
Um Kubrick no Espaço
02/11/2009Depois de publicada a lista dos filmes de Outubro, posso enfim botar em dia meus comentários cinéfilos:

É a segunda vez que assisto a 2001: Uma Odisséia no Espaço, e ainda não consigo abstrair nada além do que eu já havia percebido na primeira vista. O conteúdo do filme continua perdido para mim. Em contrapartida, a forma…
A forma se mostrou ainda mais fantástica que antes. As realizações de Stanley Kubrick em termos de efeitos visuais são inegavelmente geniais! Mal posso acreditar que foi em 1968 (oh data essa) que rodaram o longa. Eu já estava extasiado quando vi pela primeira vez, e mesmo agora, com o DVD travando, o zumbido da TV, e o calor desgraçado, 2001 foi mais lindo de se ver. Leva mais de 20 minutos até o primeiro diálogo ser ouvido. Mas até lá somos mergulhados em belíssimas imagens do Amanhecer do Homem:


O filme todo é belo nesse contexto. Ainda somando a trilha sonora recheada de clássicos da música erudita, estabelecendo harmonias imagem-som fabulosas, a experiência de ver 2001 certamente é marcante.
Aliás, ao assistir a ficção científica mais cultuada do Cinema com a Giovanna, pude perceber o quão marcante 2001 pode ser. Tendo visto o filme aos quatro anos, e nunca mais revisto, ela se emocionou revendo o filme comigo: ‘Eu lembro dessa cena! Exatamente desse jeito! A imagem ficou na minha cabeça durante esses anos todos! Tu tem noção do que é isso? Eu tinha quatro anos!’. (Especificamente o ‘olho colorido’, e a sessão de passagem de cores que lembra o descanso de tela do Windows 95 (na boa, sério mesmo)). Preciso dizer que testemunhar essa reação tão forte a memórias de infância sobre um filme foi… tocante.
De fato, 2001 possui muitas cenas memoráveis. Desde a entrada com os planetas se posicionando que precede o aparecimento do título do filme, ao som de Also Sprach Zarathustra, composição de Richard Strauss que virou praticamente hino da ficção científica depois de ser usada nesse filme:

Passando pela descoberta da ferramenta (de novo com Strauss):

