Posts de novembro \30\UTC 2009

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Prêmio para Coraline!

30/11/2009

Que beleza! Através de uma twittada de Neil Gaiman, acabo de descubrir que Coraline ganhou um prêmio Bafta. Para quem não sabe, Bafta, British Academy of Film and Television Arts, é o Oscar da Inglaterra. Além da entrega de prêmios tradicional, eles tem uma premiação exclusivamente destinada às obras voltadas para o público infantil.

Fui no site deles (http://www.bafta.org) e me meti a descobrir qual de fato foi o prêmio consumado. Dentro da British Academy Children’s Award:

Melhor Filme (Feature Film), batendo os concorrentes Bolt: O Super Cão (Bolt, 2008), High School Musical 3 (High School Musical 3: Senior Year, 2008) e A Era do Gelo 3 (Ice Age 3: Dawn of the Dinosaurs).

Aí: http://www.bafta.org/awards/childrens/awards-2009,879,BA.html

Parabéns a Henry Selick pela merecida conquista, que esse seja somente o início de uma grande jornada de prêmios, e que venha o Oscar!

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Preciso de um minuto…

29/11/2009

Não tive o computador em minhas mãos durante o dia, tenho que ler agora um artigo acadêmico sobre psicologia, e acabei de ver um filme que me deixou bastante atordoado.

Amanhã eu acho que terei tempo para as críticas.

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Em Defesa de House

28/11/2009

A crítica de Julie e Julia (Julie & Julia, 2009) vai ter que esperar. Agora vou falar de House. Na contracapa do caderno Cultura da Zero Hora de hoje (28 de novembro) há um texto que ocupa a página inteira falando de House.

Na realidade o texto só ocupa a página toda porque a diagramadora Leonice Schmorantz colocou uma enorme foto do ator Hugh Lauri interpretando o personagem que dá nome à série no meio da folha; a clássica imagem de divulgação:

Sob o título de ‘A doença de ver e rever House’, a jornalista Cris Gutkoski tenta discorrer sobre a série médica. Seu resultado é pedestre.

Ela já começa mal, e só piora (grifos meus).

#Primeiro parágrafo:

“O seriado médico House vem senda apresentado pelo canal de TV paga Universal, que o transmite no Brasil, como a ‘série dramática mais assistida no mundo’.

Esconder informação é fogo, hein? O Universal Channel jamais se auto-promoveu como o canal onde passa a ‘séria dramática mais assistida no mundo’. Eles afirmam que House é “a séria dramática mais assistida no mundo em seu horário de exibição”, uma diferença sutil.

Pequeno detalhe de sintaxe: “o transmite no Brasil”, não; “o transmite para o Brasil’, sim.

#Segundo parágrafo:

“Deve ser um tipo de loucura, ainda que mansa, isso de ficar viciado em seriados televisivos – Arquivo X, Sex and the City, The Office, House. Eles não têm poderes analgésicos. Não são cinema.

OK, me digam uma coisa, a frase “Eles não têm poderes analgésicos” é para ser uma piadinha? De certo, em relação a House. Vocês acharam engraçado? Ela quis dizer que seriados de televisão não têm poderes analgésicos, mas o cinema tem. (isso significa alguma coisa?)

Séries e novelas para TV, mesmo as caprichadas, obedecem a fórmulas rígidas para segurar a audiência entre os blocos comerciais.”

Com “mesmo as caprichadas”, ela deixa evidente que House não é uma delas. Porém, prestem atenção à formulação da frase. Ela diz que até as séries mais caprichadas obedecem a fórmulas rígidas para manter a audiência. Basta saber um pouquinho de produção televisiva para ver que essa frase é bastante falha. O que Cris Gutkoski diz é que “mesmo as caprichadas obedecem fórmulas”, sendo que isso é mais do que evidente considerando o universo da televisão, onde aqueles que seguem fórmulas sempre conseguem resultados melhores. E na boa, mesmo que isso não fosse verdade, o que vocês acham que seria mais complicado: 1) ter mais liberdade na hora da criação artística; 2) ou seguir uma fórmula rígida, se manter dentro de um modelo, e necessitar de uma dose de criatividade ainda maior para, dentro desses parâmetros, poder ser tão ou mais interessante do que algo que é feito sem essas delimitações?

“Volta e meia tem uma arte superior em cartaz nas redondezas*, um Almodóvar, um Meirelles*, mas o maluco por House* adia a ida ao cinema porque acaba de descobrir na locadora, que alegria!, DOIS episódios ainda não vistos entre os 110 títulos das cindo primeiras temporadas.”

*Ela já tinha deixado claro que considera mais o cinema do que a TV. Eu também. É verdade, gosto muito mais de ir assistir um filme na telona do que ficar em casa olhando para a televisão. Mas eu ainda sim não deixo de gostar de ver de TV. No momento não estou acompanhando uma série, mas sou completamente apaixonado por Law & Order e Law & Order SVU, além do próprio House. Dito isso, não consigo engolir quando alguém diz que ‘TV não é arte’. É arte, e é arte sim! Falta às pessoas pararem de enxergar o cinema como o único meio audiovisual que pode ser considerado bem cultural. Cinema também é bem de consumo, com o detalhe de que muita gente não se liga nesse lado, e só olha filme como obra de arte. O Cinema é imerso em uma atmosfera de cultura já faz tempo, e por isso talvez o lado comercial não apareça aos olhos de certas pessoas. Em contrapartida, a televisão, mais jovem, com proposta assumidamente comercial, é vista com maus olhos. TV também é cultura! Tenho certeza que se qualquer um dos seriados mais célebres da TV fossem filmes todos que os criticam apenas por serem seriados ficariam de boca calada.

**Citar o nome do Fernando Meirelles para diminuir a televisão não só é incoerente, como é também de mau gosto. Meirelles começou a carreira como diretor de comercias para TV, e foi produtor de mais de uma das minisséries da Rede Globo.

***Chamar de maluco quem não vai ao cinema porque preferiu ficar em casa vendo House é de extrema falta de educação.

E essa faceta da jornalista Cris continua…

#Terceiro parágrafo:

“A revista Veja recomenda”

Nota-se a discretíssima propaganda da revista! Parece até coisa de publicitário, mas é uma jornalista. Não, mais do que isso, é uma ‘mestre’ em Letras! Que lindo.

“187 bares e 201 restaurantes em Porto Alegre, e o fã de House engole um bauru frio no almoço para dispor de 43 minutos diante da TV (a duração de um episódio em DVD, sem os comerciais)”

Por raios, qual o problema de comer um bauru frio no almoço?!

“e ouvir de novo ‘Aleluia’, na segunda temporada, quando um presidiário é curado pelo médico mas retorna algemado ao corredor da morte. Ou rever alguns dos finais antológicos: os sons do Leste Europeu embalando a cerimônia de simchat bat de Rachel, a filha adotiva da Dra. Cuddy; a compra da motocicleta  por House depois de ouvir de uma pré-adolescente em estado terminal que o dia está bonito lá fora, bom para um passeio.”

Fiz questão de riscar a frase para não dar um spoiler, que a mestre Cris revelou na boa. Não se deve nunca dar um spoiler, mesmo deque seja de algo que você não gosta. Colocar um spoiler em um texto publicado no jornal de maior circulação do Rio Grande do Sul é muita falta de consideração. Mas tudo bem, é só UM episódio de House que foi prejudicado. Será?

