infelizmente, isso não acontece, e o design de produção do filme, que segue essa lógica de contraponto estético, acaba invariavelmente comprometido.

Essa dicotomia de estilo é o maior problema de Jogos Vorazes.

E muito embora o roteiro falhe ao não explorar direito todas as circunstâncias morais e políticas que regem aquele universo distópico, pelo menos a maior parte dos componentes da história é bem desenvolvida. Desde os interessantes conselhos de Haymitch (Woody Harrelson) sobre as peculiaridades daquela disputa desumana até os detalhes do “salão moderador”, de onde o organizador Seneca Crane (Wes Bentley) intervém nos jogos, o roteiro assinado por Billy Ray, pelo diretor Gary Ross e pela própria autora Suzanne Collins traça um bom retrato do que acontece em Panem, plantando no espectador algumas dúvidas que deverão ser esclarecidas na inevitável continuação.

Por fim, se Jogos Vorazes não fracassa em suas longas duas horas e meia, é devido principalmente à performance central de Jennifer Lawrence. Ao aparecer em cena com longos cabelos negros quebrando a imagem com a qual nos acostumamos a vê-la em outros filmes, a talentosa atriz compõe a heroína Katniss Everdeen como uma jovem forte e determinada que definitivamente foge do estereótipo de princesa em perigo – em uma interpretação que, não por acaso, remete bastante àquela que lhe rendeu uma indicação ao Oscar por Inverno da Alma. Dedicada, a atriz concede importante atenção na construção de sua personagem, de modo que, se em um primeiro momento podemos constatar a súbita incompreensão de Katniss frente à hipocrisia que move a elite de Panem, aos poucos acompanhamos o processo pelo qual a protagonista vai se dando conta e aceitando as circunstâncias que constituem nova realidade com a qual agora é obrigada a viver. Porém, Jennifer Lawrence jamais esquece a essência de Katniss e, não importa o momento, nunca esquecemos de que estamos na presença de uma guerreira que só não permite ser associada à afirmação “fará de tudo para voltar para casa” porque mantém sua moralidade até o fim.

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Março 2012

01/04/2012

E o março de 2012 ao filme para se concretizar com um dos meses em que eu menos vi filmes nos últimos anos. 9. Só não perde o fatídico agosto de 2011, com 8.

Como de costume, ordem cronológica, em negrito estão os vistos no cinema:

1 – O Homem Que Mudou o Jogo (Moneyball, EUA, 2011) – Adotando o mesmo estilo cerebral visto em Capote, porém agora muito mais refinado, o diretor Bennett Miller leva para as telas um excelente roteiro de Aaron Sorkin e Steven Zaillian com bastante segurança, e, com ajuda do elenco equilibrado, torna instigante uma história que, de outra forma, não seria tão interessante. 4/5

3 – Drive (Drive, EUA, 2011) – Um competente estudo de personagens que é, ao mesmo, um sutil e romance, e um filme de ação que transborda em estilo e renova as cenas de perseguição de carro no cinema Hollywoodiano. 4/5

10 – Um Dia (One Day, EUA/Inglaterra, 2011) – É tudo que (500) Dias com Ela tentou ser e não conseguiu. Não tem uma história tão interessante, mas conquista pela proposta narrativa diferente e pelas cativantes atuações de Anne Hathaway e Jim Sturgess. O fraquíssimo final quase destrói o filme. 4/5

13 – Lírio Partido (Broken Blossons, EUA, 1919) – Tentando se desculpar pelo excessivo racismo presente em sua obra-prima O Nascimento de Uma Nação, o lendário D. W. Griffith acaba oferecendo uma poética história de amor entre personagens de natureza incrivelmente trágica. 4/5

14 – Watchmen: O Filme (Watchmen, EUA, 2009) – Depois de ler a HQ, rever o filme comprova definitivamente a notável competência da direção de Zack Snyder e do roteiro de Alex Tse e David Hayter. 5/5

18 – Guerra é Guerra (This Means War, EUA, 2012) – Divertido. Absurdamente tolo, mas divertido. A direção de McG é preguiçosa, o roteiro é abobado, mas a dinâmica de Chris Pine e Tom Hardy prende a atenção durante a maior parte. O grande problema do filme é se levar a sério demais.