As cenas do espaço embaladas por valsas vienenses (de Johann Strauss II), os astronautas investigando uma escavação sob o som quase mítico de Lux Aeterna, coral de Gyorgy Ligeti… O visual (interno e externo ) das espaço-naves que beira a perfeição, as cenas das ‘espaço-moças’ andando pelos corredores das naves sem gravidade, um mistério de técnica para mim… E vai. A meia hora final é a que mais conta com imagens plasticamente lindas (e hipnotizantes!).
Porém, confesso que não entendo a adoração quase dogmática que existe em torno de 2001. Qual é a grande sacada do filme?
O que se dá entre os tripulantes da Missão Júpiter e o icônico computador HAL 9000 é uma ótima fonte de discussões sobre as relações humanas, o uso acelerado da tecnologia, conflitos filosóficos… Sim, essa parte eu concordo que mereça a devida atenção. É possível fazer uma série de considerações muito interessantes a partir dos emblemas apresentados por Kubrick e Arthur C. Clarke durante a ‘batalha’ Homem VS. Máquina.
No entanto, o maldito monólito que aparece e desaparece durante o filme permanece na penumbra. O que ele significa? O conceito de Deus? Alusão à evolução? Simbólico, ou real? Muitos dizem que o filme não só realmente quer nos dizer alguma coisa, como diz, mas até agora não vi ninguém dizer o quê. Será que a idéia de Kubrick e Clarke era justamente nos fazer pensar, independente de sobre o quê estamos pensando? Já naquela época as pessoas andavam intelectualmente preguiçosas? Talvez 2001 quisesse quebrar alguns conceitos de certo e errado, afinal estavam em 1968? Não encontro resposta satisfatória. Particularmente acredito que a explicação mais cabível sobre o monólito é que ele seria uma alusão à Evolução humana. Na primeira vez em que aparece, os macacos aprendem a usar o osso como ferramenta, utensílio, e dão um passo em direção ao Homo Sapiens. Até a faz sentido total, mas… Já na segunda vez, após a descoberta dessa estranha forma monolítica abaixo da crosta de um satélite natural, Clavius, um grupo de astronautas é enviado até lá parra averiguar, e de repente um zunido absurdo começa a ser emitido (do monólito), a cena acaba, e somos lançados direto para 18 meses depois. Quebrou a lógica. É quando passamos a acompanhar Dave, Frank e o HAL 9000. Após os incidentes entres estes, na finaleira do longa, o monólito aparece de novo. Sucedem-se cenas absurdas e praticamente sem coerência nenhuma. E a última imagem que o espectador vê é digna de uma farta dose de LSD.
Tecnicamente impecável, e fonte de discussões filosóficas, porém inconclusivo, 2001 é sem dúvida um clássico. Mas não uma obra-prima.
Se alguém entendeu 2001: Uma Odisséia no Espaço, que se manifeste.
(É, o texto sobre a Bienal ainda vai demorar um pouquinho)
Valeu pela descrição da minha emoção vendo o filme xD Mas realmente, esse filme me marcou um bocado. Até acho interessante que tenha me marcado taanto, mesmo sem saber o porquê. Eu também gostaria de ter uma explicação convincente sobre esse filme, daquelas de se dizer ‘aaaaaaahh então era isso!’, mas ainda não consegui, e se minha intuição não erra, vai demorar um pouco até descobrirmos =p
Anyway, apesar do calor, do zunido e das pausas constantes do DVD a emoção de rever o filme não foi perdida o/ Obrigado por essa experiência ‘turn back time’!
Obs: o texto tá tri bom o/
Rapaz, tá aí algo que podemos discutir. Tu achaste pelo menos 3 alternativas viáveis pro sentido do monolito e algumas alternativas para contestar a adoração pelo filme. Bom. Eu estou inclinado a concordar com o sentido do monolito, cãotudo, não concordo muito com a tua contestação (quase como sempre hehe). O problema, não é o filme, e sim os intérpretes (mais uma vez essa problemática). Não é preguiça de pensar, é simplesmente um filme difícil de ser compreendido, em qualquer contexto – não é porque passamos do ano 2001 que podemos criticá-lo adequadamente – e muitos tentaram justificar como puderam o primeiro argumento que lhes pareceu razoável.
Acredito que ele tenha um conteúdo expressivo, filosoficamente, assim como [i]Blade Runner[/i], mas não me pergunta nada sobre os lendários “últimos 15 minutos”. O que eu entendi do filme?
Bom, pra mim, o filme pode ser entendido como uma crítica ao uso das máquinas, como uma crítica à evolução (os homens são passado e criaram o próprio sucessor), uma crítica à ganância (no sentido da necessidade da evolução num sentido linear), uma crítica às máquinas em si (daí, digna de uma das mais belas estórias de Isaac Asimov), enfim, muitas “lentes” podem ser usadas para se determinar um sentido ao filme, então, não creio que seja algo unilateral que exige uma resposta de “certo ou errado” que, por sinal, a própria filosofia não comporta. Se tratando dum filme filosófico e relativamente bastante “aberto” quanto aos limites das interpretações, o conteúdo deves ser tu a atribuir como bem entenderes.
Claro que eu não acho que exista um único ‘certo’ sobre o filme; mas não encontro qualquer ‘certo’ que sirva de explicação.
Não é porque o filme precise ser visto mais de uma vez que ele não seja eficiente em suas ‘mensagens’. Até gosto da idéia de fazer o espectador encontrar sua própria resposta.
Quando eu achar a minha, certamente terei uma admiração maior de 2001.
Mas ainda não encontrei o monólito!