Por ser um baita spoiler filho da puta, colocarei riscado e em branco, então quem quiser ver é só selecionar o texto. Mas ainda assim aviso para NÃO lerem. Sem problemas para aqueles que já viram A Sociedade dos Poetas Mortos (The Dead Poets Sociecy, 1989), para os outros não.

#Sétimo parágrafo:

“Uma fonte permanente de repostas para House é o melhor amigo, dr. Wilson (Robert Sean Leonard), oncologista e gourmet, interpretado pelo ator que fez o suicida em Sociedade dos Poetas Mortos.

Brincadeira, não? Continuando…

“Contrapondo o herói, Wilson tem um fã-clube cativo, assim como o dr. Chase, o cirurgião meio grunge, com rosto de príncipe.”

O grunge é um estilo musical surgido no final dos ano 1980 que mistura elementos do Hardcore, Heavy Metal e rock alternativo, com letras que falam de angústia e sarcasmo, relacionando temas como alienação social, apatia, confinamento e desejo pela liberdade. Dito isso, o que seria alguém “meio grunge”?

“Na quarta temporada, a equipe de médicos assistentes de House foi renovada por uma fórmula que privilegiou grandes grupos de telespectadores-consumidores. O exagero foi tanto que virou piada em diálogo da própria série, poucos dias atrás”

Não preciso dizer que aí foi mais um meio spoiler. E mais uma vez a questão da fórmula. Que legal. Se a mestre Cris acompanhasse a série, entenderia porque a equipe de House foi renovada, e veria que a quarta temporada foi a mais dinâmica até agora justamente em função disso.

#Oitavo parágrafo:

“O médico negro é Eric Foreman, neurologista, a doutora gay (ou bissexual) é Remy Hadley, alcunhada Treze, e a comunicada judaica se completa com Chris Taub, ex-cirurgião plástico. Havia ainda um imigrante asiático, dr. Kutner.”

Qualquer um que já viu House sabe dizer que Treze é assumidamente bissexual. Nas próximas frases a mestre Cris tento soar engraçadinha, vejam só:

“A se manter a fórmula, é de se perguntar quais outras minorias serão contempladas no futuro. Um latino comunista? Um leitor de José Saramago?”

Por acaso o fato de ser latino é intrínseco ao fato de ser comunista? Por acaso ser leitor de José Saramago é ser pertencente a uma minoria? O cara ganhou o Nobel, e está na lista dos 10 mais vendidos da, alguém arrisca?,… Veja! Notem a incoerência interna do texto da Mestre Cris, porque se antes ela falou na revista, agora prova que nem lê a mesma.

“A minoria não exatamente oprimida dos símbolos sexuais ganhou o rosto da atriz Olivia Wilde, a Dra. Treze, médica e paciente* do Mal de Huntington. Mesmo sob uma overdose de significados – a orfandade, a doença degenerativa, a bissexualidade**, o namoro inter-racial*** – a personagem já foi crível, quase um duplo do chefe, também ele doente, problemático e… brilhante. Nos últimos tempos, porém, Treze lembra mais uma top model, circulando de jaleco e salto alto”.

*Pensem, House é uma série sobre médicos, logo todos ou Drs. e Dras. ali são… médicos! Então “Dra. Treze, médica” é um pleonasmo daqueles.

**Mais um pouquinho de incoerência se encontra na menção da bissexualidade de Treze. Não foi poucas frase antes que foi dito “gay (ou bissexual)”? Para que essa dubiedade se em seguida é dito que a bissexualidade é um dos ‘significados’ de Treze?

***Mestre Cris, a senhora é racista? Não? Ah, é porque parece que sim.

#Nono parágrafo:

“No Brasil, a temporada em curso nos Estados Unidos vai ao ar com retardo de alguns episódios no canal Universal, às quintas, às 23h.

Explique-se.

“De segunda a quinta, o canal pago* reprisa episódios em um horário complicado, às 20h, o mesmo do Jornal Nacional**. O presidente Lula está no seu segundo mandato, é isso mesmo? Parece que em 2008 se iniciou uma grave crise econômica.***”

*Algo contra TV por assinatura?

**Diga-me, por que é complicado para uma série de TV ser transmitida no mesmo horário do telejornal noturno da Rede Globo? É o único do Brasil? Eu acho que não. Vou dizer que considero mais saudável assistir House ao Jornal Nacional. House pelo menos admite ser ficção.

***É incrível a falta de respeito que a mestre Cris nutre pelos fãs de House. Como se não assistir o Jornal Nacional fosse nos fazer ficar alienados quando aos acontecimentos do mundo. E quanto àquela cambada de gente que só olha o JN esperando que esse acabe para que então comece a adorada ‘novela das 8’ que passa às 21h?

#Décimo parágrafo:

“Passados cinco anos, o conteúdo ainda se renova, acredite. House já havia sido ameaçado de não clinicar mais. Heróis enfrentam obstáculos, ou não seria heróis.”

Só existem heróis porque existem obstáculos, minha cara.

“Desta vez, pela primeira vez, ele trata a si ouvindo um psiquiatra, sem revidar com ironia e sarcasmo.”

Sarcasmo é ironia.

“Qualquer um que já tenha passado horas ou dias numa clínica ou hospital sabe que não se sai de lá o mesmo*. Dependendo dos exames, ou será o fim ou algum tipo de recomeço**. Talvez o que os produtores e os fãs de House busquem a cada episódio seja o conforto desse recomeço clínico, ver os atores, os rostos e os objetos no lugar de sempre, como se a morte fosse, também ela, só ficção.***”

*Isso quer dizer que a Mestre Cris já passou horas ou dias em um hospital?

**Capaz?!

***Ainda bem que a frase como começa com ‘Talvez’! Isso mostra que o estado mental da Mestre Cris não está tão abalado, e que talvez o suposto tempo que ela passou “numa clínica ou hospital” não tenha sido em vão. House nem de longe trata a Morte como se fosse ficção. A grande maioria de seus pacientes sobrevive porque é isso que os bons médicos fazem, eles salvam vidas. O doutor Gregory House é um bom médico, a seu único e excêntrico modo, mas é um bom médico, ao menos no que diz respeito ao universo em que habita dentro da TV. O público gosta de personagens interessantes, diferentes, caras ‘fodas’. E House, sendo um bom médico que salva vidas, é um cara foda que salva vidas. É a supremacia do ser humano superando as dificuldades que cativa a público a continuar vendo House, e não apenas “ver os atores, os rostos e os objetos no lugar de sempre, como se a morte fosse, também ela, só ficção.”. Fugir da Morte é uma coisa que qualquer pessoa saudável faz todo dia. Se assistir House é um modo de fugir da Morte, ótimo.

Dentro desse âmbito, House não é uma série médica, vale reforçar essa idéia. Chicago Hope, ER, Grey’s Anatomy, essas sim são séries médicas. Assim como Scrubs, House se utiliza da temática dos médicos e hospitais para criar algo embasado nisso, porém voltado para outro gênero. Scrubs é comédia. Com a estrutura investigativa dos episódios, House é quase um policial. É isso que os fãs de House procuram quando assistem à série, além do protagonista fantástico, dos diálogos afiados ou da presença de Jennifer Morrison, Olivia Wilde ou Jesse Spencer (você escolhe).

