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Além da Vida

13/01/2011

O pessoal do curso do Pablo se reuniu no Barra nesse sábado para conspirar sobre o futuro da humanidade. Na sequência disso, obviamente, fomos ao cinema. Primeira sessão do ano. A primeira coisa que eu disse ao adentrar na sala do Cinemark foi “Eu tenho um mau pressentimento sobre esse filme”.

Além da Vida (Hereafter, EUA, 2010), novo filme de Clint Eastwood, tinha a ambição de falar (com propriedade) sobre vida após a morte e afins. Mas o máximo que consegue é testar a paciência do espectador em permanecer acordado frente a tanto tédio.

Matt Damon faz um médium que toca nas pessoas e consegue falar com os falecidos entes queridos (ou não) das mesmas. Cécile de France faz uma jornalista francesa que quase morre na Tailândia depois de um tsunami engolir a cidade onde estava passando as férias. Frankie e George McLaren revezam no papel do garotinho que não consegue superar a morte do irmão. A partir desses três motes, vamos acompanhando os personagens, que não tem absolutamente nada a ver um com o outro, até os três se encontrarem (indiretamente, ainda por cima) nos últimos minutos de filme.

Qualquer projeto que se bote na posição de falar sobre morte além da vida… Ops, vida além da morte (ou seja, absoluto nada) geralmente tem uma história de espíritos do mal por trás, é um terror barato, ou algo parecido, qualquer coisa para encher o vazio do tema utilizado. Além da Vida não. Aqui Eastwood quis explorar, ingenuamente, alguma coisa aparentemente “real”, humilde, dramática sobre o assunto. E se digo “coisa” e boto “real” entre aspas é por que o filme não convence de modo algum.

Não bastasse a temática desinteressante (para um cético como eu, ao menos), e o roteiro ser chato e sem imaginação (pior trabalho da vida do Peter Morgan), Eastwood ainda abraça a trama com uma direção arrastada até não poder mais. O bom humor presente em Invictus, que salvava o filme da tragédia, não aparece em Além da Vida, exceto por raríssimos momentos (quase todos graças à Bryce Dallas Howard, que brilha ao lado de Matt Damon na melhor cena do filme – no curso de culinária, com as vendas). Tudo bem que a premissa de Além da Vida não é ser engraçado, muito pelo contrário, mas um pouco mais de alívio cômico serviria como um desfibrilador para o sono do espectador não bater tão forte.

Se ainda os personagens fossem interessantes, daria para encarar um dramalhão nos moldes de Menina de Ouro (Million Dollar Baby, EUA, 2004), mas não. Peter Morgan até deu início a três historinhas que poderiam florescer em arcos dramáticos curiosos. Só que assim, ele plantou a semente, e esqueceu de regar a muda. Resultado: um amontoado de raminhos sem graça e sem desenvolvimento.

Dando vida à francesa Marie Lelay, Cécile de France (prejudicada pelo penteado não-simpático) segue em busca de alguma explicação para as visões que passou a ter depois do momento de quase-morte na Tailândia. O que poderia ser uma investigação intrigante dentro do mundo das pessoas que têm momentos de quase-morte (não necessariamente na Tailândia, né) virá uma sequência insossa de leves discussões com o marido sobre escrever um livro já que está afastada do trabalho (clichê em letras garrafais). E Cécile de France, apesar de francesa, não consegue atrair muita simpatia para sua personagem sem graça (repito, o cabelo atrapalha, coisa feia).

Os irmãos gêmeos Frankie e George McLaren tão pouco conquistam o espectador com as carinhas tristes e falas murmuradas que fazem para demonstrar a tristeza de Marcus, que não consegue mais viver direito depois que seu irmão (gêmeo) morreu (atropelado, óbvio). O terço do filme sobre Marcus é o mais frágil de todos. Absurdo seria um adjetivo adequado também. É logo depois da morte de Jason, o outro irmão, que a mãe drogada decide ir a um centro de tratamento para drogados e consequentemente abandonar o único filho que lhe resta, deixando o coitado do Marcus em uma imensidão de solidão absoluta. A inacreditável falta que sente do irmão (ficção, né) o faz procurar centros espíritas e afins com o propósito de tentar se comunicar com irmão. Nesse ínterim, ele descobre George na Internet.

George, por sua vez, é interpretado por Matt Damon, e o único ser humano da película digno da nossa compaixão. George é um médium, ele fala com pessoas mortas, e Damon faz isso parecer crível. Incentivado incansavelmente pelo irmão mala a fazer o contrário, George não quer mais fazer “leituras” (como ele as chama), e muito menos cobrar por isso. Não agüenta mais. Ele vivia disso. Falava com os espíritos, e levava uma grana em troca. Mas não agüenta mais. Apesar de ser o mais implausível, George acaba se tornando o personagem mais real de Além da Vida, coisa que só ocorre em função da performance dedicada de Damon (que, aliás, ainda é um ator subestimado).

São essas três histórias sem conexão alguma – exceto por Marcus saber da existência de George – que se acompanhamos em meio à montagem problemática de Gary Roach e Joel Cox que não sabe quando passar de uma trama para a outra. Fica um nhenhenhé alongado em demasia até que finalmente Marcus encontra George que encontra Marie que nunca encontra Marcus, em Londres (o guri era de Londres mesmo, o médium dos EUA, e a mulher da França; Peter Morgan é londrino). A relação entre George e Marcus se resolve de forma muito fácil, e a última cena do filme, entre George e Marie é patética – que fica pior ainda graças à trilha excessivamente melosa composta pelo próprio Eastwood.

No final das contas, Clint Eastwood falha miseravelmente ao tentar convencer o espectador dos problemas de seus personagens, e joga fora qualquer chance de falar algo relevante sobre coisas “além da vida” – supondo que isso seja possível, claro.

Se dramaticamente o filme é essencialmente falho, pelo lado técnico a situação só não é tão dramática (hanhan) por que com o diretor de fotografia Tom Stern acerta ao jogar os personagens em cores secas, frias. E também em função do dinamismo da cena de abertura.

Aliás, depois da primeira cena, na qual o litoral da Tailândia vira piscina com ondas, e a câmera virilmente mergulha na água enquanto acompanhamos o corpo de Cécile de France sendo arrastado pelas ruas da cidade (agora canais aquáticos) como se fosse uma boneca de pano, qualquer menção de dinamismo e originalidade some do mapa de Eastwood.

Ah sim, a primeira coisa que eu disse no final da sessão foi “Mau pressentimento confirmado”. 1/5.

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