A crítica de Julie e Julia (Julie & Julia, 2009) vai ter que esperar. Agora vou falar de House. Na contracapa do caderno Cultura da Zero Hora de hoje (28 de novembro) há um texto que ocupa a página inteira falando de House.
Na realidade o texto só ocupa a página toda porque a diagramadora Leonice Schmorantz colocou uma enorme foto do ator Hugh Lauri interpretando o personagem que dá nome à série no meio da folha; a clássica imagem de divulgação:

Sob o título de ‘A doença de ver e rever House’, a jornalista Cris Gutkoski tenta discorrer sobre a série médica. Seu resultado é pedestre.
Ela já começa mal, e só piora (grifos meus).
#Primeiro parágrafo:
“O seriado médico House vem senda apresentado pelo canal de TV paga Universal, que o transmite no Brasil, como a ‘série dramática mais assistida no mundo’.
Esconder informação é fogo, hein? O Universal Channel jamais se auto-promoveu como o canal onde passa a ‘séria dramática mais assistida no mundo’. Eles afirmam que House é “a séria dramática mais assistida no mundo em seu horário de exibição”, uma diferença sutil.
Pequeno detalhe de sintaxe: “o transmite no Brasil”, não; “o transmite para o Brasil’, sim.
#Segundo parágrafo:
“Deve ser um tipo de loucura, ainda que mansa, isso de ficar viciado em seriados televisivos – Arquivo X, Sex and the City, The Office, House. Eles não têm poderes analgésicos. Não são cinema.”
OK, me digam uma coisa, a frase “Eles não têm poderes analgésicos” é para ser uma piadinha? De certo, em relação a House. Vocês acharam engraçado? Ela quis dizer que seriados de televisão não têm poderes analgésicos, mas o cinema tem. (isso significa alguma coisa?)
“Séries e novelas para TV, mesmo as caprichadas, obedecem a fórmulas rígidas para segurar a audiência entre os blocos comerciais.”
Com “mesmo as caprichadas”, ela deixa evidente que House não é uma delas. Porém, prestem atenção à formulação da frase. Ela diz que até as séries mais caprichadas obedecem a fórmulas rígidas para manter a audiência. Basta saber um pouquinho de produção televisiva para ver que essa frase é bastante falha. O que Cris Gutkoski diz é que “mesmo as caprichadas obedecem fórmulas”, sendo que isso é mais do que evidente considerando o universo da televisão, onde aqueles que seguem fórmulas sempre conseguem resultados melhores. E na boa, mesmo que isso não fosse verdade, o que vocês acham que seria mais complicado: 1) ter mais liberdade na hora da criação artística; 2) ou seguir uma fórmula rígida, se manter dentro de um modelo, e necessitar de uma dose de criatividade ainda maior para, dentro desses parâmetros, poder ser tão ou mais interessante do que algo que é feito sem essas delimitações?
“Volta e meia tem uma arte superior em cartaz nas redondezas*, um Almodóvar, um Meirelles*, mas o maluco por House* adia a ida ao cinema porque acaba de descobrir na locadora, que alegria!, DOIS episódios ainda não vistos entre os 110 títulos das cindo primeiras temporadas.”
*Ela já tinha deixado claro que considera mais o cinema do que a TV. Eu também. É verdade, gosto muito mais de ir assistir um filme na telona do que ficar em casa olhando para a televisão. Mas eu ainda sim não deixo de gostar de ver de TV. No momento não estou acompanhando uma série, mas sou completamente apaixonado por Law & Order e Law & Order SVU, além do próprio House. Dito isso, não consigo engolir quando alguém diz que ‘TV não é arte’. É arte, e é arte sim! Falta às pessoas pararem de enxergar o cinema como o único meio audiovisual que pode ser considerado bem cultural. Cinema também é bem de consumo, com o detalhe de que muita gente não se liga nesse lado, e só olha filme como obra de arte. O Cinema é imerso em uma atmosfera de cultura já faz tempo, e por isso talvez o lado comercial não apareça aos olhos de certas pessoas. Em contrapartida, a televisão, mais jovem, com proposta assumidamente comercial, é vista com maus olhos. TV também é cultura! Tenho certeza que se qualquer um dos seriados mais célebres da TV fossem filmes todos que os criticam apenas por serem seriados ficariam de boca calada.
**Citar o nome do Fernando Meirelles para diminuir a televisão não só é incoerente, como é também de mau gosto. Meirelles começou a carreira como diretor de comercias para TV, e foi produtor de mais de uma das minisséries da Rede Globo.