Update: Para que não me chamem de parcial, eis aqui o texto de Cris Gutkoski na íntegra: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2731387.xml&template=3898.dwt&edition=13611&section=1029

Update 2: Devido aos pedidos, enviei o texto para Zero Hora. Isso foi dia3 de dezembro. Nem me responderam.

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Hannah e Suas Irmãs – ****

27/11/2009

Depois de praticamente uma semana inteira ausente, agora consigo reservar um tempo para o Fakeline. Por ter ficado tanto tempo sem escrever, esse texto aqui não ficará muito bom (ou comprido).

Na quarta-feira, eu havia conseguido umas horas de descanso, e na TV vi o aviso que de noite, às 22h, passaria um filme que eu queria ver no Telecine Cult.

Eu havia esquecido que o Telecine Cult estava com um especial de filmes do Woody Allen, sempre às 22h das quartas-feiras. Peguei o dia de Hannah e Suas Irmãs (Hannah And Her Sisters, 1986).

É incrível como Woody Allen pode falar tanto com quase sempre a mesma coisa. Comédias dramáticas urbanas, especialmente em Nova York. Esse ‘gênero’ domina dentro de sua expressiva filmografia. E até agora eu só tenho gostado cada vez mais.

Em Hannah e Suas Irmãs, somos apresentados literalmente à Hannah e… Suas irmãs! Que mágico, não? Mas não se enganem, pois Hannah não é a protagonista da história, que na realidade não tem protagonista definido. Ao longo do filme vemos as intempéries dos relacionamentos conjugais das irmãs Hannah (Mia Farrow), Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest), e seus maridos ou ex-maridos Elliot (Michael Caine), Frederick (Max Von Sydow) e Mickey (Woody Allen).

Cada um desses personagens trata de um tipo de pessoa diferente. Hannah é a mulher mais centrada, Holly não sabe o que fazer da vida, e Lee está com problemas no relacionamento. Ao passo que Elliot também se vê com problemas de relacionamento, Frederick não consegue se relacionar com o ‘mundo’, e Mickey se mostra o alter-ego do próprio Allen, como de costume. Fazendo sua mágica, Allen consegue uma variada gama de situações mudando os rumos dos personagens, sem soar inverossímil, e por diversas vezes muito engraçado.

Durante o flashback que mostra dois personagens tentando se dar bem em um ‘encontro’ arrumado por terceiros, o grande contraste entre as duas personalidades rende várias tiradas excelentes. E o momento em que Mickey, interpretado de forma meticulosamente desajeitada por Allen, tem uma crise de identidade e passa a procurar uma religião, com questionamentos sutis a respeito das diferentes crenças que dizem a mesma coisa e não levam a nada, é demonstrado o quão atual é a escrita de Allen.

De tão bom que ficou seu roteiro, no dia da estréia oficial houve um movimento cultural para tentar fazer com que Hannah e Suas Irmãs fosse o primeiro roteiro cinematográfico da História a ser nomeado para o prêmio Pulitzer (Oscar da literatura americana, pode-se dizer). Infelizmente não aconteceu, mas pelo menos Allen ganhou seu segundo Oscar de Melhor Roteiro, Michael Caine e Dianne Wiest também foram agraciados com Melhor Ator e Atriz Coadjuvante, além de o filme ter sido também indicado a Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Direção de Arte e Melhor Montagem.

Vendo Hannah e Suas Irmãs, pela primeira vez eu enxerguei a obra de um cineasta ainda vivo como inquestionável legado cultural. Foi uma sensação interessante. Exatamente em uma cena em que Lee está caminhando pelas ruas da cidade. Consegui visualizar esse filme, bem como tantos outros do diretor/roteirista, daqui a alguns anos sendo considerados clássicos. Não sei explicar direito, foi algo bem pessoal mesmo. É claro que todo mundo que gosta de cinema enxerga Allen como um cara talentosíssimo, responsável por vários ditos ‘clássicos’. Nunca deixei de considerar isso. Porém, nunca tinha me dado conta do que isso realmente significa.

Enfim, Hannah e Suas Irmãs é uma ótima comédia urbana dramática inteligente!

Obs: Prestem atenção no ator que faz o arquiteto que convida Holly e sua amiga April para sair, e vocês verão outra face do promotor mais durão da TV atual.

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Ausência momentânea.

25/11/2009

Não tenho escrito ultimamente devido à dedicação exclusiva que a UFRGS está exigindo. Desde domingo até hoje eu devo ter dormido um total 18 horas! Só! Estou morto de cansaço, e hoje ainda mais graças a esse calor infernal e absurdo de 35°!

Ainda vou escrever sobre A Rosa Púrpura do Cairo, mas não mais para o artigo. Consegui me escapar desse trabalho ao ter editado todo o curta-metragem que o nosso grupo fez. Perdi a noite de sono, mas valeu muito a pena.

Estou para ver três filmes do Woody Allen até amanhã, e então talvez eu consiga conciliar as análises em um único texto. Ou fazer uma sequência de posts sobre o diretor. Veremos… até lá!

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Fim de semana nostálgico

22/11/2009

Fim de semana nostálgico. Mesmo nunca tendo visto o filme que ainda terei de ver diversas vezes para analisá-lo corretamente e ganhar uma nota bonitinha em Mídia Audiovisual, ver A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1984) foi estranhamente ‘familiar’.

Anos 80, Woody Allen, comédia inteligente, sátira social. Curtinho, só 1h20. É um filme mais voltado para quem gosta de cinema mesmo – o que não impede a apreciação do público geral.

Só nessa primeira vista, já pude constatar alguns dos detalhes sobre os quais irei dissertar depois. Porém, dada a complexidade do tema, já percebi que terei de re-ver o filme várias vezes para poder escrever o texto obrigatório, cheio de citações e regras chatas da ABNT, para a concretização da nota que eu preciso ganhar.

O porquê de eu ter achado o filme familiar, eu não sei (isso acontece às vezes, vai entender). Tenho certeza de nunca ter visto o filme antes de sexta-feira – o fato de eu ter ficado muito surpreso com a premissa do longa é uma prova disso. Por falar em ‘premissa’, se forem ver o filme, o façam sem ler a sinopse! Só aviso que é uma comédia nonsense. Não é algo calcado em realidade física. Ponto. Não se fala mais nisso.

Na sequência dessa Sessão Gika tripla, mostrei para a Giovanna um filme que adoro profundamente.

Também curto, 1h30. É um dos filmes que mais me marcou. Não sei se cometi um erro ao ouvir parte de sua trilha sonora antes de assistir o filme. Em função de ter recebido o Oscar pela canção Falling Slowly, e a publicidade em cima disso, acabei conhecendo a música (só essa) antes de descobri-la durante a experiência de assistir ao filme. Foi uma das três canções que eu toquei e cantei no Festival de Bandas 2008 do colégio em que eu estava. Setembro, 25. Ainda não tinha visto o filme (que só ficou duas semanas em cartaz!). E quando eu finalmente assisti, dia 14 de outubro, acabei vendo duas vezes no mesmo dia. Foi mágico. Na primeira vi com meu irmão, e na cena da Falling Slowly estávamos nós dois cantando junto com o filme (isso nunca acontece; repito, nunca). Depois vi com a minha mãe, que também se emocionou.

