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Sexta-Feira 13!

17/11/2009

Atrasado, eu sei, vou falar da Sexta-Feira 13 (+sábado).

O filme do dia acabou sendo O Iluminado (The Shining, 1980), que dessa vez resolveu cooperar e rodou inteiro no DVD.

Mais uma das Sessões Gika, o único terror de Kubrick coube na tradição de sexta-feira 13, afinal, é um terror! Porém, não cheguei a ficar com medo. Isso não quer dizer que o filme é necessariamente ruim, claro (eu só esperava um pouco mais). Talvez em 1980 fosse assustador, mas hoje, com exceção de poucas cenas, O Iluminado não chegou a me impressionar nesse quesito. Por outro lado, o filme é repleto de um simbolismo curioso, tem Jack Nicholson e Shelley Duvall em atuações magistrais, uma fotografia linda, e uma das mais eficientes trilhas sonoras de todos os tempos (evito usar ‘de todos os tempos’, mas às vezes isso é verdade) – aliás, chegamos a comentar que se não fosse pela música, o filme não seria nada (e não seria mesmo!).

Cada um tira suas próprias conclusões do que exatamente se passa na história (alguém notou semelhança com 2001? Pois é…). O fato é que se trata de uma história em que seu protagonista sofre uma brutal mudança de personalidade. A partir dessa premissa, fazendo uso das informações que nos são (implicitamente) dadas ao longo do filme, podemos deduzir o que se passa. Mas não é muito complicado. Eu já acho imprudente fazer qualquer explicação muito diferenciada, pois a última imagem a aparecer aos olhos do espectador resume perfeitamente o que significam todos os grandes acontecimentos ‘inexplicáveis’ do longa.

No geral, dá para assistir O Iluminado tranquilamente. Porém não é o tempo todo assim. Afinal, além de ser um filme de Kubrick com roteiro de Kubrick, O Iluminado é um filme de Kubrick com roteiro de Kubrick baseado em livro de Stephen King! Não tinha com sair algo muito ‘light’. Certas cenas nos causam um ar (intencional) de incômoda estranheza:

Não, não é do sorriso maníaco de Jack Nicholson que estou falando. É o restaurante lotado, e principalmente o Bartender que nos deixam meio mal (vocês entenderão o que estou falando quando virem o filme – tentem perceber nessa foto mesmo o modo com que o ator Joe Turkel compõe a expressão nos seus lábios: é um momento muito Stephen King).

E devo ressaltar uma cena específica que me deixou vidrado na TV. O momento em que o personagem de Nicholson, Jack Torrance, conversa com aquele foi o antigo zelador do Hotel Overlook (onde se passa a história), Delbert Grady. A conversa entre os dois é de uma tensão hipnotizante. É incrível a presença de ‘palco’ com que Philip Stone consegue expressar seu personagem. Ele rouba a cena, e estamos falando de uma performance ao lado de ninguém menos que Jack Nicholson! Só por isso, vale a conferida:

Voltando a questão do simbolismo, um rápido comentário sobre as cores. Todas as cenas, todas, são minuciosamente compostas no intuito de nos causar certos efeitos inconscientes. O uso das cores é muito bem elaborado.

Update: Preciso avisar do crasso erro de continuidade logo na cena mais famosa do filme. Quando Jack Nicholson quebra a porta do banheiro com o machado, e grita: “Heeeeeere’e Johnny”. Notem o buraco na porta. Em uma tomada é o lado esquerdo que está com o rombo; troca-se a cena para outro personagem; e quando voltamos a ver o banheiro, a porta está com dois buracos! (méritos de percepção para a Gika)

No entanto, se aqui Kubrick decepcionou Stephen King ao adaptar seu livro de forma muito arbitrária, o que fez com que em 1997 ele mesmo adaptasse sua obra para uma série de TV, o outro filme que vi nesse filme de semana parece ter sido bastante fiel aos fatos que o originaram.

Anos atrás, quando tínhamos um ponto pirata da NET, com todos os canais que existiam até então, eu vi um filme de suspense da metade para o final. Um suspense sobrenatural. Achei simplesmente o máximo! Só que nunca cheguei a ver o filme inteiro. Finalmente, aproveitando essa data comemorativa do terror, fui até a locadora e peguei o filme.

Continuo achando o máximo! Sabe aqueles filmes que quando acabam tu pensa ‘Fazia tempo que eu não via um filme tão bom!’, ou ‘Ás vezes, aparecem uns filmes perfeitos’, ou simplesmente ‘Uau.’? São aqueles filmes que não necessariamente foram feitos para nós, mas que nós fomos feitos para eles, entendem?

Eu posso citar alguns que para mim também se encontram nesse nível: Amnésia (Memento, 2001), Apenas Uma Vez (Once, 2006), Batman Begins (Batman Begins, 2005), O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet dês Dr. Caligari, 1920), Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003), Spirit: O Corcel Indomável (Spirit: The Stallion of the Cimarron, 2002)… São aqueles filmes que você pode ver diversas vezes, e ainda não se cansar de assisti-los.