20 – O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet des Dr. Caligari, Alemanha, 1920) – Terceira vez que vejo e continuo achando genial do início ao fim. Obra-prima incomparável.

22 – A Fonte das Mulheres (La Source Des Femmes, Bélgica/França/Itália, 2011) – De forma admirável, trata de maneira simultaneamente crítica e irreverente a urgente questão a cerca do grotesco e arcaico machismo incrustado na cultura islâmica. 5/5

24 – Pina (Pina, Alemanha/França/Inglaterra, 2011) – Embora, a primeira vista, falhe em não contextualizar sua personagem título historicamente, Pina logo conquista pelo espetáculo visual (e musical) que, orquestrado com maestria por Win Wenders, oferece uma das mais belas aplicações do 3D até hoje.

Enfim, apenas 9 filmes, com uma nota média de 4,2 sobre 5 – a mais alta do ano até o momento. E nenhuma crítica :(

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A Mulher de Preto

06/03/2012

Acompanhei pela Internet algumas partes da produção do filme A Mulher de Preto, e estava um tanto curioso para conferir o resultado no cinema. Vi o trailer (ou apenas partes dele) algumas vezes nas últimas semanas, antes de o filme chegar a Porto Alegre, e só fiquei ainda mais interessado em descobrir como se desenrolava aquela história.

No fundo, eu não sabia quase nada sobre a sinopse. Só assisti o trailer até o momento em que eu achei saudável. Como já constatei que hoje os trailers acabam contando a história toda, quando noto que informações demais começam a serem reveladas, fecho os olhos e faço o possível para ignorar as falas. Assim, eu só sabia que o filme tinha o Daniel Radcliffe interpretando um sujeito chamado Arthur Kipps que ia para o interior da Inglaterra a fim de resolver algumas coisas em relação à venda de uma velha mansão que nenhum morador local iria comprar. Então, era isso. O ex-Harry Potter em um filme de terror cercado por algum mistério.

Poucos dias antes da estréia, li no Twitter que o diretor, James Watkins, já havia dirigido um bom filme de terror chamado O Lago Perfeito (Eden Lake, 2008). Confesso que minhas expectativas aumentaram um pouquinho e, mesmo sem ter visto O Lago Perfeito, fui encarar A Mulher de Preto com no mínimo a suspeita de que se tratava de um trabalho de alguém que sabia o que estava fazendo.

E… Olha, fazia tempo que eu não via um filme tão tenso no cinema! A Mulher de Preto não é um grande filme, mas é eficiente. A história, em minha opinião, pouco importa, e serve basicamente de veículo para Watkins realizar cenas de tensão absoluta.

O mistério que move a trama de A Mulher de Preto gira em torno da dita cuja e a relação da mesma com as mortes das crianças da pequena cidade interiorana onde a história se passa. Não há muito mais do que isso, e os detalhes eu obviamente não revelarei. Mas vale dizer que a roteirista Jane Goldman consegue criar uma narrativa suficientemente intrigante para o filme seguir adiante mesmo partindo de relativamente pouco material, uma vez que o romance de Susan Hill no qual o filme se baseia é bem curto, com pouco mais de 200 páginas. Não há reviravoltas surpreendentes, embora a trama mude de curso uma ou duas vezes e tenha um ar de intriga interessante, mas isso é o que menos importa.

O relevante em A Mulher de Preto é a direção de James Watkins. O diretor revela suas intenções logo na primeira cena em que o protagonista entra na mansão abandonada onde a maior parte da história se desenrola. Muitos sustos e quebras de expectativa são salientados de modo exagerado por altos acordes da irregular trilha sonora de Marco Beltrami, e por vezes causam aquela sensação dúbia de aflição e riso nervoso, quando você se assusta e ri do próprio susto que levou. O que só é legal quando a pessoa não tenta esconder que ficou com medo e passa a forçar a risada para sugerir que está rindo do filme – e não de si. Na minha sessão, por exemplo, muita gente começava a rir depois de levar um susto, e comentava brevemente com o companheiro sentado ao lado invés de voltar a prestar atenção na tela do cinema. É uma pena. Perdem a chance mergulharem na atmosfera sombria do filme. É aquela coisa, quanto mais você prestar atenção, mais será recompensado. E o fato é que há muita coisa rolando em A Mulher de Preto, apesar dos (dispensáveis) sustos esporádicos. É justamente entre esses momentos que Watkins consegue elevar a tensão do filme ao máximo possível.