Quem sabe se eu já não tivesse escutado a Falling Slowly eu não teria gostando tanto do filme? Ter ouvido ela, e ela acabando por ser parte de um dos momentos mais importantes da minha vida, isso daí eu acho que me fez gostar ainda mais do filme. Foi meio suspeito o negócio. Fui ver Apenas Uma Vez (Once, 2006) sabendo que iria gostar. Só não esperava gostar tanto. É que todas as outras canções do longa ajudaram para isso acontecer. Todas são lindas. Umas mais, outras menos, porém não existe uma música ruim. Glen Hansard e Marketa Irglova fazem os protagonistas perfeitamente, e isso é ainda mais incrível se considerar que nenhum deles tinha atuado antes na vida toda. O diretor John Carney contratou Glen, seu antigo companheiro de banda (The Frames), para compor algumas canções para o filme. No vai-e-vem da produção, Glen chamou sua amiga Marketa, tcheca, para ajudá-lo. John, vendo a amizade entre Glen e Marketa, disse que era exatamente isso que ele queria retratar no filme, então os convenceu a atuarem. E o resultado está ai para comprovar a eficácia da escolha do diretor.

Merecido Oscar de Melhor Canção para Falling Slowly. O triste é que o filme merecia receber mais do que somente essa única indicação à melhor canção. Qualquer outra do filme merecia mais estar entre as indicadas do que as três de Encantada (Enchanted, 2007), ou àquela de O Som do Coração (August Rush, 2007). Mais do que isso, Apenas Uma Vez poderia muito bem ser indicado a Melhor Filme. Que tirasse de competição qualquer um dos concorrentes, mais especificamente Juno (Juno, 2007) ou Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007).

Para fechar o fim de semana com chave de ouro, um clássico majestoso, de real nobreza.

Não interessa, O Rei Leão (The Lion King, 1994) é o maior clássico animado da Disney. Continua até hoje como o longa de animação mais assistido na História. Não é por acaso. Estamos falando de uma obra prima no sentido mais pleno da palavra. 1994 foi um marco no cinema. A história, os personagens, a imagem, a trilha sonora… Nossa, a trilha sonora! O que falar sobre ela? Não tem como! O instrumental de Hans Zimmer ganhou a mais do que merecida estatueta de Melhor Trilha Sonora. O único Oscar desse que é um dos melhores compositores de cinema do nosso tempo. E a parte das canções não ficou em mãos menos talentosas. Tim Rice, veterano mais conhecido por suas letras para musicais da Broadway, convenceu os produtores a chamarem Elton John. Eles fizeram isso. O resultado? Três indicações ao Oscar, com uma delas convertida em vitória: Can You Feel The Love Tonight.

As outras duas não ficam atrás em importância. Hakuna Matata é o símbolo de uma geração inteira. Todos que nasceram nos primórdios da década de 90, e viram O Rei Leão, saíram do cinema cantarolando ‘os seus problemas, você deve esquecer/ isso é viver, é aprender/ Hakuna Matata’, e viram e reviram a extinta fita VSH várias vezes, cantando junto com os personagens. Timão e Pumba. Para mim, especificamente, a clássica frase de Timão: “Quando o mundo dá as costas para você… você dá as costas para o mundo”, ainda me alegra quando penso que tudo está dando errado.

Claro, a terceira canção, Circle of Life é, no final das contas, a mais importante de todas. Poucos sabem do processo de realização de O Rei Leão. O que aconteceu foi que depois que o filme estava praticamente pronto, aí é que o compositor começou a trabalhar. Ao menos é assim que Hans Zimmer faz (e eu faria o mesmo). Ele tinha chamado seu amigo Lebo M para ajudá-lo na contextualização da música para o universo africano. ‘Os corais de Lebo M’, como seu trabalho é às vezes referenciado. Isso foi mais do que essencial para o filme. O título original seria The King of the Jungle (‘O Rei da Selva’), até que descobriram que leões não vivem na selva! Foi através da cultura de Lebo M, com seus corais zulu, falando em zulu, que foi achada a atmosfera que o filme precisava.

Então, com letra de Tim Rice, melodia de Elton John, os corais de Lebo M, e a orquestração final de Hans Zimmer, Circle of Life foi terminada. O grupo de compositores apresentou o trabalho para os produtores e… Para vocês terem uma idéia, a produção do filme mandou refazer o filme inteiro, para que ficasse à altura da música tema de abertura do longa. Ou seja, não fosse por Circle of Life, O Rei Leão provavelmente não seria o que é. Aliás, não fosse a feliz coincidência de se haver o encontro de Tim Rice, Elton John e Hans Zimmer, não quero pensar no que resultaria uma animação sobre leões e hienas.

Creio não estar superestimando a música. Em todo caso, se a história não fosse interessante, e recheada de personagens e falas memoráveis, a música realmente só seria um atrativo à parte. Mérito para os roteiristas Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton (além de uma cambada de contribuidores), que criaram criaturas tão fantásticas quanto Mufasa, Timão, Pumba, Rafiki… E Scar. Não quero menosprezar o talento de Jeremy Irons, dublador original de Scar, mas o trabalho que o brasileiro Jorge Ramos fez é imbatível. Todos outros dubladores cumprem seu papel de modo exemplar, mas a voz de Scar é de longe a mais marcante. Um dos melhores vilões da História do cinema, com certeza, Scar é fantástico em sua maldade. E sarcástico pra caramba! Devo dizer que enxergo um pouco de Scar em House (vocês sabem que é House, não?). Em certas frases como “Desculpe não pular de alegria, mas minhas costas doem”, ou “Estou cercado de idiotas”…

Quem não viu O Rei Leão, não sabe o que está perdendo. E quem o viu e não re-viu, também não sabe a alegria que é relembrar esse clássico belíssimo.

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Death Note – ****

21/11/2009

Já fazia um tempo que me disseram para ler um determinado mangá, também anime, e eu relutei bastante. Não que eu não goste de mangá e animes. Muito antes pelo contrário, eu adoro. Não sou mais o fanático de anos atrás, porém ainda gosto.

E esse mangá que queriam que eu lesse, eu até li o primeiro capitulo. Acho que era só implicância minha, ao ter dito que achei a trama forçada demais. Na realidade eu tinha gostado.

Então, passou um tempo, e descubro que existe um filme live-action sobre o mangá! Um longa metragem japonês com atores de verdade. Fiquei mais interessado. Encontrei na internet faz uns seis meses, mas só agora eu baixei, e vi.

Não demora muito a ficar claro que se trata de um filme feito diretamente para a TV japonesa. Isso não é um problema, porém, em função do orçamento limitado, os efeitos visuais são fraquíssimos.

No entanto, isso também não é um problema, pois Death Note (Desu Nôto, 2006) faz uso de uma trama tão intrigante e inteligente, cheia de reviravoltas, que os efeitos digitalmente mal realizados não atrapalham de modo algum.

Infelizmente não foi lançado comercialmente no Brasil, nem na TV, nem em DVD. É preciso fazer o download “ilegal” na internet. Ilegal entre aspas porque embora seja de fato ilegal, nada que é ilegal no Brasil recebe a punição devida. Além do que se uma distribuidora não leva um filme até alguns países por pensar que lá não renderá lucro, eu não vejo nenhum problema em o espectador correr atrás da mercadoria “ilegalmente” na internet.