Envolto no sobrenatural, A Última Profecia (The Mothman Prophecies, 2002) é um suspense admirável que agora também entra nessa lista. E não é por acaso. O filme tem seus méritos.

Em determinado momento, precedendo aquela que para mim é a melhor cena do filme, Jack Klein (Richard Gere) está com um livro aberto, onde podemos ver escrito:

Premonição: capacidade de prever o futuro.

Então escutamos sua conversa por telefone com seu amigo Ed Fleischman (David Eigenberg), que lhe diz:

- Não é do seu feitio. É o tipo de notícia que ridicularizávamos.

- Eu sei. Mas é diferente quando acontece com a gente.

Perfeito. A resposta de John não poderia ter sido melhor. Esse é o diálogo mais eficaz para resumir uma das idéias principais do filme.

A história é a seguinte: depois de um incidente com sua mulher (Debra Messing, a Grace de Will & Grace provando que sabe atuar drama), o jornalista John Klein fica desiludido com seu emprego. Durante uma viagem a trabalho, acaba testemunhando coisas incompreensíveis ocorrendo em uma cidadezinha do interior e, intrigado, passa a investigar. Aos poucos ele descobre que isso pode ter alguma relação com o que aconteceu à sua mulher, dois anos atrás.

Foi o melhor que eu consegui sem expor nenhum spoiler. Eu não arriscaria ver o trailer se fosse você.

Enfim, porque A Última Profecia é tão bom? Primeiro vocês devem desconsiderar que o filme é bom apenas porque eu disse que achei ele bom. Nesse caso aqui ainda mais, pois o fato de eu ter visto parte dele quando era menor pode ter influenciado a minha interpretação – eu vi o filme sabendo que iria gostar, então sou meio suspeito para falar.

Deixando isso claro, posso tentar esclarecer porque A Última Profecia é bom. Para isso, preciso dizer que ‘A Última Profecia’ é um tolo título comercial para um filme que deveria se chamar ‘As Profecias do Homem-Mariposa’. Fica meio torto, soa mal, não? Mas então que botassem ‘Profecias’, ou ‘Mothman’, ou ‘Profecias de Mothman’, ou ‘O Mistério de Point Pleasant’ (esse é o nome da cidadezinha do interior onde ocorrem os acontecimentos estranhos)… Há várias opções. ‘A Última Profecia’ é um ótimo título, é chamativo, mas não serve para um filme em que haja mais de uma só profecia. Mas tudo bem, não é tão ruim assim.

Na trama, John Klein acaba descobrindo um estudioso no assunto das ações sobrenaturais que acontecem em Point Pleasant. A cena que mostra o encontro dos dois, em Chicago, é a melhor do filme. Não em questão de técnica, ou beleza plástica, mas simplesmente em função do diálogo. E nem é necessariamente um diálogo bem construído… Digo, é bem construído, mas o porquê do diálogo ser bom não é a sua construção sintática, e sim seu conteúdo pragmático. Não é o como, mas o quê eles falam que interessa. Porém, é claro que há uma parte em que o como é muito legal, quando John pergunta ao Sr. Leek (Alan Bates):

- Podemos presumir que esses seres são mais avançados do que nós. Por que não aparecem de uma vez e dizem o que tem em mente?

- Você é mais avançado do que as baratas. Já tentou se explicar para elas?

Esse diálogo também resume a proposta de filme de maneira brilhante.

Eu vejo a lógica de A Última Profecia de dois modos. Fazendo um paralelo com um filme recente, Presságio (Knowing, 2009), pode-se pressupor que tudo que acontece no filme seja uma finalidade imutável do ‘destino’. Ou podemos interpretar (quase) justamente o contrário, e considerar os fatos como uma variação um tanto bizarra da seleção natural. Sim, exatamente aquilo que Darwin descobriu. Quem entende a seleção natural no seu âmbito mais filosófico, sabe que ela não se trata somente da ‘lei do mais forte’, e tendo isso em mente, pode-se muito bem fazer uma interpretação aceitável de A Última Profecia.

E tem ainda uma terceira opção. Quem sabe seja somente um suspense muito bem escrito (Richard Hatem, baseado em livro de John A. Keel), fortemente beneficiado pela trilha sonora (Tomandandy) e pela fotografia (Fred Murphy), além do elenco principal: Richard Gere, Laura Linney, Will Patton, Alan Bates; e sempre mergulhado em forte clima conspiratório graças à direção segura de Mark Pellington.

Não importando por qual caminho seu inconsciente trilhará na recepção e interpretação do filme, se você gosta de suspense, ou de mistério, ou de fantasmas, ou de psicologia, ou até evolução, de alguma forma você gostará A Última Profecia.

E então fica esclarecido o porquê do post anterior, ‘Moth’. As mariposas, moths, têm um papel fundamental na trama de A Última Profecia.

2 comentários

  1. Gostei bastante do blog. Keep it on! =D


  2. Obrigado!



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