Um dos motivos para essa tensão crescente funcionar é a sábia decisão de Watkins em não revelar a personagem título de uma vez só. Ela primeiro aparece ao longe, apenas uma silhueta. À medida que a história avança, vai se aproximando do protagonista e, por tabela, da câmera (e do público), de modo a surgir cada vez mais amedrontadora sempre que volta a aparecer em cena – e a última visão que temos dela é particularmente macabra. Nesse ponto o figurino da aparição merece menção, já que o ar assustador da personagem é evocado em grande parte devido ao vestido preto incrivelmente sinistro desenhado pelo figurinista Keith Maiden, que não deixou passar o esperto detalhe do véu sobre o rosto da mulher de preto, que ajuda bastante em deixá-la mais misteriosa e ameaçadora.

Fazendo par com a aparência maligna (mas não monstruosa) da vilã, a excelente direção de arte desempenha um papel importantíssimo para a eficiência do longa. Confeccionada por Kave Quinn, a cenografia do filme é excepcional em vários aspectos. Competente desde a recriação de época do início do século XX (mérito compartilhado pelo já citado figurino), o trabalho de Quinn é admirável na medida em que concebe uma geografia para a pequena cidade de Crythin que interfere diretamente no terror psicológico trabalhado pelo diretor James Watkins. É principalmente através da localização da mansão Eel Marsh que o filme consegue submergir o espectador em um estado de terror intenso. O fato do interior da imensa e desolada casa, além de contar com corredores escuros e portas que rangem, ainda ser recheado com uma mobília austera e suja iluminada só por velas ajuda a passar uma forte (e importante) sensação de abandono, e acaba invariavelmente servido para infernizar a vida do visitante desavisado que protagoniza o filme. A decoração interna de Eel Marsh é bem sinistra, verdade, e tem efeito direto sobre a atmosfera de tensão que impera durante todas as cenas do filme que se passam ali. No entanto, o que mais contribui na hora de construir o terror de A Mulher de Preto é mesmo a localização geográfica da mansão. Estranho, eu sei, mas é sério.

“Mas como assim?”, alguém deve estar se perguntando. A explicação é bastante simples. A Eel Marsh House se encontra em uma espécie de ilha cujos arredores ficam submersos na maré cheia. A estrada de acesso à propriedade fica inutilizada durante algumas horas do dia devido à maré que sobe e inunda o local. A própria palavra inglesa “marsh” se refere a porções de terra constantemente inundadas por água, de modo a se constituírem como um intermédio entre o ambiente aquático e o terrestre. Diferente do pântano, que está sempre envolto em água e tem parte de sua biosfera constituída por árvores, a “marsh” possui apenas vegetações rasteiras, gramíneas, e pequenos arbustos quando muito. Em português, imagino que “banhado” seja um termo válido para servir de tradução, tecnicamente seria o mais correto, apesar de não haver planta nenhuma no local devido à maré que sobe trazendo água salgada. Todavia, esteticamente, a palavra “pântano” serve muito melhor na hora de descrever a paisagem da Eel Marsh House. Em todo caso, no filme, é essa característica geográfica que ajuda a construir a atmosfera de tensão da história. Um toque de gênio do diretor de arte Kave Quinn.

Esse brilhantismo da direção de arte, no entanto, não faria o mesmo efeito sem a importante companhia da fotografia de Tim Maurice-Jones. Cenário e fotografia se completam em A Mulher de Preto – como deveria acontecer sempre. Captando tudo em um tom opressivo de cinza, Maurice-Jones é mais do que competente em retratar a melancolia do local onde a história se passa. Buscando inspiração em clássicos do terror psicológico como Com a Maldade na Alma e Desafio do Além, Maurice-Jones realiza uma direção de fotografia rica em detalhes, utilizando muito bem a profundidade de campo, em uma decisão inteligentíssima que salienta com sucesso o perigo cada vez mais presente representado pela maldita mulher de preto. Além disso, Maurice-Jones trabalha as sombras de modo admirável, chegando a momentos sublimes dignos de Gordon Willis, como aquele em que Arthur mergulha no “pântano” iluminado apenas pelas luzes de um automóvel.