Enfim, o roteiro bem feito só tem o problema de não nos deixar falar sobre o filme sem revelar detalhes essenciais sobre a história. Então eu prefiro não comentar. Vai a indicação.

http://www.forum.clickgratis.com.br/farra/t-15741.html

Para os já iniciados, vale comentar certos aspectos do longa. A estrutura narrativa do filme não é a mesma da série. A ordem de alguns acontecimentos é alterada, outros são excluídos, e o final é bem diferente (consideravelmente bastante). No mais, o ator que interpreta L é muito bom.

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Código de Conduta – **

19/11/2009

Dando continuidade à minha terça-feira, saí de 2012 às 18h, e podia escolher entre Os Fantasmas de Scrooge (A Christmas Carol, 2009) às 18h20, ou Código de Conduta (Law Abiding Citizen, 2009) às 19h. Eu poderia ter visto a animação em 3D, e na seqüência engatar o This Is It (Michael Jackson’s This Is It, 2009), vendo assim 3 filmes no dia, e batendo meu recorde, mas eu não estava com a mínima vontade de ver um documentário sobre os ensaios do último show do Michael Jackson feito só com imagens de arquivo, então preferi ver aquele que prometia ser um interessante thriller.

O que rima com interessante, mas significa quase exatamente o oposto? Hein? Decepcionante? Isso mesmo. Código de Conduta é decepcionante.

Começando sem frescura, a primeira cena já mostra a mulher e a filha do protagonista, Clyde Shelton (Gerard Butler), sendo mortas. Isso não é spoiler, garanto. Tem vezes que a morte de determinado personagem ocorre apenas na metade do filme, e isso já vai para as sinopses, como se fosse a premissa da produção. Isso é uma atitude preguiçosa, egoísta e nada profissional por parte dos responsáveis por escrever as sinopses. Muitas vezes os trailers fazem a mesma coisa, acabam contando quase o filme todo; e mais além, cumprem bem demais sua função principal: divulgar o filme. Os trailers cada vez mais passam uma impressão errada sobre o que o filme é na verdade. O trailer de Código de Conduta passou na sessão em que vi Se Beber, Não Case, e eu evidentemente fechei os olhos, e fiz o máximo para não escutar os diálogos. Meu irmão e um amigo nosso, que estavam comigo, viram o trailer e comentaram: “Porque tu não viu esse trailer?! Foi o máximo! O filme deve ser muito bom.”. Eu já não gostei do filme sem ter visto o trailer, imaginem o que eu poderia ter achado caso tivesse visto.

Bom, a partir daí e até um pouco depois da metade do longa, ele está ótimo. A trama está intrigante, e é levantada a reflexão sobre o sistema jurídico norte americano o que é fio condutor da história. Clyde quer provar que o sistema não só é falho, como é corrupto e podre. E ele faz isso muito bem. Prefiro não comentar quando tem muita gente, mas falando isso na internet não há jeito de evitar, então direi de uma vez que sou a favor da pena de morte. Pronto, falei. Para mim, há um limite de bom senso para manter certos ‘elementos’ vivos, mesmo que enclausurados no fim do mundo. Acredito que depois que uma pessoa chega a certo ponto, não há volta. Uma vez que uma pessoa mata uma pessoa apenas por matar (sem nenhuma desculpa aceitável), ela objetivamente desconsidera o ‘contrato’ ético que existe entre os seres humanos, e com isso, a mesma ética aplicada a todos que seguem esse contrato não cabe ser aplicada também a ela. Estão me acompanhando? Assim, hipoteticamente, existe o João , o Paulo, o José e Pedro. O João e o Paulo fizeram um acordo, e o José e o Pedro são testemunhas de que eles fizeram esse acordo. Entre outras cláusulas, o acordo diz que nenhum deles pode roubar, violentar ou matar o outro, e assegura que se qualquer um dos dois fizer alguma coisa que vá contra o acordo, o acordo não é mais válido para quem o violou. Tudo bem? Então o João mata o Paulo. Isso é contra o acordo, certo? Eis que o José presenciou o assassinato. Ele e o Pedro sabem do acordo, e eles mesmos tinham o mesmo acordo três vezes, um com o João, um com o Paulo, e um eles próprios. Logo, José mata o João, e Pedro assisti, e não faz nada. José violou o acordo? Não. Por quê? Porque no acordo diz que se qualquer um violar o acordo, então o acordo já não vale mais para o violador. Entendem? Quando uma pessoa mata outra, ela simplesmente deixou de reconhecer aquela pessoa como igual no mesmo âmbito ético e moral. Logo, não há motivos para o morto considerar como igual a pessoa que o matou. Não parece justo? Se eu te dou um soco na cara, sem aviso, e sem justificativa, você não vai querer dar um soco de volta? Claro que vai! E digo mais, você tem esse direito. Então, a meu ver, visto que a vítima do assassinato está morta e com isso não pode se manifestar, acho justo que seu assassino também perca o direito de se manifestar no mesmo nível, sendo assim, sua execução não me soa absurda, e muito menos antiética.

Dito isso, posso dizer que concordo com as ações do personagem de Gerard Butler. Até certo ponto, devo ressaltar, pois a partir mais ou menos da metade do filme, ele se torna exagerado. Mas isso talvez não fosse um grande problema, caso não houvesse outros lhe fazendo companhia. O primeiro deles é de se desconsiderar, mas citarei assim mesmo, porque não sai da minha cabeça: nunca que uma criança de 10 anos saberia usar o fogão a gás de casa para, com uma frigideira, fazer torradas para o pai e a mãe antes de eles irem para o trabalho (não sei o que a nossa tradutora Marina Fragano Baird fumou para traduzir ‘toast’ como ‘rabanada’; vá a qualquer dicionário inglês-português e lá estará dito que toast, como substantivo, significa torrada ou brinde). Segundo problema se resume ao passado de Clyde. De alguma forma, “mexendo os pauzinhos”, a polícia encontra um nome relacionado a Clyde e, através dele, descobrem que Clyde é “um estrategista nato” e que “se ele quiser você morto, você estará morto”. Colocando dessa forma, se explica como o sujeito conseguiu arquitetar tão bem o seu plano de botar abaixo o ‘sistema’. Porém, nos faz pensar como é que ele foi tão facilmente dominado pelos ladrões que entraram na sua casa e mataram sua família. Se ele era tão inteligente, como não previu, ou achou uma solução? OK, eles estava com a família, afastado do ofício, desacostumado. Esse argumento é cabível, claro. Mas o filme não o apresenta para nós. Terceiro problema, o mesmo cara que conta sobre o passado de Clyde, comenta que tudo que ele faz tem um propósito, cada movimento foi pensado já pensando no próximo. Um jogador de xadrez, tudo bem. Clyde faz uma série de acordos legais com o promotor para conseguir certos benefícios, cada um servindo a um objetivo. Fica claro para nós porque Clyde pediu um bife. Fica claro porque ele foi para a solitária. Fica claro porque ele comprou diversos imóveis espalhados pelo país (galpões abandonados). No entanto, não fica claro porque ele pediu um colchão com sistema de encosto. É evidente que isso serviu para algumas piadas, alívios cômicos essenciais ao filme, mas nada mais. Quarto e Quinto problema: a tamanha incompetência da promotoria ao identificar os imóveis de Clyde. Esse é um problema duplo, já que tal tarefa é a polícia que se encarrega (os americanos têm uma mania incontrolável de misturar Lei e Ordem no mesmo saco). Fiquei pensando quando é que eles começariam a checar os ‘dados’ que resolveriam o problema (não revelarei o quê, para não estragar a ‘grande surpresa’). Sexto e um meio problemas se revelam depois que Clyde começa a exagerar na ‘mensagem’. Meio problema porque os meios (com o perdão do trocadilho não intencional) que Clyde usa para chegar ao seu fim são certamente cruéis, e eu chego a duvidar se realmente valem a pena nesse último ato do filme. Em contrapartida, o fim que ele pretende atingir é admirável em sua essência, então talvez o velho “os fins justificam os meios” seja válido nesse caso. E o sexto problema se concentra na atuação de Jamie Foxx, no papel do promotor Nike Rice que aparentemente era para ser o protagonista da história. O que acontece aqui é que a performance de Gerard Butler como Clyde é tão expansiva, forte e consistente, que acabamos nos identificando muito mais com ele do que com o promotor de Foxx. E não apenas Butler está excelente, como Foxx está sem a menor graça. Monocromático, e esquemático, ele não mostra emoção alguma (fora o bigodinho ridículo). E isso é triste de constatar vindo de um ator que eu vinha admirando tanto – e vale lembrar que ele ganhou o Oscar de Melhor Ator por Ray (Ray, 2004). Desse modo, não há como se identificar com o protagonista da história, e isso desestabiliza completamente o filme.