***Chamar de maluco quem não vai ao cinema porque preferiu ficar em casa vendo House é de extrema falta de educação.
E essa faceta da jornalista Cris continua…
#Terceiro parágrafo:
“A revista Veja recomenda”
Nota-se a discretíssima propaganda da revista! Parece até coisa de publicitário, mas é uma jornalista. Não, mais do que isso, é uma ‘mestre’ em Letras! Que lindo.
“187 bares e 201 restaurantes em Porto Alegre, e o fã de House engole um bauru frio no almoço para dispor de 43 minutos diante da TV (a duração de um episódio em DVD, sem os comerciais)”
Por raios, qual o problema de comer um bauru frio no almoço?!
“e ouvir de novo ‘Aleluia’, na segunda temporada, quando um presidiário é curado pelo médico mas retorna algemado ao corredor da morte. Ou rever alguns dos finais antológicos: os sons do Leste Europeu embalando a cerimônia de simchat bat de Rachel, a filha adotiva da Dra. Cuddy; a compra da motocicleta por House depois de ouvir de uma pré-adolescente em estado terminal que o dia está bonito lá fora, bom para um passeio.”
Fiz questão de riscar a frase para não dar um spoiler, que a mestre Cris revelou na boa. Não se deve nunca dar um spoiler, mesmo deque seja de algo que você não gosta. Colocar um spoiler em um texto publicado no jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul é muita falta de consideração. Mas tudo bem, é só UM episódio de House que foi prejudicado. Será?
Por ser um baita spoiler filho da puta, colocarei riscado e em branco, então quem quiser ver é só selecionar o texto. Mas ainda assim aviso para NÃO lerem. Sem problemas para aqueles que já viram A Sociedade dos Poetas Mortos (The Dead Poets Sociecy, 1989), para os outros não.
#Sétimo parágrafo:
“Uma fonte permanente de repostas para House é o melhor amigo, dr. Wilson (Robert Sean Leonard), oncologista e gourmet, interpretado pelo ator que fez o suicida em Sociedade dos Poetas Mortos.”
Brincadeira, não? Continuando…
“Contrapondo o herói, Wilson tem um fã-clube cativo, assim como o dr. Chase, o cirurgião meio grunge, com rosto de príncipe.”
O grunge é um estilo musical surgido no final dos ano 1980 que mistura elementos do Hardcore, Heavy Metal e rock alternativo, com letras que falam de angústia e sarcasmo, relacionando temas como alienação social, apatia, confinamento e desejo pela liberdade. Dito isso, o que seria alguém “meio grunge”?
“Na quarta temporada, a equipe de médicos assistentes de House foi renovada por uma fórmula que privilegiou grandes grupos de telespectadores-consumidores. O exagero foi tanto que virou piada em diálogo da própria série, poucos dias atrás”
Não preciso dizer que aí foi mais um meio spoiler. E mais uma vez a questão da fórmula. Que legal. Se a mestre Cris acompanhasse a série, entenderia porque a equipe de House foi renovada, e veria que a quarta temporada foi a mais dinâmica até agora justamente em função disso.
#Oitavo parágrafo:
“O médico negro é Eric Foreman, neurologista, a doutora gay (ou bissexual) é Remy Hadley, alcunhada Treze, e a comunicada judaica se completa com Chris Taub, ex-cirurgião plástico. Havia ainda um imigrante asiático, dr. Kutner.”
Qualquer um que já viu House sabe dizer que Treze é assumidamente bissexual. Nas próximas frases a mestre Cris tento soar engraçadinha, vejam só:
“A se manter a fórmula, é de se perguntar quais outras minorias serão contempladas no futuro. Um latino comunista? Um leitor de José Saramago?”
Por acaso o fato de ser latino é intrínseco ao fato de ser comunista? Por acaso ser leitor de José Saramago é ser pertencente a uma minoria? O cara ganhou o Nobel, e está na lista dos 10 mais vendidos da, alguém arrisca?,… Veja! Notem a incoerência interna do texto da Mestre Cris, porque se antes ela falou na revista, agora prova que nem lê a mesma.
“A minoria não exatamente oprimida dos símbolos sexuais ganhou o rosto da atriz Olivia Wilde, a Dra. Treze, médica e paciente* do Mal de Huntington. Mesmo sob uma overdose de significados – a orfandade, a doença degenerativa, a bissexualidade**, o namoro inter-racial*** – a personagem já foi crível, quase um duplo do chefe, também ele doente, problemático e… brilhante. Nos últimos tempos, porém, Treze lembra mais uma top model, circulando de jaleco e salto alto”.