Mas, voltando à questão central: por que exatamente o filme é tão bem sucedido em suas doses de tensão? Pois bem, na primeira vez em que Arthur, o protagonista, vai até Eel Marsh House, o observamos através de uma tomada aérea do local, e logo constatamos o quão isolada de tudo fica a tal mansão. A qualidade física do terreno ainda não nos é óbvia, mas o personagem que leva Arthur até lá não demora a dizer que precisa retornar antes que a maré suba. Nesse momento, de súbito, já percebemos a situação amedrontadora na qual Arthur se encontra – e não demora muito até compreendermos que essa sensação de apreensão só aumentará com o desenrolar da trama.

Nessa primeira visita a mansão, ficamos conscientes dos acontecimentos sinistros que ali ocorrem. Depois, quando Arthur volta à cidadezinha de Crythin, nos acalmamos um pouco por um momento, mas aos poucos constatamos que uma tragédia aconteceu nesse meio tempo. Então, quando Arthur volta a Eel Marsh, ficamos ainda mais tensos pelo simples fato de que sabemos que algo ruim vai acontecer. Não só ele irá presenciar cenas assustadoras estando absolutamente isolado do resto do mundo, como, depois que voltar para a suposta segurança de Crythin, será apenas uma questão de tempo até que presencie outra tragédia. Quando calcada nessa lógica interna, a narrativa funciona perfeitamente, e a tensão aumenta exponencialmente.

Só é uma pena que a narrativa não siga essa lógica o tempo todo. Até segue, na verdade, mas se perde um pouco no terceiro ato, já que a trama, apesar de interessante no princípio, se mostra bastante rasa e sem muita criatividade, revelando-se óbvia do meio para o fim do filme. E a conclusão da história, então, é um misto de satisfação e decepção: se, por um lado, é legal ver que a última cena faz uma rima temática com um diálogo do começo do longa, por outro é decepcionante que essa mesma cena acabe por amolecer o choque presenciado imediatamente antes, além de se mostrar essencialmente clichê e remeter a outro detalhe problemático do roteiro: o protagonista.

Interpretado com segurança por Daniel Radcliffe, Arthur Kipps é um sujeito obstinado a realizar a tarefa a que foi designado a fazer pelo seu chefe e, mais do que isso, é um sujeito naturalmente curioso, que insiste em ir até o fim para desvendar o mistério que cerca a Eel Marsh House. É legal ver um personagem íntegro e disposto a ir até o fim, mas também é frustrante que o mesmo demonstre nenhum ou pouquíssimo medo frente a o que lhe acontece – uma falha do roteiro, e não do ator. Ao mesmo tempo, o que move Arthur, no final, não passa de egoísmo. Spoiler até o final do parágrafo: ele continuava confrontando a mulher de preto mesmo depois de saber (ou de pelo menos ter uma relativa e boa suspeita) que as aparições da mesma resultavam na morte (violenta) de alguma criança da região. É verdade que a companhia do cético Mr. Daily (Ciarán Hinds, ótimo) ajudava a duvidar do pensamento supersticioso do povoado de Crythin (e nesse sentido a interação entre os dois personagens é importantíssima para manter o mistério no ar), mas a partir do momento que Arthur se convence de que a mulher de preto é de fato perigosa e mortal, ele passa a se preocupar exclusivamente com o seu próprio filho, que chegará ao local em breve. Ou seja, as mortes de todas as outras crianças de Crythin pouco importavam? O fato da esposa de Arthur ter recentemente falecido poderia ser usado como desculpa para justificar a preocupação exclusiva do protagonista para com o próprio filho? Talvez, se o roteiro trabalhasse essa questão, o que não acontece. Ao final, a forma como as mortes das outras crianças têm sua relevância diluída pela iminente chegada do filho de Arthur acaba diluindo também a força do filme.

No entanto, como dito no início do texto, a história é o que menos importa em A Mulher de Preto, que consegue ser um filme eficiente independente dela. E só fico a imaginar o quão melhor o longa poderia ter ficado caso o roteiro fosse melhor desenvolvido… Quem sabe mais uma adaptação do livro de Susan Hill daqui a alguns anos possa finalmente consolidar a história da mulher de preto como um clássico cinematográfico.

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