Claro que esse contraste de atuações poderia beneficiar o filme caso o personagem de Butler Clyde fosse o centro da história, e a mensagem do filme se concentrasse nele. Todavia, o modo com que o roteirista Kurt Wimmer encontrou para fechar a trama é tão implausível em termos práticos, quanto é incoerente na questão lógica da premissa do longa, além de deixar claro que o centro da história é realmente o personagem de Foxx. Embora a ‘descoberta’ de tal lugar no final do filme seja uma boa surpresa, apesar da inacreditável demora em descobri-lo, o que encontramos dentro dele soa ao mesmo tempo incrível e incrível: de fato é interessante, e de fato é forçado demais para acreditar que esteja realmente acontecendo. No entanto, o que realmente frustra o espectador é a praticamente última cena. Tentando ao máximo não contar um spoiler (se bem que o filme não merece tanto cuidado), vou botar no ar umas perguntas que o filme não responde: como Nike chega antes de Clyde em tal lugar, sendo que Clyde já estava ali do lado enquanto que Nike estava longe demais? Como conseqüência disso, como é que Clyde foi tão facilmente enganado por Nike? Como ele não percebeu? E como uma maleta recheada com napalm pode ter sido tão facilmente transportada de um lugar a outro, muito rápido, sem explodir? E por acaso soa prudente explodir uma ala inteira de uma penitenciária apenas para tentar dar ao filme um final mais ‘explosivo’ (sem desculpas pelo trocadilho intencional)?

(Também culpa da distribuidora no Brasil, ‘Código de Conduta’ não tem quase absolutamente nada a ver com filme, e o título original Law Abiding Citizen – ‘cidadão cumpridor da lei’ – também se revela parcialmente falho.)

Tentei expor os grandes e variados problemas do longa, sem esquecer seus escassos pontos positivos, dos quais a atuação de Gerard Butler certamente é o grande destaque. É uma pena que uma premissa tão corajosa quanto à apresentada em Código de Conduta seja desperdiçada tão veemente por um roteiro capenga cujo final é mais destrutivo ao próprio filme do que 2012 é com o planeta inteiro.

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2012 – ***

18/11/2009

Segunda-feira eu tive a prova de Mídia Sonora, e não acredito ter ido muito bem. E terça-feira, tendo a tarde toda livre, me organizei para ir ao cinema, e ver nada menos que quatro filmes! Meu cronograma estava assim:

15h – Besouro

16h45 – Código de Conduta

18h20 – 2012

20h30 – Os Fantasmas de Scrooge

No BarraShopping. Chego lá às 14h50, e descubro que Besouro não está passando porque a sala onde estava sendo exibido está em manutenção. Eu poderia esperar até 16h45 e continuar de acordo com o plano, mas eu não iria ficar 2h parado no Barra sem fazer nada, certo? Então vi 2012 às 15h20, e isso fudeu de vez com o meu cronograma.

2012 é certamente o filme-catástrofe definitivo, nas palavras do próprio diretor, Roland Emmerich: “Não sei mais o que destruir”.

Por incrível que pareça, tem mais roteiro do que aparenta, embora esse não seja realmente o forte do filme. A história é dividida entre dois personagens ‘principais’: Jackson Curtis (John Cusack), um romancista fracassado, divorciado; e Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor), o cientista que alerta o governo dos Estados Unidos sobre a destruição do planeta. Cada um desses lados do que acontece na tela representa uma parcela diferente da sociedade humana, e o contraste mostrado é um dos méritos do roteiro, escrito por Emmerich ao lado de Harald Kloser (que também assina a eficiente trilha sonora).

Porém, se eles acertam aí, erram em outros pontos (ou no mínimo forçam muito a barra). Por exemplo, é conveniente demais que o novo marido da ex-esposa de Curtis seja um piloto de avião (em treinamento), já que em quase metade do filme eles precisam decolar com um avião para fugir da destruição do planeta – e ainda mais incrível é o fato de as pistas de decolagem e pouso dos aeroportos serem sempre a última coisa a ser destruída. Nesse nível também exagerado, Curtis se mostra um excelente motorista. Sim, seu atual emprego é o de chofer, mas a habilidade que ele apresenta no controle da direção dos carros é digna de um campeão mundial de Fórmula 1. E seu patrão, Yuri Karpow (Zlatko Buric) se mostra a verdadeira caricatura russa. Tratá-lo superficialmente como o oligarca russo no imaginário de todo mundo ocidental não seria um problema muito grande, afinal 2012 não é um filme sobre personagens, e sim sobre acontecimentos. Vários personagens do filme são bastante superficiais, mas ao menos mantém sua superficialidade de modo homogêneo. No entanto, no caso de Karpow nem isso não acontece. Se ele continuasse sendo tratado da mesma maneira durante o filme todo, estaria tudo bem. Porém, chegando ao fim, ele comete um ato que vai completamente contra a integridade que seu personagem mostrava até então – claro que dá para pensar ‘Um oligarca russo, sempre um oligarca russo’, mas eu achei forçado demais.

Ainda em cima do roteiro, o que ele quer dizer a respeito de religião me deixa intrigado, pois não entrega resposta. Quero acreditar que o filme critique a moralidade falsa que a religião impõe em cima das pessoas. Há alguns indícios disso. A famosa pintura de Michelangelo no teto da Capela Sistina ser completamente destruída, com o detalhe de a destruição começar por uma enorme rachadura separando as mãos de Deus e do Homem é algo que sugere que aquele ‘deus’ nada está fazendo para evitar o fim do mundo. Ver a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, ser completamente despedaçada também implica nesse pensamento. Porém, ver o primeiro-ministro italiano recusar a oportunidade de salvar sua vida apenas para morrer ao lado do Papa é uma cena dramaticamente realizada para ficarmos com pena daqueles milhares de pessoas que estão rezando na Praça de São Pedro – e pena certamente não o sentimento que me vem à cabeça. Se por acaso a idéia fosse que ficássemos com pena delas porque elas iriam morrer porque eram tolas e decidiram ficar ali inertes ao que estava acontecendo, rezando, se era para que ficássemos com pena delas por sua ignorância, eu entenderia. Mas o que ocorre é que somos levados (tentados) a ter pena porque elas vão morrer e pronto, como se o fato de elas estarem paradas rezando não fosse um dos motivos para uma morte certa. O que quero dizer é que elas não morreriam, caso fizessem algo além de ficarem paradas rezando.

