
Deixa Ela Entrar – ****
24/10/2009Na sequência de Se Beber, Não Case, fui conferir um filme que eu já queria ver faz muito tempo. Com o detalhe de este estar passando somente no Unibanco Arteplex, do Bourbon Country, no outro lado da cidade. Mas, uma vez que fui até o aeroporto somente para ver um filme (Anticristo), ir até a zona norte não seria um problema (ainda mais quando se tem carona da mãe). O horário da única sessão era 21h40. Nesses casos há uma chance de 98% do filme não estar mais em cartaz do dia seguinte Eu não poderia perder.

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, 2008) é um filme sueco que ganhou muita fama entre a crítica internacional por dois motivos: 1) possui uma dupla de atores-mirins excelente; 2) é um filme sobre vampiros como nunca antes se havia visto.
Kåre Hedebrant e Lina Leandersson interpretam Oskar e Eli, respectivamente. Ele, o jovem garoto que sofre crueldades por parte de seus colegas de escola, e ela, a jovem vampira que se torna sua melhor amiga. Oskar sempre foi omisso, e nunca revidou contra as agressões que sofria na escola, mas isso muda quando conhece Eli, que o encoraja a se defender. As conversas entre os dois rendem os melhor momentos do filme, e algumas vezes nos emocionamos com os diálogos que ouvimos.
- Oskar, você tem que revidar.
- Está bem.
- Nunca deixe de revidar.
- E se elem baterem forte?
- Você bate mais forte.
- E se eles baterem muito forte?
- Você bate mais forte ainda.
- Mas e se eles forem muitos?
- Então eu te ajudo.
Particularmente, eu me emocionei essa troca de diálogos. Não é bem assim, mas só para terem uma idéia.
Um fator discreto, porém de grande importância, se reside em não deixar a imagem ‘limpa’. O sangue do filme não é estilizado. É um sangue real, cru. Quando Eli se ‘alimenta’, sua boca fica de um vermelho escuro. Essa decisão de mostrar ‘as coisas como são’ nos ajuda, e muito, a compreender o drama de Eli. Em Deixa Ela Entrar ser um vampiro não é divertido. Embora várias histórias sobre vampiros já tenham tentado dar uma cara mais trágica ao viver desses seres fantasiosos (vide a série de TV Angel, os livros de Anne Rice…), a única vez em que de fato senti pena de alguém por ser um vampiro foi em Deixa Ela Entrar.
- Quantos anos você tem?
- 12. Mais ou menos. E você?
- 12. Mas como assim, ‘mais ou menos’?
- Eu tenho 12 anos. Mas faz muito tempo que eu tenho 12 anos.
Para mim, Eli é sem dúvida uma das personagens mais trágicas que apareceram no cinema nos últimos tempos.
Vale ressaltar que logo nos primeiros minutos já me senti imerso na atmosfera do longa graças à música. Sem usar temas melodramáticos, Johan Söderqvist (Johan, porque sempre Johan?), cria uma trilha sonora que consiste em melodias tristes, ao mesmo tempo que evocativas, conseguindo assim arrancar algumas lágrimas de alguns espectadores. Söderqvist acertadamente também evita impor no meio aqueles acordes altos repentinos com fim de dar sustos no espectador. (Uma técnica cada vez mais usada no cinema de terror; que constata a fraqueza dos realizadores do gênero em não conseguir assustar a platéia de outros modos).
Mantendo uma direção segura, além do roteiro originalíssimo, Tomas Alfredson, conduz a narrativa de modo exemplar, e se mostra uma grande promessa do cinema sueco. Não tenho certeza se foi sua intenção, mas preciso dizer que o destino de certos personagens na última cena do filme foi mais do que merecido. Todos sabem como crianças podem ser más e cruéis e todos outros adjetivos nessa linha. E adolescentes que se aproveitam disso apenas para terem uma desculpa para também serem maus e cruéis, não passam de crianças também (parece desconexo, mas vendo o filme, notarão isso). O que acontece com alguns adultos ao longo do filme, é discutível. Agora o que acontece com essas crianças no último ato do filme, é merecido (eu achei lindo). (Aliás, o filme parece mostrar uma relação entre a capacidade da criança em se adaptar a novas circunstâncias, e o contrário nos adultos – percebam isso em Eli e outro personagem). A cena final, não exatamente a final, porque tem coisa depois, mas a cena final (entendem?), essa cena promete ser um marco do cinema de 2008 (sim o filme chegou aqui um ano depois, foi até rápido). Tão cheia de significados que não comentarei sobre ela. Apenas digo que vocês ficarão surpresos com a própria reação, e rirão de si mesmos.
E apesar do sangue, do drama, da tristeza, Deixa Ela Entrar não deixa de ser um filme fofo.