*Pensem, House é uma série sobre médicos, logo todos ou Drs. e Dras. ali são… médicos! Então “Dra. Treze, médica” é um pleonasmo daqueles.
**Mais um pouquinho de incoerência se encontra na menção da bissexualidade de Treze. Não foi poucas frase antes que foi dito “gay (ou bissexual)”? Para que essa dubiedade se em seguida é dito que a bissexualidade é um dos ‘significados’ de Treze?
***Mestre Cris, a senhora é racista? Não? Ah, é porque parece que sim.
#Nono parágrafo:
“No Brasil, a temporada em curso nos Estados Unidos vai ao ar com retardo de alguns episódios no canal Universal, às quintas, às 23h.
Explique-se.
“De segunda a quinta, o canal pago* reprisa episódios em um horário complicado, às 20h, o mesmo do Jornal Nacional**. O presidente Lula está no seu segundo mandato, é isso mesmo? Parece que em 2008 se iniciou uma grave crise econômica.***”
*Algo contra TV por assinatura?
**Diga-me, por que é complicado para uma série de TV ser transmitida no mesmo horário do telejornal noturno da Rede Globo? É o único do Brasil? Eu acho que não. Vou dizer que considero mais saudável assistir House ao Jornal Nacional. House pelo menos admite ser ficção.
***É incrível a falta de respeito que a mestre Cris nutre pelos fãs de House. Como se não assistir o Jornal Nacional fosse nos fazer ficar alienados quando aos acontecimentos do mundo. E quanto àquela cambada de gente que só olha o JN esperando que esse acabe para que então comece a adorada ‘novela das 8’ que passa às 21h?
#Décimo parágrafo:
“Passados cinco anos, o conteúdo ainda se renova, acredite. House já havia sido ameaçado de não clinicar mais. Heróis enfrentam obstáculos, ou não seria heróis.”
Só existem heróis porque existem obstáculos, minha cara.
“Desta vez, pela primeira vez, ele trata a si ouvindo um psiquiatra, sem revidar com ironia e sarcasmo.”
Sarcasmo é ironia.
“Qualquer um que já tenha passado horas ou dias numa clínica ou hospital sabe que não se sai de lá o mesmo*. Dependendo dos exames, ou será o fim ou algum tipo de recomeço**. Talvez o que os produtores e os fãs de House busquem a cada episódio seja o conforto desse recomeço clínico, ver os atores, os rostos e os objetos no lugar de sempre, como se a morte fosse, também ela, só ficção.***”
*Isso quer dizer que a Mestre Cris já passou horas ou dias em um hospital?
**Capaz?!
***Ainda bem que a frase como começa com ‘Talvez’! Isso mostra que o estado mental da Mestre Cris não está tão abalado, e que talvez o suposto tempo que ela passou “numa clínica ou hospital” não tenha sido em vão. House nem de longe trata a Morte como se fosse ficção. A grande maioria de seus pacientes sobrevive porque é isso que os bons médicos fazem, eles salvam vidas. O doutor Gregory House é um bom médico, a seu único e excêntrico modo, mas é um bom médico, ao menos no que diz respeito ao universo em que habita dentro da TV. O público gosta de personagens interessantes, diferentes, caras ‘fodas’. E House, sendo um bom médico que salva vidas, é um cara foda que salva vidas. É a supremacia do ser humano superando as dificuldades que cativa a público a continuar vendo House, e não apenas “ver os atores, os rostos e os objetos no lugar de sempre, como se a morte fosse, também ela, só ficção.”. Fugir da Morte é uma coisa que qualquer pessoa saudável faz todo dia. Se assistir House é um modo de fugir da Morte, ótimo.
Dentro desse âmbito, House não é uma série médica, vale reforçar essa idéia. Chicago Hope, ER, Grey’s Anatomy, essas sim são séries médicas. Assim como Scrubs, House se utiliza da temática dos médicos e hospitais para criar algo embasado nisso, porém voltado para outro gênero. Scrubs é comédia. Com a estrutura investigativa dos episódios, House é quase um policial. É isso que os fãs de House procuram quando assistem à série, além do protagonista fantástico, dos diálogos afiados ou da presença de Jennifer Morrison, Olivia Wilde ou Jesse Spencer (você escolhe).
Update: Para que não me chamem de parcial, eis aqui o texto de Cris Gutkoski na íntegra: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2731387.xml&template=3898.dwt&edition=13611§ion=1029
Update 2: Devido aos pedidos, enviei o texto para Zero Hora. Isso foi dia3 de dezembro. Nem me responderam.