Isso remete a outro ponto do roteiro. Um ponto positivo: a crítica que Emmerich faz aos governos à alta burguesia (e não se enganem, eu odeio usar o termo burguesia). Não revelando nada demais, apenas digo que a descoberta da destruição do mundo é feita em 2009. Porém, isso só vai ao público na hora em que o mundo já está sendo destruído. Que legal, não? Os caras tiveram 3 anos para avisar a todos, e só fazem isso depois que todos já estão sabendo. Sendo que o ‘plano de salvamento da Humanidade’ ainda não é revelado – sim, existe um plano. Esse plano foi desenvolvido durante os 3 anos que precederam o desastre, e só chegou ao conhecimento dos mais ricos e abastados, que tivessem o poder de influência e o dinheiro para pagar pelas ‘passagens’. Eu realmente quero ver o filme de novo para tirar a limpo certos detalhes sobre isso, e ter certeza do que o filme diz.

E não, eu não sei o que aconteceu com Danny Glover depois que ele ficou velho, mas a verdade é que ele está insuportável. Já em Jogos Mortais (2004) ele estava chato como o detetive David Tapp. Em Atirador (Shooter, 2007), sua presença era de manter distância (propositalmente). No soberbo Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), Fernando Meirelles o colocou em um trilho um pouco melhor. E agora em 2012, seu Presidente Thomas Wilson é, na melhor das hipóteses, nojento. Assim como em Atirador talvez isso seja intencional, porém ficamos com tanta raiva dele que é possível se perguntar se é o roteiro, o diretor, ou o próprio Glover que não sabe o que está fazendo. Isso se deve, de novo, a o que o filme realmente esteja querendo falar sobre religião. Há uma cena específica que quase me deu náusea. Falo sério. É quando o ‘Presidente’, decidido a ser um ‘bom americano’, resolve contar ao mundo o que está acontecendo. Depois das demagogas frases iniciais, ele lança algo parecido com isso > “…sendo o presidente dos Estados Unidos da America, um país de muitas religiões, mesmo assim eu acredito que falo em nome todas as Fés, e com isso só tenho uma coisa a dizer: ‘O Senhor é meus pastor e nada me faltará”’. Se isso não é de uma presunção nojenta, recheada da falsa moral cristã, eu não sei o que é. Ou de fato é para sentirmos esse desgosto, ou o diretor quis nos dizer que o Cristianismo é uma coisa que bonitinha? Não fica muito claro. Além do que no final do filme várias pessoas continuam rezando, ou dizendo ‘Graças a Deus’.

Mais no âmbito cultural, acho curioso o fato de que a cultura maia nunca é explorada no filme. Aliás, excetuando duas pequenas cenas, os maias mal são citados durante o tempo todo. É curioso porque não existiria o filme 2012 sem a profecia maia dizendo que o mundo acabará em 2012. Creio ter sido uma sábia escolha por parte dos roteiristas. Pois caso fossem falar dos maias, toda a abordagem em torno do desenrolar do enredo seria modificada, e perigava eles abandonarem o assunto no meio do filme, deixando mais um furo no roteiro.

Finalmente, há aquilo que salvaria 2012 até do pior roteiro da História: os efeitos visuais. Ao contrário da maioria do filmes de ação, a ação (e conseqüente destruição) presente nos filmes de Roland Emmerich, mestre no assunto, sempre é apresentada na íntegra. Longos planos aéreos que mostram tudo, digo, tudo que está acontecendo. E esse ‘tudo’ é perfeitamente construído (e destruído) pela magnífica equipe de efeitos visuais, que na próxima temporada de premiações certamente merece todos os prêmios do mundo na categoria. Se 2012 não ganhar o Oscar 2010 de Melhores Efeitos Visuais, é o fim do Oscar. As cenas são absolutamente espetaculares! Embora elas só comessem depois de 1h de projeção, vale a pena esperar. Talvez o filme seja um pouco mais longo do que deveria ser, mas Emmerich é bastante competente em prender nossa atenção na tela durante a maior parta das 2h40 de filme. Embora eu tenha visto pessoas abandonando a sala antes do final, ‘aborrecido’ ou ‘entediante’ são as únicas palavras que eu jamais usaria para descrever 2012. É diversão garantida para quem sabe o que está indo assistir: destruição.

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Sexta-Feira 13!

17/11/2009

Atrasado, eu sei, vou falar da Sexta-Feira 13 (+sábado).

O filme do dia acabou sendo O Iluminado (The Shining, 1980), que dessa vez resolveu cooperar e rodou inteiro no DVD.

Mais uma das Sessões Gika, o único terror de Kubrick coube na tradição de sexta-feira 13, afinal, é um terror! Porém, não cheguei a ficar com medo. Isso não quer dizer que o filme é necessariamente ruim, claro (eu só esperava um pouco mais). Talvez em 1980 fosse assustador, mas hoje, com exceção de poucas cenas, O Iluminado não chegou a me impressionar nesse quesito. Por outro lado, o filme é repleto de um simbolismo curioso, tem Jack Nicholson e Shelley Duvall em atuações magistrais, uma fotografia linda, e uma das mais eficientes trilhas sonoras de todos os tempos (evito usar ‘de todos os tempos’, mas às vezes isso é verdade) – aliás, chegamos a comentar que se não fosse pela música, o filme não seria nada (e não seria mesmo!).

Cada um tira suas próprias conclusões do que exatamente se passa na história (alguém notou semelhança com 2001? Pois é…). O fato é que se trata de uma história em que seu protagonista sofre uma brutal mudança de personalidade. A partir dessa premissa, fazendo uso das informações que nos são (implicitamente) dadas ao longo do filme, podemos deduzir o que se passa. Mas não é muito complicado. Eu já acho imprudente fazer qualquer explicação muito diferenciada, pois a última imagem a aparecer aos olhos do espectador resume perfeitamente o que significam todos os grandes acontecimentos ‘inexplicáveis’ do longa.

No geral, dá para assistir O Iluminado tranquilamente. Porém não é o tempo todo assim. Afinal, além de ser um filme de Kubrick com roteiro de Kubrick, O Iluminado é um filme de Kubrick com roteiro de Kubrick baseado em livro de Stephen King! Não tinha com sair algo muito ‘light’. Certas cenas nos causam um ar (intencional) de incômoda estranheza:

Não, não é do sorriso maníaco de Jack Nicholson que estou falando. É o restaurante lotado, e principalmente o Bartender que nos deixam meio mal (vocês entenderão o que estou falando quando virem o filme – tentem perceber nessa foto mesmo o modo com que o ator Joe Turkel compõe a expressão nos seus lábios: é um momento muito Stephen King).

E devo ressaltar uma cena específica que me deixou vidrado na TV. O momento em que o personagem de Nicholson, Jack Torrance, conversa com aquele foi o antigo zelador do Hotel Overlook (onde se passa a história), Delbert Grady. A conversa entre os dois é de uma tensão hipnotizante. É incrível a presença de ‘palco’ com que Philip Stone consegue expressar seu personagem. Ele rouba a cena, e estamos falando de uma performance ao lado de ninguém menos que Jack Nicholson! Só por isso, vale a conferida:

Voltando a questão do simbolismo, um rápido comentário sobre as cores. Todas as cenas, todas, são minuciosamente compostas no intuito de nos causar certos efeitos inconscientes. O uso das cores é muito bem elaborado.

Update: Preciso avisar do crasso erro de continuidade logo na cena mais famosa do filme. Quando Jack Nicholson quebra a porta do banheiro com o machado, e grita: “Heeeeeere’e Johnny”. Notem o buraco na porta. Em uma tomada é o lado esquerdo que está com o rombo; troca-se a cena para outro personagem; e quando voltamos a ver o banheiro, a porta está com dois buracos! (méritos de percepção para a Gika)

No entanto, se aqui Kubrick decepcionou Stephen King ao adaptar seu livro de forma muito arbitrária, o que fez com que em 1997 ele mesmo adaptasse sua obra para uma série de TV, o outro filme que vi nesse filme de semana parece ter sido bastante fiel aos fatos que o originaram.

Anos atrás, quando tínhamos um ponto pirata da NET, com todos os canais que existiam até então, eu vi um filme de suspense da metade para o final. Um suspense sobrenatural. Achei simplesmente o máximo! Só que nunca cheguei a ver o filme inteiro. Finalmente, aproveitando essa data comemorativa do terror, fui até a locadora e peguei o filme.

Continuo achando o máximo! Sabe aqueles filmes que quando acabam tu pensa ‘Fazia tempo que eu não via um filme tão bom!’, ou ‘Ás vezes, aparecem uns filmes perfeitos’, ou simplesmente ‘Uau.’? São aqueles filmes que não necessariamente foram feitos para nós, mas que nós fomos feitos para eles, entendem?

Eu posso citar alguns que para mim também se encontram nesse nível: Amnésia (Memento, 2001), Apenas Uma Vez (Once, 2006), Batman Begins (Batman Begins, 2005), O Gabinete do Dr. Caligari (Das Cabinet dês Dr. Caligari, 1920), Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003), Spirit: O Corcel Indomável (Spirit: The Stallion of the Cimarron, 2002)… São aqueles filmes que você pode ver diversas vezes, e ainda não se cansar de assisti-los.

Envolto no sobrenatural, A Última Profecia (The Mothman Prophecies, 2002) é um suspense admirável que agora também entra nessa lista. E não é por acaso. O filme tem seus méritos.

Em determinado momento, precedendo aquela que para mim é a melhor cena do filme, Jack Klein (Richard Gere) está com um livro aberto, onde podemos ver escrito:

Premonição: capacidade de prever o futuro.

Então escutamos sua conversa por telefone com seu amigo Ed Fleischman (David Eigenberg), que lhe diz:

- Não é do seu feitio. É o tipo de notícia que ridicularizávamos.

- Eu sei. Mas é diferente quando acontece com a gente.

Perfeito. A resposta de John não poderia ter sido melhor. Esse é o diálogo mais eficaz para resumir uma das idéias principais do filme.

A história é a seguinte: depois de um incidente com sua mulher (Debra Messing, a Grace de Will & Grace provando que sabe atuar drama), o jornalista John Klein fica desiludido com seu emprego. Durante uma viagem a trabalho, acaba testemunhando coisas incompreensíveis ocorrendo em uma cidadezinha do interior e, intrigado, passa a investigar. Aos poucos ele descobre que isso pode ter alguma relação com o que aconteceu à sua mulher, dois anos atrás.

Foi o melhor que eu consegui sem expor nenhum spoiler. Eu não arriscaria ver o trailer se fosse você.

Enfim, porque A Última Profecia é tão bom? Primeiro vocês devem desconsiderar que o filme é bom apenas porque eu disse que achei ele bom. Nesse caso aqui ainda mais, pois o fato de eu ter visto parte dele quando era menor pode ter influenciado a minha interpretação – eu vi o filme sabendo que iria gostar, então sou meio suspeito para falar.

Deixando isso claro, posso tentar esclarecer porque A Última Profecia é bom. Para isso, preciso dizer que ‘A Última Profecia’ é um tolo título comercial para um filme que deveria se chamar ‘As Profecias do Homem-Mariposa’. Fica meio torto, soa mal, não? Mas então que botassem ‘Profecias’, ou ‘Mothman’, ou ‘Profecias de Mothman’, ou ‘O Mistério de Point Pleasant’ (esse é o nome da cidadezinha do interior onde ocorrem os acontecimentos estranhos)… Há várias opções. ‘A Última Profecia’ é um ótimo título, é chamativo, mas não serve para um filme em que haja mais de uma só profecia. Mas tudo bem, não é tão ruim assim.

Na trama, John Klein acaba descobrindo um estudioso no assunto das ações sobrenaturais que acontecem em Point Pleasant. A cena que mostra o encontro dos dois, em Chicago, é a melhor do filme. Não em questão de técnica, ou beleza plástica, mas simplesmente em função do diálogo. E nem é necessariamente um diálogo bem construído… Digo, é bem construído, mas o porquê do diálogo ser bom não é a sua construção sintática, e sim seu conteúdo pragmático. Não é o como, mas o quê eles falam que interessa. Porém, é claro que há uma parte em que o como é muito legal, quando John pergunta ao Sr. Leek (Alan Bates):

- Podemos presumir que esses seres são mais avançados do que nós. Por que não aparecem de uma vez e dizem o que tem em mente?

- Você é mais avançado do que as baratas. Já tentou se explicar para elas?

Esse diálogo também resume a proposta de filme de maneira brilhante.

Eu vejo a lógica de A Última Profecia de dois modos. Fazendo um paralelo com um filme recente, Presságio (Knowing, 2009), pode-se pressupor que tudo que acontece no filme seja uma finalidade imutável do ‘destino’. Ou podemos interpretar (quase) justamente o contrário, e considerar os fatos como uma variação um tanto bizarra da seleção natural. Sim, exatamente aquilo que Darwin descobriu. Quem entende a seleção natural no seu âmbito mais filosófico, sabe que ela não se trata somente da ‘lei do mais forte’, e tendo isso em mente, pode-se muito bem fazer uma interpretação aceitável de A Última Profecia.

E tem ainda uma terceira opção. Quem sabe seja somente um suspense muito bem escrito (Richard Hatem, baseado em livro de John A. Keel), fortemente beneficiado pela trilha sonora (Tomandandy) e pela fotografia (Fred Murphy), além do elenco principal: Richard Gere, Laura Linney, Will Patton, Alan Bates; e sempre mergulhado em forte clima conspiratório graças à direção segura de Mark Pellington.

Não importando por qual caminho seu inconsciente trilhará na recepção e interpretação do filme, se você gosta de suspense, ou de mistério, ou de fantasmas, ou de psicologia, ou até evolução, de alguma forma você gostará A Última Profecia.

E então fica esclarecido o porquê do post anterior, ‘Moth’. As mariposas, moths, têm um papel fundamental na trama de A Última Profecia.

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